Artigos

No último dia 19 de março o Papa Francisco publicou a Constituição Apostólica Praedicate Evangelium, fruto de um trabalho de nove anos, e que

No último dia 19 de março o Papa Francisco publicou a Constituição Apostólica Praedicate Evangelium, fruto de um trabalho de nove anos, e que entrará em vigor no dia 5 de junho na solenidade de Pentecostes. Auxiliado por uma Comissão de Cardeais, ele encaminhou o processo de reforma que era anseio do colégio de cardeais que o elegeu. Antes de sua eleição ele dizia que o futuro Papa deveria ser “um homem que, a partir da contemplação de Jesus Cristo e da adoração a Jesus Cristo, ajude a Igreja a sair de si rumo às periferias existenciais, que ajude a ser a mãe fecunda que vive da doce e confortadora alegria de evangelizar”.

Esse era um dos quatro pontos que o Cardeal Bergoglio falava aos cardeais das Congregações Gerais antes do conclave. Ainda ele enfatizava o zelo apostólico no sentido da evangelização, ajudando a Igreja a sair de si mesma para evangelizar superando a autorreferencialidade, pois a Evangelização não é obra de se dar glória uns aos outros vivendo em si, de si e para si mesma.

Em momentos anteriores, alguns Papas enfatizaram o trabalho da Cúria na Secretaria de Estado como o fez o Papa Paulo VI ou no reforço aos poderes legislativos e administrativos como fez o Papa João Paulo II. O Papa Francisco mostra que as ideias do teólogo Yves Congar, há cinquenta anos atrás, são o grande desafio para as reformas desejadas pelo colégio de Cardeais.

Nesse sentido ganha importância fundamental o primado da caridade e da pastoralidade na forma de evangelização, a preservação da comunhão em tempos tão difíceis como os atuais, a paciência e respeito pelos atrasos necessários e fundamentais no caminho da sinodalidade e a preservação dos princípios da tradição cristã que edificaram a Igreja nesses dois mil anos que lhe dá nova vitalidade para superar os diversos tipos de tradicionalismos tão presentes nos dias de hoje.

Em 250 artigos a Constituição Apostólica não apenas descreve e legisla sobre os modos de caminhar da Cúria Romana, mas sinaliza para toda a Igreja espalhada pelo mundo a fora como ela deve se organizar tanto nas estruturas como em sua vida pastoral. Assim, em seus primeiros artigos descreve de início o primeiro dever da Igreja de Cristo que é “pregai o Evangelho”. E logo sinaliza o primeiro desafio que é a conversão missionária da Igreja. A reforma da Cúria está inserida nesse contexto.

Trata-se de uma reforma em vista da missionariedade da Igreja. E em seu artigo 4º remete a reforma para o mistério de comunhão da Igreja. Em seguida, descreve como elementos fundamentais e concretos na comunhão o caminho sinodal e colegial. A constituição apostólica eleva esses dois princípios constitutivos – sinodalidade e colegialidade – como elementos obrigatórios no caminhar missionário da Igreja.

A Constituição Apostólica em si mesma expressa a Reforma da Cúria Romana, contudo seu sentido mais importante é o que ela aponta para toda a Igreja espalhada pelo mundo. A Cúria está organizada para atender o Papa e todos os Bispos do mundo inteiro. Trata-se de um corpo de serviço em sentido missionário e não apenas burocrático. Sendo assim, o caminho a ser trilhado está na experiência prática da sinodalidade e da corresponsabilidade pastoral.

De maneira particular, podemos dizer que as Cúrias diocesanas do mundo inteiro deverão caminhar de maneira sinodal com a Cúria Romana, a serviço da Igreja particular. Há uma implicação recíproca no empenho missionário entre todas as Igrejas particulares e a Igreja de Roma presidida pelo Papa. Dessa forma, a Constituição Apostólica ganha um sentido muito profundo e bonito, muito além da determinação legal.

Principais pontos que chamam a atenção e merecem destaque nessa Constituição Apostólica são:

  1. Unificação das nomenclaturas de Congregações e Pontifícios Conselhos para Dicastérios reduzidos a dezesseis coordenados por Prefeitos. Todos gozarão da mesma dignidade jurídica e poderão ser dirigidos por leigos.
  2. Temos como pano de fundo da Reforma descrita pela Constituição Apostólica uma Cúria a serviço do Papa e dos Bispos, em uma Igreja em saída missionária.
  3. Os leigos e leigas poderão assumir papéis de responsabilidade e de governo dentro da Igreja. O grande desafio será o rompimento da postura clericalista que prende determinadas funções em razão de alguma ordem hierárquica. Assim, se o prefeito e o secretário de um dicastério forem bispos, isso não se deriva de seu grau hierárquico. O ofício é o mesmo sendo exercido por um bispo, um padre ou um leigo. O poder de governo na Igreja não provém do sacramento da Ordem, mas da missão canônica.
  4. Há uma grande valorização dos mecanismos de proteção de menores, chaga de inúmeros sofrimentos. Está situado no Dicastério para a Doutrina da Fé tendo por objetivo “fornecer ao Romano Pontífice conselho e assessoria e propor as iniciativas mais adequadas para a proteção de menores e pessoas vulneráveis”.
  5. Aumento da autonomia das dioceses em vários setores, especialmente no que se refere à nulidade de matrimônios.
  6. É criado o novo Dicastério para o Serviço da Caridade (Esmola Apostólica) que cumpre a função de realizar a assistência e ajuda em qualquer lugar do mundo aos mais necessitados, especialmente das periferias geográficas. É “expressão especial de misericórdia e, a partir da opção pelos pobres, pelos vulneráveis e pelos excluídos, realiza o trabalho de assistência e ajuda em qualquer parte do mundo” (Art. 79).
  7. Criação de um grande Dicastério para a Evangelização, presidido pelo Papa, reunindo a Congregação para a Evangelização dos Povos e o Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização.
  8. Muito significativo é o Dicastério para a Cultura e a Educação, reunindo o Pontifício Conselho para a Cultura e a Congregação para a Educação Católica.
  9. Extinção da prática da vitaliciedade em cargos ou funções. Oficiais clericais e membros dos Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica terão cinco anos de serviço na Cúria, prorrogado por mais cinco anos, com retorno imediato após esse período para suas dioceses. Afasta-se dessa forma o risco de se ter pessoas durante muito tempo em posições de governo desenvolvendo verdadeiros centros paralelos de poder. A rotatividade traz novas ideias, novas capacidades, novo dinamismo, nova abertura.

Por fim, podemos sinteticamente dizer que a nova Constituição Apostólica Praedicate Evangelium nos apresenta uma estrutura mais simples, enxuta, mais adequada aos tempos atuais, trazendo como referência central o princípio de todo cristão como um discípulo-missionário envolvendo leigos e leigas em papéis de governança e responsabilidade. Os grandes destaques ficam pelo foco na Evangelização, no Serviço da caridade, na proteção dos menores e vulneráveis, na cultura e educação. O Papa Francisco mostra com essa grande reforma sua fidelidade aos anseios do colégio cardinalício que o elegeu. Ao mesmo tempo aponta para toda a Igreja os rumos da Igreja para os próximos anos, fazendo reflorescer as esperanças e expectativas do Concílio Vaticano II.

Edebrande Cavalieri

Perdoai-nos a guerra Senhor! Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tende misericórdia de nós, pecadores! Senhor Jesus, nascido sob as bombas de Kiev, tende
Perdoai-nos a guerra Senhor!
Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tende misericórdia de nós, pecadores!
Senhor Jesus, nascido sob as bombas de Kiev, tende piedade de nós!
Senhor Jesus, morto nos braços de sua mãe em um bunker em Kharkiv, tende piedade de nós!
Senhor Jesus, enviado para o front aos 20 anos, tenha piedade de nós!
Senhor Jesus, que vedes ainda as mãos armadas sob a sombra da sua cruz, tenha piedade de nós!
Perdoai-nos Senhor, se não contentes com os pregos com que perfuramos a Sua mão, continuamos a beber do sangue dos mortos dilacerados pelas armas.
Perdoai-nos Senhor, se estas mãos que criastes para cuidar se transformaram em instrumentos de morte.
Perdoai-nos Senhor, se continuamos a matar nossos irmãos!
Perdoai-nos Senhor, se continuamos como Caim a ergueras pedras da nossa terra para matar Abel.
Perdoai-nos Senhor, se continuamos a justificar, com a nosso cansaço, a crueldade, e se com nossa dor legitimamos a brutalidade de nossas ações.
Perdoai-nos a guerra Senhor! Perdoai-nos a guerra Senhor!
Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, vos imploramos detenha a mão de Caim, iluminai a nossa consciência! Não faça a nossa vontade, não nos abandoneis às nossas ações.
Parai-nos Senhor! Parai-nos Senhor!
E quando tiveres detido as mãos de Caim, tomai conta dele também. Ele é nosso irmão.
Oh Senhor! Parai a violência! Parai-nos Senhor.
Amém!!!

A oração que o papa rezou, com doloroso pesar e emoção é de quem realmente compartilha a dor do sofrimento destes dois países tão ligados historicamente por muitas situações de dominação abusiva e cruel. Papa Francisco faz um verdadeiro e intenso clamor a Nosso Senhor para ter misericórdia de nosso mundo e nos perdoar por esta cruel guerra. Para fazer apenas um recorte histórico mais recente, grande parte do povo (especialmente do interior) da Ucrânia, no tempo do Stalin, foi obrigado a passar fome, a não ter nada para comer a não ser cascas de árvore, produzindo toneladas de comida que, eles mesmos sob o domínio dos cruéis soldados stalinistas, empacotavam e carregavam nos trens, para a Rússia, que tinha que manter para o mundo a imagem de êxito da revolução comunista. Os Ucranianos aprenderam   sobre o comunismo, não nos livros, em narrativas ideológicas, mas na carne e nas histórias de suas próprias famílias. Os Ucranianos preferem morrer do que serem novamente dominados pela Rússia. Para eles essa é uma “guerra total”.

Os Russos estão divididos internamente, muitos contra a guerra, mas sem liberdade de se expressarem, muitos que se envergonham do passado (os que conhecem). Para os russos essa pretendia ser uma “guerra limitada”. Achavam que ia ser fácil, que a Ucrânia não fosse oferecer resistência, mas no povo ucraniano, mesmo não podendo expressar seus profundos traumas estes estavam lá, reprimidos. Imaginar revivê-los é terrificante. A Rússia não imaginou a reação da sua própria sociedade, das empresas sediadas nela e agora faz de tudo para manter seu desejo de expansão do seu poder. Hoje está cada vez mais claro que essa guerra pode ter consequências graves.

Por isso Papa Francisco chamou todos nós, todos os seus bispos para que, junto com o papa emérito Bento XVI, hoje, sexta-feira 25/03/2022 às 13:00 horas façamos a consagração da Rússia e da Ucrânia ao Imaculado Coração de Maria. Este é um pedido de Nossa Senhora em Fátima há mais de um século atrás. Nossa Senhora de Fátima prenunciou os danos imensos que a Rússia, com a sua deserção da fé cristã e adesão ao totalitarismo comunista, haveria de causar se a humanidade não desse ouvidos aos apelos que ela vinha fazer. O que de fato aconteceu: a revolução comunista na Rússia eclodiu um mês depois da sexta aparição e a segunda guerra mundial alguns anos depois. Ela Pediu que rezássemos pela conversão da Rússia e a Consagração deste país ao seu Imaculado Coração

Como o Papa Francisco rezou, é Jesus que está em cada inocente morto. É nosso distanciamento de Deus, nossa acomodação nesse distanciamento que abre espaços para “Caim”. Vamos todos rezar para que a mão de Caim seja detida! Para que a nossa violência seja detida!

Perdoai-nos a guerra Senhor! Oh Senhor! Parai a violência!  PARAI-NOS Senhor

Vania Reis

[email protected]

Semana passada iniciamos um caminho para repensar a sensação de certa acomodação que muitos entre nós sente ao ter se “acostumado” com a Quaresma.

Semana passada iniciamos um caminho para repensar a sensação de certa acomodação que muitos entre nós sente ao ter se “acostumado” com a Quaresma. Muitos olham racionalmente o evento da janela de suas vidas atribuladas. Há muito deixaram de se tocar pela grandeza do amor dessa realidade histórica da vida e missão de grande sofrimento de Jesus, para que pudéssemos ter direito à vida eterna novamente. Semana passada iniciamos nosso caminho reflexivo (https://www.aves.org.br/iniciando-a-quaresma-de-jesus/), do batismo vamos ao deserto:

Por que Jesus seguiu direto para o deserto depois de seu batismo?   “E logo Espírito o impeliu para o deserto” (Mc 1,12). O Espírito de Deus, o amor de Deus por Jesus, guiava Jesus para que ele se preparasse para sua missão (Lc 4,1) pois era preciso que Jesus feito homem vivesse livremente toda sua vida na terra sem qualquer pecado (Hb 4,15).  Conduzido pelo Espírito Santo, Jesus se recolhe ao deserto para um pleno encontro com a sua humanidade para experimentar o profundo amor de Deus.   Precisamos fazer o mesmo para encontrar nosso eixo central e entender a nossa missão aqui na terra: nos recolher para um espaço de silêncio, rezar, jejuar e aprender a ter cada vez mais domínio nas tentações para seguirmos firmes no caminho que Deus escolheu para nós.

Foi parte do plano divino que Jesus fosse tentado pelo inimigo (Mt 4,1). O objetivo de Satanás era fazer com que Jesus viesse a pecar. Um pecado seria suficiente para impedir que Jesus, na sua natureza humana, não pudesse ser o nosso Salvador frustrando o plano de Deus. Ah! Como o diabo queria isso!

Jesus jejuou, um jejum prolongado para dominar as exigências do seu corpo e assegurar que seria capaz de vencer as tentações de se desviar de sua missão. O jejum permite nos libertar das exigências do nosso “eu”, da nossa alma carnal. A nossa alma batalha contra três grandes inimigos:

1º inimigo o Diabo. Satanás é inteligente e explorador das nossas fragilidades. Sabe nossos pontos fracos: a falta de humildade, a soberba de nos acharmos mais especiais, o desejo de poder, de reconhecimento, de conseguir saídas “fáceis” para os nossos problemas… não importa. É nesse ponto  frágil que, com astúcia e estrategicamente simulado, o diabo vai nos tentar.

2º inimigo o Mundo. Preciso me recolher das influências do mundo naquilo que me é prejudicial.  Quando falamos “mundo” queremos nos referir ao sistema pecaminoso que foi sendo formado pela sedução de Satanás e pelos nossos pecados. Esse mundo para onde Satanás e seus anjos decaídos foram mandados(1 Jo 2,16)

3º inimigo a Carne. A “carne” não é o corpo. Precisamos nos libertar desta visão estreita.  “Carne” na Bíblia é o ser humano na condição de fragilidade. A alma carnal é a nossa alma dominada pelas necessidades do corpo. As necessidades da alma carnal são egoístas. “Carne” somos nós nas nossas fraquezas, pelas desordens que herdamos de nossos primeiros pais e as desordens que já cometemos que nos predispõe a outros pecados. Antes do pecado original a alma dominava o corpo. Com o pecado original houve uma desorganização interna, que todos nós herdamos (menos Jesus e Maria) que inverteu esse domínio e o corpo passou a dominar a alma, resultando nesta alma carnal. Nossa alma submetida a Deus é capaz de submeter o nosso corpo. Nossa inteligência se submente a nossa vontade que submente as nossas paixões e sentidos e “tudo fica em paz pelo suave ordenamento de que as coisas estão em seu lugar”!

A oração é a enorme aliada nesse processo. A oração é essencial e complementa o jejum e a penitência para nossa transformação. A prece permite à consciência um retorno da autoconsciência à sua origem (a alma dominando o corpo) e, neste lugar, consegue ter inspiração para sair daquela realidade, retornando ao seu eixo (Ef  6, 11-12).    Essa nossa “autoconsciência cognitiva”, nosso eixo, só pode ser restaurada pela ação do Espírito Santo, por isso precisamos orar para nos transformar e transformar nossa realidade.

Concluo expressando a reflexão do Padre Halison Parro da Cidade do Vaticano . Nesse período litúrgico, o Espírito Santo também deseja conduzir-nos para o deserto. Como Jesus, devemos ser dóceis à sua ação, para podermos experimentar o amor de Deus em nossas vidas. É tempo de discernimento espiritual em relação às nossas atitudes, aos nossos limites existenciais e à nossa fidelidade ao Senhor. Muitas vezes, temos medo do silêncio do deserto, pois fugimos de nós mesmos e da verdade de Deus sobre a nossa história. (Https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2019-03/1-domingo-da-quaresma.html)

Vania Reis

 [email protected]

Nesses tempos marcados pela guerra, os católicos necessitam retomar os ensinamentos do Magistério da Igreja a respeito do uso da força e da violência

Nesses tempos marcados pela guerra, os católicos necessitam retomar os ensinamentos do Magistério da Igreja a respeito do uso da força e da violência através de armas para estabelecer novos arranjos nacionais. Diante de uma perfeita ordem universal criada por Deus os homens avançam no caminho da desordem entre indivíduos e povos, acreditando que somente o uso da força seria capaz de conter a violência.

Hoje queremos apresentar alguns elementos do Magistério vindo do Papa João XXIII publicado sob a forma de Encíclica em abril de 1963, após a crise decorrente da instalação de mísseis nucleares pela União Soviética em Cuba em outubro do ano anterior, que quase levou a humanidade à Terceira Guerra Mundial. Foi o momento mais tenso da chamada Guerra Fria. Cinco meses depois o Papa João XXIII publicava a Encíclica Pacem in Terris: “A paz na terra, anseio de todos os homens de todos os tempos não se pode estabelecer nem consolidar senão no pleno respeito da ordem instituída por Deus”. Assim se inicia o ensinamento. Em oposição estão as forças e os elementos irracionais conduzidos pelos governantes, promovendo uma desordem mundial e a ordem instituída pelo Criador, pondo em risco a sobrevivência da vida.

A convivência universal entre os homens parte de um princípio universal e fundamental de que cada ser humano é uma pessoa. A dignidade da pessoa humana é elevada ao patamar superior de referência nas relações internacionais. Todos os homens são, então, sujeitos de direitos. Não deveria haver nenhuma diferença entre os homens nesse quesito.

Três fenômenos são marcantes nos tempos atuais. Em primeiro lugar temos a ascensão dos trabalhadores na reivindicação de seus direitos superando o estágio da vida de escravos. Em segundo lugar temos o ingresso das mulheres na vida pública e todos os seus direitos como pessoa humana. E por fim, praticamente não temos mais nenhum país que submete outro povo para colonizá-lo. Segundo a Encíclica, é de se esperar que jamais existirão povos dominadores e povos dominados, levando a sociedade humana para um padrão social e político completamente novo. “Hoje comunidade nenhuma de nenhuma raça quer estar sujeita ao domínio de outrem”. Sessenta anos depois, o que estamos vendo no mundo?

Então as sociedades, guiadas pela diretriz da verdade, estabelecem novas formas de relações de convivência em termos de direito e dever, abrindo-se ao mundo dos valores culturais e espirituais da verdade, da justiça, da caridade, da liberdade. Nesse sentido, ganham força todas as lutas étnicas de cada povo que devem ser consideradas como elementos do bem comum. Este “consiste no conjunto de todas as condições de vida social que consintam e favoreçam o desenvolvimento integral da personalidade humana” (n. 58). O que se pode ver na humanidade do século XXI? O crescimento da distância entre nações ricas e nações pobres e o desejo de dominação de uns sobre os outros.

Há sessenta anos atrás o Magistério da Igreja convocava a humanidade para um movimento de desarmamento (109), pois constatava naquela época como estados desenvolvidos investiam vultosas fortunas para a fabricação de armamentos gigantescos, impondo sacrifícios aos cidadãos. Vemos um processo crescente de fabricação de armas de todos os tipos, para armar não apenas a população, mas para fortalecer grandes exércitos. Trata-se do comércio que mais investimento possui em cada orçamento nacional.

A corrida ao armamento tanto pessoal como nacional nos estados em geral reflete uma espécie de psicose do medo. O resultado é que os povos vivem em terror permanente. A Encíclica alerta que essa corrida armamentista com as mais diversas experiências de armas bélica pode pôr em grave perigo boa parte da vida sobre a terra (n. 111). Há sim o risco de essa corrida encaminhar-se para um conflito atômico. A corrida armamentista de uma nação implica automaticamente a corrida armamentista de tantas outras nações. Então a guerra pode ser o caminho irremediável da história atual. Ela continua a ser um pesadelo para a humanidade, para a vida na terra. Esse pesadelo pode irromper a qualquer momento em qualquer lugar do planeta como uma força inimaginável e esmagadora.

A justiça, a reta razão e o sentido da dignidade humana de maneira radical exigem que se pare com a corrida ao poderio militar, que se reduza o material de guerra espalhado pelo mundo afora. João XXIII lembra o que dizia o Papa Pio XII: “A todo custo se deverá evitar que pela terceira vez desabe sobre a humanidade a desgraça de uma guerra mundial, com suas imensas catástrofes econômicas e sociais e com as suas muitas depravações e perturbações morais”.

A Encíclica Pacem in Terris defende uma posição super radical em relação à produção de armas. Defende um “desarmamento integral”, que atinja o próprio espírito, para que todos trabalhem em concórdia e sinceridade, para afastar o medo e a psicose do medo de uma possível guerra”. E lembra mais uma vez o ensinamento de Pio XII que dizia: “Nada se perde com a paz, mas tudo pode ser perdido com a guerra”.

Por isso, o caminho mais seguro para a convivência entre os homens deverá ser feito através de encontros e negociações, que permitam conhecer melhor os laços comuns da natureza que une a todos, de modo a fazer prevalecer não o temor, mas o amor, um amor que antes de tudo leve os homens a uma colaboração leal, multiforme, portadoras de inúmeros bens (n. 128).

Para concluir, a Encíclica indica claras orientações pastorais para as Igrejas particulares, exortando a todos os filhos para participarem ativamente da vida pública e contribuírem para a obtenção do bem comum de todo o gênero humano. E convoca os cristãos católicos para se inserirem nas suas instituições e trabalhá-las eficientemente por dentro, com competência técnica e conhecimento científico. Isso somente terá eficácia na medida em que sejam fundadas na verdade, baseadas na justiça, corroboradas no mútuo amor e realizadas na liberdade.

Sessenta anos se passaram e novamente o mundo estremece. O Papa Francisco na audiência da semana passada nos disse que nossa imaginação se encaminha para uma representação da catástrofe final que nos extinguirá, no caso de uma eventual guerra atômica. No dia seguinte, se houver dia depois, teremos que recomeçar do zero. Todos os dias o Papa pede ao mundo que se pare a guerra, que se calem as armas, pois “toda guerra deixa nosso mundo pior de como o encontrou. A guerra é um fracasso da política e da humanidade, uma rendição vergonhosa, uma derrota diante das forças do mal”.

Edebrande Cavalieri

Nas primeiras comunidades cristãs até aproximadamente 200 anos DC, não havia Quaresma. Os primeiros cristãos perceberam a necessidade de uma preparação para a Páscoa

Nas primeiras comunidades cristãs até aproximadamente 200 anos DC, não havia Quaresma. Os primeiros cristãos perceberam a necessidade de uma preparação para a Páscoa de Jesus e decidiram primeiro que esse tempo deveria ser de três dias (Quinta-feira Santa, Sexta-feira Santa e Sábado de Aleluia). Anos depois, aproximadamente no de ano 350 DC ampliaram esse tempo para 40 dias. Quarenta, na Bíblia, é um número ligado à transformação e renovação. Foram 40 dias de dilúvio, 40 anos no deserto rumo à terra prometida. Quarenta dias de Quaresma (quadragésimo dia) para a renovação da fé deve ter sido uma escolha natural. Quaresma é tempo de preparação espiritual para mergulhar mais profundamente na vida de Jesus, na sua paixão, morte e ressureição.

Já vivenciamos e rezamos tantas vezes na Quaresma que podemos ter deixado nosso coração se acostumar com o sofrimento de Jesus e de Maria, não nos deixando tocar pela grandeza do amor que essa realidade histórica reflete. Nas próximas semanas, vamos rever essa história de amor à humanidade.

Jesus tinha 30 anos quando rumou para o Rio Jordão para seu batismo. A “idade perfeita na visão dos Judeus” (com esta idade José governou do Egito, Davi começou a reinar em Israel e Ezequiel a profetizar). Na sua plena capacidade para iniciar sua missão, qual o sentido de Jesus, que é Deus, precisar se batizar com João Batista?  João batizava com água. Jesus, batizaria com o Espírito Santo e com Fogo. O batismo de João Batista representava o arrependimento, a conversão e a penitência. Jesus não precisava disso. João e Jesus sabiam disso e foram submissos e obedientes aos desígnios de Deus, já descritos nas Escrituras que os dois conheciam muito bem. Jesus foi batizado.

Nesta epifania histórica, logo após João Batista mergulhar Jesus nas águas do batismo, “abriu-se os céus” deixando clara a mensagem da reconciliação que Jesus faria entre o céu e a terra. Deus expressou a missão específica de seu filho, tomando propositalmente como base a “fórmula” que ELE mesmo anunciara a Isaias no Antigo Testamento: “Eis meu Servo que eu amparo, meu eleito ao qual dou toda a minha afeição, faço repousar sobre ele meu espírito, para que leve às nações a verdadeira religião
(IS 42,1).  Já estava nas Escrituras Sagradas que Jesus cumpriria a sua missão não de forma “heroica” como como o povo esperava, não seria cumprida com poder ou tirania, mas na suavidade, na simplicidade, no respeito pelos homens: “ele não grita, nunca eleva a voz” (IS 42,2a). Deus diz ainda na profecia de Isaías “faço repousar sobre ele meu espírito” (Is 42,1b) confirmando a mesma ação pelas SUAS palavras no batismo de Seu filho.  Jesus com sua vida, morte e paixão nos ensinou e ensina sempre que a plena obediência ao pai, o amor à Deus e ao próximo podem renovar o mundo! Seus ensinamentos nos levaram à “verdadeira religião” (IS 42,1c).

Deus no batismo de Jesus anunciou Seu amor ao filho, revelou a verdadeira identidade de Jesus enviando ainda o “Espírito de Deus” como previa as Escrituras. O Espírito Santo de Deus é o amor de Deus por Jesus! Aquele “que pairava sobre as águas” desde o início da criação (Gn 1,2). O amor de Deus que acompanhou sempre Seu filho feito homem. O Espírito Santo repousou sobre Jesus e Deus o acolheu profundamente com seu amor. O Espírito Santo esteve junto a Jesus – homem em seu caminho e lhe deu forças para superar o medo e angústia do seu corpo e da sua alma humanas. Diante do que viveria no monte das Oliveiras, na sua paixão, seu Pai ainda lhe envia um anjo para lhe amparar e para lhe fortalecer em sua dor, em sua agonia.  Jesus obedeceu ao Pai, venceu suas angústias e, livremente, pelo amor ao PAI, bebeu o amargo cálice para nos salvar pela cruz.

Vania Reis

[email protected]

O fenômeno da guerra é dos mais intrigantes na história da humanidade. Tem várias formas de se compreender, chegando algumas culturas até falar em

O fenômeno da guerra é dos mais intrigantes na história da humanidade. Tem várias formas de se compreender, chegando algumas culturas até falar em “guerra justa” ou “guerra santa”. Alguns pensadores consideram a guerra como uma espécie de continuação da vida política através de outros meios. Trata-se de um fenômeno cultural que envolve um ou vários conjuntos da cultura. Tem predominado ao longo da história a dominação cultural de uma nação sobre a outra, e muitas vezes a religião acabou tendo papel determinante. Como avaliar uma guerra?

Alguns princípios são fundamentais para se analisar essa questão. Em primeiro lugar é preciso considerar que sempre que se tirar uma vida humana estamos diante de um erro grave e a Igreja Católica sempre foi muito ciosa nesse princípio. Em segundo lugar toda organização política consolidada como Estado tem o dever de proteger os seus cidadãos e defender a justiça. Portanto, qualquer agressão aos cidadãos que habitam um Estado soberano fere esse princípio. E em terceiro lugar, temos o principio da proteção da vida humana inocente e a defesa dos valores morais, que muitas vezes exige o uso da força e da violência. Muitas vezes a defesa dos valores morais são objeto de muitas interpretações. A quem cabe decidir e avaliar a respeito de um determinado valor?

Esses princípios são o grande suporte do Direito Internacional, tornando-se um parâmetro nas situações de conflito. Desses princípios se infere que a teoria da guerra justa nunca pretende justificar qualquer guerra. Ao contrário, trata-se de prevenir contra toda e qualquer guerra que retira a vida humana. O princípio fundamental que deveria guiar os homens para prevenir sobre a eclosão de qualquer guerra é que a primeira forma de se evitar não é o uso da violência como temos visto ao longo da história passada e presente.

A solução de qualquer conflito passa primeiramente pela adoção do debate, do diálogo, tendo tribunais e órgãos internacionais para a sua condução. Portanto, o uso da violência para resolver qualquer conflito somente deveria acontecer após esgotadas as exigências do debate e do diálogo. A decisão unilateral jamais se enquadraria numa aprovação do uso da violência para a solução do conflito. Então, no caso particular da recente guerra entre Ucrânia e Rússia como foram as negociações, os debates, as propostas para se negociar a paz e evitar o uso da violência?

Desta forma, em poucas linhas podemos concluir que todas as guerras nos parecem que aconteceram sem terem esgotadas as exigências do debate e do diálogo. Logo todas elas são imorais e o uso da força e da violência é empregado de maneira incorreta. Infelizmente, em todos outros momentos dos últimos anos vimos diversas invasões, com uso forte da força bélica, e pouca reação por parte da comunidade internacional.

O que nos move mais ainda nessa questão diz respeito ao papel que a fé cristã desempenha tanto para o caminho da paz como para servir de motivação subjacente à decisão de deflagar o conflito invadindo um determinado território soberano. Portanto, especificamente estamos diante da posição da Igreja Católica conduzida pelo Papa Francisco e das Igrejas Ortodoxas, especialmente a da Rússia. As Igrejas Ortodoxas mais antigas são as de Constantinopla, Alexandria, Antioquia e Jerusalém. Porém outras foram surgindo e ao longo do tempo também se consolidaram como Igrejas autocéfalas. Ao todo temos em torno de 15 Igrejas Ortodoxas autocéfalas.

O mundo cristão não pode ficar indiferente à guerra que acontece nesses dias entre a Rússia e a Ucrânia. Muitas vezes ao longo da história, a Igreja Católica pagou muito caro pelo preço do silêncio. Mas agora, mesmo antes do início do conflito, o Papa tem realizado um grande conjunto de ações visando servir à humanidade como uma ponte de paz. Seu esforço não apenas levou em consideração os princípios cristãos, mas o princípio de esgotar antes todos os mecanismos que estão presentes no diálogo e no debate antes do uso da violência.

No último dia 6 de março, na oração do Angelus, o Papa Francisco enfrentou diretamente a posição russa diante do conflito. Como sabemos, o governo russo determinou uma Lei que considera crime passível de 15 anos de reclusão quem se referia aos acontecimentos na Ucrânia como guerra. E o Papa Francisco nessa oração deixou bem clara qual a posição da Igreja dizendo: “Na Ucrânia correm rios de sangue e lágrimas, não se trata apenas de uma operação militar, e sim de uma guerra que semeia morte, destruição e miséria”. E pediu urgentemente que se instaurem “verdadeiros corredores humanitários” para ajudar a população daquele país.

Nessa semana ele enviou dois cardeais – Konrad Krajewski, esmolário pontifício, e Michael Czerny, prefeito interino do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral – para a região em verdadeira missão de apoio, acolhimento, afirmando assim que “a Santa Sé está disposta a fazer tudo, a colocar-se a serviço desta paz”. Por meio dessa missão pontifícia, toda a Igreja e todo o povo cristão devem aproximar-se e dizer que a “guerra é uma loucura!” Essa missão é puramente evangélica, e não tomada de partido de cunho ideológico. “É preciso fazer chegar ajuda às zonas cercadas para dar alívio aos nossos irmãos e irmãs oprimidos pelas bombas e pelo medo”, nos pede o Papa.

Francisco mostra em suas aparições como sofre diante dessa loucura, com o “coração partido”, e nos diz que “Deus está com os pacificadores, não com aqueles que usam a violência”. É preciso que as armas se calem, e voltem a soar os sinos da alegria e da paz nas Igrejas e na sociedade. O uso de expressões fortes marca sua postura e assim não faz nenhuma ressalva para esse conflito denominando de pura “insensatez”.

O Patriarca Kiril da Rússia não pensa igual a Francisco e afirma que a guerra se justifica pelo fato de que “forças externas sombrias e hostis estão buscando dividir nossa pátria histórica comum”, a “terra russa” que compreende a Rússia, a Ucrânia e a Bielorrússia. Portanto, vejam como se torna difícil o caminho da paz nesse contexto atual religioso.

O mundo ortodoxo é muito complexo. Mas já temos como certo que a guerra atual terá consequências fortes no cenário religioso especialmente no mundo ortodoxo com 300 milhões de pessoas, dividido em 15 Igrejas autocéfalas. Somente dentro da Ucrânia há três e uma delas é dependente de Moscou. Está se criando um novo sentimento de “casa comum”. Para a historiadora Diana Butler Bass, esse conflito tem muito a ver com religião e o tipo de ortodoxia que moldará a Europa. A imagem de um líder ortodoxo benzendo as armas de guerra mostra um pouco esse sentimento. Nesse sentido, estaríamos diante de uma espécie de cruzada para recapturar a Terra Santa da Ortodoxia russa e derrotar os hereges ocidentalizados que não se ajoelham diante da autoridade espiritual de Moscou. O poder político estaria conduzindo dessa forma uma verdadeira cruzada como nos tempos medievais.

A liderança religiosa presente em Moscou se confronta com a posição do Patriarcado de Constantinopla tendo a frente o Patriarca Bartolomeu I, que é uma grande referência no mundo progressista e pró-ocidente, que aparece sempre como grande parceiro nos movimentos ecumênicos com o Papa Francisco. Enfaticamente esse Patriarca grita que “as armas nunca são a solução” e lança um apelo: “Acreditamos firmemente que não há solução possível para preservar e garantir a paz a não ser o caminho do diálogo, que suprime as condições que levam à violência e à guerra”. E pede que as partes envolvidas na guerra retomem o caminho do diálogo e ponham um fim ao conflito para que o povo ucraniano possa viver em paz.

Isso nos mostra como o cenário atual é complexo e perigoso para o mundo todo e todo esforço de paz deve ser bem-vindo e apoiado. Sabe-se quando uma guerra começa, mas nunca quando irá terminar. Nessa loucura entre Ucrânia e Rússia há questões bem mais profundas do que aquelas explicitadas pelas duas lideranças dos países em conflito. Outra questão religiosa que surgiu nos EUA por volta do ano de 1935, conhecido como Direita Cristã, está influenciando governos e determinando os rumos da política atual.

A figura do Presidente russo está alinhada com essa visão religiosa que surgiu nos EUA, aliando-se nas últimas duas décadas a atores conservadores cristãos ortodoxos semelhantes à Direita norte-americana cristã. Foi a partir da queda da União Soviética em 1990 que alguns acadêmicos, ativistas e empresários russos de fé ortodoxa começaram a importar ideias e estratégias dessa Direita que vai se tornando internacional. Hoje esses valores tradicionais são a espinha dorsal do governo russo.

Em termos estritamente religioso e cristão, o caminho desafiador para a fé nos dias atuais se refere à perspectiva da unidade na diversidade de Igrejas, de ritos e de costumes, sempre no caminho da paz. Nenhuma arma pode ser abençoada, pois ela traz morte, dor, divisão. Essas armas são expressão de uma fé herética. Nenhum Deus que é amor e trinitário seria favorável a esse conflito atual e a nenhum outro conflito que semeia morte e destruição.

O Patriarca Bartolomeu I alerta para uma nova guerra na Europa resultante da escalada da retórica violenta e da militarização das fronteiras. E alerta ainda mais para que se assuma no mundo posturas mais fortes rumo à paz. Para ele, o silêncio e a indiferença não são uma opção. E pede para que todos contribuam ativamente para a resolução pacífica das situações de conflito.

Esse tempo de Quaresma talvez seja o momento cristão mais desafiador que é transformar o jejum e a oração em prol da paz. Então teremos uma Quaresma para a Paz verdadeira que é Cristo, e que se concretiza na história de todos os povos. A morte de Jesus é suficiente. Basta de guerras e de mortes.

Edebrande Cavalieri

Foto capa: Photo by Sergey BOBOK / AFP

A Campanha da Fraternidade 2022 que aborda esse ano a Educação tem um lema bastante profundo e muitíssimo atual e oportuno que precisa ser

A Campanha da Fraternidade 2022 que aborda esse ano a Educação tem um lema bastante profundo e muitíssimo atual e oportuno que precisa ser entendido com sabedoria para não cair justamente no que quer combater.

Logo de início a Campanha da Fraternidade nos apresenta os grandes desafios dos tempos atuais que a campanha busca ações para transformar:

  • A “ruptura da solidariedade” entre gerações acontece pela despreocupação com as gerações por vir, pela falta de cuidado com a “Casa Comum” e, ao mesmo tempo, com a idolatria do “EU” (a egolatria), uma autorreferência individualista que tem levado as pessoas a um isolamento pessoal e a um fechamento em relação ao outro.
  • Os “tempos tecnológicos” que trazem ao mundo o acesso às informações mediadas pela tecnologia e o faz de forma a levar a um descompasso pelo tempo natural de assimilação destas informações no plano psicológico. Crianças e jovens sendo constantemente atraídos por estímulos digitais rápidos e múltiplos, têm tido muita dificuldade em aprender a “habitar o silêncio”, como fala o Papa Francisco. O silêncio ao qual ele se refere aqui significa uma escuta vigilante e flexível. É um parar para escutar; é um esvaziar a mente de seus conceitos e ouvir verdadeiramente ao outro, ou até a si mesmo. O tempo e o espaço necessários para o jovem se dar conta dos seus próprios desejos e medos, são cada vez mais preenchidos por interações contínuas e atraentes, que seduzem e tendem a preencher cada momento do dia. Assim acontecendo, na grande riqueza de estímulos recebidos, experimenta-se uma profunda pobreza de interioridade, uma crescente dificuldade em parar, em refletir, em escutar a si e ao outro. (Laudato si’, 110). A fratura e a desintegração psicológica são consequências deste aceleramento e desta pobreza em olhar para si mesmos, o que traz desencontros e superficialidade nas relações pessoais destes jovens, levando a uma imaturidade afetiva e existencial e, a um já reconhecido, crescente sofrimento emocional.
  • A cultura do descartável e a lógica do consumo são as outras características dos tempos atuais cuja mudança é igualmente fundamental para a Campanha da Fraternidade. Precisamos ampliar nossa consciência em relação ao mundo que queremos ter e ao mundo que queremos deixar para as próximas gerações. Papa Francisco na encíclica “Laudato si” reflete profundamente a questão da “cultura do descartável”, e mostra que “essa cultura atinge tanto os seres humanos excluídos como as coisas”. Entre as pessoas mais atingidas pela cultura do descartável estão os idosos e as crianças: na lógica do consumo, os primeiros são descartados porque não são mais produtivos; os segundos porque ainda não são produtivos. Uma sociedade que assim age com seus idosos é uma sociedade que recusa confrontar-se com o próprio passado, com a própria memória e com as próprias raízes. A cultura do descartável também pode incluir na cultura do cancelamento que tem acontecido nas fluídas relações interpessoais entre os mais jovens. A falta de cuidado com a nossa “Casa Comum” nosso ambiente, nosso mundo e com os nossos irmãos é igualmente negligenciado nesta lógica cuja mudança é imprescindível.

Não há dúvidas que se faz necessário transformar esse cenário! Disso poucos discordam.  Inspirado pelo provérbio africano o Papa nos coloca no caminho: “para educar uma criança, é necessária uma aldeia”. Assim todos somos convocados para a transformação da nossa sociedade. Precisamos ser “uma aldeia educativa”. Todos precisamos abraçar o compromisso com a educação das gerações futuras e, também a reeducação da atual geração, visando a reconexão com a sacralidade da vida e a superação do atual ponto de vista niilista que considera as crenças e os valores tradicionais como sem qualquer sentido. Superar essa visão do mundo que banaliza a vida e desvaloriza a dignidade humana é extremamente necessária, e muito difícil. Nesta “aldeia educativa” se viveria um compromisso pessoal e comunitário, garantido pelo respeito à participação da família, das Igrejas, da sociedade em geral e assim seríamos atuantes no processo educativo / re-educativo de todos nós. Essa seria uma “aliança educativa”, um pacto, e teria como centro o desenvolvimento integral da pessoa, além do cuidado com a Casa Comum, “visando à formação de homens e mulheres mais maduros e responsáveis, capazes de superar fragmentações e contrastes e reconstruir […] as relações para uma humanidade mais fraterna em um diálogo contínuo na busca pela paz. Assim a transformação buscada depende do envolvimento de todos, da união de todos. Somos convidados “a sermos construtores de pontes de diálogo, capazes de aproximar as diferentes realidades”.

Para viver uma verdadeira experiência de fraternidade é preciso uma atitude consciente e permanente de disposição de ouvir o outro com respeito, ética, atenção e real interesse. Uma “escuta fraterna”, uma disposição que busca compreender o outro, a partir do lugar dele, o que ele quer e deseja transmitir. Acolher o outro em sua identidade própria, possibilitando o diálogo que promove diálogos e relações saudáveis, que desconstrói conflitos e assim gera interações e mudanças sociais.

O Papa Francisco tem nos mostrado, em suas encíclicas e outras formas de comunicação, as bases para a transformação desejada, condensadas na Campanha da Fraternidade 2022 da CNBB: o amor, a coragem, a fé e a esperança. Para transformar nossa realidade precisamos aprender a discernir e, para que a pedagogia do discernimento possa acontecer, “faz-se necessário encontrar espaços, tempos, reflexões e diálogos. Mais do que ensinar a discernir é preciso fomentar constantemente por meio de vivências essa forma de se colocar diante das situações cotidianas da vida” até que essa prática se transforme em uma atitude de vida.

Existe um pacto quando reconhecemos o outro, diferente de nós, não como uma ameaça a nossa identidade, senão como um companheiro de viagem, para “descobrir nele o esplendor da imagem de Deus”. O Papa convida a buscar companheiros de viagem no caminho da Educação, para propor programas e tomar decisões em benefício de todos os seres criados: fauna, flora e humanos. O desejo de Deus é: “para que todos sejam um” (Jo 17,21-23).

Ao olhar as propostas da Campanha da Fraternidade acima, não há como não se maravilhar. Mas…elas são plausíveis? são utópicas? A resposta está no próprio Lema: FALA COM SABEDORIA e ENSINA COM AMOR. Se falar com sabedoria for entendida como uma habilidade da nossa racionalidade, eu diria que as proposições da Campanha são utópicas porque pressupõem, inclusive a abertura para a reeducação de todos nós o que incluiria os próprios autores da Campanha da Fraternidade, pois é evidente que se está falando de diálogo, de abertura e educação centrada na pessoa, “todos” podemos ampliar nossa visão e mudar. “Todos nós” não exclui ninguém. O que é muito complexo. Mas, se você compreender sabedoria (como nossos grandes teólogos e Padres da Igreja compreenderam) você subentenderia sabedoria como a racionalidade divina, ou seja do próprio Espírito Santo. Aí não há qualquer dúvida! Pois o lema de forma explícita poderia ser escrito como: FALA COM O ESPÍRITO SANTO que habita em você e falaríamos sob a unção do Espírito Santo, e ENSINA COM AMOR, ensinaríamos com o amor de Deus por Jesus – QUE É O ESPÍRITO SANTO. Ensinaremos com a Divina Trindade em nosso coração!! Aí a transformação acontecerá! Pela Graça de Deus!

Vania Reis

[email protected]

Os céus da Ucrânia amanheceram em cores de sangue, muita fumaça, muita destruição, muitas mortes, cheirando a pólvora. Quantos irão morrer? Quem sabe?! Logo

Os céus da Ucrânia amanheceram em cores de sangue, muita fumaça, muita destruição, muitas mortes, cheirando a pólvora. Quantos irão morrer? Quem sabe?! Logo que percorri as redes sociais e fiz uma postagem em prol da paz dizendo que nada justificaria aquele cenário tão sombrio e ameaçador. E uma pessoa me lançou na cara uma “bofetada” sob a forma de um comentário dizendo que se tratava de uma “guerra justa”. Então pensei: se esse rapaz fosse muçulmano chamaria de “guerra santa”, provavelmente.

Logo vieram-me à mente as palavras de um pastor evangélico que era antissemita, ligado ao nazismo e depois passou a combater firmemente o nazismo organizando uma ofensiva religiosa de crítica e combate ao nazismo, custando-lhe a prisão por vários anos sendo libertado pelas forças aliadas da prisão de Hitler. As palavras desse pastor são muito significativas nesse momento. Muitas pessoas já ouviram ou leram esse pensamento, mas vale a pena trazer à memória. Assim ele diz:

“Primeiro vieram buscar os comunistas, e eu não disse nada por não ser comunista. Depois vieram buscar os socialistas, e eu não disse nada por não ser socialista. Então vieram buscar os sindicalistas, e eu não disse nada por não ser sindicalista. Em seguida vieram buscar os judeus, e eu não disse nada por não ser judeu. Também vieram buscar os católicos, e eu não disse nada por não ser católico. Então vieram me buscar, e não havia ninguém para me defender” (Pastor Martin Niemöller da Igreja Evangélica Unida da Alemanha -1892-1984).

Qualquer um desses grupos que o pastor se referiu poderia defender que determinada guerra teria sido uma “guerra justa”. Essa doutrina defendida por Santo Agostinho descreve em que condições determinada guerra é uma ação moralmente aceitável. O problema é a identificação das condições. Quem as define? Qualquer um dos lados de uma guerra irá defender suas teses de guerra justa. Hitler também assim defendia, e dizia que os alemães precisavam de espaço vital para se desenvolverem.

Essa doutrina de Hitler estava apoiada na tese de que toda “raça ou povo com dotes civilizacionais superiores precisaria de um vasto espaço física para o seu pleno desenvolvimento. A conquista desse espaço vital dependia da subjugação de povos ou raças inferiores, ocupantes de territórios indignos deles”. Assim, para Hitler o avanço de seus exércitos ocupando ou invadindo territórios estaria plenamente justificado e seria uma guerra justa, moralmente aceitável.

Essa mesma doutrina da “guerra justa” foi usada na justificativa das Cruzadas Medievais. Muitos pensadores medievais e alguns modernos desenvolveram mais essa temática, que não me cabe aqui discutir ou debater. Seria muito bom se olhássemos a origem primeira desse conceito. Então chegaríamos ao Império Romano (bellum justum) que dizia que os romanos somente entrariam numa guerra justa contra uma nação estrangeira caso ela não tivesse atendido, no prazo de trinta dias, a um pedido de satisfação por eventuais danos sofridos ou temidos. Não havia nenhum fundamento moral que justificava a guerra declarada pelos romanos contra as nações estrangeiras. Muitas vezes, com o cristianismo, a guerra era defendida como justa porque os outros eram pagãos.

Não quero aqui aumentar essa discussão trazendo o conceito de “guerra santa”, que se parece bastante com as ações empreendidas pelos Cruzados medievais. Em pleno século XXI talvez devêssemos defender que nenhuma guerra é justa ou santa, pois levam à morte tantos inocentes e sofrimento imensurável. O caminho da humanidade não pode ser outro senão o da paz.

A Igreja Católica conduzida pelo Papa Francisco está sendo convocada para um dia de jejum e oração no próximo dois de março, pois a paz de todos está ameaçada. É preciso interromper as ações dos governantes que causam mais sofrimento às populações, destruindo os poucos momentos de convivência pacífica. O direito internacional deve prevalecer como norma para a construção da paz. E o Papa convoca os “que tem responsabilidade política para fazer um sério exame de consciência diante de Deus, que é o Deus da paz e não da guerra, e que quer que sejamos irmãos e não inimigos. Mais uma vez, a paz de todos está ameaçada por interesses da parte”.

Diante desse cenário catastrófico o Papa conclama todos os crentes dizendo que “Jesus nos ensinou que à insistência diabólica, à diabólica insensatez da violência se responde com as armas de Deus: com a oração e o jejum. Convido a todos a fazerem no próximo dia 2 de março, quarta-feira de cinzas, um dia de jejum pela paz”. Esse é o jejum agradável a Deus. Assim iniciaremos de maneira cristã a quaresma. Um católico que defende as armas como solução está caminhando na insensatez diabólica.

Se o mundo todo, toda a opinião pública, se colocar contra esse conflito boicotando de várias formas aqueles países que estão envolvidos, com certeza a trégua haverá, o diálogo acontecerá, e a paz brilhará nos céus da Ucrânia. Chega de balas e bombas iluminando os céus. A pessoa que não se incomoda com a guerra não caminha na paz, não trilha os caminhos da fé. A paz é filha da justiça e do direito. A guerra é filha dos interesses particulares, da sede de dominação, do ódio no coração. Se não fizermos nada agora, mais tarde será tarde demais. Provavelmente estaremos sozinhos para sermos devorados pelas forças da pólvora e nosso sangue cobrirá por fim o chão onde foram abatidos nossos irmãos. É preciso dar um basta ao mundo da loucura da guerra.

Edebrande Cavalieri

Foto capa: EBC – Agência Brasil