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A cultura, especialmente a contemporânea, cuja complexidade está na interligação de muitos fatores, influencia a missão daqueles que se dedicam a evangelização. O Papa

A cultura, especialmente a contemporânea, cuja complexidade está na interligação de muitos fatores, influencia a missão daqueles que se dedicam a evangelização. O Papa Francisco afirma: “Há uma necessidade imperiosa de
evangelizar as culturas para inculturar o evangelho” (EG, n. 69).

E o próprio Concílio Vaticano II, no decreto Ad Gentes, oferece as bases para este processo de inculturação: “o movimento que levou o próprio Cristo, na sua encarnação, a sujeitar-se a certas condições sociais e culturais dos homens com os quais conviveu” (n.10). O mistério da encarnação é o paradigma para a Igreja, cuja razão de
ser é evangelizar, é ser missionária.

Ciente de anunciar as belezas da bondade divina, a Igreja está consciente de que, atualmente, tudo evolui muito rápido e não se pode perder tempo e oportunidade para evangelizar. Precisamos ser rápidos em falar “com” e “de” Deus, conduzindo as pessoas no caminho da santidade. Nesse sentido, criamos uma consciência ou melhor, uma
inteligência cultural.

No entanto, para sermos rápidos, ágeis, visionários, proativos, compreensivos e acompanhar o processo de inculturação precisamos da tecnologia para produzir melhores resultados. Além da inteligência cultural, caminhamos para inteligência artificial.

Se a inteligência artificial é um desafio para empresários e, principalmente, gestores que estão buscando produtividade em todos os setores, também o é para a Igreja. A inteligência artificial faz com que os dispositivos criados pelo homem possam desempenhar funções sem a interferência humana.

A inteligência artificial já é uma realidade no nosso cotidiano. Quando usamos o celular com centenas de recursos somos impactados com a inteligência artificial que nos apresenta mensagens onde estamos e opções para buscarmos o que queremos. A inteligência artificial está no carro, quando usamos aplicativos para navegar e deslocar.

São milhares de aplicativos para solucionar inúmeros desafios em todas as dimensões, graças à inteligência artificial. Isso tudo nada mais é do que transferir o nosso aspecto cognitivo para um software, otimizando os nossos processos.

A inteligência artificial, com apoio dos algoritmos, está favorecendo uma vida melhor e mudando o nosso modo de ser, pensar e agir. O papa Francisco, em seu discurso na Assembleia Plenária da Pontifícia Academia para a Vida, em 28 de fevereiro de 2020, ressaltou que “as decisões, mesmo as mais importantes, como as das áreas médicas, econômicas ou sociais, são hoje o resultado da vontade humana e de uma série de contribuições algorítmicas” e alertou sobre os “graves perigos” para as sociedades, pois, dos canais digitais disseminados na internet, os algoritmos extraem dados que permitem controlar hábitos mentais e relacionais, para fins comerciais ou políticos, geralmente sem o nosso conhecimento”. E, continuou, “esses perigos não devem esconder o grande potencial que as novas tecnologias nos oferecem” e incentiva “a deixar-se desafiar pela palavra e tradição da fé para que nos ajudem a interpretar os fenômenos do mundo, identificando formas de humanização e, portanto, de evangelização amorosa”.

No entanto, a inteligência artificial, tendo como alicerce a inteligência humana na execução de tarefas, está aprimorando nossos expedientes racionais na coleta de dados sobre a realidade e como vivenciar nesse mundo com tantos desafios. Essas descobertas não pretendem substituir seres humanos, mas melhorar as nossas
habilidades e contribuir para que a realidade seja melhor. Necessitamos de dados, informações, orientações para que tenhamos uma vida melhor.

Destarte, a inteligência artificial vai nos ajudar no conhecimento e aprofundamento dos grandes desafios que se apresentam à Igreja para o cumprimento de sua missão, visão e valores em relação ao mundo. Vai garantir meios e abrir horizontes para lançar as sementes do Verbo.

Nesse sentido, Bergoglio enfatizou que “não basta educar simplesmente ao uso correto das novas tecnologias, mas é necessária uma ação educacional mais ampla e acrescentou que “devem amadurecer motivações fortes a fim de perseverar na busca do bem comum”.

Vamos usufruir dessa luz para que nossas comunidades paroquiais e eclesiais sejam realmente missionárias, fazendo com que o Evangelho ilumine os diversos cenários culturais contemporâneos.

Dom Edson Oriolo

Bispo da Igreja Particular de Leopoldina MG

No quarto domingo de Páscoa desse ano o Papa Francisco nos brindou com uma mensagem muito profunda a respeito das palavras de Jesus ditas

No quarto domingo de Páscoa desse ano o Papa Francisco nos brindou com uma mensagem muito profunda a respeito das palavras de Jesus ditas na última ceia: “Deixo-vos a paz”, “Eu vos dou a minha Paz”. Tem horas que nos parece ver que o mundo e as pessoas em particular não se importam mais com a paz. Acham que tirando as áreas em que países estão em guerra, o resto do mundo vive em plena paz exigida pelo Evangelho de Jesus. Tantas pregações em torno da conversão e as pessoas pensam que a conversão se refere apenas à frequência às celebrações e cultos e o pagamento do dízimo. Para muitos, a conversão não é a Jesus Cristo, mas à Igreja.

Não há guerra apenas entre Ucrânia e Rússia, mas em tantos outros países, é a primeira coisa a se registrar. Não há guerra apenas entre nações, mas também nas relações cotidianas dentro da própria família e na sociedade. Tem guerra de marido com esposa, pai com filho, famílias com vizinhos, na própria comunidade eclesial, na paróquia, na diocese. Como falar em paz com tantas mulheres mortas pelos seus (ex)companheiros? Enfim, observa-se o crescimento de um mundo em volta de nós em permanente conflito, em guerra.

O Papa Francisco nos diz que somos convocados a “desmilitarizar os corações”, a arriar todas as armas que dispomos e caminhar para uma vida de conversão profunda, uma mudança de vida, para que cada um possa reconhecer no outro um irmão e não um adversário, um inimigo, alguém que tem que desaparecer ou ser enterrado.

Como iremos dar a paz ao nosso irmão nas celebrações se nosso coração está em pé de guerra? Se em nós mesmos não há paz, torna-se impossível dá-la aos outros, desejá-la aos nossos irmãos, todos. De Jesus nos vem a direção: “Bem aventurados os mansos, porque herdarão a terra”. Não serão as guerras, as armas, os grupos milicianos, a população armada, que herdarão a terra. Ou se crê no Evangelho, ou é melhor nem pedir a Deus algo que não queremos, pois optamos pela guerra cotidiana. O Papa nos diz que “a mansidão é possível”. Quem são os mansos em nossa comunidade eclesial? Com certeza não são aqueles que empunham armas de qualquer tipo ou praticam atos de violência pela cidade no dia dia-a-dia.

Se somos discípulos de Jesus de maneira verdadeira, nos lugares onde vivemos, em nossas casas, nas ruas, no trabalho, deveríamos aliviar as tensões extinguindo os conflitos, estabelecendo relações amorosas, de ternura plena. A revolução da ternura não é fácil. É muito difícil, em todos os níveis, acabar com os conflitos, desarmar os corações, garantindo uma convivência de paz.

O Papa Francisco nos diz que a ternura é o amor que se faz próximo e concreto, que parte do coração e chega ao outro de maneira integral; está nos olhos, nos ouvidos, nas mãos que não foram feitas para carregar armas, mas para acalentar, fazer carinho, dar a mão ao irmão caído. A ternura faz nossos ouvidos ouvir o outro, escutar o grito dos pequenos, dos pobres. É a ternura que nos faz ouvir o grito silencioso da terra, tão contaminada. A terra está carente da ternura humana, por isso está muito doente, enferma.

A ternura nos faz humildes e somente assim seremos fortes, não com armas nas mãos, mas com o carinho das mãos dadas, levantando os caídos para o alto, estando a serviço e difundindo o bem. Ternura é o caminho que percorreram as mulheres e os homens corajosos e fortes, afirma o Papa.

Ao desarmar os corações, as palavras que matam, os olhares que aniquilam, o ódio e a intolerância, teremos condições de encher nossa vida de serenidade. Quanto mais sentirmos dentro de nós nervosismo, impaciência, raiva, mais ainda devemos pedir ao Senhor o Espírito de Paz.

Os corações de tantos homens andam empedrados, tornaram-se de chumbo que mata. Somente o Espírito de Paz irá amolecer esses corações, tornando-os leves, ternos, mansos. O mundo anda bem desfigurado pelo egoísmo humano, inclusive a terra, nossa casa comum, anda devastada com seus rios poluídos.

O egoísmo tem levado os homens a muitas guerras e construído uma economia centrada nas coisas e nos negócios e não nas pessoas. A existência de cada um de nós está ligada à existência dos outros, à existência do mundo. “A vida não é tempo que passa, diz-nos o Papa, mas tempo de encontro”. O futuro a ser construído depende de todos, juntos, sem excluir ninguém. Quando na sociedade aumentam as exclusões, nosso futuro fica totalmente comprometido.

Temos urgência em cuidar de nossas ligações, de nossas relações, sem pré-julgamentos duros contra nossos irmãos e nossas irmãs. Muitas vezes matamos o outro com uma fofoca, com uma mentira. É preciso cuidar das feridas não curadas, do mal não perdoado, do rancor que faz tanto mal, do ódio que divide famílias inteiras. A chama de ódio do coração precisa ser apagada para não se transformar num incêndio descontrolado, deixando tudo em cinzas. Essa é a revolução que o Evangelho de Jesus Cristo espera de seus discípulos e não das guerras que matam.

Edebrande Cavalieri

Uma das minhas paixões é história. Amo ler sobre a verdadeira História do Brasil. Aprendemos sempre mais sobre quem somos com o olhar para

Uma das minhas paixões é história. Amo ler sobre a verdadeira História do Brasil. Aprendemos sempre mais sobre quem somos com o olhar para as nossas origens. Deste passo podemos escolher com mais solidez quem queremos ser.

Uma historiadora cristã apresentou o descobrimento do Brasil com detalhes que realmente podem nos fazer pensar! Fatos conhecidíssimos foram revistos à luz da origem e história das palavras (etimologia) e pode nos revelar muito sobre o Brazil de hoje. Mas, Brasil com “z”, você vai perguntar? É. Brazil com Z, e é assim que começa a nossa história de hoje com uma mensagem escondida nas entrelinhas desde quando começamos como país. Vamos percorrer esta história que em parte estamos cansados de conhecer, mas você vai se surpreender:

Em 1500 o Rei de Portugal Dom Manoel – ou em outra forma de escrita – “Emanuel” (nome que significa “Deus conosco”) queria aprofundar o comércio com a Índia e mandou vir a expedição com 13 caravelas, mas depois do “erro” na rota, no Brasil chegaram 12 caravelas, comandados por um homem chamado Pedro. Todos sabem que Jesus mudou o nome de Simão para Pedro pois Simão “era volúvel, falava muito e por impulso, e, de repente, Jesus lhe disse: “Você será chamado Pedro (pedra)”.

Nas entrelinhas seria então: Deus conosco (Emanuel) envia Pedro (sua solidez? Sua Igreja?) com 12. Doze é um número muito simbólico na bíblia e significa “eleição”. Por isso fala-se das 12 tribos de Israel, “quando na verdade o Antigo Testamento menciona mais de 12”. O que isto quer dizer é que eram tribos ‘eleitas’ por Deus.

Deus conosco envia sua solidez, sua igreja ao povo eleito.

A historiadora revela que pelo prisma judaico a história do Brasil possui algumas diferenças interessantes. Aprendemos na escola que vieram para cá só degradados, prisioneiros e pessoas de moral duvidosa, mas na história do povo judeu se conta que Cristóvão Colombo, que era judeu, trazia também muitos judeus que vieram para cá fugindo da inquisição na Europa. Entre eles tinha um judeu chamado Barzilai, que com visão comercial viu logo que aquela madeira chamada “pau de ferro” era muito boa para construção naval e dava uma tinta vermelha. Logo ele montou esse comercio e, como aqui se fala comumente Venda do Joaquim, Bar do João, começou-se a falar: “Vou comprar o pau do Barzilai”, que reduzia para “Pau Barzilai” que acabou virando pau brazil. Brasil era escrito com “z”. A reforma ortográfica que mudou Brazil (nome escolhido na Proclamação da República) para Brasil aconteceu em 1967, no governo Costa e Silva, mas mundo afora continuaram a nos chamar de Brazil. Barzilai deu nome ao Brazil.

Quem foi Barzilai? Barzilai na Bíblia era um grande amigo de Davi. Quando Davi fugia do seu filho Absalão que queria seu trono e por isso queria matar Davi. O nome Absalão significa “pai é de paz”. O pai Davi era de paz, mas Absalão não. Absalão matou seu irmão e depois quis tomar o trono de seu pai. Davi fugiu para o deserto. Ele estava descalço, humilhado e Barsilai com outros amigos lhe trouxe bacias para se lavar, comida, cama. O rei estava no deserto e Barzilai, amigo de Davi, lhe “restaurou” seu “lugar” e a sua dignidade.

Somos um povo pacífico. Este é o nosso lugar! Nós brasileiros somos mesmos abençoados por Deus. Falávamos sempre que Deus era brasileiro. O que aconteceu conosco? Que povo é esse que irmão está brigando com irmão? Que um quer “acabar” com o outro? Que espera conflitos fortes na próxima “eleição”?

Não podemos permitir isso. Temos que restaurar nosso lugar. Somos cristãos. Temos um mandamento de Jesus: amai-vos uns aos outros. Temos uma escolha. Não podemos simplesmente cruzar os braços e esperar o trem bater. A escolha é individual. Posso falar: não vou permitir entrar neste turbilhão, não vou permitir que isso aconteça e vou começar por mim. Não vou cair na tentação de responder à uma provocação e entrar na briga. Não se perca em suas escolhas. Não brigar é uma escolha racional! Vamos reafirmar diariamente que somos um terra abençoada por Deus!!’

Vania Reis

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Na semana passada, especificamente no dia 12 desse mês, o governo do Estado do Espírito Santo assinou a Lei 11.610 de iniciativa do Deputado

Na semana passada, especificamente no dia 12 desse mês, o governo do Estado do Espírito Santo assinou a Lei 11.610 de iniciativa do Deputado Marcos Mansur que é também pastor instituindo o Estatuto da Liberdade Religiosa tendo por objetivo a implantação de uma cultura de paz. Esse Estatuto defende não apenas a liberdade religiosa, como também a liberdade de consciência e de pensamento nas esferas pública e privada, defendendo a separação entre religião e Estado. Trata-se de uma questão de maior importância nos tempos atuais no mundo todo e, de maneira especial, em nosso país.

A questão da liberdade religiosa, desde o século XVII, tem se tornado um tema complexo e desafiador, inclusive alguns conflitos armados ocorreram em função das lutas religiosas como a Guerra dos Trinta Anos. O cenário brasileiro nos últimos anos está mostrando um movimento crescente de ações, inclusive violentas, contra determinados grupos religiosos. Não apenas há destruição de bens e espaços sagrados, como agressões a membros de determinadas comunidades.

Conforme o professor pe. Luís Correa Lima da PUC-RJ, no Brasil são centenas de terreiros de umbanda e candomblé que foram destruídos ou invadidos com fiéis ameaçados de morte, ou tendo de mudar de residência, especialmente em áreas urbanas controladas por traficantes que se dizem “evangélicos”. São famosas suas pichações nas periferias com a frase “Jesus é o dono desse lugar”.

No século XVII, John Locke publicou a “Carta acerca da tolerância” demonstrando como é preciso distinguir claramente as esferas dos assuntos civis da esfera das ocupações religiosas e espirituais, impedindo que uma esfera não se intrometa na outra. A aliança entre fé e política que fincou raiz no século IV quando o Imperador Constantino impôs a religião cristã como oficial de todo o império produziu ao longo da história muitas coisas em nada agradáveis a Deus. E Locke nos diz que Deus não outorgou a nenhum homem o direito de impor ou obrigar outros homens a aceitarem sua religião. Ninguém pode crer por imposição de homem algum.

Nos dias atuais, especialmente no Brasil, essa aliança entre religião e Estado, espúria em termos de regramento constitucional, tem ocupado os espaços do poder em todas as instâncias, e em algumas câmaras de vereadores tem momentos que os senhores edis parecem mais obreiros das Igrejas que representantes da sociedade. Práticas crescentes de perseguição aos que não comungam com sua pauta político-religiosa é cada vez mais presente. E com essa prática cria-se um clima cada vez maior de intolerância religiosa implícita ou explicita, com atos de desrespeitos, discursos de ódio, atos de violência física ou verbal contra adeptos, destruição de objetos sagrados e arrombamentos de templos religiosos. A intolerância se inicia de maneira bem sutil, quase imperceptível, com recriminação de outras religiões ou Igrejas, falas preconceituosas e quando os limites vão desaparecendo o cenário torna-se muito perigoso. Então a convivência social torna-se impraticável.

O apoio religioso para essas práticas de intolerância conduzidas pelo poder político faz mais estragos ainda na convivência social, pois dá uma aparência de respaldo doutrinário. Locke então questiona essas lideranças religiosas que aderem ao exército de intolerantes e questiona: “Por que esses líderes religiosos intolerantes com os diferentes permitem que a fornicação, a fraude, a violência e outros vícios, os quais, segundo o Apóstolo (Rm 1) cheiram obviamente a paganismo, grassem desordenadamente entre sua própria gente?”. É um ato de profunda hipocrisia sustentar a fé diante desses vícios praticados pelos próprios membros e seus líderes religiosos. “São artimanhas opostas à glória de Deus, à pureza da Igreja e à salvação das almas”. Locke expõe ainda mais tal postura hipócrita dizendo que “o adultério, a fornicação, a impureza, a voluptuosidade, a idolatria são obras da carne e os que as praticam não herdarão o Reino de Deus (Gl 5). E conclui: ‘Somente a tolerância está de acordo com o Evangelho”.

No mundo atual é cada vez mais preocupante o crescimento da intolerância religiosa. Em alguns lugares já estão incluindo no código penal questões de ordem doutrinária com a prática da blasfêmia, a apostasia e o proselitismo. Os interesses religiosos fundamentalistas vão extrapolando as paredes da instituição religiosa colocando o Estado a seu serviço. Junto a isso, tem crescido imensamente a interpretação de textos sagrados como a Bíblia numa perspectiva intolerante. O fundamentalismo religioso alia-se então ao fundamentalismo político em prejuízo da sociedade democrática e livre.

No Estado do Espírito Santo a instituição do Estatuto nos chamou muito a atenção, pois é o reconhecimento político da realidade crescente de intolerância religiosa produzida inclusive por agentes políticos. Trata-se de mais um mecanismo para garantir a proteção indispensável a todos os cidadãos, religiosos ou não. A constatação política do crescimento da violência religiosa levou a Assembleia Legislativa a aprovar um Projeto de Lei que agora transforma-se em Estatuto de defesa da liberdade religiosa, de consciência e de pensamento na esfera pública e privada, mediante a promulgação do Governo do Estado.

Quando os mecanismos do diálogo escasseiam, torna-se necessária a Lei. Nesse aspecto, dá-se um grande passo na constituição da cidadania religiosa. O mesmo Estado que concede a defesa do direito, também deverá doravante garantir seu cumprimento. Nesse caso, os mecanismos institucionais como o aparato policial darão suporte necessário para que seja garantido o direito de se prestar culto à divindade que a pessoa desejar. Portanto, quem ultrapassar os limites da convivência pacífica praticando intolerância religiosa poderá ser penalizado de maneira rigorosa.

Por fim, a instituição do Estado da Liberdade Religiosa garante também o direito de se criar novas igrejas, implantar novas religiões ou trazer cultos que estejam ausentes na sociedade, porém garantindo sempre a separação entre Religião e Estado. Essa garantia só faz crescer o exercício da democracia fortalecendo os laços de paz de que tanto precisa o mundo atual. Outro filósofo, Voltaire, no século XVIII dizia que a filosofia desarmando as mãos havia feito avançar a sociedade de maneira crítica e responsável, contudo o espírito humano esgotou-se em sua liberdade sendo levado pelo fanatismo.

As duas grandes pragas do mundo contemporâneo são o fundamentalismo e o fanatismo. Até mesmo as escolas estão sofrendo em sua arte cotidiana de ensinar as pessoas a serem livres diante de posturas ultrapassadas na história da civilização defendidas por personagens que lutam apenas pelo direito particular. Somente o pensamento livre conduzido pela filosofia e ciências críticas e o direito poderão garantir o fortalecimento de uma cultura de paz. É dever do Estado democrático garantir esse movimento em prol da convivência tolerante e pacífica. O Papa Francisco nos diz de maneira lapidar: “Acredito que tanto a liberdade religiosa quanto a de expressão são direitos humanos fundamentais”.

Edebrande Cavalieri

É claro que essa pergunta é chocante. Quando damos os nomes corretos aos fatos, nos deparamos com a crueldade que a falta de limites

É claro que essa pergunta é chocante. Quando damos os nomes corretos aos fatos, nos deparamos com a crueldade que a falta de limites éticos e morais podem nos levar. Qual o limite que traçaremos nas situações fronteiriças da ética e da bioética, em especial? Onde será traçada a linha entre o que é moralmente legitimo e o que, não é? 

A frase choca porque é direta, sem esconder intenções.  Mas ela cabe quando estamos assistindo a um crescente movimento de banalização da vida humana. Temos nos confrontado com muitas questões que definem a própria visão que temos do que é o ser humano.

A defesa do aborto, da eutanásia, do suicídio assistido, das pesquisas antiéticas em seres humanos, do uso da tecnologia e da ciência na saúde que desconsidere a dignidade da vida humana e negam o seu valor, precisam ser enfrentadas de frente. Muitos tem dificuldades em traçar esse limite em questões como a de pesquisas com células-tronco fetais de abortos, para fabricação de vacinas, por exemplo. Um bem obtido de forma antiética não torna ético o resultado bom. Complicado. Os defensores apresentam argumentos que tentam esconder com palavras técnicas a efetiva ilegitimidade moral por trás dos atos que defendem.

Falamos semana passada sobre o aborto, mas o tema é amplo. Ao querer estudar clinicamente o aborto através de um acompanhamento via ultrassonografia, o renomado médico Dr. Bernard Nathanson que realizava abortos em milhares de mulheres americanas, se chocou a tal ponto com o que viu que sua posição pró-escolha ou pró-aborto, mudou radicalmente. Ao realizar o aborto com o acompanhamento da ultrassonografia o Dr. Nathanson constatou a luta do feto em defesa de sua vida e a chocante morte do feto de 11 semanas. O clássico documentário “The Silent Scream” (O grito silencioso) de 1984 mostra este estudo (https://www.youtube.com/watch?v=gkKip1C9Tj8) que não recomendo aos que são mais sensíveis.

Estudos científicos variados têm mostrado também que as consequências do aborto para a mulher também são pesadas. Mulheres que abortam são mais suscetíveis a câncer de mama, depressão, infertilidade e tem menor expectativa de vida.

A eutanásia, o suicídio assistido são outras práticas que têm sido defendidas e trazem também questões muito sérias. A pergunta do título aqui também se aplica. Idosos acamados, que exigem muito cuidados e sem possibilidade de regressão a um bom nível de saúde também poderão ser vítimas desta mesma visão ética. Não estou falando de cuidados paliativos! Entendam bem! Não estou falando de manter uma vida artificial por aparelhos. Estou falando de atitudes que defendem a eutanásia (quando a morte é decidida por familiares), ou suicídio assistido (quando decidido pelo próprio paciente).

Se não traçarmos a linha ética com clareza, vamos nos transformar em seres humanos indignos deste nome. Não, não posso matar uma pessoa que me desagrada, nem a que está no meu ventre, nem pelas minhas dores ou pela vida fragilizada de outro. Temos que falar com convicção cristã: daqui não podemos passar!!!

Vania Reis

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O Instituto de Pesquisa Datafolha está divulgando alguns dados de pesquisa do ciclo eleitoral 2022 que estão chamando muito a atenção da sociedade e

O Instituto de Pesquisa Datafolha está divulgando alguns dados de pesquisa do ciclo eleitoral 2022 que estão chamando muito a atenção da sociedade e em especial as lideranças religiosas. Como em 2020 não aconteceu o Censo do IBGE, esses novos dados servem para visualizarmos a dinâmica da sociedade brasileira no que se refere à questão religiosa. Especificamente um dado divulgado na semana passada mostra que os jovens entre 16 e 24 anos de São Paulo (30%) e Rio de Janeiro (34%) fazem parte do grupo dos “sem religião”, superando o percentual de jovens católicos e evangélicos que frequentam a Igreja.

Em âmbito nacional, chega a 25% o percentual de jovens sem religião. A evolução mostra que em 2000 o país tinha 7,30%, e em 2010 passou para 8%. Portanto, a evolução mais rápida se deu na última década. O que está acontecendo? Nos encontros com as diversas pastorais no Espírito Santo sempre registro a ausência quase completa de jovens.

Especificamente, em São Paulo e Rio de Janeiro há mais jovens que são sem religião que aqueles que frequentam as Igrejas. Então vem a questão: Por que os jovens brasileiros estão saindo das Igrejas? Estariam se tornando ateus? O que essa mudança nos mostra?

É preciso também considerar que entre jovens católicos mesmo não participando na Paróquia ou Comunidade Eclesial a pessoa se diz católica. Então, ao responder que não tem religião o jovem se considera ex-católico mesmo. No meio evangélico quem não frequenta a Igreja e não paga o dízimo deixa de pertencer àquela instituição.

É preciso destacar que esses jovens “sem religião” não são em sua maioria ateus ou agnósticos. São pessoas religiosas, possuem uma forte espiritualidade, contudo não mantém vínculos institucionais. São considerados “desigrejados” ou “desinstitucionalizados”. Consideram as Igrejas desnecessárias para sua vivência religiosa. O que está acontecendo na relação dos jovens com suas tradições eclesiais ou religiosas? Alguns pontos podem ser indicados para explicar o que vem acontecendo com os jovens de mais acentuada nesse novo milênio.

A cultura brasileira vem sofrendo profundas mudanças nos tempos atuais, principalmente decorrentes da passagem de uma sociedade rural para uma urbana. O Brasil tem mais de 80% de sua população vivendo em meio urbano. O desenvolvimento dos mecanismos de informação, de educação e a diminuição do peso das tradições familiares estão na base dessa transformação. Na idade entre 16 e 24 anos, é natural os jovens buscarem outras experiências de vida, abrir novos caminhos, deixando de seguir a religião da família como era costume no meio católico tradicional.

A quebra da hegemonia católica no Brasil e o crescimento das Igrejas evangélicas contribuíram para essa liberdade. Sair da Igreja não representa mais um risco, um pecado, uma heresia. Buscar outras experiências de espiritualidade faz parte desse movimento. Os pesquisadores tem observado esse fenômeno conhecido como “trânsito religioso” há bastante tempo e o novo tipo experiência religiosa é conhecido como de “bricolagem” que é um processo de juntar pedacinhos de cada tradição ou igreja e ir formando seu próprio caminho religioso.

Em si mesmo, essa dinâmica de mudança e busca de novos horizontes pode contribuir para que o jovem faça uma escolha mais consciente de uma determinada Igreja. Ou pode continuar fora de qualquer instituição religiosa produzindo sua própria síntese religiosa e espiritual. Não nos parece que o caminho mais forte seja aquele dos jovens europeus que abriram as portas para uma secularização descartando qualquer adesão espiritual mesmo fora das instituições.

A mentalidade presente entre os jovens brasileiros é de abrir a mente para a pluralidade religiosa e cultural em vista do respeito por todas as tradições religiosas, podendo inclusive dispor-se a experiências espirituais novas e diferentes, construindo outro modelo de religiosidade.

Tem atraído muito a atenção dos jovens a emergência das religiões afro-brasileiras em consonância com as lutas antirracismo e, principalmente os jovens cujos ancestrais sejam negros, tendem a buscar uma certa identidade de cultura e de raça nessas religiões, participando de cultos nos terreiros e cultivando relações espirituais com os orixás. Esse movimento para outras tradições culturais e religiões é ampliado para os campos das tradições indígenas e orientais.

Merece atenção o clima de reação que vem acontecendo nas Igrejas cristãs contra determinadas lideranças religiosas. Cresce um tipo de organização religiosa sem templos e sem poder religioso sacerdotal, formando as “igrejas orgânicas” ou “igrejas nos lares”. Essa reação tem ocorrido de maneira forte entre os jovens que já são contestadores por natureza nessa fase da vida. Assim acabam entrando em conflito com padres, pastores, lideranças eclesiais, por questões morais, comportamentais (posturas antiéticas), adesão a alianças políticas em vista do poder e interesses pessoais, e o modo como muitas instituições são conduzidas de maneira autoritária e sem transparência. Trata-se de uma reação à instituição, à igreja, levando os jovens a buscarem outros caminhos.

A religião enquanto fato social e cultural, especialmente na perspectiva eclesial institucional, está deixando de ter preponderância na vida das pessoas. O uso político das Igrejas está provocando mudanças ainda mais profundas na sociedade brasileira, inclusive dividindo famílias, comunidades, grupos religiosos. Essas divisões na base social provocam rejeição no meio juvenil. É bom lembrar que no campo evangélico do século XIX, enquanto as potências europeias guerreavam pelos territórios de colonização na África e Ásia, foram os jovens das Igrejas de missão que partiram para uma nova forma de experiência religiosa de cunho espiritual, rezando todos juntos. Nascia naquele momento o movimento ecumênico no seio do Cristianismo.

As consequências da adoção de pautas ultraconservadoras, a liberação de armas, o autoritarismo político, as políticas antiecológicas e anticientíficas como o negacionismo são ainda piores entre os jovens. São pontos que não combinam com sua maneira de viver, de ser, de pensar. Pode até votar em algum candidato que traz essas propostas, mas com certeza o jovem não dará um passo para entrar na igrejinha desse candidato ou do líder religioso que o apoia. A juventude tem como característica o espírito de liberdade e possui muita informação vinda dos estudos e das redes de comunicação e sociais. Quando a religião adota esse viés ultraconservador, a tendência é a evasão dos jovens de suas fileiras.

Então podemos dizer que a religião é uma entre tantas outras demandas da cultura que está disponível para a vivência dos jovens. Ele pode tanto estar se divertindo num barzinho, numa casa de show, ou num encontro religioso sem controle de autoridade alguma. Festas do tipo gospel tem atraído muitos jovens. Ao contrário, celebração de missas, cultos diários, práticas religiosas tradicionais, geralmente levam à indiferença. Os jovens diziam por ocasião do I Sínodo da Arquidiocese de Vitória em relação a sua participação na Missa: “É um tal de senta, levanta, que ninguém entende”. Por isso, diziam que não frequentavam a Celebração da Eucaristia.

As famílias também sofreram os impactos do mundo urbano e, geralmente, tornaram-se ambiente de muita liberdade para as escolhas religiosas. Uma senhora me dizia no I Sínodo Arquidiocesano de Vitória que na família dela tinha de tudo: católico, evangélico, pentecostal, espírita, umbanda, indiferente. O jovem do meio urbano sente um clima de grande liberdade para fazer suas escolhas, inclusive a religiosa.

Um fator que precisa ser analisado como maior profundidade em suas consequências e se relaciona com de tantas promessas feitas pelas lideranças com tantas curas, tanta prosperidade, tanta solução de problemas sociais e psicológicos. Isso seria garantiria de aderência e fidelidade entre as pessoas atraindo os jovens? Não há pesquisa comprovando isso ainda, mas nota-se aqui e ali um clima de decepção com promessas não cumpridas, curas não consumadas, problemas apenas adiados. No meio católico a religiosidade do povo é muito respeitada, contudo do ponto de vista institucional e histórico, a comprovação de milagres é algo conduzido por muito cuidado pelo Magistério da Igreja. O movimento pentecostal parece ter inflacionado os números de cura e libertação, de milagres e prosperidade. Geralmente, os jovens olham para tanta promessa com certo ar de ceticismo. A pandemia deu um duro golpe nas promessas de cura sem responsabilidade.

Por fim, cabe ressaltar um pouco o futuro perfil dessa juventude que vai se constituindo fora das Instituições eclesiásticas. Não nos parece que seu destino seria o ateísmo ou o agnosticismo. Ao contrário, tudo está indicando que teremos um conjunto de jovens com uma dinâmica religiosa mais livre, mais fluida, podendo inclusive elaborar um verdadeiro e novo sincretismo religioso. Pode acreditar em Deus e Jesus Cristo sem ter que frequentar uma Igreja. Há jovens que não encontram nenhuma dificuldade em ter crenças cristãs e também nas entidades da Umbanda ou Candomblé. A crença em energias disseminadas pelo universo é bem típica e natural dessa juventude. Não nos parece adequada a prática eclesiástica de expurgar tudo o que não se enquadra nos limites da Igreja. O tiro pode sair pela culatra. A demonização das entidades da Umbanda e do Candomblé pouco ou nada repercute no meio juvenil.

Acrescentando outro dado das pesquisas do ciclo eleitoral 2022 do Instituto Datafolha e aguardando a realização do novo Censo Demográfico do IBGE, o declínio de católicos continua crescendo e chega hoje, em 2022, a 49% dos entrevistados. Mas esse declínio não tem como correspondência o crescimento do segmento evangélico. Há dez anos atrás os evangélicos compunham 22% da população e hoje representam 26%. As Igrejas pentecostais e neopentecostais deixaram de ser novidade e sua aproximação com o poder político não representou crescimento. As demandas dessas Igrejas são imediatas e não podem ficar esperando ou dependendo da vontade política dos governantes. Quando a igreja vira partido político a tendência no meio juvenil, principalmente, é seu abandono. Isso explica também o crescimento da população geral “sem religião”, os desigrejados. A população adulta também está em êxodo eclesiástico, abandonando suas comunidades e formando pequenas comunidades nas casas.

Esses são alguns pontos de análise para entendermos um pouco o êxodo dos jovens de suas respectivas Igrejas, com destaque para São Paulo e Rio de Janeiro onde o número desses jovens supera o percentual tanto na Igreja Católica como nas Igrejas Evangélicas. Ou seja, tem mais jovem entre 16 e 24 anos sem religião que jovens católicos e evangélicos que frequentam suas Igrejas.

Edebrande Cavalieri

“O Senhor é a Palavra do Pai e o cristão é ‘filho da escuta’, chamado a viver com a Palavra de Deus ao alcance

“O Senhor é a Palavra do Pai e o cristão é ‘filho da escuta’, chamado a viver com a Palavra de Deus ao alcance da mão”. Essa afirmação foi proferida pelo Papa Francisco no segundo domingo de maio desse ano cujo Evangelho se refere a uma das imagens mais belas e ternas registradas por Jesus Cristo para mostrar como se dá a relação com Deus. A metáfora do “bom pastor” é profundamente significativa, mostrando toda preocupação de Deus com cada ovelha.

É bom também registrar que nessa metáfora se deduz que existem também pastores que não são bons ou completamente bons. São maus pastores. Aqui fica o desafio das ovelhas em reconhecer qual é o Bom Pastor para ser ouvido e seguido. Nenhum mau pastor traz escrito na testa o que ele é. Pode ser um lobo vestido de cordeiro.

O segundo desafio que se põe às ovelhas é como reconhecer a voz que chama: seria do bom ou do mau pastor? Uma diferença está naquilo que o Papa Francisco chama a atenção desde antes de ser escolhido pelo Colégio de Cardeais e se considera um grande mal na Igreja. Deus chama com a mediação de seus ministros. Porém, há aqueles que falam em nome de si mesmos, de maneira autorreferente. Todo ministro autêntico busca sempre chamar em nome de Deus. A iniciativa é sempre e toda de Deus. A comunhão a que somos chamados é com Deus e parte sempre da sua graça. Não é a lua que tem luz própria, mas o sol. A lua reflete sempre a luz do sol. Essa é a relação entre Deus e sua Igreja. Mistério da lua!

Como escutamos a voz do Bom Pastor? A voz de Deus? O mundo está congestionado de palavras. Informações de todos os lados. Notícias verdadeiras e muitas mentiras, muitas fake News. Onde encontraremos a voz de Deus? Como será que Deus se faz ouvir? Que atitudes a ovelha deveria ter para poder ouvir a voz do Pastor? Esse cenário é muito desafiador, confuso, e até desanimador algumas vezes. Imaginamos ouvir a voz do Senhor e nos enganamos, nos perdemos em tantos desvios, em tantos barulhos.

A atitude do ouvinte de Deus tem características bem marcantes. O Papa nos diz que a escuta do Bom Pastor requer disponibilidade, docilidade e tempo dedicado ao diálogo. Estar disponível é uma atitude de abertura completa e não apenas para algumas coisas. Além disso, a escuta requer eliminar a raiva, o ódio, a prepotência, a arrogância e outros males que a cultura atual tem incutido na mente e na vida das pessoas. A escuta de Deus requer uma purificação desses males, chegando ao que Francisco chama de docilidade. Também poderia ser a mansidão. E por fim, a disponibilidade para o diálogo. Francisco nos diz que se não soubermos ouvir o nosso irmão que vive ao nosso lado, convive conosco, com teto ou nas ruas, não teremos condições propícias para ouvir a voz de Deus.

Estamos sobrecarregados de palavras. Inflacionados. E temos muita pressa para estar sempre dizendo, falando, fazendo alguma coisa. Até parece que o silêncio seria a morte. Queremos curar nossas depressões com as palavras, falando pelos cotovelos. Adoecemos no barulho de nossas palavras. E pioramos ainda mais nos dias atuais produzindo palavras com nossos dedos, digitando desesperadamente nos celulares cada vez mais rapidamente. Esquecemos que há pessoas ao nosso lado, em torno da mesa, na própria casa. Estamos deixando de conviver com os presentes corporalmente, para falar com os dedos em grupos virtuais, nas redes sociais. Temos pavor do silêncio. Dormimos falando virtualmente, com o celular do nosso lado anunciando cada sinal de alguém distante na linha.

Então fica a pergunta: como essas ovelhas deixam espaço para Deus falar? Alguns dirão que indo à igreja aos domingos é que se deixa o Pastor chamar. Parece que as igrejas estão se transformando em “escutatório” único de nossas vidas. Deus nos chama em qualquer lugar, em qualquer horário. Na vida cotidiana Ele nos chama. Nas pastagens da vida é que encontramos o Bom Pastor. Muitas vezes, não são mais verdes pastagens, lindos rios. Tenho a impressão que estamos deixando Deus falando sozinho nas queimadas, nos desertos, nas ruas poluídas, nos rios desaparecidos, nos sem teto que moram nas ruas. Acreditamos que vamos encontrar Deus apenas em templos suntuosos.

O Pastor reconhece e conhece suas ovelhas. Nunca nos deixa sós. Contudo, o Papa questiona: “Eu me deixo ser conhecido pelo Senhor? Eu lhe abro espaço em minha vida, levo-lhe o que eu vivo?” Muitas vezes nos enganamos achando que estamos ouvindo a voz de Deus e na verdade estamos apenas ouvindo a nós mesmos. A perversidade humana impede o reconhecimento do outro, o reconhecimento de Deus, o reconhecimento do mundo. Vivemos juntos, amontoados nas cidades, nos prédios, mas vivemos sem os outros, sem Deus, sem o mundo.

Por fim, após ouvir a palavra do Bom Pastor, reconhecê-la, é preciso seguir. Quem escutar verdadeiramente e se descobrir verdadeiramente tem condições de seguir o Pastor. Seguir implica sempre ir para onde Ele for, na mesma direção, na mesma estrada. Muitos andam indicando desvios, atalhos, outros caminhos. E o Papa nos alerta mais uma vez: “Seguir significa interessar-se pelos que estão longe, carregar no coração a situação dos que sofrem, saber chorar com os que choram, estender a mão ao próximo, carregá-lo sobre os ombros”.

A Igreja do Brasil, através da CNBB, convoca os fiéis para a VI Semana Social Brasileira (2020-2023) com o tema Mutirão pela Vida: por Terra, Teto e Trabalho. Essa é uma convocação para toda a Igreja e se coloca de maneira concreta no contexto da reflexão trazida pelo Papa Francisco. O desafio atual é ouvir o grito da terra devastada, ouvir o grito de Deus nos rios poluídos, ouvir as pessoas que estão sem teto e perambulam pelas ruas; ouvir a voz dos milhões de desempregados ou subempregados. E nisso todos saberão que somos seus discípulos. Sem escutar a voz verdadeira do Pastor, a voz que clama a partir das periferias existenciais e geográficas, torna-se muito difícil esse reconhecimento de discípulos.

Edebrande Cavalieri

A maternidade é percebida como uma benção de Deus desde o início dos tempos. Filhos garantiam a sobrevivência da comunidade, garantiam a expansão do

A maternidade é percebida como uma benção de Deus desde o início dos tempos. Filhos garantiam a sobrevivência da comunidade, garantiam a expansão do poder dos clãs. Filhos davam reconhecimento social aos pais, eram prova de competência e levava aos pais o reconhecimento e a aprovação da sociedade.

Evidentemente essa mentalidade ainda está presente em nosso Brasil de tantas realidades. As vezes penso que nós condensamos simultaneamente todos os pensamentos dos tempos, de tão divergentes internamente que somos, mas…

Hoje o Brasil está entre os países de mais acentuada queda da taxa de fecundidade e consequentemente de natalidade. Na busca de suas conquistas, suas realizações, sua independência e sua inserção nesta população economicamente ativa, a mulher brasileira passou de uma média de 6 filhos em meados do século passado para o 1,7 de hoje. Muitas simplesmente não querem ter filhos. Filhos são o único vínculo para a vida toda e as gerações mais novas (abaixo dos 40 anos) temem muito ter vínculos. Se não gostam mais dos seus trabalhos, empregos, relacionamentos, círculos sociais… simplesmente descartam. Filhos geram compromissos para toda a vida e, o que mais temem as gerações atuais, são vínculos para sempre. Filhos exigem dos pais, minimamente amadurecidos, responsáveis, a renúncia ao prazer individual e egocentrado, para o bem-estar do outro. Trazem demandas fortes também no aspecto financeiro e assim comprometem anseios individuais ou do casal. Muitos não querem.

Quando os métodos anticonceptivos falham é triste ver que a vontade de não querer ter filhos (ou mais filhos) tem levado uma em cada cinco mulheres brasileiras à opção por abortar ao menos uma vez até chegar aos 40 anos.

No estudo longitudinal do Ministério da Saúde publicado em 2009, o perfil da mulher brasileira que aborta é predominantemente entre 20 e 29 anos, está em união estável, tem até oito anos de estudo, trabalha e tem, pelo menos, um filho. Em outro estudo mais recente (UNB,2016) esse perfil é confirmado, mas amplia a faixa etária para entre 18 e 39 anos e a escolaridade até com curso superior. Um outro estudo similar o total das mulheres que declarou já ter feito pelo menos um aborto: 64% são casadas, 81% são mães, 23% ganham até um salário mínimo, 31% de um a dois, 35% de dois a cinco e 11% recebem mais de cinco. Só a análise destes números nos mostra o quão irreais tem sido as justificativas apresentadas como plataforma para a aprovação do abroto. Fundamentalmente não parece ser a mulher fragilizada emocional, social ou economicamente que tem buscado o aborto.

Os dois estudos trazem ainda a chocante constatação de que ser católica é parte deste perfil de mulher que escolhe abortar e a religião não é impeditiva para o aborto: “56% dos casos registrados foram praticados por católicas e 25% por protestantes ou evangélicas”.

Fica a pergunta o que aconteceu com a consciência de nossos fiéis? O que aconteceu com o 5º Mandamento dos 78% desses cristãos que optaram por abortar seus bebês? Este mandamento exige respeito pela vida humana. Como a consciência destas mulheres lida com esse conflito religioso depois do aborto? Sei que este é um momento de muito sofrimento e que muitas confessam inúmeras vezes esse pecado e não se perdoam, mesmo o sacerdote as tenha perdoado. O peso psicológico e o religioso é muito grande.

A polarizada discussão sobre o direito de livre arbítrio da mulher sobre seu corpo ignora solenemente o direito à vida da criança, e quer deixar “mais fácil” esquecer o que o aborto realmente é: matar a criança no ventre materno. Muitos eufemismos são usados para disfarçar o trágico desta escolha. Não falam bebe no útero, falam em feto. Os defensores defendem o direito de abortar com “28 semanas” pois não tem coragem de falar que esse é o tempo de 6 meses de gestação. Sei, como psicóloga, como a grande maioria das mulheres que fizeram essa escolha, sofrem depois com as consequências emocionais e espirituais deste ato.

A discussão vai ser novamente aberta. Não podemos deixar de “dar nomes aos bois”. Não podemos deixar que meias palavras, eufemismos aplaquem a nossa consciência.

Escolhamos bem nossos representantes nestas eleições para que nossas consciências também possam estar em paz. Se ter um filho indesejado é penoso para todos ali envolvidos, vamos pensar em outras formas de enfrentamento. Sempre haverá soluções.

Vania Reis

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