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Analisando a dupla tragédia da menina de 11 anos de Santa Catarina, que aos 10 anos engravidou de um menino de 13 anos com

Analisando a dupla tragédia da menina de 11 anos de Santa Catarina, que aos 10 anos engravidou de um menino de 13 anos com quem tinha relações consensuais regulares. A juíza Joana Ribeiro Zimmer tentou inutilmente impedir a interrupção da gravidez considerando um homicídio a ação de tirar do útero um bebê que já podia sobreviver fora do útero (Certamente será perseguida por isso). O Ministério Público autorizou. Uma infeliz equipe de saúde assistiu essa morte de um bebê de quase sete meses de gestação.

Já falamos aqui do que verdadeiramente é, para o bebê no útero, a morte por esquartejamento que representa o aborto. Já falamos desta dor, mas não há como não falar da lógica que permitirá a reprodução desta tragédia.

A legislação brasileira não estabelece período máximo para a realização do aborto em caso de violência sexual. Mas cabe a pergunta houve violência sexual? Não, no plano real não. O sexo entre as duas crianças, uma de 12 ou 13 e outra de 10 anos (quando engravidou) ou 11 anos (quando abortou) eram consensuais, sem violência sexual. Então por que uma relação consensual pode ser considerada estupro? Porque para a Justiça a menina, menor de 14 anos, não tem o necessário discernimento para a prática do ato. E assim entendem que o ato sexual, mesmo consentido seria estupro. Essa á a nossa lei. Mas…. o menino, e provável pai, também é menor de 14 anos, então também foi estuprado pela menina! Certo? Evidente que sim! Porque ele também não teria “o necessário discernimento para a prática do ato”.

Estranho essa lógica, mas perante a lei esse é o único raciocínio cabível. Tanto ela quanto ele não tinham juridicamente a capacidade de discernir o que estavam fazendo. Os dois não podem ser responsabilizados. De outra forma os pais não podem ser responsabilizados pelos crimes dos filhos. Para nós, leigos, é fácil concluir pela lógica: quando há dois inocentes, não se pode em crime, nem em violência e nem em estupro. Graças a Deus não sou jurista e não tenho que entrar em discussão semântica. Só avalio do ponto de vista moral, e isso dói.

Um bebê foi morto pelo estardalhaço de uma mídia que não se preocupa com a verdade. Que condenou sem avaliar… como faz tantas vezes porque o que importa é o holofote. O poder da audiência.

Claro que esse caso ainda está se desenrolando e o cenário pode mudar, mas que sociedade é essa que no final ninguém será responsabilizado pela morte física de um inocente e pela destroçamento emocional que resultará da experiência que viveu essa criança de 11 anos.

Teremos eleições pela frente. Deputados que poderão formular e corrigir leis para agir nestas brechas amplas que tornam juridicamente legítimos crimes de aborto como este.

Se informe se seu candidato defende o aborto. Informe sobre seus valores. Isso você pode e deve fazer. Rezar também! E como estamos precisando de orações!

Vania Reis

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O silêncio é rompido toda vez que alguma atitude racista vem à tona no mundo e na sociedade brasileira, de maneira especial, já que

O silêncio é rompido toda vez que alguma atitude racista vem à tona no mundo e na sociedade brasileira, de maneira especial, já que fomos educados reafirmando uma democracia racial que é posição ideológica de dominação branca. Na semana passada, um comentário de um piloto brasileiro de Fórmula 1 referindo-se a Lewis Hamilton, grande campeão mundial dos tempos atuais desse mesmo esporte, como “neguinho”, repercutiu no mundo todo, provocando reações e ações de repúdio contra esse brasileiro. Sentimos vergonha, nojo!

Esse motivo imediato serve para refletirmos sobre o racismo e mais especificamente em sua relação com a religião cristã, com foco maior na Igreja Católica. Muitas vezes parece que temos medo ou vergonha de falar sobre isso na Igreja, e até mesmo na escola e na família. Mas nos ensinam as ciências da psiquê que o início da cura passa pela manifestação, pela fala, pelo dizer. O não dito preciso ser manifestado.

Em todo o período de colonização do Brasil os escravos não eram considerados pertencentes à população pobre, pois estavam sob a tutela dos seus senhores. Eram tratados como uma mercadoria ou instrumento de trabalho e produção. E assim fomos nos acostumando a tratar essa população de maneira discriminatória ao longo dos séculos. O Padre Antônio Vieira dizia que a vinda dos negros para o Brasil era um fato positivo, pois aqui eles encontraram a salvação de suas almas. Outros missionários estavam preocupados com a cor de suas almas, se eram brancas ou negras.

O século XXI tem mostrado a luta de várias instituições no combate ao racismo. Todos os cursos superiores, por exemplo, são obrigados por Lei a oferecer disciplinas que tratam das relações étnico-raciais envolvendo negros, pardos, mestiços e indígenas. Contudo, as expressões discriminatórias e racistas tem crescido entre nós, alimentadas principalmente pela influência de ideologias fascistas e nazistas que se organizam e vão penetrando nas redes sociais e nos grupos. Muitas lideranças políticas promovem atitudes extremamente racistas e discriminatórias. É preciso fazer crescer os mecanismos de vigilância e exclusão através do voto dessas pessoas. Elas fazem muito mal à sociedade. Há pouco tempo uma professora foi afastada de uma faculdade por incorrer em expressão racista em sala de aula. A sociedade começa a acordar? Esperamos que sim.

No ensino fundamental e médio, desde 2003, é obrigatório por lei o ensino de história e cultura africana e afro-brasileira, contudo a abordagem é quase sempre inadequada. Muitas vezes parece um cumprimento descompromissado da legislação. Nossos professores não estão bem preparados para, não apenas ensinar história da população africana, mas também de suas religiões.

Diante desse cenário crescente de racismo e discriminação racial no Brasil, algumas vezes nos questionamos sobre o silêncio que as Igrejas cristãs ainda mantem em relação a essa questão. Aqui gostaria de trazer a lembrança os incômodos que muitas lideranças católicas diante da Campanha da Fraternidade de 1988 que trazia como tema “Fraternidade e Povo Negro”, em vista do centenário da abolição da escravatura. Algumas dioceses decidiram nem levar a sério a Campanha da Fraternidade mantendo-se silenciosas sobre a questão do racismo.

Nesse incômodo com a questão racial perpassa a indiferença contra um racismo estrutural do próprio Estado penalizando de todas as formas a população negra. Segundo dados do Infopen do Ministério da Justiça o Brasil possui a quarta maior população carcerária do mundo com 61,7% dos detentos pretos e pardos, numa população brasileira composta de 53,63% nesse segmento social. Com ensino fundamental completo temos 75% desse total. Portanto, não apenas penalizam-se os negros e pardos com prisões, como também lhes nega o acesso aos bens da cultura e da educação.

Lembrava-se naquele momento da Campanha que até meados do século XX havia um impedimento de pessoas negras, mestiças e indígenas de ingressarem em ordens e congregações religiosas em plena igualdade de direitos com pessoas brancas. Em muitos espaços de convivência e formação religiosa é praticamente inexistente a presença de pessoas negras. Poderíamos perguntar-nos pela quantidade de padres, diáconos, bispos e seminaristas negros encontramos em nossas dioceses, paróquias, país. Não podemos esquecer também que há uma população indígena bem representativa em nosso Estado. Que lugar ocupam em nossas Igrejas? Quando se fala sobre isso parece que as pessoas acordam de um sonho, mas que para as populações discriminadas sempre foi um pesadelo essa exclusão. Onde estão os vocacionados negros, mestiços, pardos e indígenas?

Esse cenário nada cristão é formado historicamente, através de vários mecanismos ideológicos que vão incutindo representações e imagens, moldando práticas e direcionando ações concretas. Hoje eu gostaria de perguntar a cada comunidade, cada paróquia, como estão as práticas que representam certas cenas religiosas. Que pessoas são chamadas para representar as cenas religiosas, os ritos, as celebrações, as equipes de trabalho, os ministérios não ordenados?

Num cenário representando anjinhos, por exemplo, como é composto o grupo de crianças que ali irão representar? Que roupas utilizam? Ao perguntar isso corre-se o risco de sermos questionados pela fundamentação teológica e doutrinária a respeito da inserção de crianças negras, pardas, mestiças e indígenas nas diversas representações religiosas. As fotografias, as imagens, as cenas, não são neutras como muitos pensam. Elas induzem o imaginário das pessoas. Vão sendo interiorizados modelos e padrões. Não se nasce racista, mas uma pessoa racista provavelmente tem uma família que lhe serviu de base ideológica, ou uma escola ou até mesmo uma comunidade religiosa.

Até mesmo os brinquedos são instrumentalizados para a inculcação de elementos racistas, assim como a linguagem cotidiana das conversas de botecos e entre amigos. O que nos preocupa é a forma como elementos religiosos servem para incutir formas racistas de relações sociais, mediadas pela religião. Não é apenas nas bonecas (brancas) que reforçamos o racismo ideologicamente, mas também nos encontros de catequese, nas representações religiosas, nas brincadeiras (de mau gosto), nas expressões que parecem ingênuas, mas são verdadeiros punhais a transpassar os corações.

Ao mesmo tempo não há como manter aquelas brincadeiras conhecidas como “racismo recreativo”, que aparentemente não têm a intenção de ofender ou humilhar alguma pessoa em particular, com a alegação de que “somos todos iguais perante Deus”, mas fazem sofrer. Ninguém gosta daquelas brincadeiras com os cabelos! Não se trata de politizar esse tema, como algumas pessoas às vezes questionam, mas reconhecer como nos grupos dominantes há muita gente cruel com a Bíblia debaixo do braço.

Por fim, cabe ainda refletir a respeito do racismo religioso que ocorre nas relações com as religiões de matriz africana especialmente a Umbanda e o Candomblé. Mais do que uma intolerância contra as práticas religiosas dessas religiões é uma intolerância às camadas da população que lhes estão associadas. Trata-se de uma intolerância que é racismo.

A Conferência dos Bispos do Brasil publicou um documento em 2008 inserindo nas Pastorais Sociais a Pastoral Afro-Brasileira tendo por objetivo valorizar as características culturais dos afro-brasileiros, atuando nas necessidades e desafios sociais onde os negros estão expostos na sociedade enfrentando discriminação, preconceito, desigualdade, racismo, falta de oportunidade e estigmatização. Um dado muito importante que se torna um diferencial desse pastoral no Brasil é sua realização através do diálogo inter-religioso, favorecendo o respeito, o acolhimento e atenção para com a pessoa.

A luta contra o racismo, pelo que mostramos, deve perpassar as diversas instâncias da sociedade, principalmente os meios jurídicos na defesa dos direitos sociais, as instituições educacionais para a formação de uma nova sociedade pautada pelo respeito às diferenças e as instituições religiosas, todas as Igrejas, todas mesmo, sem exceção. Não é possível falar de um Deus verdadeiro que discrimina, que exclui, que não considera todas as pessoas com o mesmo nível de dignidade.

Edebrande Cavalieri

As mortes do ambientalista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips mais uma vez expõe ao mundo inteiro o drama da região amazônica. Na

As mortes do ambientalista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips mais uma vez expõe ao mundo inteiro o drama da região amazônica. Na verdade, trata-se de uma tragédia em diversos sentidos. O sangue de tantas pessoas, algumas poucas que cabem nos noticiários, mas a grande maioria apenas recebe uma simples cruz sobre a sepultura com os dizeres lapidais, continua a jorrar. Se antes escorria o leite das seringas para a fabricação de látex, agora escorre sangue por todos os lugares, fruto da ganância das mineradoras ilegais e queimadas criminosas.

Muitos defensores das políticas de destruição da Amazônia alegavam que a iniciativa do Papa Francisco de convocar um Sínodo da Igreja nessa região incorria em intromissão na soberania nacional. Contudo, os participantes dessa grande assembleia eclesial expressavam “uma profunda consciência da dramática situação de destruição […] com o desaparecimento do território e de seus habitantes […] com uma corrida desenfreada para a morte”. Bruno Pereira desde os 22 anos lutava contra a invasão dos territórios indígenas.

No Documento Final, os participantes do Sínodo em 2019 afirmam que a região amazônica “requer mudanças radicais de suma urgência e um novo direcionamento que permita salvá-la”. Temos quase sempre uma visão romântica da selva amazônica e da população que a habita.

O Documento Final do Sínodo da Amazônia ressalta a gravidade da situação com a “apropriação e privatização dos bens da natureza, com concessões florestais, entrada de madeireiras ilegais, caça e pesca predatórias, megaprojetos insustentáveis, contaminação causada pela indústria extrativista e lixões urbanos, doenças derivadas da contaminação das águas e do solo, narcotráfico, grupos armados ilegais formando grandes milícias, alcoolismo, violência contra a mulher, exploração sexual, tráfico humano, assassinatos de lideranças e defensores do território”.

Essa realidade não nasceu espontaneamente na região. Por traz dela estão os interesses econômicos e políticos dos setores dominantes da sociedade brasileira, com a cumplicidade de alguns governantes e algumas autoridades indígenas. Por trás de cada morte há uma razão profunda que remete ao interesse econômico e ao poder político. Tudo está interligado nos diz o Sínodo da Amazônica.

O Sínodo representou um forte movimento de escuta do clamor do território e do grito dos povos, e cabe à Igreja nesse momento de dor e martírio “fazer memória dos passos” de tantos que ali deixaram e entregaram suas vidas. Bruno Pereira e Dom Phillips não são os primeiros e nem serão os últimos mártires dessa região, pois a causa pela qual lutavam, como nos garante Santo Agostino, não difere da luta por um reino de Deus nesse mundo, de paz e solidariedade.

Por isso, durante o Sínodo foram feitos diversos momentos de espiritualidade com a Oração dos Mártires do Caminho: Vidas pela Vida, Vidas pelo Reino, Vidas pela Amazônia, com a lembrança de muitos que deram a vida nesse caminho como: Irmã Dorothy Stang, José Cláudio e Maria do Espírito Santo, Mons. Alejandro Labaka. Ir. Inês Arango, Ernesto Pill Parra, Pe. Alcides Idárraga, Pe. Rodolfo Lunkenbein e Simão Bororo, Pe. João Bosco Burnier, Frei Vicente Cañas, Edwin Chota, os Mártires do Massacre de Bágua, Pe, Raimundo Hermann, Sabino Romero, os Mártires do massacre de el Amparo, Alfredo Vracko, Pe. Ezequiel Ramin, Ir. Adelaide Molinari, Bernardino Racua, Giulio Rocca, Pe. Mauricio Marglio, Osvaldino Viana, Josimo Morais Tavares, Lázaro Condo, Chico Mendes, Ir. Cleusa C. Rody Coelho. O Sínodo designa-os como os seguidores de Jesus em sua paixão, morte e ressurreição gloriosa que viveram em meio a uma contradição acentuada e lutaram por uma ecologia integral na Amazônia e conclui: “Este Sínodo reconhece com admiração aqueles que lutam, com grande risco de vida, para defender a existência deste território”.

A esse grupo incluindo todos aqueles que não foram mencionados na história podem ser incluídos os nomes de Bruno Pereira e Dom Phillips que na região do Vale do Javari, segunda maior terra indígena do Brasil, entregaram seu sangue nos últimos dias. A luta de Bruno Pereira tem início ainda com 22 anos quando ingressou na Funai defendendo o território indígena contra invasores, principalmente garimpeiros e madeireiros ilegais. Trata-se de um dos maiores indigenistas do Brasil de todos os tempos e junto com ele estava o jornalista Dom Phillips, jornalista britânico que vivia no Brasil desde 2007, escrevendo sobre política, pobreza e desenvolvimento cultural.

Dom Phillips estava no Vale do Javari, junto com Bruno Pereira, apoiado pela Fundação Alícia Patterson com o objetivo de escrever um livro que seria concluído no final desse ano sobre as diversas questões que envolviam os problemas da região. Como se trata da segunda maior terra indígena do Brasil, os problemas maiores estavam relacionados com a atividade ilegal do tráfico de drogas, roubo de madeira e garimpo ilegal.

Trata-se de uma região de extrema gravidade na Amazônia. Ainda é de se destacar que Bruno Pereira, no governo atual, foi exonerado em 2019 do cargo de Coordenador Geral de Índios Isolados, mas continuou assessorando a União dos Povos Indígenas do Vale do Javari. A causa dessas mortes não pode ser buscada em atos isolados, de cunho pessoal, de algum matador de aluguel. Os interesses presentes na região nos remetem a um esquema organizado para deixar o caminho livre para a devastação cultural, ambiental e populacional. Trata-se de um caso grave de pecado presente nessas terras que a Igreja não pode fingir de não lhe afetar.

Diante desse quadro desolador, de mortes, corrupção, descaso governamental, bem descrito na escuta sinodal por ocasião do Sínodo da Amazônia, fica a questão a ser respondida por cada cristão: isso tudo não nos afeta? Como Igreja cada cristão é chamado a uma conversão pastoral. Uma Igreja missionária em saída exige que o caminhar pastoral navegue através dos rios, nos lagos, no meio do povo, pisando no chão duro. Sem esse cheiro de mata e água, de poeira e fumaça das queimadas, de povo, a Igreja definha e se perde na própria imagem autorreferente. Os rios com suas águas devem nos unir e não nos matar e nos separar. Diz-nos o Documento Final do Sínodo: “Nossa conversão pastoral será samaritana, em diálogo, acompanhando pessoas com rostos concretos de indígenas, de camponeses, de afrodescendentes (quilombolas), de migrantes, de jovens e de habitantes das cidades”.

A Igreja, conforme o Documento Final do Sínodo, faz a opção de compromisso na defesa da vida em sua integralidade, estando ao lado das comunidades indígenas respeitando seus valores e tradições, na defesa e preservação dos rios e florestas que são espaços sagrados, fonte de vida e sabedoria. Além disso, a Igreja se compromete na defesa de tantos que corajosamente defendem a vida em todas as suas formas e etapas, como no caso atual são Bruno Pereira e Dom Phillips. O serviço pastoral central da Igreja constitui um serviço à vida plena dos povos indígenas para frear as situações de pecado, as estruturas de morte, a violência e as injustiças internas e externas e a promover o diálogo intercultural, inter-religioso e ecumênico. Sozinhos não chegamos a lugar nenhuma.

Por fim, a Igreja sempre deverá ser capaz da interpelação profética fazendo-se voz da terra e dos povos em seu grito de dor, com seu sangue derramado. Uma Igreja que se cala diante de tantas mortes não será semente de novos cristãos como se dizia no antigo império romano com o martírio dos cristãos. Além de ser um grito profético contra toda forma de morte e injustiça, também será uma mensagem de esperança para cada pessoa Amazônia, para cada centímetro de terra daquela região, para cada árvores e cada rio.

Segundo a CNBB, as mortes de Bruno Pereira e Dom Phillps integram a lista de dramas vividos na região amazônica expressos pelo Papa Francisco na Exortação Apostólica Querida Amazônia. “Os interesses colonizadores que, legal e ilegalmente, fizeram – e fazem – aumentar o corte de madeira e a indústria mineradora e que foram expulsando e encurralando os povos indígenas, ribeirinhos e afrodescendentes provocam um clamor que brada aos céus”. Diante de nós está o sonho por uma Amazônia que lute pelos direitos dos mais pobres, dos povos nativos, dos últimos, de modo que a sua voz seja ouvida e sua dignidade promovida, que preserve a riqueza cultural e o ambiente em sua integralidade.

As vozes proféticas de Bruno Pereira e Dom Phillips se unem a tantos mártires e ecoam em nossas comunidades eclesiais: estamos ouvindo esses gritos de dor? Estamos ouvindo esses pedidos de ajuda? Ou estamos ouvindo vozes que nos levam à alienação da realidade. É preciso tomar muito cuidado com quem deturpa a Palavra de Deus nas terras amazônicas, especialmente determinados líderes religiosos, para se satisfazerem em sua ganância e cobiça, aliando-se ao poder explorador e assassino. Então nos diz o Senhor Deus: “A voz do sangue do teu irmão clama a mim desde a terra” [do Vale do Javari].

Edebrande Cavalieri

“Assim também a fé, se não tiver as obras, é morta em si mesma.” (Tiago 2, 17) Estamos vivendo um momento mundial muito crítico
Assim também a fé, se não tiver as obras, é morta em si mesma.” (Tiago 2, 17)

Estamos vivendo um momento mundial muito crítico que afeta a todos. Pelas previsões uma nova longa crise econômica e social já está acontecendo mundo a fora. A guerra na Ucrânia, o embargo à Rússia e a consequente disparada do preço das commodities tem levado a nossa velha conhecida inflação, ao mundo todo. Com a alta taxas de juros os banco centrais mundiais, como o nosso também, tentam desacelerar mais ainda suas economias para conter a inflação e a previsão é de uma economia mundial em recessão.

A queda brusca da oferta de energia e de alimentos é consequência da guerra na Ucrânia e dos embargos à Rússia. O mundo globalizado traz isso. O que acontece em um país que muitos desconheciam pode levar a fome para muitos países afetando diretamente, em especial os mais pobres.

Um exemplo dado no Fórum Mundial em Davos, citado pela CNN deixa clara essa interconexão: “…se a Rússia interrompe o fornecimento de fertilizantes, cai a produção de soja no Brasil, os porcos na China comem menos ração que contém soja e haverá menor oferta de proteína animal”. Sabemos o que acontece com a queda da oferta: a subida dos preços. Essa dinâmica é cruel para os mais pobres.

Não é uma consequência do governo brasileiro. Claro que vão politizar isso, mas estudo IPEA mostra que isso não é novo. Em 2013 20,5% da população urbana estava em insegurança alimentar no Brasil. Em 2018 subiu para 35,1% dos brasileiros urbanos e 46,4% na população rural. O estudo mostra que em 2018 (antes da pandemia), “um quinto das famílias em domicílios rurais e urbanos se encontrava em insegurança alimentar moderada ou grave”. Assim posto vamos esquecer a “guerra” política que assistiremos aqui no Brasil, de a quem responsabilizar por essa realidade porque o concreto, o real é que já estávamos vivendo uma situação de fome intolerável e que fatores externos agravaram e, pior que isso, agravará mais ainda a fome no mundo todo e evidentemente no Brasil. Não é hora de retórica.

É hora de superar as diferenças políticas e ajudar a quem está passando fome. Não podemos como cristãos esperar que governantes externos ou internos apareçam com soluções paliativas ou não. Está na hora de procurar sua paróquia e organizar grupos de distribuição de comida aos carentes. É hora da caridade. É hora da misericórdia. Muitos passam fome e muitos estão com medo de passar.

Vania Reis

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Há poucos dias o Papa Francisco trouxe uma passagem do Livro do Eclesiástico, capítulo 28, também conhecido como Livro de Sirac (nome reconhecido como

Há poucos dias o Papa Francisco trouxe uma passagem do Livro do Eclesiástico, capítulo 28, também conhecido como Livro de Sirac (nome reconhecido como quem compôs o livro bíblico), realçando a grande atualidade dessa mensagem. Reconhece o Pontífice as grandes feridas do mundo atual em que o ódio tem levado tantas pessoas à morte. Porém, não está falando apenas das mortes nas guerras entre nações, mas também das mortes nas relações humanas.

O primeiro versículo desse capítulo inicia-se de maneira muito clara: “Quem se vinga sofrerá a vingança do Senhor, que severamente lhe pedirá contas de seus pecados”. E alerta sobre a importância do perdão; quem guarda rancor, como pretende ser curado por Deus?! Sem usar de misericórdia com o outro, como espera ser perdoado dos próprios pecados?

O texto bíblico ainda recomenda que cada pessoa fique longe das discussões, pois ali é a ocasião para o pecado. Nas discussões os homens ficam raivosos com muitos atiçando as brigas. Quem vive da bondade irá semear bondade, mas quem é pecador irá provocar discórdias entre amigos e desavença entre os que vivem em paz. Pois, “quanto mais lenha, tanto mais arde o fogo”, assinala o versículo 10 do mesmo texto bíblico.

O furor de um homem depende sempre de sua força, e se estiver armado, atingirá a briga violenta derramando sangue. O risco de se liberar armas em meio do povo está exatamente nessas circunstâncias. A cólera e a raiva sempre serão proporcionais a sua força e estando armado o homem se sente um super herói, imbatível. O argumento da legítima defesa para justificar o uso de armas é falacioso e sem base técnica que o justifique. Quanto mais armas em meio ao povo, mais violência e mais mortes, e grande parte delas cairá nas mãos de quem não poderia ter armas, os próprios criminosos.

As recomendações de Sirac não param por aí. Aquele que difama o outro, o que é falso e mentiroso, todos devem ser amaldiçoados, porque eles arruínam o ambiente de quem vive em paz. A língua intrometida esvazia uma comunidade, uma nação, destrói cidades inteiras devastando tudo.

Entre nós, com o crescimento das fake News, podemos comprovar como esse ensinamento é tão verdadeiro nos dias atuais. A mentira é o grande pecado dos homens de hoje. E quem der atenção a essa onda de mentiras jamais encontrará descanso ou tranquilidade em sua própria casa. Também ali será vítima da língua intrometida.

As vítimas das línguas maldosas são em maior número. Feliz quem se protege da língua mentirosa e intrometida e não se expõe a seu furor. A morte que ela provoca é medonha, terrível. Quebra os ossos. Somente os homens fiéis vencerão e não serão queimados por sua chama. Mas os homens que abandonam o Senhor cairão nas armadilhas violentas da mentira, da língua intrometida. Então serão destruídos pela própria mentira, pela própria língua, pela própria fake News. Então, “pese na balança as palavras que cada um diz e feche a boca com porta de ferrolho”. Enfim, cuidado para não tropeçar na própria língua, é maior do que se imagina, para não cair diante de quem está a sua espreita, aguardando o seu menor descuido para lhe moer os ossos violentamente.

A reflexão do Papa Francisco segue esse mesmo caminho descrito no texto sagrado dizendo que cada um de nós estará em um caixão um dia. Iremos levar o ódio para a sepultura? Então, “pare de odiar”, pois o ressentimento não levará a lugar nenhum. Apenas nos destruirá em nossa convivência; destruirá nossa paz. Em um mundo tão marcado por guerras e conflitos, a multiplicação das palavras de ódio aumenta ainda mais nossa infelicidade, os perigos se tornam ainda maiores para todos. Em qualquer esquina podemos encontrar alguém que nos espreita para a vingança, tirando nossa vida.

Em nosso país vimos como tem crescido as palavras de ódio, as mentiras, as calúnias, tendo sido criado inclusive um espaço de governo para destilar o ódio como ferramenta de poder político. Essas práticas foram semeadas pelas estradas do dia a dia, contaminando grupos de amigos, ambientes de trabalhos, e até mesmo as comunidades eclesiais. O Papa nos alerta dizendo que a humanidade corre ainda mais riscos quando as palavras de ódio forem proferidas pelos poderosos, pelos que governam. E governantes poderosos poderão apertar os botões errados se estiverem repletos daquela raiva que é alimentada por palavras inflamatórias e difamatórias.

Não podemos achar normal uma prática política que alimenta o fogo do ódio, da desavença, da mentira. A semeadura do ódio precisa ser estancada, barrada, secada, para que o mundo alcance paz; para que os grupos e as famílias tenham paz. O ódio está destruindo lares, destruindo salas de aula, comunidades eclesiais. As redes sociais tornaram-se uma grande fogueira. O que deveria contribuir para o congraçamento entre as pessoas, a convivência mais rápida, tornou-se espaço que dilacera vidas, destrói reputações, divide grupos. O ódio destilado nas redes não é coisa de Deus. As redes deveriam servir para conectar os homens e não para destruir ou matar as pessoas.

De nada adiante aquela oração toda majestosa feita nos templos mostrando contrição e devoção pedindo ao Senhor que perdoe nossas ofensas como nós perdoamos a quem nos ofendeu. Nossa prostração diante do altar é pura hipocrisia se destilamos ódio permanente nas redes sociais, nas conversas em grupos, nas comunidades. Se os cristãos brasileiros nesse ano continuarem semeando ódio e violência, destruindo as pessoas com mentiras e fake News nas redes, de nada valerá pedir ao Senhor que nos perdoe. “Pare de odiar e difamar!”

Edebrande Cavalieri

Temos assistido a tantos confrontos de versões, narrativas e “verdades” e vendo muitos se perderem em conclusões precipitadas. Sabemos que muitas vezes as pessoas

Temos assistido a tantos confrontos de versões, narrativas e “verdades” e vendo muitos se perderem em conclusões precipitadas. Sabemos que muitas vezes as pessoas estão apenas se apoiando em suposições, pressupostos e até crenças que não correspondem aos fatos e os dados. Conclusões assim feitas distorcem a realidade para se ajustarem a crenças prévias e, evidentemente, acabam gerando conflitos.

Muitos poderiam evitar esses desgastes das conclusões incorretas desmontando o raciocínio que leva a conclusões distanciados do real. Como? Quando você desafia as conclusões de outras pessoas, precisa ter certeza de que o raciocínio delas e o seu, estão firmemente baseados nos fatos e nos dados, pois assim os dois podem “subir juntos” o que o conhecido psicólogo americano Cris Argyris chamou de a “Escada da Inferência”. Essa “ferramenta” busca uma visão compartilhada da realidade e, usada de forma correta, ajudaria muitos de nós a superar esses embates descabidos. Vamos ver como é isso.

Argyris nos possibilitou perceber que as pessoas têm “mapas mentais” que são guias que as direcionam nas tomadas de decisão. Peter Senge, aluno do Argyris e autor do clássico livro “A Quinta Disciplina”, nos possibilitou colocar em prática o conceito teórico do Pensamento Sistêmico de Argyris. Nosso cérebro enfrenta, simultaneamente, 100 Milhões de Instruções Computacionais (MIPS) por segundo com sua enorme condição de processar informação, e quando precisamos tomar uma decisão, as vezes temos apenas poucos segundos. No caminho entre a organização do pensamento e a tomada de decisão, o cérebro percorre muitos caminhos. Começa considerando todas as alternativas, depois analisa e avalia dificuldades e possibilidades e, por fim, toma a decisão, se deparando o tempo todo com as variáveis emocionais envolvidas, pois já sabemos que o emocional é muito mais determinante que o racional na tomada da decisão. Então, nosso cérebro precisando analisar todas essas informações, em tão pouco tempo, o que ele faz? Ele se utiliza de “mapas mentais”. O que é isto?

Ao longo da vida seu cérebro foi interpretando as suas experiências vividas e moldando a forma de você ver e agir no mundo. Esse resultado, em termos simples, é o seu “mapa mental”. Assim fazendo o cérebro “corta caminho” na tomada de decisão e consegue decidir rapidamente, naquela situação determinada, baseado nas suas escolhas e experiencias passadas, sem precisar muito esforço. Mas, o que muitas vezes acontece é que esse mapa mental está sem as referências diante de uma situação desconhecida, ou o seu tempo de análise é muito curto fazendo você “pular” etapas da análise ou ainda a análise está de alguma forma desajustada por nossas emoções, por exemplo.

O processo de formação de uma opinião passa por etapas sucessivas: primeiro minha mente precisa observar a realidade em torno, a partir disto selecionar a informação concreta que preciso (aqui eu posso selecionar só uma parte da informação, não ver o contexto todo e posso, assim, começar a desfigurar a minha escolha). Depois que selecionei preciso dar significados, dar sentido (cultural e/ou pessoal) às informações que percebi e selecionei. Nesta etapa também acontecem muitas distorções pois a informação passa por filtros emocionais. Em seguida, faço suposições e pressupostos baseadas nos significados que absorvi. Nesta etapa a distorção pode ficar grande pois as conclusões que tiro, baseadas nas etapas anteriores, podem estar baseadas em pressupostos frágeis, estão sem sustentação. Tendo a minha opinião formada, eu aos poucos vou reforçando essas convicções e adotando crenças sobre o mundo e agindo de acordo com minhas crenças.

O que podemos fazer para sair destas distorções e compartilhar uma visão sistêmica saindo do conflito e ampliando minha percepção da realidade? Argyris nos mostra como “descer” junto com a pessoa “a escada da inferência” analisando a questão divergente. Em um momento vocês vão juntos perceber onde o raciocínio perdeu a sustentação e, juntos, conseguirão “subir “de novo a “escada”.

Veja na tabela abaixo. Na primeira coluna está o número do “degrau” da hipotética da escada. Na segunda coluna estão as etapas ou degraus desta “escada”. Leia na tabela, de baixo para cima (do 1º ao 7º degrau). Pense em uma decisão que você tomou ou precisa tomar e vai respondendo primeiro as perguntas da terceira coluna “ Reflexões 1º plano” (mude a conjugação do verbo se necessário) e depois reflita sobre a quarta e última coluna e veja. ao final, como a sua visão está muito mais ampliada

Degraus da escada

ESCADA DA INFERÊNCIA

REFLEXÕES 1º PLANO

ABRINDO O LEQUE

7º degrau

Ajo

Por que escolhi agir assim?

Existem outras ações que eu deveria/poderia ter considerado?

6º degrau

Adoto crenças

Que crenças me levaram a essa ação?

Foi bem fundamentada? Que outras crenças você poderia fundamentar suas ações?

5º degrau

Tiro conclusões

Por que eu cheguei a essa conclusão?

A conclusão é lógica? Poderia haver outras?

4º degrau

Crio pressupostos ou faço suposições baseadas nos significados que absorvi

O que estou assumindo quando faço essa suposição e por quê?

As minhas suposições são válidas? Poderiam ter outras?

3º degrau

Dou significados (culturais e pessoais) ao que percebi

Como interpretei o que percebi

Poderiam ter outros significados?

2º degrau

Seleciono os fatos a partir do que eu observo (entre os fatos e dados do primeiro degrau)

Quais fatos ou dados escolhi usar e por quê?

Eu selecionei dados com rigor? Deixei algo de fora? Deixei de ver algo?

1º degrau

Fatos e dados

(realidade objetiva)

Quais são os fatos que eu deveria estar usando?

Existem outros fatos que devo considerar? Estão completos?

Esse exercício pode lhe permitir observar as suas tendências diante de decisões. Você poderá, assim, aprender a fazer esse estágio de raciocínio com cuidado extra no futuro. Experimente explicar seu raciocínio para um amigo que pense diferente. Perceba se seus argumentos são sólidos, veja que degrau você está pulando ou deixando o outro pular. Exercite essa subida ou desça a “escada” com o outro. Desçam juntos. Isso irá ampliar as suas habilidades e ajudar a outros a chegarem a uma conclusão compartilhada, e a superar conflitos.

Vania Reis

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A pandemia da Covid-19 trouxe algumas demandas centrais para a sociedade brasileira, chegando bem antes da efetivação de políticas públicas, especialmente relativas à educação,

A pandemia da Covid-19 trouxe algumas demandas centrais para a sociedade brasileira, chegando bem antes da efetivação de políticas públicas, especialmente relativas à educação, saúde e alimentação. A Igreja Católica unida a outras Igrejas cristãs e até religiões não cristãs arregaçaram as mangas com diversas campanhas para o enfrentamento da fome assistindo famílias com cestas básicas. Era bonito ver os bancos das Igrejas repletos de cestas básicas.

Ao mesmo tempo, a Igreja incentivou cristãos e beneficiários da campanha para fortalecerem o movimento em prol de políticas públicas, reveladas em sua fragilidade na chegada da pandemia. Completando a mesma campanha está o movimento em torno da formação e espiritualidade, objetivando alargar consciências em vista da compreensão de que o auxílio emergencial com a entrega de cestas básicas envolvendo os grupos e paróquias necessita de uma visão crítica com um conhecimento sistematizado que leve as ações solidárias bem além da dimensão caritativa.

Tem início assim no dia 04 de junho, sábado, o terceiro bloco de formação tratando em perspectiva história da “Igreja e os desafios da ação social no contexto brasileiro”. Todo o processo formativo deverá preencher uma carga horária de 60 horas, sendo quatro horas em cada sábado, conforme cronograma programado pelo Vicariato para a Ação Social, Política e Econômica. Entende o grupo que conduz essa campanha que é preciso não apenas levar cestas básicas, mas ter consciência e conhecimento para ajudar as pessoas na tomada de consciência sobre os novos passos nos territórios em que se inserem as famílias e comunidades empobrecidas.

Trata-se de uma formação para o fortalecimento das ações emergenciais, mas também de experiência mística com uma espiritualidade mais enraizada na realidade e envolvimento político de fortalecimento dos agentes potencializando sua ação. Um dos objetivos da formação ora proposta é a compreensão do papel histórico da Igreja Católica na transformação da sociedade brasileira e o papel dos cristãos nas lutas por mudanças locais e globais.

Ao longo da história do catolicismo brasileiro esses três eixos foram sempre os maiores desafios. Ações emergenciais têm tido relativo êxito face à grande sensibilidade social. O empenho caritativo esteve presente desde os inícios de nossa história. Como se constituíram a espiritualidade desenvolvida entre nós e o empenho na transformação das realidades dos empobrecidos?

O catolicismo que chega ao Brasil em 1500 com os portugueses está atrelado aos compromissos políticos estabelecidos entre a Igreja Católica e o governo português, conhecido como Padroado. Essa aliança decorria do avanço da Reforma Protestante pelos países europeus. Nesse sentido, Portugal e Espanha com suas colônias preservaram seus Estados na penetração do movimento reformador europeu.

Em razão disso, quem conduzia a Igreja no Brasil era a monarquia portuguesa. Assim as necessidades pastorais eram determinadas pela conjuntura política e não pelo apelo missionário de cunho evangélico. Por isso, os ciclos econômicos (pau-brasil, açúcar, outro e mineração, São Francisco e Amazonas) determinam verdadeiros ciclos missionários. A Igreja fica presa em sua ação pastoral e a serviço do desenvolvimento colonial.

Sabendo que a Igreja sempre contém em si mesma a função de mistério de salvação, nota-se que muitos missionários exerceram seu trabalho evangelizador quase sempre desvinculados da instituição; iam percorrendo o território nacional pregando, ensinando a rezar, testemunhando uma vida ao lado dos empobrecidos.

Também é preciso reconhecer o trabalho evangelizador dos eremitas como Pedro Palácios aqui no Espírito Santo. Evangelizava com o testemunho de pobreza, rezando o terço com os mais pobres da sociedade, evangelizando com a própria vida. Mas também temos que reconhecer o grande papel dos catequistas, dos rezadores, do povo simples que procurava servir a Deus em suas devoções. Dizia-se que era um catolicismo de “muita reza, pouca missa, muito santo, pouco padre”. Até hoje temos um catolicismo marcado por devoções, por peregrinações, promessas, por festas em santuários como o da Penha.

O Padroado aprisionou a Igreja do Brasil até os tempos da República. Em razão disso, pouco ou nenhum envolvimento institucional em relação à situação dos negros escravizados. Entendiam que a vinda dos negros para o Brasil significava a oportunidade que eles estavam tendo para serem batizados e alcançarem a salvação. Entendia-se também que o cuidado dos escravos estava sob a responsabilidade dos seus senhores e a Igreja deveria cuidar dos pobres da sociedade, não negros.

Os tempos republicanos estiveram diante de inúmeros desafios, contudo a Igreja manteve-se como uma grande instituição presente de maneira hegemônica na sociedade brasileira. Os ventos da renovação pastoral na questão social começam com o pontificado do Papa João XXIII. Ele mesmo faz um grande apelo aos governos para que resolvam os graves e múltiplos problemas de caráter civil, social e econômico. Através da Encíclica Mater et Magistra o Papa faz uma convocação dos fieis para a grande tarefa no campo social, considerada pela CNBB como “oportuníssima para o caso especial do Brasil”.

Essa Encíclica deu um vigoroso impulso à linha de compromisso social da Igreja do Brasil com o engajamento em questões como a reforma agrária, a sindicalização rural e a educação de base no campo. A Igreja do Brasil vai tomando autoconsciência do seu papel na sociedade brasileira. Até hoje esse caminho é muito difícil.

Por fim, gostaria de mencionar as principais orientações da Cartilha das Pastorais Sociais publicada pela CNBB convocando a Igreja para ser presença testemunhal, ser alerta em forma de denúncia a respeito da existência dos diversos submundos na sociedade, e ser uma ação social na forma de serviço que multiplica as atividades de conscientização, organização e transformação que levam à conversão pessoal que leve às mudanças concretas da ordem social, econômica e política. A cartilha ainda recomenda uma articulação com as demais Igrejas cristãs e não cristãs, com as forças vivas da sociedade que contribuem para transformar a sociedade.

A Campanha Paz e Pão dessa forma busca integrar a solidariedade da doação de cestas básicas, a espiritualidade que alimenta a fé e a caridade, e a formação para ação de transformação das estruturas de injustiça que são causadoras da fome em nossa sociedade. Dessa forma, a Campanha convoca toda a sociedade e em especial os cristãos para a luta pelo direito, a defesa das políticas públicas e a saciedade do povo que está com fome.

Edebrande Cavalieri

Estamos às vésperas da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos que se realizará entre os dias 29 de maio e 05 de junho,

Estamos às vésperas da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos que se realizará entre os dias 29 de maio e 05 de junho, incluindo no dia 12 de junho uma Caminhada pela Paz. Trata-se de um movimento que deveria envolver todas as comunidades cristãs. Por que rezar pela unidade?

O Papa Francisco nos lança de imediato a pergunta: você reza pela unidade dos cristãos? E alerta aos bispos que todos estão a serviço não de uma unidade externa, de uma uniformidade, mas do mistério de comunhão que é a Igreja em Cristo e no Espírito Santo, como corpo vivo, como povo que caminha na história e para além da própria história.

A realidade da divisão das Igrejas impede um testemunho maior em favor da Paz, da Justiça e do cuidado com a Terra. O Papa João XXIII convocou o Concílio Vaticano II tendo como um dos objetivos abrir a Igreja Católica à unidade. O documento do Concílio, aprovado pelos bispos do mundo inteiro, nos assevera que “A divisão dos cristãos é um obstáculo para a missão da Igreja”.

Hoje vemos como o mundo carece de paz e enquanto os cristãos não aprenderem a dialogar entre si e com as demais religiões o mundo não terá paz. Enquanto as Igrejas cristãs não dialogarem entre si, não se unirem orando ao Pai pela unidade, impossível pensar no diálogo entre as religiões tão diferentes presentes no mundo.

A unidade não é unanimismo, não é concordar a todo custo. É o respeito pela pessoa, pelo rosto do outro especialmente dos pobres, pequenos e excluídos. A unidade é um Dom e deve ser vivida sem anular a diversidade. Ignorar as divisões cristãs acaba alimentando o terreno dos conflitos e das intolerâncias. Diz-nos o Papa que “hoje para um cristão não é possível, não é viável, ir sozinho com a própria confissão. Ou vamos juntos, todas as confissões fraternais, ou não caminhamos”.

O caminho da fé implica a companhia de irmãos e irmãs de outras igrejas ou comunidades eclesiais. Podíamos nos perguntar sobre o que impede as comunidades cristãs daqui de Vitória realizarem uma caminhada pela paz. Só nos falta vontade. Nada mais. Tem hora que parece que tememos perder nossa fé se estivermos do lado do nosso irmão de outra confessionalidade.

Jesus Cristo orou pela unidade e por ela deu a própria vida. Se permanecermos em seu amor produziremos muitos frutos. São um grande escândalo as divisões entre os fiéis. Através da unidade e orando por ela, unida na intenção da paz e da reconciliação construiremos um mundo de paz. As feridas que aconteceram ao longo da história precisam ser curadas e o momento de oração é propício para sanar as dores.

A oração de Jesus pela unidade acontece um pouco antes de sua Paixão. Jesus não fez um longo discurso para convencer seus discípulos a respeito do benefício da unidade. Não se trata de uma estratégia de organização institucional de modo a levar a todos a participarem de um encontro ou assembleia. Ao rezarmos pela unidade, todos os cristãos hão de reconhecer que não somos suficientes, onde uns são mais salvos que os outros. Infelizmente, até no interior de algumas comunidades tem pessoas que se acham mais salvas que os irmãos que frequentam o mesmo espaço celebrativo. Nossa força não nos garante sucesso sozinhos. Devemos rezar pela unidade para que Deus nos garanta como um dom, como uma graça. É isso que pedimos a Deus.

O desafio da unidade está presente em cada momento de nossa vida, em nosso entorno, em nós mesmos. Temos a inclinação a nos dividir, indecisos, contraditórios. As divisões ocorrem em cada momento, na família e nos povos. Os tempos atuais acham que tudo se resolve no grito, na ameaça, na posse de uma arma. Nada se resolve com o medo, com a vingança e o ódio. Que cristãos são aqueles que elevaram armas no mundo e ali pediram a bênção de Deus? Até líderes religiosos empunharam armas. A unidade pedida a Deus na oração se une com o pedido da paz, da reconciliação. A leitura da Bíblia deveria servir sempre para que os homens cristãos semeassem a paz e a reconciliação e não ser usada para condenação moral ou dominação entre os povos.

O Papa nos pergunta de maneira direta: “Rezo pela unidade?” Podemos confessar e reconhecer que rezamos muito pouco pela unidade. A unidade que se inicia em nós mesmos e do nosso lado deve servir concretamente – “para que o mundo creia”. Bons argumentos, belos discursos, belas homilias, não servem para convencer ninguém. A fé não decorre do convencimento argumentativo. Somente se tivermos testemunhado o amor que nos une e nos aproxima uns dos outros podemos ter a certeza que o mundo irá acreditar.

O momento atual com a guerra entre Rússia e Ucrânia e que envolve o mundo questiona as Igrejas pelo que fizeram ou ainda podem fazer para contribuir para o desenvolvimento de uma comunidade mundial, que leve à formação de uma fraternidade de povos e nações que vivem na amizade social? O Papa nos alerta de que é o diabo que nos tenta a partir de nossas fraquezas, ampliando os erros e defeitos dos outros, semeando a discórdia a qualquer preço, inclusive com fake News, provoca a crítica e cria divisão.

O caminho de Deus é totalmente diferente, pois nos impele para a unidade. O caminho de Deus não combina com o processo de armamento na sociedade e nas nações. Deus nos ama desarmados, pobres, humildes. As duas únicas armas para se crescer na unidade são a oração e o amor. Nada mais! Nesses tempos de tantas mentiras, tantas fofocas, pode ser que muitos cristãos estejam a serviço do diabo, falando mal dos outros, alimentando o conflito e dividindo a comunidade cristã, a família, os amigos, o mundo. Somente o Espírito é que nos impele para a unidade.

O Papa Francisco então nos mostra o caminho da unidade de maneira bem simples. Amando a Cristo vamos superando os preconceitos e passamos a ver nos outros um irmão, uma irmã a amar para sempre. “Deste modo descobriremos que os cristãos de outras confissões, com as suas tradições, com a sua história, são dons de Deus, são dons presentes nos territórios das nossas comunidades diocesanas e paroquiais. Comecemos a rezar por eles e, se possível, com eles”. Rezar com os outros é uma das experiências mais ricas da vida de fé.

Nunca esqueço o dia que na UFES conseguimos rezar como ação de graças entre diversas comunidades religiosas como católicos, protestantes, espíritas, muçulmano, judeu. Após aquela oração, feita de mãos dadas, e concluída com o abraço selando o desejo de paz, a sensação em cada um de nós era de profundo sentimento de proximidade e respeito em nossas diferenças. O Concílio Vaticano II nos recorda que a oração é a alma de todo movimento ecumênico.

Somos peregrinos da paz nesse mundo, na diversidade de nossas tradições e confissões, somos peregrinos no caminho da unidade plena. Somos peregrinos no caminho da comunhão e assim seremos testemunhas do amor de Cristo. Dessa forma podemos celebrar bem melhor a semana de oração pela unidade dos cristãos pedindo ao Senhor que nos conceda essa graça e nos fortaleça no caminho da paz. Caminhemos juntos!

Edebrande Cavalieri