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Nesta série de artigos falando do futuro de nossos filhos para enfrentar a próxima onda de desenvolvimento, “a revolução de talentos” com as transformações

Nesta série de artigos falando do futuro de nossos filhos para enfrentar a próxima onda de desenvolvimento, “a revolução de talentos” com as transformações que estão por vir, vimos que são quatro os “pilares” que tornarão nossos filhos preparados para enfrentar os desafios atuais e os que estão por vir: o pilar mental, o emocional, o social e o espiritual.

Vimos como era bem mais fácil, educar filhos até o início da década de 60 do século passado. O mundo era simples, reinava a lógica de Newton (Física Clássica): se eu soltar essa maçã ela cairá no chão (se eu estudar conseguirei um bom emprego!). Pais tinham autoridade, a religião católica não era perseguida e os valores cristãos e a família eram centrais em nossa sociedade. Precisamos compreender o que aconteceu, quando tudo isso está sendo tão atacado para podermos nos fortalecer e resgatar o “centro” de nossas vidas e nos preparar de forma segura a enfrentar um mundo totalmente “desconstruído”. Depois deste artigo de base teremos condições de seguir pelo “pilar” social e o espiritual, necessidades básicas do ser humano.

Vamos lá buscar entender as linhas mestras desta transformação com fatos e dados históricos (sabendo que muitos aspectos serão deixados de lado nesta síntese). Para tanto usaremos a metáfora de “Fazer um Bolo” para tornar fácil a digestão desta realidade. Imaginemos então na nossa cozinha:

PRIMEIRA ETAPA: A PREPARAÇÃO

Acenda o fogo da soberba e ganância: e olhe para o seu ambiente para saber o que você tem a sua frente.

Cenário: As principais nações do mundo ambicionavam expandir ao máximo suas influências territoriais surgindo crescentes tensões políticas e econômicas que explodiram na Primeira Guerra Mundial. Esta guerra foi tão cruel que ao final crianças lutavam. O número de mortos foi estrondoso e marcou profundamente essa geração e seus filhos (nossos avós ou bisavós hoje). No meio desta guerra a Rússia abandona a guerra, declarada pelo Czar Nicolau II, pois suas crises sociais e econômicas eram grandes e seus jovens fazem à Revolução Socialista em 1917. Os problemas que o mundo pós-guerra enfrentava levou o autoritarismo a ser visto como solução política para as crises e vários ditadores surgiram em todo mundo. Na mesma ganância pela expansão territorial, aconteceu, poucos anos depois, na Segunda Guerra Mundial com suas terríveis consequências.

SEGUNDA ETAPA: MISTURE OS INGREDIENTES SECOS

PRIMEIRO INGREDIENTE: As ideias de Engels e Marx e seus seguidores hoje:

Estas reduziram a análise da sociedade apenas aos pontos de vista histórico, político e econômico objetivando a substituição do capitalismo pelo comunismo. Provocam o conflito entre classes visando a transformação primeiro pelas classes – patrão x operário –trazendo o surgimento dos sindicatos muito fortes, no passado.

Neste ingrediente temos o primeiro ataque de Marx: “A religião é o ópio do povo” e por isso teria que ser combatida. Para Marx tudo se resume à matéria, Deus não existe, tudo é invenção para dominar o povo. O Estado deve controlar tudo. A educação dos filhos é direito exclusivo do Estado. Os cristãos que não aceitavam renegar a fé eram mortos ou perseguidos. Combatem todas as estruturas (supraestruturas) que organizam o mundo: a religião, a filosofia, o direito e a família

SEGUNDO INGREDIENTE: As ideias de Gramsci e seus seguidores

Com o capitalismo moderno e a queda do muro de Berlim, Gramsci (o intelectual orgânico da esquerda) entende que a luta de classes não é suficiente para agregar forças para a revolução pretendida e, assim, a confrontação ideal teria que ser mais sutil. Com a força de outros pensadores reafirma que “não existe a verdade”, que “o mundo é irracional”, que Deus não existe e que “não há ordem natural das coisas” (se afirmassem ao contrário teriam que chegar a Deus). Para eles basta a ideologia fanaticamente defendida e incutida por dentro, sutilmente, nestas estruturas acima para a transformação desejada. Assim é importante ver que “Conhecerei a Verdade e a Verdade vos libertará” (Jo 8,32) é para a esquerda uma afronta à sua ideologia.

MODO DE FAZER O BOLO:

Misture os dois ingredientes acima e seus primeiros desdobramentos: a modernidade liquida descrita por Zygmundt Bauman (semana que vem falaremos deste “líquido” essencial para que o bolo que estamos fazendo possa crescer).

PREPARAR A MASSA

A revolução começou muito suavemente e seu terreno mais fértil foi a educação. De forme sutil essa foi e é a “arma” ideal do processo socializador da “revolução” de Gramsci, onde verdade e ideologia são igualadas: “verdade não é um fato lógico, mas político”. Não existe o certo ou errado, existe o oportuno. Se tal posição é oportuna agora para atingir os objetivos (socialista ou comunistas), então o faço, ou o digo. A coerência é com “a causa” que defendem e não com a verdade. Não existe mentira, existe estratégia necessária. Não existe fraude, existe tática desta guerra. Tudo é válido, mas só para o lado de quem está defendendo a causa revolucionária. A mesma ação aceita por quem defende o ideário comunista ou socialista vira fonte de denúncia se é a causa burguesa a beneficiária. Assim com o tempo essa forma de pensar virou a estrutura do pensamento da esquerda na mente do indivíduo comum e assim fica quase impossível argumentar com ele em defesa das ideais antes quase universalmente aceitas. Isso se dá porque o fato que está sendo discutido não é passível de passar pela peneira da lógica. Apenas pela da política.

Essa massa tem que ser batida bem usando um marketing imenso, de maneira que fique politicamente incorreto qualquer discordância!

Este “fermento” foi “inoculado” até na nossa Igreja. Em vários seminários apareceram defensores da Teologia da Libertação já condenados pelos papas João Paulo II, Bento XIV e Francisco por sua aproximação com o marxismo, mesmo assim essa aproximação se mantém em muitos e “solou parte do bolo” tirando muitos sacerdotes do verdadeiro caminho cristão. A hierarquia e a autoridade foram atacadas assim como os cristãos que estão sendo perseguidos, também, pelos de fora especialmente por comunistas e terroristas islâmicos: “O número de cristãos perseguidos no mundo é de 150 milhões” por ano. Outras estatísticas mostram que “80 por cento dos atos de perseguição religiosa no mundo são contra cristãos”. O Centro para o Estudo do Cristianismo Global traz a média de cem mil cristãos mortos, a cada ano, por sua fé ao longo da última década 

A família foi atacada sutil e diariamente pela força midiática da televisão (já dominadas). Seus valores, hábitos e estruturas se liquefizeram. A mesma desconstrução pode ser vista, com facilidade, na Filosofia, no Direito ou outras estruturas organizadoras.

O BOLO ESTÁ PRONTO PARA ASSAR

Prepare o recheio: O recheio são as ideais de Freud, Nietsche e os adeptos da “Nova Era”. Mas desta parte do bolo falaremos semana que vem. Segue abaixo os links dos outros artigos desta série, caso queira acompanhar.

Vânia Reis

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Educando filhos em tempos difíceis

OS QUATRO PILARES DO DESENVOLVIMENTO SAUDÁVEL

Nessa semana o Papa Francisco retoma suas viagens internacionais, mesmo em cadeira de rodas, com um gesto idêntico ao que fez São João Paulo

Nessa semana o Papa Francisco retoma suas viagens internacionais, mesmo em cadeira de rodas, com um gesto idêntico ao que fez São João Paulo II em 2000 quando pediu um ato de coragem e humildade em vista da purificação da memória diante das faltas que foram cometidas por pessoas que levavam o nome de cristãos, e por Bento XVI em 2010 quando apontou a necessidade penitencial decorrente da gravidade dos abusos de menores.

Agora o Papa Francisco procede o roteiro penitencial tendo em vista as vítimas das “Escolas Residenciais” que totalizavam 139, administradas por diversas ordens religiosas católicas, Igreja Anglicana, Igreja Presbiteriana e Igreja Metodista no Canadá que tinham por objetivos nos dois séculos passados, XIX e XX, utilizando métodos de instrução e educação através de duras disciplinas, separar crianças e jovens indígenas de suas famílias, em condições precárias de saúde, má alimentação, rigidez e com a dureza de métodos pedagógicos. Tratava-se de eliminação da identidade cultural e espiritual das crianças formando uma nova sociedade integrada ao mundo cultural branco, cristão.

Essas “escolas residenciais” eram financiadas pelo governo do Canadá e administradas pelas Igrejas e tinham por objetivo a “integração” das crianças indígenas. Segundo o antropólogo Eric Simons “os danos causados pelo sistema de Escolas Residenciais Indígenas, a violência individual e sistêmica, persistem no presente. O trauma é intergeracional, e as paisagens indígenas deste país estão povoadas por sepulturas de crianças desaparecidas”. Trata-se de um complexo problema que envolve num grande escândalo o governo canadense e as Igrejas Cristãs.

Uma “patologia teológica” serviu de base para justificar a adoção desses métodos educativos. As centenas de mortes em sepulturas não identificadas demonstram um cenário obscuro e vergonhoso. Por outro lado, cabe perguntar por que esse cenário foi mantido até 1996 quando foi fechada a última escola residencial? Por que uma escola desse tipo foi montada na Ilha Kuper presenciando dezenas de crianças mortas tentando fugir pelo mar daquele lugar?

Hoje temos os povos indígenas daquele país buscando o reconhecimento dos danos que foram feitos nos internatos administrados por católicos e o Papa Francisco, num esforço extraordinário indo ao encontro para pedir perdão. Trata-se de um processo de reconciliação nada fácil. Como compreender o papel e o objetivo do governo canadense patrocinando essas escolas residenciais? Que crenças e práticas contribuíram para que a Igreja desse seu aval nessa empreitada educativa conhecida agora como uma “tragédia” ou um “genocídio”?

O caminho de reconciliação apontado pelo Papa Francisco nessa viagem e que deve servir de exemplo para todos os católicos daquele país e do mundo começa pela escuta da experiência daqueles alunos indígenas que sobreviveram bem como ouvir suas famílias. Além disso, há que se ter coragem para aceitar os desafios contínuos para a expiação do pecado cometido.

O projeto político do governo canadense ao longo desses dois séculos era integrar as crianças indígenas para que tivessem o máximo da influência dos pais retirada. Portanto, era preciso afastar as crianças das famílias e colocá-las nessas escolas industriais de treinamento central, um verdadeiro campo de internato “educativo”. Ali elas deveriam adquirir os hábitos e os modos do pensamento dos homens brancos. Também recebiam nessas escolas uma educação cristã que expurgava de sua experiência religiosa os rituais espirituais culturais e nativos de seus povos indígenas.

Se isso não bastasse, as condições sanitárias e de alimentação completavam o quadro de horror. Os prédios eram de péssimas condições, com péssima ventilação, com alimentação precária e com pouco ou nenhum cuidado de saúde. Tuberculose, varíola, sarampo e gripe tomavam conta dos espaços “educativos”.

A Igreja católica através de algumas ordens religiosas não está sozinha nesse cenário macabro, porém era a maior responsável por quase 130 escolas. Já foram feitos diversos pedidos de desculpas nos últimos anos. O Papa João Paulo II foi o primeiro a fazer isso em 1984 quando visitou o Canadá. O papa Bento XVI desculpou-se perante indígenas que foram ao Vaticano em 2009. E o Papa Francisco por duas vezes pediu desculpas: em 2018 quando esteve na Irlanda e em 2021 que recebeu uma delegação de anciãos.

O quadro atual mostra que esses pedidos de desculpas parecem não serem suficientes. Talvez seja necessário ir mais a fundo com investigações rigorosas para se saber qual o grau de cumplicidade das ações cristãs dessas Igrejas na educação dada nessas escolas. Conhecimento investigativo e avaliação crítica são parte desse caminho. Sendo uma peregrinação penitencial, trata-se de reconhecimento do pecado cometido.

Um parêntese nesse fato precisa ser feito, para que não nos achemos melhores que todo mundo. É preciso ter cuidado com as “teologias patológicas” que são produzidas ao longo da história. Hoje temos presenciado o crescimento desse desvio em alguns “doutores” em teologia, que pregam como se suas palavras representassem as palavras da salvação. Só para citar um exemplo de “teologia patológica”, em 1455, o Papa Nicolau V promulgou a “Doutrina do Descobrimento”, segundo a qual nenhuma terra descoberta seria alguma coisa se não fosse nomeada e ocupada por cristãos, com o privilégio europeu no coração da Igreja. Ainda mais: essa doutrina resguardava à Igreja de qualquer pecado, pois ela se constitui como santa, não podendo pecar. Por outro lado, o Papa Paulo III em 1.537 advertia que os índios que estavam sendo descobertos pelos cristãos não deveriam de forma alguma ser privados de sua liberdade e da posse de seus bens, mesmo que não tivessem a fé de Jesus Cristo.

Segundo alguns testemunhos dessa história recente, o governo canadense pagava muito mal para a manutenção cristã dessas escolas. Se de um lado temos a grande preocupação do Papa Francisco, herdeiro dos ideais missionários da Companhia de Jesus, com o nó histórico do colonialismo e à mistura adulterada entre evangelização e espoliação das culturas originárias, por outro lado é preciso não amenizar o papel político exercido pela cultura branca através do governo canadense. Sem uma investigação autônoma internacional mediada e conduzida pela ONU dificilmente virá à tona as falcatruas envolvendo aquela monstruosidade educativa.

As escolas industriais residenciais foram implantadas como projeto de governo contido no Ato Indígena de 1876, tornando obrigatória a educação nessas escolas de todas as crianças indígenas. Ao todo foram obrigadas à internação em torno de 150.000 crianças, em escolas construídas o mais longe possível de suas residências, para que se limitassem as visitas dos familiares. Era um projeto compulsório de educação indígena. Muitos dados que poderiam comprovar as práticas adotadas foram destruídos, inclusive o número de mortes. Poderia estar entre 3.200 a 30.000 mortes. Muitas sepulturas estão envoltas no anonimato, outras tantas nem foram ainda encontradas.

Internamente no Canadá foi criada a Comissão de Verdade e Reconciliação para investigar a verdade sobre essas escolas, reunindo até o momento mais de 7.000 declarações de sobreviventes. Em 2015 essa Comissão transformou-se na criação do Centro Nacional para a Verdade e Reconciliação, concluindo que aquele sistema educacional equivaleu a um “genocídio cultural”. Em 2021, milhares de sepulturas não identificadas foram descobertas, e muitas atrocidades ainda poderão vir à tona.

A viagem do Papa Francisco como peregrinação penitencial ao Canadá não apenas chama para um pedido de desculpas, mas clama pela verdade histórica que dói. Dói muito para o mundo cristão. Muitos não gostam de ver a verdade, e preferem se preocupar com as vestimentas litúrgicas e as doutrinas contidas no catecismo. Ainda hoje há muitas pessoas que trabalhavam nessas escolas. Onde estariam? Investiram tantas forças com a intenção sincera de servir ao Evangelho e às populações indígenas e agora são condenadas aos esconderijos da história. Nem sempre as críticas e as generalizações são justas. Essas pessoas também sofrem muito desse percurso feito, acreditando que estariam a serviço do Evangelho. A patologia religiosa subverteu a verdadeira fé.

Temos então um preço penitencial que deverá servir para a purificação da Igreja, pois em muitos lugares há práticas semelhantes não condizentes com o Evangelho. “Voltes e não peques mais”. É muito fácil montarmos um tribunal na história para condenar as pessoas do passado, como se nos dias que se seguem fossem as mil maravilhas. Temos “marcha para Jesus” seguindo com carro exibindo arma. Qual a diferença? Ainda tem processos educativos violentos em curso, práticas penitenciais e de autoflagelação estranhas ao Evangelho. A peregrinação penitencial não nos isenta da penitência comum. Somos corresponsáveis pelo pecado histórico, sempre. Precisamos exames de consciência bem sinceros para que nossa penitência seja purificadora, redentora.

Edebrande Cavalieri

Foto capa: Vaticano News

Educar nossos filhos até a metade do século passado era algo extremamente simples.  Um mundo estável, previsível com valores e conceitos partilhados por todos.

Educar nossos filhos até a metade do século passado era algo extremamente simples.  Um mundo estável, previsível com valores e conceitos partilhados por todos. O certo era certo e o errado era errado. Simples. Um mundo onde o papel dos pais era ensinar aos filhos “o bom caminho”, caminho esse que era visível e previsível, mas…veio a revolução tecnológica e o mundo digital “apagou” as estradas e tirou muita coisa fora do lugar, ou seja, perdemos o caminho. Os físicos como Einstein e centenas de outros cientistas mudaram a realidade mostrando um mundo onde existem inúmeras possibilidades e a lógica binária não é mais soberana. Pensadores de várias áreas surgiram e interferiram na formação da nossa sociedade com suas teorias e ideias, algumas equivocadas, outras geniais, mas o fato é que nosso mundo mudou. Como disse acima “apagaram” o caminho seguro para nós e para a educação dos filhos.

Evidentemente nossa educação cristã é um grande esteio e dá suporte, mas como estamos fazendo uma série de artigos falando do futuro de nossos filhos para enfrentar a próxima onda de desenvolvimento, “a revolução de talentos” com as transformações que estão por vir, precisamos ir além do “pilar” espiritual. Como falamos semana passada, além do pilar mental, o “pilar” emocional é extremamente importante nesta construção. É ele que dá estabilidade aos demais. O desenvolvimento emocional só acontece de forma plena com a força do amor que a criança experimenta em seu cotidiano.

Amo meu filho quando o abraço, quando o acolho, quando o protejo, mas também amo meu filho quando eu o solto, quando não o protejo em determinadas situações, quando eu exijo que ele enfrente uma realidade que ele é capaz de enfrentar, quando zango com ele para seu melhor desenvolvimento e quando espero pacientemente o tempo dele quando é preciso.

Amo meu filho quando o beijo, quando me interesso pelas coisas dele, quando faço o que vai lhe agradar, mas também quando o coloco de castigo, quando eu o faço analisar melhor as situações, quando o ajudo a assumir seus erros assim como quando eu assumo meus erros e minhas falhas para ele quando as cometo.

Meu filho precisa aprender a lidar bem com as suas emoções básicas (a raiva, a tristeza, o medo, a zanga, o nojo, a surpresa, e a felicidade) assim como com as que ele aprende e integrar à sua memória pelas experiências que vive, como por exemplo o ciúme, o orgulho, a vergonha, a admiração e a culpa.

Quando penso no meu bem-estar posso ficar com preguiça de chamar a atenção de meu filho e não estou amando, nem cuidando dele como é meu dever, mas quando deixo meu descanso ou momento de prazer para ajudá-lo a lidar melhor com suas dificuldades ou suas emoções, eu amo meu filho e o ajudo a “canalizar” produtivamente a energia que essas emoções liberam para que ele supere suas dificuldades, sem criar outras.

É difícil educar bem os filhos hoje? Sem dúvida não é fácil!  Cada idade tem suas exigências e exige de nós pais novas habilidades.  A interação com os colegas, as habilidades sociais são outros desafios. Mas estas veremos semana que vem.

De qualquer forma, é preciso lembrar sempre a regra que ajuda muito: o equilíbrio é o segredo e o amor precisa permear todas as suas ações. Se você estiver tumultuado, com raiva… ou de alguma forma sem condições de agir com amor, se afaste, dá um tempo e depois quando estiver com calma retome seu lugar de pai ou mãe no sentido pleno da palavra.

Se depois seu filho adulto reclamar que você errou, não se angustie, muitos de nós pais fazemos tudo para acertar e depois percebemos que mesmo assim erramos!  Não é nossa falta, algo passou desapercebido o que é fácil acontecer quando não há caminhos trilhados. E, se isso acontecer, apenas olhe carinhosamente para seu filho ou filha e diga: desculpe, fiz o melhor que pude!

Vania Reis

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A fase diocesana do Sínodo dos Bispos com o Papa a ser realizado em 2023 chega ao final com a elaboração da síntese da

A fase diocesana do Sínodo dos Bispos com o Papa a ser realizado em 2023 chega ao final com a elaboração da síntese da caminhada feita. Dom Dario recebeu-a das mãos da equipe responsável pelo trabalho de registrar os principais passos dessa caminhada, mostrando as dificuldades e os desafios que estão pela frente, principalmente para a Igreja local de Vitória. Essa síntese será enviada à CNBB. O eco da caminhada de cada comunidade que participou desse momento vai ressoar em 2023 em Roma.

Alguns pontos de nossa caminhada podem ser mostrados e refletidos. Depois o Conselho Pastoral da Arquidiocese dará os encaminhamentos necessários para que cada comunidade possa ter um retorno do que aconteceu nesse tempo de escuta sinodal. Há uma recomendação da Igreja para que essa síntese seja tornada pública depois de elaborada, servindo como pedra de toque para o percurso da diocese ao longo do caminho sinodal. Cada comunidade não pode se sentir como alguém que responde um ofício burocraticamente para ficar livre de responsabilidade. Ao contrário, deveria sentir-se em comunhão com toda a Igreja, participando da caminhada eclesial para uma Igreja em saída missionária.

Depois da leitura de todo o material vindo de 66 paróquias e de algumas participações individuais podemos registrar algumas percepções que marcam nossa Igreja particular. Havia apenas uma pergunta ou questão fundamental que era: “Como é este caminho em conjunto na comunidade, na paróquia e na Arquidiocese? Que passos é que o Espírito nos convida a dar para crescermos no nosso caminhar junto?”. As demais questões eram apenas horizontes temáticos que poderíamos contemplar sem necessidade de atender a todos.

Um dos pontos que mais foi apontado como passo a ser dado é a formação. No I Sínodo Arquidiocesano concluído em 24 de agosto de 209, há treze anos também era forte o clamor vindo da escuta sinodal por mais formação em todos os níveis. O que fizemos de lá até agora em termos de formação? Não está sendo oferecida? Na escuta atual apareceu de maneira intensa na maioria absoluta das comunidades e se refere à necessidade de formação em todos os níveis.

Considerando que em 2007, na V Conferência Episcopal de Aparecida do Norte esse tema apareceu de maneira contundente e o que repercutiu das comunidades e paróquias de nossa Arquidiocese agora, somos levados a acreditar que não temos outra opção a não ser proceder mudanças profundas naquilo que estamos fazendo em termos de formação. A tendência é crescer essa demanda por formação e não sendo atendidas, as pessoas irão buscar em outros lugares, outras Igrejas.

Nem mesmo os seminaristas que estudam filosofia e teologia escaparam dessa necessidade. A eles juntamente com os padres foi indicada a necessidade de formação para a sinodalidade, para a caminhada em conjunto. Ninguém questiona a qualidade dos estudos filosóficos e teológicos, mas sim a formação para que cada futuro padre possa caminhar em comunhão e de maneira sinodal. Talvez esteja aqui um bom critério para a ordenação dos padres e diáconos dessa Igreja local.

A necessidade de formação apontada pelas respostas não sinaliza que seja dirigida prioritariamente àquelas pessoas afastadas ou que chegaram agora na Igreja. Na verdade, na mesma perspectiva sinalizada aos seminaristas, padres e diáconos, a formação dos leigos apontada pelas paróquias coloca os dirigentes, as equipes, as pastorais, os movimentos, como os destinatários prioritários dessa formação. Não se trata de conhecimento de conteúdo ou informações, ou normas. Trata-se de uma formação para a vida sinodal, para a caminhada conjunta, pois muitos se acham “donos da comunidade”.

O Documento de Aparecida (2007) aponta dois grandes desafios para a Igreja de hoje no Continente Latino-americano: a iniquidade social com o agravamento dos problemas sociais e a erosão do catolicismo que vai levando aos poucos ao enfraquecimento da Igreja Católica. Parece-me que esses desafios não somente permanecem, mas tornaram-se ainda mais graves. Penso que a questão da formação precisa ser posta nesse contexto. Não se trata de pequenos cursinhos, ou oferta de palestras sobre temas específicos da caminhada pastoral. São importantes e fazemos muito nesse sentido, contudo o clamor que vem do povo aponta para além disso.

O Documento de Aparecida reafirmava dez ganhos da Assembleia e, um deles, é a inclusão da “Formação de Leigos” no sentido de se oferecer um denso e exigente projeto de formação. Esse nos parece ser o desafio dessa nova escuta aqui na Arquidiocese de Vitória. Trata-se de um projeto que vai muito além do que fazemos como projeto quatrienal sob a forma de planejamento. Estamos na necessidade de um projeto eclesial, permanente, para todos os membros de nossas comunidades qualquer que seja sua função na Igreja, pois a prática de se escolher um representante para participar de cursos não se mostra eficaz na partilha posterior.

Esse projeto de formação, conforme o Documento de Aparecida elenca cincos aspectos fundamentais dessa caminhada que se completam intimamente e se alimentam entre si. São eles: o encontro com Jesus Cristo que dá origem à iniciação cristã; a conversão que é a resposta inicial; o discipulado onde se destaca a catequese permanente e a vida sacramental; a comunhão integrando famílias, comunidades, paróquias e arquidiocese; e por fim, a missão. E o texto conclui que “temos alta porcentagem de católicos sem a consciência de sua missão de ser sal e fermento no mundo, com identidade cristã fraca e vulnerável”.

Estamos educando para a fé ainda de maneira bem fragmentada, e isso está repercutindo em todos os processos de escuta que a Igreja tem feito. Então, bastaria olharmos para a questão: como estamos formando os cristãos, os discípulos missionários em nossas comunidades?

O grande desafio que continua presente de maneira cada vez mais exigente é a formação de base dentro do espírito do Documento de Aparecida. Estamos atrasados em relação à confecção desse projeto. Trata-se de um movimento de colocar a teologia ao alcance dos leigos para a formação de lideranças como nos inícios do IPAV era pensado. Trata-se de uma formação teológica, eclesiológica e cristológica como carro chefe desse projeto formativo. Aqui estão os elementos essenciais, fundamentais. A formação litúrgica é muito importante, mas vem depois, assim como outras demandas particulares da vida pastoral. Nesse projeto de formação de base apareceu em vários momentos o estudo da Doutrina Social da Igreja.

Caberia agora o Conselho Pastoral da Arquidiocese de Vitória encaminhar a confecção desse projeto para formação de base. Não se trata de incluir no Plano Pastoral. Este se refere ao planejamento e não ao projeto. Depois do projeto pronto, é hora de se fazer o planejamento pastoral para quatro anos. Um projeto não se esgota nesse tempo. Para isso é preciso superarmos os interesses e desejos particulares, superar a visão fragmentada da educação na fé, romper a perspectiva clericalista e individualista e construir um projeto eclesial, permanente. Para sua execução, o caminho sinodal é essencial. Todos podem participar de maneira livre, independente de seu lugar eclesial, sem discriminações.

Edebrande Cavalieri

Semana passada nos questionamos como deveríamos preparar nossos filhos para lançarem os voos que precisarão para serem pessoas realizadas e felizes. Quem de nós

Semana passada nos questionamos como deveríamos preparar nossos filhos para lançarem os voos que precisarão para serem pessoas realizadas e felizes. Quem de nós pais não gostaria ter essa resposta? Hoje e nas próximas semanas pensaremos juntos essa resposta, mas, como vimos, vivemos em tempos de grande complexidade e de realidades em constante mudança e não há respostas nem únicas e nem “receitas” infalíveis para essa pergunta.  

Para educar para o futuro precisaríamos ter clareza deste futuro. Somos seres complexos em um mundo complexo e interligado.  Quando nossos filhos tiverem a idade de se lançarem ao mundo, que mundo teremos? Não sabemos agora, nem nós, nem ninguém aqui na terra! As variáveis são tão grandes que nem gêmeos idênticos criados na mesma época, da mesma forma e pelos mesmos pais conseguem ter filhos que respondem igualmente aos estímulos.  

Sei bem disso, eu mesma sou gêmea e construímos personalidades e histórias totalmente diferentes. Tive quatro filhos fui criada e os criei com os mesmos princípios e eles são completamente diferentes um do outro e enfrentam os problemas cada um a seu modo (não ao meu, ao deles pois são pessoas independentes)! Temos que ter clareza dos nossos limites como pais. Quando eles já estão “criados”, cada um (cada filho) tem que assumir o seu espaço na vida e ser responsável por suas escolhas e a nós resta rezar por eles. Quando são crianças nosso papel e responsabilidades são bem diferentes. Nós somos os responsáveis e precisamos cuidar do desenvolvimento pleno deles, ou seja, dos quatro “pilares”: o mental, o emocional, o social e o espiritual.

O MENTAL:

O mundo nos empurra para valorizar muito o desenvolvimento das habilidades mentais. Muitos pais por isso se preocupam apenas com este pilar e mais cedo ou mais tarde não conseguem entender por que todo o esforço, o investimento pessoal e financeiro veio abaixo. “Colocamos na melhor escola…, se queixam. Mas qual é a melhor escola? Quando podem escolher, os pais costumam responder: as escolas que têm os melhores resultados no Enem, maiores índices de aprovação no vestibular…, mas, na vida pós escola, se mostra que não é tão simples assim. Ser inteligente, ter raciocínio lógico invejável, excelente memória ou falar em não sei quantas línguas muitas vezes de nada adianta sem os outros três pilares. A pessoa consegue o emprego pelas habilidades mentais, mas não se ajusta ao ambiente multifacetado do mundo organizacional. Somos seres sociais e não há possibilidade de ser feliz (nem de conseguir e se manter em boas oportunidades profissionais) sem a habilidade de nos relacionarmos. Para viver bem no mundo precisamos desenvolver os pilares emocionais e sociais além do espiritual.

Ainda focando o desenvolvimento mental: muito temos que entender do equilíbrio e efetividade que as emoções dão à inteligência. Sem essa preciosa interação mente-emoção as escolhas da pessoa podem ser um verdadeiro desastre e as consequências para a sua vida em muitos planos igualmente frustrante. A ciência já comprovou, há algum tempo, que sem a intuição, a ponderação das experiências armazenadas no sistema límbico (a parte do cérebro que não pensa, só sente), nossas escolhas podem ser racionalmente muito corretas, mas efetivamente um total desacerto (leiam “O erro de Descartes” de Antonio Damásio se quiserem se aprofundar). Para ilustrar, um exemplo: posso ter uma percepção totalmente negativa do meu chefe, mas sei que não posso falar isso para ele. O cérebro que pensa apenas racionalmente reflete: é verdade isso a respeito do meu chefe? Sim! Então posso falar, porque é verdade!  Falo a verdade e perco meu emprego, meu amigo… e depois não sei por quê!

Desenvolver a mente de seu filho é preparar ele para lidar com uma realidade provavelmente muito diversa da que ele vive hoje. Certo? Sem dúvida, não há como pensar diferente, assim preciso preparar ele para um mundo em constante mudança. Agora se ele come todo dia a mesma coisa no mesmo horário e seus dias são todos iguais, por exemplo, o que estou ensinando para ele? Lembrando que na semana passada vimos que essa é a pergunta que você tem sempre que fazer para ver se está no caminho certo, então, o que estou ensinando ao meu filho com esse comportamento acima é ter disciplina e método, mas será que estarei o ensinando a enfrentar a diversidade da vida no futuro? Se a vida dele for sempre assim, a resposta é não! Mas, você vai me contestar dizendo que a criança precisa ter disciplina e eu direi: está certo, mas também precisa se adaptar a mudanças. E se a criança não tiver dois dias iguais, se ela não tiver nenhuma disciplina, o que acontece? Emocionalmente ela se tornará muito insegura e frágil. Falta-lhe estruturas em que se apoiar. Lembra o que falamos o equilíbrio é a chave!

Vamos conversar sobre o segundo pilar na próxima semana – o pilar das emoções, e para instigar um pouco vocês, vou fazer uma pergunta simples: qual é o oposto do medo? Responderam coragem? É a resposta comum, mas não, o contrário do medo é o conhecimento. Quanto mais conhecermos, nossas emoções, melhor nos conhecemos e melhor conseguiremos vencer gradativamente o medo ou a minha angústia, a minha ansiedade, a depressão…, mas disto conversaremos semana que vem

Vania Reis

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Quando o Papa Bento XVI anunciou sua renúncia tornando-se papa emérito o mundo todo, especialmente católico, parecia não acreditar na notícia. Como assim? Sempre

Quando o Papa Bento XVI anunciou sua renúncia tornando-se papa emérito o mundo todo, especialmente católico, parecia não acreditar na notícia. Como assim? Sempre víamos os papas morrendo em pleno pontificado e não sabíamos que a última vez que isso aconteceu foi nos tempos medievais, exatamente em 1.294 com o Papa Celestino V. Nem sempre as renúncias de papas nesses tempos medievais foram pacíficas. As influências políticas obrigaram o Papa Constantino II (767) a renunciar. O Papa João VIII sofreu tentativa de envenenamento. Alguns foram martirizados como Estêvão VI (896) que foi linchado e estrangulado. Dessa forma a pergunta a quem interessa a renúncia do Papa Francisco não é assim tão descabida. Merece algumas reflexões e ponderações.

Nos últimos meses muitas notícias trazem essa questão na imprensa internacional, nas mídias sociais, destacando-se a mais recente feita à agência Reuters. Ao ser perguntado, o Papa responde tacitamente: “Não sabemos. Deus dirá”. Não nega que a possibilidade de renunciar em seu ministério poderia acontecer caso sua saúde o impossibilite de continuar à frente da Igreja. Não nega a possibilidade de seguir os passos de Bento XVI, porém afirma que somente fará isso se “o Senhor me disser para fazer”.

Frisa que até 70 anos atrás não havia bispos eméritos e hoje é comum essa situação. A Bento XVI coube a reabertura da porta dos papas eméritos. “Acredito que o Bispo de Roma, um papa, que sente que está perdendo as forças deve fazer as mesmas perguntas que Bento XVI fez em 2013. Eram perguntas dirigidas à própria consciência a respeito de suas forças devido à idade avançada não mais idônea para exercer adequadamente o ministério petrino e sobre a essência espiritual desse ministério que pode ser exercido sofrendo e rezando e não incluindo obras e palavras; ou seja, tornando-se papa emérito.

As circunstâncias históricas permitiram com relativa facilidade a renúncia do Papa Bento XVI. Contudo, o contexto atual especialmente no interior da Igreja Católica mudou bastante. Então cabe perguntar: a quem interessa a renúncia do Papa Francisco? Longe de nós a ingenuidade de achar que somente o problema das dores no joelho possa ter alguma influência no fato.

O cardeal hondurenho Óscar Andrés Rodriguez Maradiaga, que é um dos mais próximos conselheiros de Francisco, acusou abertamente pessoas que estariam especulando sobre uma renúncia papal criando uma “novelinha”. Penso que seja muito maior que uma novelinha. Há interesses eclesiásticos envolvidos, especialmente cardeais, bispos e padres que desde o Concílio Vaticano II atuam negando o próprio Concílio e promovendo retorno aos campos conservadores especialmente de cunho doutrinário e litúrgico. É bastante grande o grupo de eclesiásticos que abertamente ou no silêncio de ações conspiram contra Francisco desde o início de seu pontificado.

Esse grupo conservador aliou-se em alguns lugares a grupos da direita cristã que tem exercido posições políticas ultraconservadoras de extrema direita no contexto internacional. São as mesmas pessoas que pregam uma falsa pureza doutrinária e moral. O cardeal hondurenho afirma que essa ideia de renúncia nasceu dos inimigos papais. São adversários que se encontram dentro da própria Igreja Católica e muito mais fora dela, especialmente aqueles que exercem poder de cunho ultraconservador de direita.

O Cardeal hondurenho afirma que o Papa “não está por renunciar, nem doente”. Sente muitas dores no joelho, em decorrência de uma fratura, mas isso tem sido resolvido com o uso da cadeira de roda e continuará governando a Igreja. O próprio Francisco confessa que tem melhorado bastante no último mês.

O Arcebispo argentino Victor Manuel Fernández que faz parte do grupo de teólogos que assessoram o Papa Francisco disse que “se um dia ele intuísse que seu tempo acabou e ele que não tem mais como fazer o que o Espírito Santo está pedindo, tenha certeza que ele [o Papa] vai acelerar” a renúncia. O conjunto de pessoas que cercam o Papa Francisco não acreditam em sua possível renúncia, a não ser que haja um quadro de agravamento da saúde física e mental. É bom lembrar que o Papa João Paulo II teve sua saúde debilitada em 1993, contudo permaneceu até 2005, sem renunciar.

O Papa Francisco continua sua agenda de viagens e demonstra em seus desejos uma vontade muito grande de ir à Rússia e à Ucrânia, visitando suas capitais. E diz: “Se o presidente russo me desse uma pequena janela, eu iria para servir à causa da paz”. Por isso, mantém diálogo com Moscou numa relação mais “cordial” e depois da visita ao Canadá ele deverá planejar essa viagem que será histórica em função do contexto bélico.

É notável em seu semblante nunca perder seu humor habitual. Quando perguntado se ele estaria com câncer, simplesmente sorriu e disse que os médicos não haviam falado com ele, deixando os jornalistas em gargalhadas. E completa em tom de brincadeira: “Não, isso é fofoca da corte. O espírito de corte ainda está no Vaticano. Se você pensar bem, o Vaticano é a última corte de uma monarquia absoluta”.

Algumas ponderações ainda podem ser feitas de maneira livre a respeito da renúncia do Papa Francisco. É muito perigoso para a Igreja transplantar modelos políticos do mundo externo para dentro de sua estrutura eclesial. Não estamos afirmando que suas estruturas não devam melhorar, e isso ficou bem claro no processo que Francisco está conduzindo da reforma da Igreja e a publicação da nova Constituição Apostólica. Os parâmetros sobre os quais a Igreja deve se guiar não estão atrelados a nenhuma filosófica política, a nenhuma ideologia, mas à doutrina dos apóstolos e à pregação de Jesus contida nos Evangelhos. Aqui estão os referenciais sobre os quais se deve pautar a condução do pontificado e qualquer função ou cargo na Igreja.

Quando os modelos externos são transplantados, crescem os pontos mais desafiadores do mundo moderno e contemporâneo. Como pensar em eleição? Como pensar em golpe de estado? A renúncia não pode ser enquadrada nos moldes do mundo político. Quando assim ocorrer, podemos estar certos que o caminho de tomada do poder por forças obscuras tornar-se-á a via mais rápida. Há muitos exemplos de lutas violentas em torno do Papa nos tempos medievais quando a Igreja incorporou muitas práticas do mundo político, como foi no sistema feudal.

Contudo, a Igreja dos tempos atuais alterou profundamente seu estar no mundo. Muitas análises sociológicas sobre a Igreja católica perdem sentido quando não levam em consideração os pilares sobre os quais devem se pautados os cargos eclesiásticos. Um padre não pode ser equivalente a um deputado estadual. Um bispo não pode ser equivalente a um senador ou deputado federal, ou um governador ou prefeito. Então, o Papa não é semelhante a um Presidente da República. Seus dicastérios não são equivalentes aos ministérios da ordem política.

A renúncia ou não do Papa deve ser considerada na esfera do Ministério, do serviço à Igreja e não do poder do cargo. Sempre será preciso perguntar se o exercício efetivo de um determinado ministério eclesiástico está garantido com o estado de saúde de uma determinada pessoa, no caso o Papa. A defesa da renúncia por motivo ideológico é um ato que fere os princípios evangélicos. Podemos dizer que sob certas circunstâncias a renúncia pregada por alguns eclesiásticos é um ato de traição, semelhante ao de Judas Iscariotes. Por trinta moedas é possível apagar a força de Francisco como chefe da Igreja constituída por Jesus Cristo e como grande líder mundial que luta contra as grandes pragas dos tempos atuais.

Edebrande Cavalieri

Não tem como não nos preocupar com a formação de nossos filhos. Os filmes e os jogos violentos muitos dos quais amorais estimulam todo

Não tem como não nos preocupar com a formação de nossos filhos. Os filmes e os jogos violentos muitos dos quais amorais estimulam todo tipo de violência e afrouxam os valores que tanto nos esforçamos que eles possuam, as distorções das informações e dos valores, a necessidade de pertencerem ao grupo, de não serem “cancelados”, o medo do bullying público fazem parte deste cenário excessivamente virtual deles. Por outro lado, jovens com muito tempo ocioso, tempo não criativo, usualmente apresentam falta de disposição para agir pois não querem sair de seus mundos. Raros são os que ajudam voluntariamente os pais nos serviços domésticos. O trabalho não é permitido nem muitas vezes desejado e eles ficam aprisionados em seus mundos, em suas “realidades” e em suas “verdades” onde a voz do grupo fala mais alto que a dos pais.

Um mundo cheio também de dores. Vemos o crescimento do suicídio entre crianças e jovens. As perspectivas do futuro para muitos não são animadores. A “luta” diária pela sobrevivência, com uma carga de trabalho grande, que nós pais enfrentamos no dia a dia, é algo quase incompreensível para muitos deles. Os jovens não querem fazer parte dessa realidade. Mas são poucos que sabem como sair deste lugar de ócio para outro de criação produtiva, que lhe permitirá uma vida adulta sustentável.

Está havendo mudanças revolucionárias em nosso mundo. A excelente entrevista do presidente do Banco de Desenvolvimento do BRICS, Marcos Tryjo deveria ser assistida por todos que se interessam em fazer parte desta visão de futuro de possibilidades mundiais extraordinárias e em especial para o Brasil. Cita fatos, números, realidades, muito diferentes das que têm sido apresentadas para nós. Depois de apresentar um cenário econômico mundial detalhado Tryjo nos aponta que estaremos diante de uma nova “revolução mundial”. Marcos nos lembra que há tempos vivemos a revolução agrícola, depois foi a industrial, a tecnológica e a previsão apresentada por ele será agora a revolução dos “talentos”, a revolução aqueles que poderão aproveitar todas as possibilidades deste novo cenário.

Mas como conseguiremos preparar nossas crianças e jovens a lançar os voos que precisarão no futuro para serem talentos?

Sinto informar que não há receitas únicas e infalíveis. Deus nos fez seres complexos, sendo cada um diferente do outro (vejam nossas digitais), seria ingenuidade pensar em resposta única, mas… a ciência tem demostrado algumas posturas que não podemos ter para enfrentar esse mundo tão “líquido” à frente. Vamos ver hoje e nas próximas semanas algumas destas “recomendações”.

O ponto central da educação é o equilíbrio. Como podemos esperar que nossos filhos se preparem para mudanças constantes se só permitimos a eles um mundo com excessivas regras e normas? De outro lado como evitar que eles se tornem alienados, como evitar que entrem neste nosso mundo líquido, como bem descreve o sociólogo Zygmundt Bauman, sem entrarem em crises de ansiedade ou outros processos de defesa pela falta de referências. Um erro, um fracasso hoje são muitas vezes divulgados aos “quatro ventos” e geram sentimentos de baixa estima. Tanto o excesso quanto a falta de estruturas prejudicam a formação dos jovens.

O ponto central é o equilíbrio e para saber se estou excedendo nas regras a primeira pergunta que tenho que fazer a mim mesmo é: o que estou ensinando o meu filho ao dizer isso? Ao fazer isso?

Por exemplo se faço todas as vontades de meus filhos o que estou ensinando a ele: que tudo que ele quiser na vida ele conseguirá, basta querer (como muitos livros de autoajuda ensinam). Aí aquele jovem pensa que a vida vai dar para ele, sem esforço ou empenho, o que ele quiser e quando ele entrar no mundo do trabalho vai entender que suas vontades, verdades, visão de mundo devem prevalecer e sobrepor aos de outros. Claro que a vida não é assim e por isso ele vai se frustrar. Entre muitas possibilidades de respostas este jovem no trabalho poderá criar atritos com os colegas de trabalho (e até com as chefias) por seu individualismo e não vai parar em emprego nenhum. Aí (para esticar o exemplo), ele resolve montar seu negócio, mas esquece que para isso ele vai ter que ter as mesmas habilidades de flexibilidade, negociação e resistência à frustração pois fornecedores e clientes não são mães e pais. Mais do que isso, se tudo ele conseguiu, com os pais, foi sem esforço, ele não aprendeu a lidar com as frustrações de suas necessidades, não aprendeu a transformar essa energia em atitudes realizadoras. Assim não vai conseguir agir assertivamente e sua empresa provavelmente fracassará.

Mas, por outro lado, se eu não faço nada do que ele me pede, o que ele vai aprender? Que nenhum comportamento dele modifica a realidade que ele vive. Ele se frustra constantemente, aprende com isso e passa a não acreditar em si mesmo e, acaba sendo um adulto depressivo, sem ação. Ou então “engole” sua frustração e passa a ser “o problemático”, agressivo e em qualquer cenário será muito pouco provável que ele consiga reverter essa disposição e se tornar um talento.

O equilíbrio é a chave e não é fácil.

Semana que vem continuamos.

Vania Reis

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Em entrevista concedida a jornalistas nesse início do mês de julho o Papa Francisco, de maneira muito clara, convocou as pessoas e as nações

Em entrevista concedida a jornalistas nesse início do mês de julho o Papa Francisco, de maneira muito clara, convocou as pessoas e as nações a se deslocarem para as periferias não apenas sociais, mas também existenciais. Ao fazer esse chamado mostra à Igreja da América Latina e do Caribe esse movimento em direção às periferias em prol do papel emancipador de uma região vítima do imperialismo explorador. O sonho de unidade que motivou pessoas como San Martín e Simon Bolívar ainda está por ser realizado, nos diz o Papa.

De maneira muito explícita lembrou à Igreja dessa região para não esquecer sua história de proximidade com a população pobre. Também é preciso lembrar que houve momentos em que se desnaturalizou tornando-se uma “Igreja de gerentes de fazendas, com agentes pastorais que mandavam”. É preciso libertar a Igreja latino-americana dos “aspectos de sujeição ideológica em alguns casos”.

Essa região foi fortemente colonizada pelo imperialismo central e tem “uma Igreja que pôde e pode expressar cada vez melhor sua organização popular”. O Papa enfatiza ainda mais que “a Igreja Católica é forte” nesses países que compõe essa região. E convida a Igreja presente nos países centrais a se deslocar para a periferia, concordando ou não, pois “se você quer saber o que um povo sente, vá para a periferia”. Desta forma, sem o deslocamento físico, psíquico e espiritual para a periferia torna-se quase sempre muito difícil compreender os reclames do povo da periferia do mundo.

Um dos pecados mais marcantes da história da Igreja está em ter olhado para o mundo tantas vezes a partir de si mesma, a partir de sua localização geográfica e existencial. Sem o movimento para fora, em saída, não há como entender o que se passa com as pessoas ao redor do mundo. É a partir das periferias que o povo se mostra. Assim, por exemplo, para um grupo de pessoas situado numa paróquia de classe média e alta entender e compreender o que se passa com o povo sem ir até ele, nas ruelas, nos botecos, nos lixões, nos territórios de consumo de crack, é impossível entender a real necessidade dessas pessoas. Sempre falará e agirá a partir de seu imaginário, de seu centro umbilical.

O que frequentemente se vê nesses bairros nobres é as pessoas querendo se livrar de seres, que mais parecem bichos, em situação de rua e dos consumidores de crack. O centro socioeconômico sempre olhará para essas pessoas como responsáveis por deixar as ruas mais feias.

Esse movimento pode ser feito pelos diversos tipos de pastoral, não apenas pela pastoral do povo de rua. A própria liturgia proposta pelo Concílio Vaticano II tem essa diretriz. Contudo, há muitos líderes religiosos que insistem numa liturgia a partir de um lugar central, muitas vezes representando em suas vestimentas aspectos da nobreza medieval, quando a venda de cargos sagrados conhecida como simonia era muito comum. Naqueles tempos fazia-se a transposição de elementos e símbolos do mundo dos nobres para dentro da Igreja com muita facilidade.

Em uma Carta Apostólica ao Povo de Deus – Desiderio desideravi – publicada no dia 29 de junho deste ano, o Papa retoma a reforma da liturgia proposta pelo Concílio Vaticano II buscando o “significado profundo da celebração Eucarística tal como emergiu”, evitando desvios ou retomadas pré-conciliares, e mostrando como é tão importante a comunhão eclesial em torno do rito resultante daquela reforma litúrgica. É salutar lembrar que as primeiras divisões ou cismas na Igreja Católica foram resultantes dos desvios litúrgicos e não tanto doutrinários como nos mostra a história da separação da Igreja Ortodoxa em 1054.

Para os dias atuais a Constituição Gaudium et Spes do Concílio Vaticano II nos exige uma Igreja que esteja em sintonia pastoral e celebrativa com “as alegrias e as esperanças, as tristezas e angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem”. Pois “são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo”

O Decreto Ad Gentes aponta ainda mais claramente o caminho da Igreja no mundo e determina: “Trabalhem os cristãos e colaborem com todos os outros para estruturar com justiça a vida econômica e social […] Além disso, associem-se aos esforços dos povos que procuram com afinco melhorar as condições de vida e firmar a paz no mundo, combatendo a fome, a ignorância e as doenças”.

Na Conferência Episcopal Latino Americano de Medellin em 1968, os bispos afirmavam que ainda se vive nessa região sob o signo trágico do subdesenvolvimento que afasta as pessoas do gozo dos bens materiais impedindo sua realização humana dignamente. Apesar dos esforços, ainda estão conjugados a fome e a miséria, as doenças generalizadas e a mortalidade infantil, as tensões entre as classes sociais, os surtos de violência e escassa participação do povo na gestão do bem comum. O que mudou nesse cenário depois cinquenta anos?

O sonho de José de San Martín e Simon Bolívar esbarrava no século XIX no desafio de constituir uma sociedade civil independente sobre a qual fosse possível erigir instituições democráticas fortes e duradouras. A força da região deveria ser constituída a partir desse objetivo macro, para romper com o imperialismo explorador. A independência havia sido proclamada, mas faltava essa construção.

O que se via era um amálgama de forças sociais com uma maioria oprimida de indígenas, negros e mestiços, uma aristocracia rural que era contrária a independência da região, que temia um poder nas mãos dos pardos. Os novos caudilhos militares defensores de seus interesses particulares enquanto corporação buscaram sufocar os ideais de autonomia e liberdade. Os caudilhos e as oligarquias locais impediram na época a realização do sonho de unidade da américa latina de Bolívar

Tendo em vista o olhar do Papa Francisco a partir dessa periferia geográfica onde nasceu e se formou, suas palavras ganham em força e importância. Os sonhos de San Martín e Bolívar continuam ainda a serem realizados. Os segmentos sociais evoluíram muito pouco e qualquer tentativa de superação dessa força estagnadora é taxada de comunista. Trata-se, conforme o Papa, de trabalhar para alcançar a unidade latino-americana onde cada povo viva e sinta sua identidade sem prescindir da identidade do outro. Sabemos que não é fácil, mas esse é o caminho para uma solidariedade continental entre nós latino-americanos.

Edebrande Cavalieri