Artigos

Iniciamos um novo ano com esperanças e também com muitos medos. O Réveillon como momento de renascer para um novo tempo não esperou sequer

Iniciamos um novo ano com esperanças e também com muitos medos. O Réveillon como momento de renascer para um novo tempo não esperou sequer o apagar dos fogos. Voltamos ao ponto em que nos separamos, nos odiamos, nos destruímos. Não apenas os palácios foram depredados, mas também nosso espírito cívico, nosso desejo de paz. Não aguentamos mais! Chega! Não queremos um mundo dividido! Não queremos uma Igreja polarizada! Forças ocultas movem nossas vontades. Forças do mal! Da guerra.

A CNBB imediatamente ainda no mesmo dia dos ataques em Brasília manifestou-se contra esses atos “criminosos ao Estado Democrático de Direito” exigindo que esses ataques sejam “imediatamente contidos e seus organizadores e participantes responsabilizados com os rigores da lei”, pois “os cidadãos e a democracia precisam ser protegidos”. Como podemos avançar no caminho da paz tão desejada?

As mudanças que foram acontecendo na realidade brasileira, especialmente no contexto cultural, estão levando muitos fiéis a abandonarem as comunidades eclesiais tornando-se “desigrejados” que o Censo do IBGE classifica como “sem religião”. As divisões políticas invadiram as Igrejas cristãs e algumas emprestaram fielmente seu apoio a projetos políticos.

Os interesses políticos tornarem-se poderosos e descobriram que a religião seria o terreno mais valioso a ser conquistado. E partiram para um processo de colonização das Igrejas, dos lugares sagrados, dos atos religiosos. De joelhos esses poderosos postam-se como os soldados fascistas dos tempos de Mussolini na Itália, são capazes de rezarem da mesma forma que cantam o hino nacional. Assim estamos vendo uma Igreja cada vez mais colonizada, tornando-se cansada e desencantada.

É possível ver esse quadro desolador em várias partes do mundo e não apenas aqui no Brasil. Facilmente é perceptível a polarização partidária e ideológica que divide as comunidades e separa famílias. A transformação da política em religião é responsável pela confusão religiosa disseminada nas comunidades. A “verdade” transforma-se assim em objeto de disputa e veste-se de mentira, de fake News. A política foi assumindo nesse processo colonizador, de maneira sutil e perversa, o controle da religião, o controle das Igrejas.

A Igreja católica tem insistido na pregação da Doutrina Social tentando levar as pessoas, os fiéis batizados, a se conduzirem pela “melhor política”. Mas a força do mal que campeia pelas avenidas e praças parece mais forte. Até mesmo a Campanha da Fraternidade foi colonizada pelos interesses políticos ideológicos que tendem a dominar tudo. Como foi difícil vivenciar a Campanha da Fraternidade de maneira ecumênica!

Nesse quadro sombrio uma voz clama no deserto. E clama também nos mares de altas ondas, de tempestades. Essa voz ecoa a partir do primeiro dia do ano conhecido como “dia mundial da paz”. É tudo que desejamos, queremos e precisamos. Não basta desejar a paz para quem está do nosso lado. A voz forte é emitida por um homem que já não suporta o peso do corpo e caminha em cadeira de rodas. E nesse lugar sua voz parece ainda mais forte. Viva Francisco!

Ele nos pergunta ao falar da paz sobre o que aprendemos com a situação de pandemia. Não aprendemos nada? Até a Covid-19 parece ter sido colonizada pelos poderes da negação da vida. Francisco nos responde: “A maior lição que a Covid-19 nos deixa em herança é a consciência de que todos precisamos uns dos outros, que o nosso tesouro, ainda que o mais frágil, é a fraternidade humana, fundada na filiação divina comum e que ninguém pode salvar-se sozinho”. No auge da dor por tantas mortes, com templos religiosos fechados, como foi duro sentir a ausência do outro!

O isolamento foi necessário e crucial, mas jamais deveria ser a expressão da ausência da fraternidade. A ausência da convivência fraterna se opõe à vida comunitária. Qualquer divisão que rompe a unidade comunitária nos enfraquece e nos asfixia. Foi no exemplo – “vejam como eles se amam” – que os primeiros cristãos testemunharam sua fé e tornaram-se sementes de novos cristãos.

O Papa nos lembra da necessidade urgente de buscar e promover, todos juntos, os valores universais que marcam o caminho da fraternidade humana. Valores que foram fundamentais no tempo da pandemia como a humildade diante da incerteza, a redução de pretensões consumistas como gastos, viagens caríssimas, um renovado espírito de solidariedade entre as pessoas, o empenho de muitos adotando posturas quase heroicas de doação como os profissionais da saúde. Sentimos não apenas a falta do outro, mas como ele nos faz bem, como ele é essencial em nossas vidas.

O segredo está nessa postura de “estarmos juntos” e não em campos separados, em polos opostos, em trincheiras de guerra. Essa guerra colonizadora precisa acabar logo senão definharemos em nossa fé e em nossa construção de um mundo mais fraterno. Não foram destruídos apenas os bens da democracia brasileira em Brasília, mas os bens espirituais que cada pessoa cultiva. Alimentamos o ódio em cada vidro estilhaçado, em cada banco destruído, em cada agressão aos símbolos da convivência fraterna.

Cristãos que alimentam a mentira, o ódio, a guerra, contribuem para a construção de um mundo de morte. A aliança fatal entre fé e poder político não representa a vontade do Senhor quando rezava ao Pai pedindo que todos fossem um assim como Ele e o Pai eram um.

Diante do quadro atual onde as distorções e mentiras produzidas e compartilhadas pelas redes sociais, com o crescimento da desinformação, com a apologia forte ao culto às armas e à violência, fortalecido pelo fundamentalismo religioso que instrumentaliza até mesmo a Palavra de Deus em seu proveito, é preciso que as lideranças religiosas, ordenadas e instituídas, estejam a serviço da missão da Igreja e em comunhão com o Papa Francisco. Nenhum altar ou púlpito deveria servir como palanque político. Nenhuma bênção deveria ser concedida a elementos portadores do ódio e da morte.

Uma coisa é preciso ser registrada de maneira contundente: o mundo não está dividido entre direita e esquerda como se apregoa tanto nas redes sociais. O mundo em nossa volta é plural. A Igreja que nasce com os apóstolos constituiu-se como ambiente plural e diverso, tendo por opção fundamental os escravos, os pobres, os marginalizados, os doentes, os leprosos. O que nos pede hoje a Igreja conduzida por Francisco é que caminhemos juntos, de maneira sinodal. A sinodalidade nos tempos atuais é a força que precisamos para romper as altas ondas, para superar as guerras, o ódio, a intolerância, a morte. A democracia é o caminho político mais adequado dos tempos atuais para a “melhor política”. Todos juntos, sim, rumo à Paz!

Edebrande Cavalieri

Um final de ano muito marcante para o mundo católico e, de maneira especial, para os brasileiros tendo como fatos a morte do Papa

Um final de ano muito marcante para o mundo católico e, de maneira especial, para os brasileiros tendo como fatos a morte do Papa Emérito Bento XVI, a morte de Pelé e a posse do Presidente Luís Inácio Lula da Silva. Tantas e fortes emoções e uma questão: sobre o que escrever e como fazer? Meu desejo era falar dos três em um mesmo texto, mas desisti dessa empreitada. Vamos iniciar nossa reflexão sobre a morte do Papa Emérito. Depois virão os demais fatos. A escolha reflete bem o que se carrega no coração. Portanto, fora de qualquer juízo moral ou político está situada a minha escolha.

O título do artigo é retirado das palavras do Papa Francisco proferidas em abril do ano passado no encontro com os jesuítas de Malta. Foi assim que ele definiu o Papa Emérito: “um profeta desta Igreja do futuro”. Como somos um pouco viciados em olhar o mundo em duas cores (branco ou cinza) e assim julgar as pessoas e os acontecimentos como foi nos últimos anos, canonizamos ou demonizamos os dois maiores personagens vivos da Igreja Católica, Francisco e Bento XVI. Vamos então olhar com mais atenção esse perfil conferido pelo Papa Francisco a seu antecessor. Essa definição nos instiga muito. Em que o Papa Francisco se apoia para falar dessa forma a respeito do Papa Emérito?

Como teólogo especialista J. Ratzinger esteve presente na realização do Concílio Vaticano II que é considerado o grande evento eclesial dos tempos contemporâneos. Algumas pessoas, saudosas de um passado, de maneira desleal e equivocadamente, negam os avanços desse Concílio e pregam um retorno aos tempos passados, achando que com isso a Igreja irá sobreviver às altas ondas da modernidade. Algumas dessas pessoas tentaram prender o Papa emérito Bento XVI nos cercadinhos tradicionalistas, desconsiderando a presença permanente de Deus na história e em sua Igreja. Uma Igreja que não se renova nem é histórica e nem é assistida pelo Espírito Santo como Mistério da Salvação.

O Papa Francisco, eleito pelo colégio de cardeais para implementar as reformas do Concílio Vaticano II, aponta alguns traços fundamentais de Bento XVI que são essenciais para a Igreja do futuro, caracterizada como uma Igreja menor, capaz de perder privilégios, humilde e autêntica. Esse era o desejo do colégio de cardeais que elegeu Mário Jorge Bergoglio. Nas palavras de Francisco: “Como bispo, Bento disse para nos prepararmos para ser uma Igreja menor”, mais espiritual, mais pobre, menos política, “uma Igreja dos pequeninos”.

A renúncia do Papa Bento XVI é resultado de uma virtude muito superior, a humildade. Suas forças não o ajudavam na reforma dessa Igreja como dizia logo após o Concílio para transformá-la pequena, recomeçando mais ou menos do início. Sem medo apontava o caminho que se vislumbrava: “…à medida que o número de seus adeptos diminui, a Igreja perderá muitos de seus privilégios sociais”. Será uma espécie de “sociedade voluntária, na qual se entra apenas por livre escolha”, e não por um costume social.

A tarefa das reformas exigidas pelo Concílio Vaticano II é complexa e exigente. E a primeira coisa que o Papa Bento XVI fez foi mudar as formas das finanças do Vaticano. É bom lembrar sua expressão forte, não comum em seu cotidiano: “Chega!” Sim. Chega de escândalos, de suspeitas, de mau exemplo, de vergonha. E deu início ao processo de transparência das contas financeiras do Vaticano contratando uma agência externa para auditagem, a Moneyval, publicando os balancetes ou relatórios.

A Moneyval é um Comitê de Peritos sobre a Avaliação de Medidas de Combate à Lavagem de Dinheiro e ao Financiamento do Terrorismo que monitora 47 estados membros estando ligado diretamente ao Comitê de Ministros do Conselho da Europa. A Igreja colocava-se nesse momento no mesmo bloco dos demais países europeus, sem privilégios, propondo-se cumprir normas internacionais de combate à lavagem de dinheiro e financiamento do terrorismo, comprometendo-se a melhorar seus processos de transparência interna. E assim foram desmoronando as suspeitas e as práticas não condizentes com a pregação, mudando estruturas e pessoas. Volta e meia encontramos nos noticiários situações obscuras em alguns projetos eclesiais pelo mundo a fora. Isso não condiz com a diretriz tomada por Bento XVI em Roma.

Também iniciou o enfrentamento dos casos de pedofilia no meio do clero, de maneira corajosa e humilde, pedindo perdão por tantos desvios ocorridos. A forma corajosa de enfrentar esse pecado abriu o caminho para o Papa Francisco seguir ainda mais firme, destituindo inclusive pessoas ligadas a si mesmo. Trata-se da maior crise da Igreja desde os tempos da Reforma. E o Papa Francisco muito sofreu vendo um de seus mais próximos colaboradores, o cardeal George Pell, sendo condenado pelo Tribunal de Melbourne, em março de 2019.

Outro ponto que não pode ser esquecido e na Arquidiocese de Vitória está sendo bem desenvolvido se refere à formação para o ministério da caridade. De todas as pessoas, padres ou leigos, que trabalham com os empobrecidos Bento XVI exigia que se fizesse uma profunda formação profissional e espiritual. A Campanha “Paz e Pão” nos mostra como esse desafio é tão importante e essencial nesse ministério.

Nesse caminho da solidariedade não se pode deixar de lado a contribuição do Papa emérito no campo da economia que chega ao pontificado atual sob a forma de “Economia de Francisco e Clara”. A Carta Encíclica Caritas in Veritae também conhecida como “encíclica econômica”, publicada em junho de 2009, aprofunda o tema da economia a partir da Doutrina Social da Igreja. Um dos pontos mais marcantes em minha percepção é a posição segura afirmando que toda escolha econômica é também uma escolha moral. Quando uma sociedade vive num sistema de confusão moral, fatalmente fará escolhas econômicas não apenas confusas, mas também equivocadas. Qualquer sistema econômico, capitalismo ou comunista, sobreviverá se tiver como base um forte sistema de valores morais.

Esses pontos nos parecem suficientes para mostrar como o caminho trilhado pelo Papa Bento XVI, iniciando nos tempos do Concílio Vaticano II e sendo um de seus maiores expoentes da teologia ali presente, tem seus desdobramentos no pontificado do Papa Francisco. Em 1970, o teólogo Ratzinger nos alertava para uma Igreja do futuro, simples e interiorizada, num mundo que verá o desaparecimento de Deus e as pessoas irão sentir-se sós, e essa mesma Igreja experimentará sua total e terrível pobreza. Contudo, é nessa situação de peregrina em meio do povo que a Igreja será descoberta como algo completamente novo, “como uma esperança, como uma resposta pela qual secretamente as pessoas sempre suspiraram, como pátria que lhes dá vida e esperança para além da morte”. Nesse caminho a Igreja reencontrará a sua essência e com plena convicção naquilo que sempre esteve no seu centro: “a fé no Deus trino, em Jesus Cristo, o Filho de Deus feito homem, na presença do Espírito até o fim do mundo”.

Joseph Ratzinger, Bento XVI e Papa emérito formam uma totalidade de pessoa que viveu construindo pontes de diálogo com a economia, com as ciências, com a filosofia, com o mundo, de maneira profunda e radical. Se houve momentos cinzentos é porque não era de outro mundo e suas últimas palavras “Senhor, eu te amo!” refletem e sintetizam toda a sua vida. Assim encerra sua vida fiel a serviço da Igreja. Encerra seu amor pela Igreja. Trata-se do mesmo amor devotado pelos apóstolos e testemunhado até a morte. Enterra-se um corpo, mas as palavras proféticas continuarão a ecoar pela história.

Edebrande Cavalieri

O Natal desse ano nos traz um grande desafio para ser celebrado nos parâmetros da fé cristã. Chegamos ao final dele com muitas dificuldades

O Natal desse ano nos traz um grande desafio para ser celebrado nos parâmetros da fé cristã. Chegamos ao final dele com muitas dificuldades na convivência social e familiar, na manutenção do diálogo com as pessoas divergentes que compunham nosso próprio contexto. De repente nos vimos tão diferentes e distantes uns dos outros. Em algumas situações e momentos o convívio era sufocante. Sonhamos com maior aproximação através das redes sociais, mas elas acabaram servindo para a disseminação de fake News e rachas virtuais que nos fizeram sofrer muito. Que família não teve um estremecimento, mesmo pequeno?

As eleições desse ano tornaram-se caminho da discórdia e da guerra. Foram feitos caminhos pavimentados de ódio e raiva ao longo dos últimos anos. Adoecemos com armas na mão, com ofensas de todo calibre, com xingamentos de toda espécie. A saúde mental ficou em pandarecos. Sem que percebêssemos, fomos nos fechando em grupos que defendiam ideias semelhantes, afastando todos aqueles que discordavam. Até mesmo as comunidades eclesiais sofreram rupturas. Em vez do exercício do amor fraterno, caímos no discurso e na prática do ódio e da intolerância. Até mesmo dos púlpitos para a pregação da Palavra nas Igrejas cristãs explodiam palavras que estavam bem longe das Bem-Aventuranças evangélicas. Líderes religiosos tornaram-se coronéis “sagrados”.

Então, chegamos ao final do ano, e nos vem a questão: como celebrar essa festa de maneira cristã, não hipócrita? Como resgatar a esperança de uma convivência solidária e fraterna? Como comungar na mesma ceia de Natal? Confesso que nunca tive tanta dificuldade para refletir sobre esse momento como sempre faço e compartilho com as pessoas através desse site da Arquidiocese. Nem o título eu conseguia criar. Por fim, veio esse que me parece muito significativo – reconstruindo laços. Afinal, são muitos laços que foram rebentados, outros foram desfeitos e alguns queimados pelo ódio violento.

O Natal desse ano de 2022 é muito mais que uma festa. É uma tarefa. Somos chamados pelo Menino Deus para reconstruir nossa vivência familiar e social. O nascimento de Jesus que os evangelistas denominam como “encarnação do Verbo” é a constituição mais profunda do laço que Deus realizou com a criação. Fomos através desse evento salvífico enlaçados, bem enlaçados. Um laço que suportou as dores da Paixão e a morte na cruz. Não há maior laço que esse. E é esse laço que torna a nossa fé verdadeira. Por isso, ela não é vã como nos diz São Paulo. A vida inteira de Jesus, desde o nascimento até sua morte, foi a expressão do laço de Deus com a humanidade.

Como seus discípulos somos chamados a ampliar os enlaces pelo mundo a fora. A verdadeira fé está exatamente nessa dinâmica de continuidade do enlaçamento de Deus com a humanidade, e somente assim seremos reconhecidos como dignos de Deus. O tempo da Igreja é esse processo de salvação, construindo pontes, construindo laços. Uma Igreja que não serve como construtora de pontes e de laços não está a serviço de Deus.

Continuamos assim com desafios históricos, que compete a nós. É nossa tarefa, é nossa missão. Temos necessidade de superar os sinais de anti-natal que espalhamos ao longo do ano em nosso redor. Precisamos também superar o anti-natal das desigualdades sociais, da devastação ambiental, da concentração da riqueza e da exclusão de milhares de pessoas. Temos que superar o anti-natal do racismo, da intolerância, do machismo e de tantos feminicídios. Acima de tudo, a ceia natalina não é compatível com o cenário da fome, presente nas pessoas ao nosso redor. O deboche de pessoas comendo carne folheada a ouro no Qatar não pode ser tolerado nem como simples notícia.

O Papa Francisco nos disse há poucos dias que o “Natal é a festa do Amor encarnado, do Amor nascido por nós em Jesus Cristo”. Sempre que falamos em casamento dizemos “enlace matrimonial”. Estamos diante desse grande evento amoroso de Deus, desse grande enlace. Ao mesmo tempo ele nos chama a atenção para o anti-natal que é a guerra. O mundo está diante de uma mística da destruição. É uma loucura. Sempre destrói. A guerra começou com Caim e continua com todos aqueles que destroem o irmão, o outro. Quem mata não é “gente de bem”! Dá para entender?

O Natal é incompatível com armas nas mãos, com exércitos destruindo tudo. É incompatível com nossa realidade cotidiana em que achamos que teríamos direito a portar armas. Jamais uma arma produzirá enlace de amor, mas de destruição do outro como aquele jovem de Aracruz que até uniforme militar nazista usava para destruir tantas vidas naquelas duas escolas. Com tiros certeiros não há a mínima chance de um laço cristão. Hoje seus colegas não querem mais retornar àquele lugar que era expressão de paz e tranquilidade. As marcas da dor são fortes demais.

Então, não podemos manter nossa consciência tranquila nessa noite de Natal enquanto tantas pessoas passam fome, enquanto tantas pessoas tombam na guerra, enquanto a natureza tomba devastada pela destruição dos tratores e motosserras. Que noite feliz queremos? Como será digno do Menino Deus o nosso canto?

Edebrande Cavalieri

Em sua origem, a Campanha da Fraternidade se desenvolveu na Quaresma de 1962 reunindo a Arquidiocese de Natal e mais três outras dioceses. No

Em sua origem, a Campanha da Fraternidade se desenvolveu na Quaresma de 1962 reunindo a Arquidiocese de Natal e mais três outras dioceses. No ano seguinte, foram dezesseis dioceses participantes e com o impulso renovador do Concílio Vaticano II em 1964 ela tornou-se nacional.

Como o Tempo da Quaresma é marcado pelas práticas de jejum, a inspiração bíblica para a Campanha da Fraternidade desde o seu início se encontra no Livro de Isaías, 58. Ali está descrito o verdadeiro jejum, aquele que o Senhor Deus escolheu para o seu povo realizar. É de uma clareza indubitável. O que o Senhor deseja de seu povo não são as orações públicas e penitências sob a forma de flagelação, espécie de práticas religiosas alimentadas ao longo da história do cristianismo.

O verdadeiro jejum que é fundamento para a Campanha da Fraternidade indica como ações: soltar as correntes da injustiça, desatar as cordas do jugo, pôr em liberdade os oprimidos, partilhar sua comida com o faminto, abrigar o pobre desamparado, vestir o nu que você encontrar pelo caminho. Então o Senhor Deus responderá às suas súplicas. Quando vemos católicos conservadores pedindo que se “devolva a quaresma” é sinal que esse grupo carece muito de uma nova evangelização.

Dom Dario Campos, arcebispo de Vitória, no encontro de formação sobre a Campanha da Fraternidade para o próximo ano pediu que todos procurem entender a sua importância e que o contexto social do momento está em plena sintonia com seus inícios e ventos renovadores do Concílio Vaticano II, como acima mencionamos. Em que contexto atual a Campanha da Fraternidade pode ser inserida? O tema “Fraternidade e Fome” nos leva a olhar para qual realidade de modo a tornar nossos jejuns e orações quaresmais agradáveis ao Senhor?

Conforme dados do IBGE referente ao ano de 2021, divulgados no dia 01 desse mês, o Brasil apresenta um quadro de aumento da pobreza muito grande. Nos últimos dois anos a extrema pobreza praticamente dobrou de quantidade. São 62,5 milhões de pessoas que se situam abaixo da linha de pobreza equivalendo a 29,4% da população e 17,9 milhões na extrema pobreza equivalendo a 8,4% da população. O Banco Mundial considera como linha de pobreza a pessoa que ganha RS 486,00 por mês e extrema pobreza com RS 168,00 mensais. Conforme dados da FAO (ONU) no Brasil são 60 milhões de pessoas que vivem sem ter o que comer.

Diante desse quadro de “injustiça e pecado” como nos diz o Papa Francisco, que ações poderiam ser desenvolvidas de maneira urgentíssima além das práticas de solidariedade com as campanhas de doação de alimentos?

Parece-nos que três horizontes deveriam nortear governos, instituições sociais, instituições religiosas e Igrejas. A fome não decorre da falta de produção de alimentos, mas de estruturas injustas que levam à fome. Portanto, o primeiro ponto que deveria balizar as ações é no sentido de transformação das estruturas geradoras da fome. Nessa mesma linha de ação, são necessários processos de sensibilização fomentando políticas públicas que atendam a essa enorme população de famintos para que possam produzir e gerar renda. Somente auxílio emergencial (permanente) não irá mexer na estrutura geradora da fome.

Nesse sentido, a Campanha da Fraternidade dá um salto além da prática de doação incorporando ações eclesiais em prol de políticas públicas. Sem a pressão social, nossos governos infelizmente não irão agir com esse objetivo. E o terceiro elemento que poderia ser incorporado na Campanha da Fraternidade é a edificação das pessoas, a formação para solidariedade.

As instituições sociais, religiosas e políticas precisam agir de maneira integrada buscando adotar soluções inovadoras que possam transformar a forma como produzimos e consumimos os alimentos para o bem-estar das pessoas e da casa comum. Vimos nessa semana um quadro devastador das abelhas sendo mortas nesse tempo de florada dos cafezais em decorrência do inseticida usado nas lavouras. Sem abelhas, não haverá polinização. E sem polinização não haverá frutos, alimentos.

O Papa Francisco nos alerta dizendo que a morte pela fome é um assassinato, e como tal deve ser tratado como pecado. Ele não está sozinho nesse grito. A ONU apresenta um quadro mais apocalíptico ainda ao dizer que “estamos perto de uma catástrofe alimentar humana” e “estamos a um passo de uma pandemia de fome”. Não se trata de pessoas que vão dormir com fome, mas de seres humanos em condições extremas, em verdadeiro estado de emergência. São pessoas que literalmente passam fome e isso se chama “catástrofe humanitária e alimentar”.

O mais duro foi ouvir o Presidente do Brasil dizendo há dois meses atrás que “ninguém vê alguém pedindo pão no caixa da padaria. Você não vê”. Junto com ele há tantos brasileiros, inclusive cristãos e católicos, que fingem diante da realidade da fome. Alguns ainda falam de simples “insegurança alimentar” como se fosse uma questão rapidamente solucionável. Para a população negra e favelada das cidades a fome é a nova escravidão, um atentado à dignidade humana, um escândalo ético. A fome atinge o quadro da desigualdade social e racial.

O retorno do Brasil ao Mapa da Fome decorre do desmonte das políticas públicas dos últimos anos, da crise econômica, da pandemia da Covid-19 e da crescente desigualdade social. O Brasil é um dos países mais desiguais do mundo e um dos maiores produtores rurais do mundo, porém com pouca disponibilidade de alimentos de qualidade para todos. Os negócios agrícolas produzem para a exportação, com preços alinhados ao dólar, e para isso recebem todo tipo de apoio governamental.

O Papa Francisco no Dia Mundial da Alimentação de 2021 nos dizia que a luta contra a fome exige a superação da lógica fria do mercado, a lógica fria dos negócios agrícolas, concentrada no mero benefício econômico e na redução dos alimentos a uma mercadoria entre muitas. A luta contra a fome exige um reforço cada vez maior em toda a cadeia produtiva seguindo uma lógica de cunho ético, de solidariedade além da perspectiva caritativa. Torna-se essencial desenvolver um mercado solidário, um negócio solidário.

Em 2020 por ocasião do Dia Mundial da Alimentação o Papa fez uma proposta bem concreta e que exigiria uma decisão corajosa dos governos do mundo inteiro que seria a constituição de um “Fundo Mundial” com o dinheiro que se gasta em armas e outras despesas militar tendo por objetivo a eliminação da fome e contribuir com o desenvolvimento dos países mais pobres. Teríamos assim um horizonte de mundo sem fome, vivendo em paz. As guerras aumentam ainda mais o quadro da fome no mundo.

Concluindo, podemos dizer que a fome é dos maiores desafios à fé cristã. “Porque, assim como o corpo sem o espírito é morto, assim também a fé sem obras é morta” (Tg 2, 26). Desta forma, o Tempo da Quaresma tão forte na liturgia cristã é também o momento em que a fé deve ser traduzida em obras que beneficiam o próximo, de modo especial o faminto, e assim essas mesmas obras possam glorificar dignamente a Deus.

Edebrande Cavalieri

Um fim de semana tenso, denso, doloroso não apenas para a comunidade de Coqueiral de Aracruz, mas para o Brasil inteiro. Aquele bairro pacato

Um fim de semana tenso, denso, doloroso não apenas para a comunidade de Coqueiral de Aracruz, mas para o Brasil inteiro. Aquele bairro pacato tornou-se repentinamente manchete de notícias em todos os espaços e redes sociais. O mundo inteiro parecia estar nessa terra capixaba, mais conhecida pela indústria de celulose e pelas lindas praias, mas agora manchada de muito sangue. Sim! Não podemos diminuir o impacto da dor escondendo o chão ensanguentado.

As marcas da tragédia vão muito além dos caixões e das sepulturas. Muito além da ação das forças de segurança. Muito além dos dias de luto decretados pelas instituições oficiais. As marcas da tragédia atingiram nossos corações, nossa alma, nosso viver em sociedade. Atingiram nossa fé e nossa indiferença frente à vida. É impossível não se incomodar com o horror vivido e sofrido, noticiado e compartilhado. As marcas da tragédia não podem ser imputadas apenas à família daquele jovem vestido como um soldado atrás de inimigos. Se ele parecia estar correndo numa batalha, pulando obstáculos, portando máscara e empunhando armas de alto impacto, só nos resta refletir para além desse cenário bélico.

Confesso minha incapacidade de pensar nas vinte e quatro horas que se sucederam após a notícia, espalhada pelo mundo como uma explosão nuclear. Tinha a impressão de estar sofrendo impacto de átomos cujo núcleo fora rompido ou sofrera fusão. Padres da Diocese de Colatina estavam reunidos em Ibiraçu com seu Bispo quando foi noticiada a tragédia, e numa oração de profundo sentimento de solidariedade sagrada muitos deles deixaram escorrer lágrimas dos olhos. E no meio da noite o Bispo Dom Lauro Sérgio Versiani Barbosa veio até Coqueiral trazendo um abraço de pastor e de solidariedade humana às famílias enlutadas. O dia dele não poderia terminar sem estender a mão acolhedora de Deus no momento de dor daquelas pessoas.

Freud nos dizia que “a morte é um ato de destino brutal e absurdo”. E nesse cenário onde a batalha fatal ocorreu dentro de duas escolas onde se busca educar crianças e jovens, um deles (ex-aluno) de apenas dezesseis anos executou o plano diabólico, pensado há dois anos. Nesse mesmo texto Freud nos lembra que o destino brutal causado pela morte “não pode ser possível culpar ninguém”. Logo percorrendo as redes sociais ouvi tantas vozes gritando por vingança, por diminuição da maioridade penal, por pena de morte.

Nesse momento de consternação profunda, só pude abaixar a cabeça e receber o golpe como um pobre indefeso, como se estivesse submisso a um jugo de uma força maior. Sentia um vazio sem lugar, uma dor sem local, uma angústia sem fim. Então me senti carregando um pedaço de cada pessoa envolvida na tragédia, uma gota de sangue de cada um. Vi como esse mundo fica tão pobre e vazio em certos momentos. Na verdade, sempre é pobre e vazio. Nós nos impomos a negação do vazio, a negação da corresponsabilidade, a negação do pedaço do outro que carregamos em nós. Carregamos também as balas disparadas pelas armas daquele jovem. Nossas mãos também cheiram a pólvora. Estamos vivendo camuflados no dia a dia. Agora nossa hipocrisia grita por vingança contra o jovem assassino.

Aos poucos Coqueiral de Aracruz vai voltando ao silêncio, e a vida retomando seu rumo numa região de natureza exuberante, cheia de encanto. O desencanto do horror vai ficando num lugar e até poderá ser esquecido. Se isso acontecer, em vão serão nossas orações e nossas revoltas. O luto é um tempo de se acalmar, mas jamais de ser enterrado junto com os caixões. O luto necessita ser transformado. A melhor forma de acolher tanta dor é retomar o trabalho, rever o caminho trilhado até agora, mudar nossas formas de educar a sociedade.

O caminho mais fácil e equivocado é transformar aquele adolescente como único responsável, mesmo que seja considerado portador de algum transtorno mental. Essa tendência tão presente entre nós, inclusive nos meios de comunicação, de considerar o sujeito com transtorno mental como potencial violento que precisa ser retirado do meio social, não está de acordo com as ciências da psique. O comportamento violento não decorre do transtorno mental. Isso precisa sempre ser lembrado.

A violência é produzida nas relações que atravessam o sujeito desde seu nascimento. Portanto, ao longo de sua vida. Não somos violentos; torna-mo-nos violentos. Nesse tempo de pós-luto precisamos retomar os processos de formação educacional e de caráter. Daí a responsabilidade de cada um de nós nos diversos contextos em que agimos e nos relacionamos. Sem cuidarmos desses processos de formação jamais iremos despotencializar os diversos transtornos mentais capazes de produzir tragédias como essa. Qualquer outro adolescente que não teve cuidados educativos e de formação de caráter poderia cometer tragédias como essa. Precisamos urgentemente descriminalizar o transtorno mental. Esse é o primeiro dever a ser cumprido pelas instituições sociais e religiosas.

Esse adolescente não nasceu assassino, não cresceu desejando se tornar assassino em série e nenhum aluno vai à escola para aprender a ser um soldado camuflado com a suástica nazista. Esse jovem teve outros ensinamentos e, como ele mesmo confessou, há dois anos estava planejando o horror. Há muitos elos que unem esse jovem com esse mundo de horror e nossas instituições não podem ficar fingindo que um gesto nazista de um grupo cantando o Hino Nacional seria uma forma de energização, como ocorreu recentemente no sul do país.

Como educador há quase quarenta anos fiquei com vontade de vomitar quando vi há tempos atrás um jovem professor de história entrar numa sala de aula para falar sobre o nazismo todo vestido no rigor nazista dizendo que era para ilustrar a aula. Deu-me nojo não dele, mas do entorno institucional que permitiu essa loucura travestida de estética. Esse jovem professor estava fazendo política muito forte sob a forma estética, mas fingimos não ver isso e trivializamos o acontecimento “educativo”.

Culpabilizar apenas o jovem adolescente é muito fácil. O entorno dele é até mais responsável pela tragédia do que o próprio. Ele é fruto desse meio que cultua a arma, o ódio, a violência, a morte. A inculcação de ideologia nazista que é em sua essência violenta e assassina como ocorreu na Alemanha precisa ser barrada, punida. Uma sociedade conivente com gestos nazistas é responsável por tragédias como essa de Aracruz.

É o coletivo que produz essas loucuras e sempre decorre de imagens, símbolos, de uma verdadeira estética política. É preciso que a sociedade brasileira construa um projeto que envolva de modo umbilical a educação, a cultura, a política e os meios de comunicação que sirva para a constituição de um futuro para as nossas crianças e jovens em vista da paz e da não violência.

É preciso que os cristãos e, de um modo especial a Igreja Católica, estejam aliados nesse projeto e façam em seus projetos de formação cristã nas comunidades e paróquias crescer a convivência pacífica. Um Evangelho separado da vida não serve para nada. É preciso sermos intolerantes com a cultura do ódio e da violência, o culto às armas. O mundo irá crer na medida em que nos ver como nos amamos e não como nos matamos. Que o sangue derramado em Coqueiral de Aracruz e tantas lágrimas derramadas possam alimentar o sonho da paz e fortalecer a caminhada educativa de nossa sociedade.

Edebrande Cavalieri

As imagens do Catar que estão chegando em nossas casas nos mostram um país com prédios fantásticos e supermodernos, estádios de futebol com arquitetura

As imagens do Catar que estão chegando em nossas casas nos mostram um país com prédios fantásticos e supermodernos, estádios de futebol com arquitetura sofisticada e até com ar refrigerado; de fato, essas imagens não mentem. Estamos diante de um país que é uma potência financeira, capaz de comprar cotas de ações dos maiores clubes europeus. De onde vem tanto dinheiro se grande parte do país é formado por deserto? Das reservas de petróleo e gás, sendo um dos países com maiores reservas. Com a guerra entre Rússia e Ucrânia o comércio internacional desses itens essenciais da economia colocou Estados Unidos, Austrália, Arábia Saudita e Catar de ventos em popa, ganhando melhor condição nas negociações esse último país. A China é seu maior importador.

Falamos de um país com a maior renda per capita do mundo, de sistema de segurança que torna o país muito seguro. Contudo, algumas áreas obscuras ainda permanecem sobre a escolha do Catar para sediar a Copa do Mundo desse ano. Sua população não chega a três milhões de habitantes, contudo apenas uns 300.000 são cidadãos nascidos no Catar. Calcula-se que 85% de sua população seja composta por imigrantes de países vizinhos. Os maiores contingentes são originados da Índia, do Paquistão, do Nepal, de Bangladesh e de Sri Lanka. É desses países que foram encontrados os trabalhadores para atuarem na construção dos estádios e centros de treinamento.

É nesse contexto que se elevam muitas denúncias feitas pela Anistia Internacional dando conta da existência de exploração de trabalhadores imigrantes inclusive sob a forma de trabalho escravo. Também houve muitas denúncias de violação dos Direitos Humanos, corrupção e falta de transparência perante a opinião pública. Mas a maior chaga dessa Copa parece ser a quantidade de operários mortos durantes as obras. Calcula-se que foram mais de 6.550 pessoas. Isso revela a precariedade da segurança de trabalho destinada aos trabalhadores imigrantes. A realidade concreta mostra um país com seus cidadãos extremamente ricos e uma massa de trabalhadores constituída de imigrantes muito explorados.

A Fifa mantinha interesse em colocar o primeiro país do Oriente Médio para sediar a Copa e encontrou no emir Hamad al-Thani, que governa o país desde 2013 substituindo seu pai em uma transferência pacífica de poder. Dinheiro para investimento em infraestrutura destinada à Copa ele possui. Há inclusive denúncias feitas pelo jornal inglês The Sunday Times de que se praticou a doação de propina na ordem de mais de cinco milhões de dólares. Como o mundo do futebol é verdadeira caixa preta, essas denúncias foram logo silenciadas das mais diversas formas.

A escolha do Catar para a Copa também requer considerar o lugar que esse país ocupa na geopolítica do Oriente médio. Nele estão sediadas bases militares norte-americanas e isso significa muito no contexto mundial. Manter as boas relações com a potência ocidental dando-lhe prestígio para sediar uma Copa do mundo é algo que deve ser considerado. Foi isso que levou esse país a afastar-se dos sauditas e abrir-se para o ocidente, ganhando uma espécie de prêmio sediando a Copa.

É preciso também registrar que o futebol espelha um conjunto de tensões na região, principalmente contra os Emirados Árabes Unidos que boicotaram a premiação na Copa da Ásia ganha pela Catar. Naquela ocasião, em 2019, os expectadores presentes em Abu Dhabi jogaram garrafas e chuteiras nos jogadores do Catar. Também há pouco tempo a Arábia Saudita impôs bloqueio econômico ao país da Copa. Enfim, por trás da grandiosidade de sua arquitetura, da quantidade de dinheiro que possui, o país da Copa esconde diversos desafios que vão muito além da questão da cerveja dos visitantes que por estão por lá enfrentando altas temperaturas mesmo no inverno.

No setor de informação e comunicação, em meados da década de 1990 foi criado o canal de notícias da Televisão al-Jazeera, emissora estatal com sede em Doha, capital do Catar, transformando-se num canal de TV árabe via satélite de notícias e atualidade. Logo expandiu-se para a internet e outras mídias digitais. Também o país da Copa trouxe filiais das mais renomadas universidades dos Estados Unidos, da Grã-Bretanha e da França, ou seja, de três membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, todas estabelecidas em Doha.

Em termos religiosos, estamos diante de um país com quase 70% de sua população pertencente ao Islamismo, a maioria sunitas. Os cristãos chegam a 13,8% e os budistas com a mesma percentagem. Há um rigor no controle do modo de vestir tanto dos homens como das mulheres. Estas devem cobrir a cabeça e o corpo com roupas. Dizem que há liberdade religiosa, contudo sob o controle do Estado que define até onde é permitida a construção de templos religiosos. Qualquer grupo religioso deve fazer um registro nos órgãos do governo.

Há um aumento da violência religiosa contra cristãos, caracterizando um clima hostil e de intolerância. É proibido fazer proselitismo; portanto, o trabalho missionário de convencimento a mudar de religião é considerado motivo suficiente para perseguição. As pessoas muçulmanas que se convertem para o cristianismo ou budismo passam a ser discriminadas e mal vistas em todos os espaços. Estamos diante de um país onde a intolerância religiosa é grande, especialmente contra os não muçulmanos. Apesar disso, as autoridades nacionais querem mostrar uma aparência bem positiva aos visitantes durante a Copa do Mundo. Em linhas gerais há uma tensão enorme entre a cultura estrita do Catar e a cultura mundial. Os sunitas islâmicos temem que sua cultura seja desafiada durante a competição esportiva.

Por fim, a Copa do Mundo é o grande evento esportivo que integra o país sede num contexto internacional de mercado, de portas para o turismo e superação de estágios tradicionais. No caso do Catar, as construções de estádios, hotéis e setores de infraestrutura aliou-se à tendência já presente com uma arquitetura futurista, como metodologias e formas orgânicas, abandonando o modo tradicional beduíno do deserto. Ao mesmo tempo demonstra a força da influência internacional presente na riqueza dos materiais usados. Contudo, essa beleza e essa riqueza toda trazem embutidos diversos desafios, problemas, muitos deles acobertados pelas autoridades. Não é possível prever o que o país herdará com a Copa do Mundo e o que fará com as consequências dessa verdadeira invasão do modus ocidental de viver.

Edebrande Cavalieri

Entre os dias 03 e 06 desse mês de novembro o Papa Francisco esteve visitando Bahrein que fica no Golfo Pérsico, país com uma

Entre os dias 03 e 06 desse mês de novembro o Papa Francisco esteve visitando Bahrein que fica no Golfo Pérsico, país com uma população em torno de 1,5 milhões de pessoas divididas em xiitas que compõe a maior parcela e sunitas que governam o país e representa a camada mais elevada da sociedade. O número de católicos gira em torno de 80.000 fiéis. O número pequeno de católicos não representa algo negativo, pois o Papa Francisco muito insistiu nessa viagem em função do que representa a realização ali do Fórum de Diálogo entre Oriente e Ocidente para a convivência humana pacífica.

O objetivo desse Fórum é o de construir pontes de diálogo com foco na promoção da coexistência global e da fraternidade humana, no papel dos religiosos e estudiosos para enfrentar os desafios dos tempos atuais e, por fim, no diálogo inter-religioso e a paz no mundo. Isso nos chama muito a atenção, pois estamos num país essencialmente muçulmano com uma divisão interna de cunho ideológico religioso muito forte e com inúmeros problemas de convivência humana no dia a dia. E ali nesse pequeno território, duas grandes autoridades do encontro e da fraternidade estarão encontrando-se novamente, o Papa Francisco e o Grão Imame de Al-Azhar Muhammad Ahmad Al-Tayyed.

O Grão Imame é uma das figuras de maior relevo na jurisprudência islâmica sunita com reconhecimento internacional. Em 2016, ele visitou o Papa na Casa Santa Marta, estiveram juntos na Viagem Apostólica ao Egito em 2017, na Conferência Internacional pela Paz organizada por Al-Azhar e se encontrou com o Papa em Abu Dhabi em 2019 assinando o Documento sobre a Fraternidade Humana pela Paz Mundial e a Convivência Comum, que tem por objetivo o diálogo entre cristãos e muçulmanos. Dessa relação tão fraterna entre os dois, de cooperação e convívio, nasceu a inspiração inicial da Carta Fratelli Tutti. Nesse sentido, podemos dizer com todo vigor que o fruto do encontro fraterno será sempre o dom da paz.

Em seu discurso no Forum de Diálogo Oriente e Ocidente o Papa Francisco retoma a imagem da árvore da vida, símbolo especial daquele país, para nos dizer da necessidade de cultivá-la nos desertos áridos da convivência humana e com a água da fraternidade para que o mundo possa criar ambiente para o encontro entre civilizações, religiões e culturas. Até agora o Papa realizou 12 viagens para a Ásia, visitando 18 países, onde o catolicismo é uma religião com poucos fiéis. Contudo, Francisco tem se mostrado sempre muito animado a realizar essas visitas pastorais, pois entende que assim será possível a construção de pontes, criando laços entre culturas e civilizações, e assim construir o caminho da paz.

Nesse espírito de profunda amizade, ele convida a Majestade, as Altezas Reais, Autoridades, Amigos, para reforçar a Declaração do Reino do Bahrein que reconhece a fé religiosa como uma “benção para todo o gênero humano”, e lê um pequeno trecho: “Empenhamo-nos a trabalhar por um mundo, onde as pessoas de credo sincero se unam entre si para rejeitar aquilo que nos divide e, ao contrário, escolher aquilo que nos une”.

Internamente, a situação do Bahrein é tensa. Conviveu intensamente com os protestos da Primavera Árabe em 2011 e as repressões militares sauditas fazendo crescer o número de prisioneiros. Ao mesmo tempo, esse país goza de prestígio internacional pois pelo Estreito de Ormuz passa 20% da produção de petróleo mundial. Portanto, tem uma importante localização estratégica no equilíbrio político da região. Também encontramos no deserto ali próximo uma das maiores bases militares dos Estados Unidos. Ainda se acredita que a força das armas seja o pré-requisito fundamental da paz e não o encontro entre as nações e pessoas.

Nesse contexto complexo em todos os sentidos, o Papa tocou de maneira corajosa em temas difíceis como a questão dos Direitos Humanos e a Liberdade Religiosa, elementos fundamentais para a paz. Ao mesmo tempo mostrou que o caminho para a construção de pontes requer aproximação contínua e compreensão recíproca. O diálogo inter-religioso ainda vai além, exigindo investimento no conhecimento recíproco e no ensino, com ação concretas de diálogo de modo a se tornar parte da vivência cotidiana.

Penso que a grande mensagem que o Papa Francisco nos deixa nessa visita ao Bahrein seja realmente a importância do encontro como produtor da paz. Por aqui vivemos tantos desencontros nos últimos anos e alguns brasileiros ainda continuam no caminho do ódio e do conflito. Como é difícil construir a paz! Ao contrário, como é fácil desencadear uma guerra entre nações, entre cidadãos de um mesmo país, entre membros de uma mesma Igreja. Talvez tenhamos que aprender ou reaprender que a fé religiosa que cada pessoa professa seja uma bênção de paz e não uma arma para a guerra.

Para o mundo católico a mensagem é ainda mais profunda, pois a comunhão pode ser sinal de salvação ou de perdição. Comungar o Corpo de Cristo e carregar armas no peito, ódio no coração, é trazer para si mesmo sua própria perdição. Não se constrói a paz fincando bases militares em nossos corações. Não é possível o encontro com Jesus Cristo na comunhão aos domingos se durante o resto da semana praticamos os desencontros, as guerrinhas, ameaçamos os nossos irmãos. É preciso construir a paz bem pertinho de nós!

Edebrande Cavalieri

As eleições para a presidência do Brasil desse ano mostraram um papel muito forte dos segmentos religiosos, com pregações que na verdade eram campanha

As eleições para a presidência do Brasil desse ano mostraram um papel muito forte dos segmentos religiosos, com pregações que na verdade eram campanha eleitoral disfarçada de culto religioso. Temos visto crescente influência do papel da religião no resultado das campanhas eleitorais nos últimos 20 anos. Mas nesse ano de 2022 a situação ficou mais nítida e motivo de profundas reflexões e análises. O Brasil está mudando muito rapidamente e nem sempre conseguimos acompanhar essas mudanças. E foi assim que no mesmo dia em que foram publicados os resultados vimos um pais paralisado por bloqueios das rodovias, muito bem articulados e com a conivência de determinadas autoridades de segurança. Então caímos na ingenuidade de achar que se está na normalidade de dez anos atrás.

O Instituto Datafolha realizou uma pesquisa no dia 29 de outubro, portanto, às vésperas do segundo turno para eleição presidencial, tomando como referência a intenção de voto a partir do perfil religioso. Como era de se esperar, Bolsonaro manteve ampla vantagem no quesito “voto evangélico”. Enquanto Lula aparecia com 11.725.823 de intenções de voto nesse segmento, Bolsonaro atingia a cifra dos 26.099.413. Lula teve aqui um resultado bem negativo com uma diferença de 14.373.590 de votos para Bolsonaro.

Quando se toma o segmento católico que também tem muitos adeptos da tendência pentecostal semelhante ao mundo evangélico, Lula alcança um total de 34.574.630 intenções de voto e Bolsonaro ficou apenas com 24.527.301. Uma diferença de 10.047.328 a favor de Lula. Mas isso não significa que o mundo católico foi determinante na eleição de Lula. É bom também registrar que há uma transição religiosa no interior do próprio catolicismo recuperando elementos pré-Vaticano II, de cunho nitidamente conservador e alinhado às posturas pentecostais em grande parte.

A transição religiosa no Brasil exige que se olhe atentamente para outro segmento, que nada está relacionado com Igrejas, e é composto por pessoas que declaradamente se dizem sem religião. Nesse grupo há muitas pessoas que abandonaram as instituições religiosas considerando-se “desigrejados”. A tendência dos jovens é estar nesse segmento. Lula aqui alcançou 10.018.487 milhões de votos e Bolsonaro apenas 4.165.977 intenções. Ao compararmos a diferença dos votos totais entre Lula e Bolsonaro que foi de 2.097.028 milhões de votos, vemos como o segmento das pessoas que se dizem sem religião foi determinante para a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva.

A transição religiosa que está ocorrendo é conduzida pela extrema direita liderada pelo ex-presidente Donald Trump e Steve Bannon que garantem a orientação política para o mundo todo e aqui é representada pelo bolsonarismo. Sua base religiosa está situada na Direita Cristã que está espalhada no mundo todo. Ela nasceu nos Estados Unidos em 1935 com a reunião do empresariado e industriais para salvação da economia em torno da fé cristã. Foi ali que se iniciou um movimento político de cunho religioso que serviu de base para a base ideológica da extrema direita internacional.

Outro dado que merece análise é o ritmo de crescimento da percentagem de evangélicos no Brasil. Como ainda não temos os dados do IBGE, estima-se que os evangélicos hoje compõem em torno de 32% da população brasileira e os católicos com 50%. Considerando a perspectiva de crescimento do percentual de evangélicos no Brasil, é preciso registrar que o bolsonarismo apesar de ter perdido as eleições continua ainda muito forte no meio da sociedade com tendência a crescimento. Quando se toma apenas o eleitorado cristão, Bolsonaro fica em grande vantagem.

Ao olharmos o resultado geral pelo Brasil, logo é digno de nota a vitória de Lula no Nordeste. Essa região tem uma predominância maior de católicos e sem religião. Ao contrário, no Acre, Rondônia e Roraima que tem mais evangélicos, ali Bolsonaro ganhou. Um caso à parte é o estado de Santa Catarina que possui maioria católica e Bolsonaro venceu. O que está acontecendo nesse Estado?

Esses dados podem servir como objeto de algumas reflexões. Em primeiro lugar, há que se indagar sobre que cristianismo é esse pregado no mundo evangélico. As perspectivas fundamentalistas produzem um efeito nefasto e devastador no seio de um cristianismo mais comprometido com os direitos humanos, com as opções pelos pobres, com uma pregação mais coerente com o Evangelho de Jesus Cristo.

A extrema direita está enraizada no mundo evangélico pentecostal e neopentecostal e no catolicismo conservador, que desde o Concílio Vaticano II reage contra qualquer mudança na vida religiosa, aderindo às práticas ultrapassadas de um catolicismo não mais existente. Além de sua presença nas esferas políticas dos poderes federal, estaduais e municipais, eles também são encontrados no campo externo à política, especialmente nos centros produtores de informação como rádios, jornais e redes de televisão. É bom não esquecermos daquela reunião convocada em Brasília com os diretores de Meios de Comunicação (evangélicos e católicos) para receberam verbas gordas em prol de imagens positivas do governo federal.

Além disso, vemos como muitos veículos de comunicação serviram e servem de maneira intempestiva com seus pregadores, verdadeiros gurus da vida religiosa, criando um amálgama ideológico. Não podemos ignorar o papel dos centros de formação de novas lideranças religiosas como seminários, faculdades, cursos e centros educativos. Como possuem excelente base econômica, esses grupos e instituições investem pesados na produção de materiais de primeiríssima qualidade, dando a impressão de serem os verdadeiros intelectuais zelosos da doutrina religiosa. Muitas vezes, sem nenhuma autorização eclesiástica esses centros formativos vão conduzindo cursos teológicos de modo fundamentalista e não alinhado ao Magistério da Igreja no caso católico e às organizações evangélicas que zelam pela fundamentação teológica.

Também deveríamos prestar muita atenção como ao longo dos últimos anos inclusive o Presidente da República tem utilizado o slogan “Deus, Pátria e Família”. Esse é o slogan do regime fascista inaugurado há cem anos atrás na Itália por Benito Mussolini. Esse slogan mostra a verdadeira identidade da extrema direita, pois foi nesses pilares que cresceram no século passado os regimes fascistas e nazistas. A moldura é religiosa, mas o conteúdo é conservador e totalitário. Temos no Brasil atual, o que pode ser percebido nesse bloqueio das estradas brasileiras, um grupo coeso e habilidoso em configurar novas práticas, novas táticas, inserido no universo religioso, capaz de exaltar a pátria cantando o Hino Nacional com saudação nazista, apelando ao medo quase sempre, à intolerância, ao radicalismo, e produzindo uma sensação de pânico e insegurança.

Os quatro anos do governo Bolsonaro podem ser considerados como um grande laboratório de aplicação das táticas planejadas pela extrema direita. Em seu curto discurso após 44 horas do resultado das eleições proclamado pelo TSE fez questão de trazer o slogan – “Deus, Pátria, Família e Liberdade” – não dando nenhum sinal de civilidade estendendo a mão ao vencedor como é de costume na vida republicana.

Desta forma, as eleições brasileiras de 2022 nos mostram que a religião se tornou o principal elemento de constituição da base social da extrema direita. Contudo, trata-se de uma religião ultraconservadora que no contexto católico é capaz de contestar o Concílio Vaticano II, a colegialidade episcopal representada pela CNBB, e a negação do Sínodo que está sendo realizado no momento e se concluirá em outubro de 2023. A extrema direita brasileira está alinhada mundialmente e retira símbolos do cristianismo para a formação de uma verdadeira milícia religiosa, produzindo um imaginário social de guerra do bem contra o mal. Os valores tradicionais são proferidos a todo instante em qualquer ato público e a condenação a todos os valores que representam a civilização moderna como a ciência, a democracia. Engana-se quem acha que essa extrema direita seja zelosa pelos valores do Evangelho. A cruzada religiosa que é criada como tática fascista bloqueia qualquer possibilidade de debate, de diálogo.

Por fim, é ingênuo pensar que esse cristianismo “professado” pela extrema direita que usa e instrumentaliza a todo instante a Bíblia esteja na linha católica conduzida pelo Papa Francisco e Bispos. Seu alinhamento está enraizado na extrema direita norte americana e seus grupos supremacistas com lideranças evangélicas e católicas, alinhada com Viktor Orban da Hungria, com Vladimir Putin que é aliado da Igreja Católica Ortodoxa Russa, com Le Pen na França e demais extremistas da Espanha, Inglaterra e neonazistas alemães.

Por fim, vimos como Bispos católicos brasileiros procuraram alertar os fiéis a respeito das eleições, mostrando os riscos e enviando cartas pastorais, cartas ao povo em geral e mensagens sob diversos níveis. Somente no Leste 3 da CNBB foram duas Cartas endereçadas aos católicos das quatro dioceses. A vigilância da fé precisa ser mantida e não permitir que algum regime fascista, mesmo ostentando o verde e amarelo como roupa, que já produziu tantas dores e mortes no passado possa reerguer-se dos escombros dos campos de concentração, da força das armas e prática de tortura. O nome de Deus foi profanado em tantos lugares. O nome de Deus está sendo profanado a todo momento. O ovo da serpente foi chocado em muitos centros de formação. É tarde chorar quando se vê o desrespeito às autoridades religiosas como fazem com o Papa, os Bispos, a CNBB. A história deve ser nossa mestra. Amanhã pode ser tarde demais!

Edebrande Cavalieri