Artigos

O Papa Francisco nos brindou recentemente com uma catequese das mais importantes e desafiadoras para a vida cristã, a liberdade. Falamos tanto da liberdade

O Papa Francisco nos brindou recentemente com uma catequese das mais importantes e desafiadoras para a vida cristã, a liberdade. Falamos tanto da liberdade desde os tempos do iluminismo, século XVIII, sendo considerada um dos pilares da modernidade. O Papa toma a carta de São Paulo (5, 1) aos Gálatas para refletir conosco sobre esse tema: “Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Portanto, permaneçam firmes e não se deixem submeter novamente a um jugo de escravidão”.

Que liberdade é essa que Paulo nos coloca como caminho para superar a escravidão? Esse conceito de liberdade é equivalente ao conceito dado pelos filósofos iluministas do século XVIII? Ou existencialistas do século XX? A resposta mais rápida: não. A liberdade cristã não se situa nessas linhas filosóficas, mas muita gente confunde. Daí a importância da catequese cristã.

Os Reformadores protestantes do século XVI tomaram esse tema também como eixo da teologia. A liberdade entre os reformadores não se referia à liberdade de indivíduos como a filosofia moderna construiu ao longo dos séculos. Não se trata da liberdade de consciência, pois essa nos remete aos sujeitos individuais. A consciência na teologia cristã somente é reconhecida enquanto liberta pela Palavra de Deus.

Então que liberdade é esta que somente é dada pela fé cristã? Isso é o que precisa ser conhecido e reconhecido. É preciso irmos além da dimensão psicológica da liberdade e nos transformarmos em verdade. E não nos submetermos novamente ao jugo da escravidão, pois Jesus é “a fonte da verdade que nos liberta”.

A liberdade cristã está apoiada em dois pilares fundamentais: a graça e a verdade que Cristo nos revela. Portanto, a liberdade cristã pressupõe a fé. Trata-se de uma liberdade que nos é concedida, portanto é graça, pela fé cristã. E assim podemos nos relacionar com Deus como filhos e filhas. Isso é muito bonito de se ver e se viver. Deus não quer uma relação com os homens na situação de escravidão, mas de pessoas libertas. Ou seja, pessoas livres do pecado.

Desde o Antigo Testamento a escravidão do pecado também remete à questão histórica concreta. Deus quer que seu povo seja livre da escravidão dos egípcios e por isso convoca Moisés para conduzir o povo atravessando o Mar Vermelho e o deserto para chegar à terra prometida. A liberdade cristã assim apresentada pela Sagrada Escritura é histórica. Deus quer se relacionar com seu povo, mas na condição de povo livre.

A liberdade não é um direito adquirido ou conquistado como se defende na filosofia contemporânea. Para a fé cristã a liberdade é um dom e uma herança a ser preservada, cuidada, alimentada, fortalecida.

O apóstolo Paulo alerta a comunidade que com o conhecimento e aceitação da verdade de Cristo não tem nenhum cabimento deixar-se atrair por propostas enganosas que levam novamente para a escravidão do pecado e do legalismo. Até hoje tantos cristãos se refugiam no legalismo casuístico submetendo-se novamente ao jugo da escravidão. Trata-se de superar o jugo do homem livre em face do templo, do sábado e das formas rituais e religiosas que vão se acumulando ao longo da história e que não tem amparo no Evangelho de Jesus.

Paulo alerta de maneira bem explícita dizendo que alguns “falsos irmãos” estão se intrometendo na vida da comunidade, espiando tudo, especialmente a liberdade que eles adquiriam em Cristo com um único objetivo, reduzi-los à escravidão. Então toda pregação que impede a liberdade em Cristo jamais será evangélica. Poderia ser até alguma ideia religiosa do passado, mas não é evangélica.

O Papa então esclarece que “nunca se pode forçar em nome de Jesus, não se pode fazer de ninguém um escravo em nome de Jesus que nos liberta. A liberdade é um dom que nos é dado no batismo”. E Paulo completa de maneira claríssima: “Se permanecerdes na minha palavra, sereis meus verdadeiros discípulos; conhecereis a verdade e a verdade libertar-vos-á”. Precisamos também ficar atentos à armadilha política que usa esse versículo bíblico para o exercício da dominação, da escravidão.

Em abril de 2018, numa Celebração Eucarística na Capela Santa Marta, o Papa Francisco perguntava se somos livres para seguir Jesus, se somos livres das paixões, das ambições, da moda. Para ele, o mundo atual fala demais de liberdade, mas é sempre mais escravo.

Toma como exemplos Gamaliel que era fariseu e doutor da Lei, que convence o Sinédrio a libertar Pedro e João e Pilatos diante de Jesus e Barrabás. O primeiro é um homem livre que faz o seu trabalho de maneira tranquila. O homem livre não tem medo do tempo, pois acredita na ação de Deus. O homem livre é paciente, expressando assim sua profunda liberdade. Pilatos, ao contrário, não conseguiu resolver o problema que tinha em suas mãos porque não era livre, estava preso à promoção, ao lugar que ocupava; era escravo do carreirismo, da ambição, do seu sucesso pessoal. Enfim, era escravo de si mesmo, de sua própria imagem.

Por fim, a liberdade cristã que se conquista com a libertação do pecado não está isolada da fé cristã que nos coloca numa relação filial com Deus e não de servos, de escravos. Para isso basta uma vida vivida conforme a vontade de Deus. A referência central é a Cruz de Cristo. Trata-se do lugar onde somos despojados de toda liberdade, ou seja, a morte. Jesus realiza sua plena liberdade ao despojar-se na cruz, ao entregar-se à morte, conforme nos ensinou o Evangelista João, pois “o Pai me ama, porque dou a minha vida para a retomar” (Jo 10, 17). Foi assim pela Cruz que Jesus obteve a vida para todos nós, a plena liberdade.

Edebrande Cavalieri

Vania Reis    | Semana passada vimos as assustadoras estatísticas que nos mostraram o aumento do suicídio em crianças, inclusive existente antes da pandemia,

Vania Reis    |

Semana passada vimos as assustadoras estatísticas que nos mostraram o aumento do suicídio em crianças, inclusive existente antes da pandemia, que pode ser acessado neste link https://www.aves.org.br/suicidio-infantil-e-pandemia/. O que faz uma criança querer morrer? Se aos 7, 8, 9, 10 anos a vida está insuportável, o que está acontecendo com a nossa sociedade?! O que aconteceu para nossos filhos perderam a alegria infantil?

Entre as crianças mais carentes  os fatores de risco foram ampliados pela má nutrição e a disciplina violenta segundo estudo da Unicef. Muitas famílias viveram e ainda vivem uma realidade de extrema penúria. Muitos tiveram que renunciar ao lar e morar com familiares. Falta esperança de uma vida melhor.

Falam do desemprego, que claro é fator importante, mas a maioria destes viviam de pequenos serviços ou comércio de rua. Com o isolamento social e o  repetitivo lema do “fique em casa” literalmente tirou-se a comida da boca de muitas famílias. Confinados em espaços pequenos e frustrados nas suas necessidades a agressividade veio à tona e certamente a disciplina em muitos lares tornou-se violenta. O consumo de álcool cresceu muito neste período. Situação crítica

Mesmos em lares onde a situação social não é tão grave, houve esse preocupante aumento de suicídio em crianças e adolescentes  mesmo antes da pandemia. Precisamos, então, buscar respostas nas suas origens. Falando de forma  muito sintética e sem pretensão de dar uma visão completa vamos buscar apenas ampliar o nosso olhar.

Foram as ideias do movimento Iluminista (dos séculos 17 e 18) as bases das grandes transformações  da nossa sociedade. O  ideal de Rousseau  e seus seguidores era defender a liberdade, a razão, o progresso, a ciência e o afastamento entre igreja e estado. Ao se  contraporem ao domínio da igreja católica  como poder de Estado (e lutar contra a monarquia absolutista) esses pensadores  atacaram não só a igreja mas também a religião. Com o desenvolver dos críticos dos últimos séculos, como Marx, Nietzsche, Freud para citar uma ínfima parte, se chegou hoje ao culto da liberdade, que trouxe o individualismo  e o inevitável confronto com os princípios morais e éticos cristãos (que nada tem de individualismo). Para garantir a liberdade (e todas os seus desdobramentos)  mais recentemente começaram  a policiar a sociedade (tirar a liberdade) para que seus valores não pudessem ser mudados, com movimentos do tipo do “politicamente correto”( que passa a ser incorreto ao colocarem todos nós sob o mesmo padrão e critérios, ocorrendo muitas injustiças) como faziam os fariseus.

Os desdobramentos das ideias Iluministas, entre muitos outros,  levaram ao não direito dos pais de educarem os filhos como quiserem, ou seja a regulação do Estado na educação das famílias e as suas nefastas consequências. Lá embaixo combateram a igreja católica pelos mesmos motivos. Não queriam a  igreja fazendo parte na condução do povo e hoje  o estado laico quer impor às famílias cristãs seus  princípios e valores  e que de forma mais sutil (ou não) visam atacar nossas crenças junto com os direitos e liberdade dos pais. E ainda muitas vezes negligenciam os deveres destes pais.

A Unicef aponta em seus estudos(2021)1: “Na adolescência (como na infância), a criação e o apoio dos pais continuam sendo um dos mais fortes protetores da saúde mental.

Vejam bem “a criação e o apoio dos pais” é o que pode retroceder esse cenário. Não a liberdade dos pais de fazerem o que quiserem, de  serem individualistas  e de  cuidarem fundamentalmente de si mesmos. Muitos nem querem ter mais filhos porque não querem assumir a responsabilidade de serem pais, mas muitos querem ter apenas um “troféu social”, e igualmente não querem assumir a responsabilidade de serem pais. Nestes, as ideias de certo e errado, são totalmente autocentradas. Terceirizaram para a escola as suas responsabilidades e as próprias escolas tentam, na maior parte das vezes, retornar essa responsabilidade aos pais, que não as aceitam . “Suspenso no ar” sem ninguém verdadeiramente assumindo a criação dessas crianças, elas ficam à deriva! Sem se sentirem cuidadas, protegidas, a ansiedade cresce e a necessidade de apoio também. A criança busca então os colegas, querem se sentir parte, mas… com tantos modelos de criação individual e individualista, será difícil se encaixar. O bullying surge para a maioria e  sempre existiu, mas o problema agora é que ele atinge uma dimensão absurda com as redes sociais. Ser excluído do grupo dos amigos é punição terrível, publicamente então! Se à essa realidade se acrescer a falta de diálogo, a violência doméstica e disciplinar, a questão se agrava e aparecem a depressão, o isolamento, a automutilação e a  ideação suicida.  Percorremos aqui um caminho da depressão nas crianças e jovens, mas podemos somar muitos outros. É uma preciso parar e ver onde essa realidade está nos levando. Não podemos [1]assistir  essa  triste realidade de braços cruzados.

 

[email protected]

[1]

Edebrande Cavalieri      | Todo ano celebramos, inclusive com feriado nacional, o Dia dos Finados no Brasil, momento em que nossa cultura nos

Edebrande Cavalieri      |

Todo ano celebramos, inclusive com feriado nacional, o Dia dos Finados no Brasil, momento em que nossa cultura nos conduz para os cemitérios, com flores, com velas, celebrando das mais diversas formas. É o dia dos fiéis defuntos e junto à sua lembrança se fortalece em cada pessoa a esperança, a fé e a caridade. Em muitas paróquias onde estão situados os cemitérios ocorre uma verdadeira “missão finados” com os cuidados pastorais mais adequados, muito além da tristeza e das lágrimas. Como surgiram esses lugares que até são chamados de “dormitório dos mortos” ou “cidade dos pés juntos”?

Hoje vemos cemitérios pertinho das Igrejas configurando-se como um verdadeiro museu a céu aberto, pois representa em suas sepulturas a história das famílias tradicionais, tanto a opulência como a pobreza. Porém, nos últimos tempos o que mais se observa é o crescimento de uma verdadeira empresa que cuida da morte, com os cemitérios despidos dos elementos religiosos. De lugares tão complexos e ricos, ou pobre quando localizados nas periferias das cidades, os cemitérios atuais são mais um grande campo jardinado, de silêncio, onde ainda se reza, mas sem aquele aparato arquitetônico de outrora. Como chagamos a isso?

Os primeiros cemitérios foram as catacumbas e durante as perseguições aos cristãos nos séculos I e II esses lugares também serviram para que eles celebrassem principalmente a eucaristia. Era comum também as visitas aos túmulos dos mártires e ali mesmo celebrar. Daí nasceu a prática de se levar uma relíquia do mártir na pedra d’Ara posta sobre os altares das igrejas até hoje.

A partir dessa experiência cristã muita forte, desenvolveram-se entre os cristãos o costume e o desejo do enterrado o mais próximo possível do túmulo dos mártires. Nasce aí a crença de que ao ser enterrado assim tão pertinho deles que testemunharam a vida com o martírio, cada pessoa teria lugar garantido nos céus. Isso cresce de tal forma que nesses lugares os cristãos empenharam-se para a construção de igrejas e grandes basílicas. Dessa forma, o cemitério tornou-se um solo sagrado. Hoje só os bispos são enterrados em sua catedral.

Em meio à cultura geral encontramos diversas religiões que cultuam os mortos, chegando ao ponto de construir templos com altares dedicados a eles. As pirâmides do Egito antigo representam cemitérios destinados aos faraós.  Não é algo exclusivo do cristianismo essa identificação dos cemitérios como espaço sagrado. Por detrás dessa experiência religiosa acreditava-se que essa proximidade garantia ainda mais a continuidade espiritual entre os dois mundos.

O cristianismo buscou sempre manter essa expectativa de proximidade entre vivos e mortos. Por isso, temos a primeira experiência de cemitério no interior das igrejas. Foi durante a Peste Negra na Idade Média que foi preciso alterar essa prática, pois o número de pessoas mortas era muito grande e as igrejas não comportavam mais espaço para sepulturas.

Nasce assim o costume de construção de cemitérios o mais próximo possível das igrejas. As camadas mais favorecidas da sociedade gozavam de maior privilégio na localização de sua sepultura. Os pobres acabavam sendo enterrados nas pequenas igrejas de periferia urbana, tendo apenas uma simples cruz de madeira com uma pequena lápide para a identificação da pessoa morta. Até hoje vamos encontrar essa periferia no mundo dos mortos entre os pobres. Por esse motivo temos muitos cemitérios localizados nos centros urbanos e outros mais afastados, até fora da cidade. Mesmo com a morte vamos encontrar a expressão concreta dos processos de exclusão social. O povo costuma dizer que morrer está caro! Essa é a mais pura verdade.

O século XIX representa uma grande mudança nessas práticas de enterrar os defuntos. As campanhas de higienização, especialmente para conter epidemias e pestes, foram estabelecendo novas regras para enterro e localização dos cemitérios. Esse lugar que ocupava tantos sentidos teológicos vai perdendo a dimensão da sacralidade. Busca-se então não mais a proximidade com os lugares sagrados e proximidade com pessoas santas, mas lugares altos, arejados, arborizados e fora do perímetro urbano.

Nesses tempos de pandemia da Covid-19 tivemos essa experiência traumática com mortos sendo enterrados de maneira rápida, caixões lacrados e sem presença de familiares e da comunidade. Como foi triste esse tempo! Como foi triste ver a abertura de sepulturas em lugares distantes e frios, num cenário de guerra. Esses lugares com centenas de sepulturas abertas aguardando as funerárias trazendo os corpos são muito semelhantes aos cemitérios de guerra.

Os movimentos filosóficos contemporâneos como o positivismo e o iluminismo deram novas formas de se pensar os cemitérios. A igreja começa a perder o controle desse espaço considerado sagrado. Os cemitérios vão se transformando em lugares secularizados, plurais, destinados a todos os que puderem arcar com os altos custos.

Nesse sentido, a Constituição republicana brasileira de 1891, momento em que se deu a separação entre a Igreja e o Estado, estabeleceu em seu artigo 72: “Os cemitérios terão caráter secular e serão administrados pela autoridade municipal, ficando livre a todos os cultos religiosos a prática dos respectivos ritos em relação aos seus crentes, desde que não ofendam a moral e as leis”. Dessa forma chegamos à configuração atual dos cemitérios; alguns particulares organizados como empresas que o mantém e outros públicos administrados pelo poder municipal.

Em relação ao dia dos finados que está estabelecido no calendário litúrgico, a Igreja zela por esse dia como momento para prática pastoral. Desde a idade média quando se iniciou o culto aos mortos no Mosteiro de Cluny na França, a Igreja mantém um olhar para além da reza e do acender de velas.

Nos dias atuais, mesmo com cemitérios secularizados, encontramos uma preocupação pastoral da Igreja ou das religiões não apenas com o dia de finados, mas com todo o processo de morte, velório e enterro. O sentido da restauração da dor e da morte e a evocação dos valores da eternidade como o sentido último do caminho do ser humano nos mostram como esse cuidado pastoral tem atraído cada vez mais voluntários e agentes de pastoral.

Às vezes tenho a impressão que nesses lugares de tanto silêncio encontramos a oportunidade de ouvir o grito de dor, de sofrimento e das injustiças. O grito dos mortos não é fantasma que nos persegue nas noites escuras, mas a voz de Deus que nos pergunta sobre o que fizemos com os nossos irmãos que se foram. Desta forma, os cultos e celebrações tanto no dia dos finados como nos momentos da morte deveriam sempre nos colocar a pergunta: de que lado estivemos quando essas pessoas viveram nesse mundo? Pode ser que o nosso choro de hoje seja a confissão de culpa pela indiferença mantida em vida com essas mesmas pessoas.

Vania Reis      | O primeiro impacto que poderá ser sentido aqui, pela maioria dos leitores, é o saber que há um número

Vania Reis      |

O primeiro impacto que poderá ser sentido aqui, pela maioria dos leitores, é o saber que há um número cada vez maior de crianças e adolescentes que desistem de viver, muito jovens, e cometem suicídio, e não é só no Brasil. São crianças, de 10 anos ou menos, que estão desistindo da vida! É triste dizer que o suicídio é uma das principais causas de morte em adolescentes e essa estatística vem crescendo!

Segundo estudos da OMS1 nos últimos 20 anos a taxa global de suicídio caiu 36%, fruto de políticas públicas de prevenção ao suicídio, que buscaram transformar esse cenário e que vários países têm adotado, como a Austrália, Gana, Guiana, Índia, Iraque, República da Coreia, Suécia e EUA. Nós aqui apenas iniciamos um movimento, mas os resultados são ainda pequenos. Falta muito! No mundo todo as taxas de suicídio estão diminuindo, mas, nas Américas, as taxas aumentaram 17% no mesmo período! Já tínhamos um problema antes da pandemia e este piorou com o isolamento social.

Guilherme Polanczyk da USP coordenou um estudo brasileiro (2021) que revelou: uma em cada quatro crianças e adolescentes pesquisadas, apresentou ansiedade e depressão em níveis clínicos e precisou de intervenção de especialistas durante a pandemia. Polanczyk aponta, o que temos aqui insistido, que a pandemia é uma situação de estresse e pode levar tanto ao desenvolvimento quanto ao agravamento de transtornos mentais, especialmente em crianças mais vulneráveis.

Polanczyk nos faz, ainda, um alerta importante: “o número de crianças e jovens deprimidos só aumenta e adquiriu contornos dramáticos”. Ele salienta que essa realidade “não recebe a atenção devida das autoridades. Em todo o mundo a depressão é uma das principais causas de incapacidade entre adolescentes” e ainda que “o suicídio, em alguns países, é a segunda, e em outros, a terceira principal causa de morte entre adolescentes de 15 a 19 anos”.

A depressão infantil é uma realidade e, depois de tanto tempo de isolamento, estamos piores. Sabemos que os transtornos serão ampliado com a abertura do país, sendo somado à essa realidade os transtornos da “síndrome da gaiola” (termo cunhado pelo psiquiatra Gabriel Lopes para se referir aos que estão tendo dificuldade de sair do isolamento social, voltar às aulas presenciais ou outras atividades fora de casa.) Temos que estar atentos e não subestimar a tristeza, o não querer sair do quarto, enfim os sinais da depressão nos jovens.

O que está acontecendo com a nossa sociedade?! O que aconteceu com nossos filhos? Por que perderam a alegria infantil? O que podemos fazer?

Vamos discutir e aprofundar essas questões nas próximas semanas. Se desejar, entre em contato.

[email protected]

Edebrande Cavalieri        |       O Espírito Santo foi agraciado com a visita do Papa João Paulo II, hoje santificado pela

Edebrande Cavalieri        |      

O Espírito Santo foi agraciado com a visita do Papa João Paulo II, hoje santificado pela Igreja, em 1991 com uma visita memorável e muito significativa ao bairro São Pedro, conhecido através do documentário do jornalista Amilton de Almeida, como “lugar de toda pobreza” e uma grande celebração no Aterro da Conduza, hoje Praça do Papa.

A região de São Pedro era um grande terreno de mangue para onde praticamente todo o lixo produzido na cidade de Vitória era levado e em torno dele animais e humanos se aglomeravam para encontrar meios de sobrevivência. Ali ocorreu uma celebração que marcou profundamente a sociedade capixaba. Vendo as fotografias publicadas nos jornais daquela época ficamos impressionados com os semblantes das pessoas que se juntavam para ver o Papa.

Vivíamos um tempo de forte êxodo rural e crescimento desordenado da capital, fazendo explodir qualquer planejamento urbano, sanitário e habitacional. E foi nesse lugar que a Igreja escolheu para uma visita, tendo o Papa proferido um emocionante discurso e doado a quantia de 100 mil dólares que foram empregados na construção do Centro de Formação, conhecido pelo nome de João Paulo II, da paróquia daquela região. Talvez algumas pessoas não achassem adequada essa escolha. Medo de sujar a batina branca do Santo Padre?

Ali diante daquele povo sofrido, com fome, ouviu um coral com cinquenta crianças e seu olhar para toda aquela realidade era de profundo sentimento cristão. Parecia até que ia chorar. O Papa João Paulo II sentia ali diante daquela pobreza o que produz a injustiça social, e por isso, sempre foi um gladiador na defesa desse bem tão essencial para a vida humana. Naquele dia ele dizia que “São Pedro é um lugar de muita fé”. Não estava contestando o documentário “lugar de toda pobreza”, mas enfatizando que no meio dos pobres havia muita fé e ali era preciso que a Igreja se fizesse presente.

A década de 90 representava um momento de muitas expectativas na sociedade brasileira como um todo. Quando o Papa pisou em solo capixaba estávamos implementando a Constituição democrática promulgada em 1988. Caminhávamos de maneira confiante no processo de redemocratização da sociedade. Era uma Constituição cidadã, que inovava muito ao legislar sobre os direitos fundamentais.

A Igreja Católica desempenha no Brasil um importante papel na vida social, política e cultural do país como um todo. Para nós a vinda do Papa João Paulo II representava uma força em prol de dois pilares da sociedade: a justiça social e a paz. As divergências internas não extrapolavam o campo da lealdade e da fidelidade ao Papa. Era desejo de todos ter uma Igreja defensora, de maneira irrestrita, da justiça social e promotora da paz.

Assim naquele ambiente degradado de São Pedro, as Comunidades Eclesiais de Base expressavam uma Igreja que nascia do povo pelo Espírito de Deus, já dizia Dom Luiz G. Fernandes, quando bispo auxiliar de Vitória, em 1974.

Era o tempo do caminho pós-conciliar do Aggiornamento que estava de vento em popa. Sabia-se que havia muitos desafios pela frente, mas a confiança era tamanha que jamais imaginaríamos algum torpedeamento que alterasse os rumos da Igreja do Vaticano II.

Em 1998 na mensagem pelo dia mundial da paz, intitulada “Da justiça de cada um nasce a paz para todos”, o Papa João Paulo II abria sua fala dizendo que “A justiça anda em relação permanente e dinâmica com a paz. Justiça e paz têm em vista o bem de cada um e de todos, pelo que exigem ordem e verdade. Quando uma é ameaçada, vacilam as duas; quando se ofende a justiça, põe-se em perigo também a paz”. Nem é preciso ler o restante da mensagem. Com essas palavras cada cristão e especialmente os católicos, possuem um norte para sua vida concreta.

Sem pretender fazer algum tipo de análise crítica desses trinta anos, hoje o caminho corajoso seguido pelo Papa Francisco nada difere daquele momento de João Paulo II em sua visita ao Brasil e em seu magistério. As divergências estão mais na forma de conduzir a Igreja internamente com os diversos desafios que nasceram ao longo da história. Mas a pregação dos dois Papas está alinhada na mais absoluta coerência com a Doutrina Social da Igreja.

O Papa Francisco estabelece de maneira ainda mais forte o confronto para se estabelecer a paz dizendo que “não há justiça social que possa ser baseada na iniquidade, o que pressupõe a concentração da riqueza”. O Papa João Paulo II via nos rostos aglomerados das pessoas em São Pedro esse semblante de dor diante da iniquidade expressa pelo amontoado de lixo e a disputa das mesmas pessoas pelo que encontravam de alimento ou de material para renda.

A presença de João Paulo II aqui em Vitória, especialmente no Bairro São Pedro, é muito emblemática. Muito significativa. Muito evangélica. Era uma presença profética diante do crescimento econômico conduzido pelos grandes projetos industriais e exploradores da terra. O lixo de São Pedro era o grito dos pobres expulsos da terra.

Celebrar essa memória significa para nós hoje manter o mesmo compromisso eclesial assumido naquele momento histórico. Outras realidades de lixo e descarte foram crescendo em nossas periferias. A violência que vemos todos os dias estampada nos noticiários está vinculada diretamente ao problema da injustiça social. Por isso, nosso povo não vive em paz.

Vania Reis    | As consequências da pandemia da Covid 19 para a saúde mental das crianças e dos adolescentes no Brasil já era

Vania Reis    |

As consequências da pandemia da Covid 19 para a saúde mental das crianças e dos adolescentes no Brasil já era alarmante quando a Fiocruz publicou um caderno, no final do ano passado, mapeando essa realidade. Um ano depois só é possível acreditar na ampliação dessa realidade, inclusive com o forte indicador de aumento de suicídios em pré-adolescentes, tema que aprofundaremos na semana que vem. Buscar ações estratégicas efetivas para fazer face a esses efeitos da COVID 19 na saúde mental das crianças e adolescentes é algo, mais do que necessário, é urgente.

Como apontou o Diretor-Geral da Organização Mundial da Saúde (OMS) , Tedros Adhanom Ghebreyesus: “Os efeitos indiretos da COVID-19 na criança e no adolescente podem ser maiores que o número de mortes causadas pelo vírus de forma direta.”. A Fiocruz aponta (http://www.iff.fiocruz.br/pdf/covid19_saude_crianca_adolescente.pdf  ) que os prejuízos para esse grupo vão além do imaginado em relação ao ensino, à socialização e ao desenvolvimento. No estudo aparecem evidências claras que o “estresse (e sua toxicidade associada) afeta enormemente a saúde mental de crianças e adolescentes, gerando um claro aumento de sintomas de depressão e ansiedade”. O estresse se mostra, na sua face externa, o aumento da violência contra a criança, o adolescente e a mulher. Na face interna, a depressão e a ansiedade. “Crianças e adolescentes sofrem as consequências do enorme impacto socioeconômico nas famílias, com aumento do desemprego e impossibilidade de trabalho para serviços não essenciais” e ainda o “aumento da fome e do risco alimentar” devido, em parte, ao fechamento das escolas e das creches além de perdas nas receitas familiares.

O relatório da organização humanitária-cristã World Vision estimava que, só nos primeiros meses de 2020, 85 milhões de crianças e adolescentes entre 2 e 17 anos estariam sofrendo todos os tipos de violência física, sexual e psicológica devido às medidas de isolamento social, incluindo o fechamento de escolas. Escolas e creches fechadas fez a maioria, permanecer praticamente todo o período confinados em casa. A ONG já salientava que “o número alarmante representa um aumento na média anual das estatísticas oficiais que pode variar entre 20% e 32%”.  É certo que durante a pandemia esses números apresentados ainda são menores que a realidade, pois a subnotificação dos casos é fato. Longe das escolas e de ambientes comunitários (e assim de outros olhares), grande parte das agressões no ambiente familiar não é registrada. Manter o isolamento social agora com a vacinação no nível que está é mais prejudicial do que a liberação (com as recomendações de uso de máscaras e álcool gel).

Está na hora de lidar com os estragos da tormenta!

[email protected]

Edebrande Cavalieri  |    Em 2012 essa sigla inicia seu uso no twitter e se espalha pelas redes sociais tornando-se expressão de diversos modos

Edebrande Cavalieri  |   

Em 2012 essa sigla inicia seu uso no twitter e se espalha pelas redes sociais tornando-se expressão de diversos modos de levar a vida. O que mais conhecemos é nesse tempo de pandemia a postagem de fotos de eventos anteriores à Covid-19 para mostrar a falta que se sente de uma vida mais livre. Contudo, esse famoso #tbt expressa outros modos de existência.

Os termos na língua inglesa são throback Thursday, que em tradução literal seria “quinta-feira do regresso”, ou quinta-feira da nostalgia. Tudo indica que a origem tenha nascido do blog Nice Kicks norteamericano que às quintas-feiras publicava fotos de tênis antigos.

Na verdade, os conceitos, as palavras, as expressões e gírias vão se tornando eficazes na medida em que expressam dimensões da vida, da cultura. No nosso caso, a #tbt não expressa apenas uma foto que você traz para a lembrança de momentos passados. Muitas vezes, essa sigla expressa uma dimensão antropológica bem mais profunda. Sem pretensão de elaborar análises de cunho psicológico, queremos mostrar alguns pontos que nos parecem interessantes para refletirmos.

O entendimento desse fenômeno requer primeiramente distinguir dois componentes fundamentais presentes nesse caminho nostálgico. Em primeiro lugar há que se destacar a necessidade do homem de produzir lembranças. Ao longo da história isso se fez até como arte nas diversas esculturas e pinturas de personalidades religiosas, políticas ou culturais.

A Igreja aproveitou também dessa dimensão humana produzindo as mais diversas imagens dos santos e das santas cultuados nas devoções populares. Não apenas as igrejas se transformaram na casa dessas imagens, mas também com o advento da imprensa cresceram as reproduções gráficas dessas imagens publicadas em livros e revistas. Muitas dessas imagens ficam distantes do protótipo real. Uma imagem de um santo nem sempre é expressão de uma foto daquele mesmo santo. Muitas vezes é expressão de uma infinidade de relatos de uma dada cultura religiosa e devocional.

Esse modo de percorrer o passado como lembrança é próprio do homem e não há nada de mal nisso. Mesmo que a Reforma Protestante tenha eliminado essa prática nas diversas Igrejas e até utilizado para campanhas proselitistas gerando sentimentos de intolerância religiosa, a Igreja Católica buscou sempre compreender e pregar essa lembrança como algo próprio da dimensão antropológica do homem. Não se trata da adoração de imagens como é comum ouvir em alguns meios religiosos evangélicos. A memória torna-se nesse aspecto um elemento vital para as gerações do presente e do futuro. Ela vai se atualizando e reconstituindo as sociedades ao longo do tempo.

Temos então um vivido que se situa no passado, em gerações passadas, que vai se presentificando. Contudo, essas lembranças de coisas vividas podem sofrer desvios, interferências, afastando-se do contexto em que foram produzidas, ganhando nova reorganização no presente. Então a capacidade imaginativa do homem tende a mudar a realidade daquela lembrança. A partir de uma lembrança dada o homem desenvolve um novo ato de linguagem e comunicação daquele vivido, muitas vezes dotando-o de juízos tidos como expressão da verdade.

O segundo ponto a se distinguir na experiência da lembrança é o preenchimento deformado do seu sentido. Não estamos mais diante de uma foto real daquele passado vivido, mas de uma deformação do mesmo. Caímos então numa situação perigosa, pois muitas pessoas tem a tendência de exaltar positivamente aquele passado tornando-o campo da nostalgia, da saudade daqueles tempos, de como aquela época era tão boa. Muitos fazem do paraíso terrestre um campo nostálgico, da saudade, quando deveria se constituir em campo de esperança e de reconstituição nova da vida.

O campo nostálgico é tão forte em termos antropológicos que muitas pessoas passam a vida tentando recriar aquele contexto vivido, aquela foto tirada com pessoas felizes, sorridentes. Querem reconstruir aquele Jardim do Éden; até são organizadas excursões religiosas para esses lugares nostálgicos, quando deveriam ser apenas lugares da memória a ser presentificada e não restaurada.

Trata-se de um olhar para trás. Não temos como não lembrar do texto do livro do Gênesis (19, 17-26) em que Deus orientava Ló e sua esposa nos seguintes termos: “Livra-te, salva a tua vida; não olhes para trás, nem pares em toda a campina; foge para o monte, para que não pereças […]. E a mulher de Ló olhou para trás e converteu-se numa estátua de sal”. Não se sabe exatamente o que se passou no coração dessa mulher, contudo pode-se arriscar um juízo sobre esse olhar para trás como a tentação de permanecer apegada às coisas que havia deixado na cidade, as pessoas de seu círculo de convivência. O olhar para trás acabava impedindo-a de avançar para o encontro com outra realidade, para a qual Deus chamava.

A vida em #tbt é muito mais que uma moda do momento, da postagem de fotos para nos alegrar nesses tempos de pandemia quando vivíamos livremente nas tantas aglomerações, celebrações, shows, etc. A vida em #tbt pode expressar a tendência psíquica de muita gente que abdica de viver o presente, de trazer a memória do passado para ser presentificada e passam a vida empenhando-se na retomada de um amor perdido, de uma amizade rompida, de uma vida que lhe parece um paraíso. Imaginam essas pessoas que aqueles momentos eram verdadeiras graças de Deus, contrapondo-se com o que sentem do presente como um verdadeiro inferno. Negam o presente, para viverem de um passado recriado e falsificado.

Na Igreja podemos mostrar algumas práticas religiosas que não buscam presentificar aquele passado, mas reconstruir o mesmo para que assim as pessoas possam se salvar. Porém nem sempre a lembrança daquele passado confere com o que de fato acontecia. Muitas vezes, a exaltação do passado encobre a covardia de enfrentar o presente e seus desafios. Assim se nega o caminhar do presente, as convocações para viver uma nova vida e investem tudo para restaurar um passado que só existe na imaginação, deturpada e deformada pelos interesses e desejos do presente.

A memória tem uma função constitutiva de nossa existência e não pode ser desprezada. O cuidado com essa dimensão humana nos torna ainda mais humanos, abertos à felicidade. Como Ló, é preciso livrar-se de uma realidade para encontrar o horizonte que Deus nos mostra à frente. O túmulo vazio não é lugar para permanecer chorando, mas um impulso para avançar.

Vania Reis | O BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) organizou um caderno de orientação  com pesquisas atualizadas sobre os efeitos do “Estresse e  Desenvolvimento

Vania Reis |

O BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) organizou um caderno de orientação  com pesquisas atualizadas sobre os efeitos do “Estresse e  Desenvolvimento Cerebral  na Primeira Infância(2021) focando a pandemia mundial do  COVID-19 (disponível em https://publications.iadb.org/publications/spanish/document/Habilidades-para-la-vida-El-estres-y-el-desarrollo-cerebral-en-la-primera-infancia.pdf) com o objetivo de gerar rapidamente evidências para estabelecer as bases para a recuperação  desta realidade. O estudo é importante não apenas para o estabelecimento de políticas públicas, mas para nos orientar como pais e cuidadores destes pequenos brasileirinhos.

O estudo trata, inicialmente, do que temos colocado aqui nas últimas semanas. “A pandemia trouxe o estresse crônico na vida das crianças a um nível sem precedentes na era moderna.”  Sabemos que o desenvolvimento na primeira infância é   fundamental para um melhor crescimento na adolescência e na idade adulta e, por isso, o mapeamento desta realidade é primordial para conseguir abordar as ações necessárias ao futuro destas crianças.

A publicação do BID reúne estudos ao redor do mundo onde inevitavelmente a vida das crianças pequenas tem sido alterada por seu afastamento das creches, das escolas e muitas vezes dos cuidadores a que estavam habituadas. Destacam “a exposição às ansiedades exacerbadas de seus pais, o aumento da   violência doméstica e uso de substâncias, perda de renda familiar, perda de entes queridos” e ainda do “medo de um vírus que   as crianças absorvem a partir do   televisão e aqueles que falam ao seu redor“. Nada diferente dos nossos até aqui.

Destacam que a tensão financeira decorrente da crise atual é um importante fator ambiental a ser examinado em relação ao desenvolvimento infantil, uma vez que o baixo status socioeconômico tem sido vinculado com   estresse infantil (Lupien et al., 2000). Em termos internacionais, fatores de estresse desta pandemia estão também ligados “ao aumento dos conflitos familiares e ao uso de práticas parentais severas, que em ambos os casos são preditores de estresse infantil elevado”.  Dados das pesquisas realizadas na América Latina revelam que, lá como cá, a mesma ligação entre os múltiplos estressores que os pais enfrentam durante a pandemia e o uso de práticas violentas de paternidade. Mas, salientaram tristemente para nós, que “na América Latina a disciplina violenta é pelo menos duas vezes maior entre os cuidadores que relatam sintomas de estresse (Näslund-Hadley et al., 2020).

Os pesquisadores do BID divulgaram os resultados da pesquisa que realizaram coletando em 4 países da América Latina amostras de saliva de crianças pequenas de domicílios de baixo e de alto status socioeconômico. Os níveis de cortisol nas crianças pequenas em domicílios de baixo status socioeconômica foram significativamente mais elevados em comparação com  crianças  de alto status socioeconômico. Os pesquisadores já sabem que “elevados níveis de cortisol durante períodos prolongados de estresse podem impactar negativamente o desenvolvimento neurológico”, e as crianças mais carentes, são as mais vulneráveis!  A importância, desta medida, para o estudo é mostrar que “estes se destacam especialmente por desempenhar um papel relevante no desenvolvimento cognitivo (Teixeira et al., 2019)”. Ou seja, o estresse prolongado como nesta pandemia pode atrasar o desenvolvimento das crianças e, de forma ainda mais grave, nas que se encontram em famílias socialmente mais vulneráveis.

Para pensarmos numa intervenção efetiva é fundamental tomar contato com este desafio. Precisamos fomentar pesquisas dentro da realidade de nossas crianças, a começar pelos pequenos, abaixo de 3 anos, lembrando a urgência da mesma que a cada “poda neural” (veja  artigo da semana passada) perde mais e mais a resiliência do cérebro.

[email protected]