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A Igreja Católica convida seus fieis no mês de agosto a celebrar tendo como intenções as vocações para os ministérios ordenados especialmente a vocação

A Igreja Católica convida seus fieis no mês de agosto a celebrar tendo como intenções as vocações para os ministérios ordenados especialmente a vocação sacerdotal, para a vida em família, para a vida consagrada e para os ministérios e serviços na comunidade, especialmente o catequista. Assim temos o dia do padre, dos pais, da vida religiosa, dos ministérios leigos e do catequista quando houver cinco domingos no mês de agosto. Na verdade, todas essas intenções estão na direção da vocação à vida cristã.

A Bíblia nos apresenta um cenário bem amplo da vocação e muito impressionante. O chamado de Deus tem papel importantíssimo na Revelação e no plano de salvação. Deus sempre chama para uma missão, para enviar em vista de uma obra especial no plano de salvação. Por isso, ela é sempre pessoal, mas desempenha função importantíssima junto ao povo. Servir a Deus é estar no meio do povo servindo-o. A vocação não é um chamado em vista de si mesmo. Muito interessante é o fato de os reis não receberem esse chamado ou nem ouvirem esse chamado, mesmo sendo ungidos. Foi Samuel o responsável pela unção dos reis Saul e Davi, e desde esse dia o Espírito do Senhor se apoderou deles.

Jesus Cristo chama pessoalmente aqueles que deverão segui-lo, como é o caso dos doze apóstolos. A Igreja nascente entendeu logo que a condição cristã representa uma vocação como uma tomada de posição pessoal, nascida no Espírito, com uma diversidade de dons, de ministérios, de operações, formando uma só Corpo e um só Espírito. Uma pessoa que se diz cristã e entende-se de maneira isolada do corpo eclesial não está na condição de vocacionada por Deus, mas de si própria. Por isso o Papa Francisco tem alertado inúmeras vezes sobre o perigo da Igreja cair na autorreferência.

O Papa em sua mensagem para esse mês sublinha que “a nossa vida e a nossa presença no mundo são frutos de uma vocação divina”. Trata-se de um chamado do Senhor para o seguir. Mas nos alerta dizendo que o chamado do Senhor não é evidente como se acontecesse algo inusitado no nosso dia a dia e assim ouvimos o chamado divino. “Deus vem de forma silenciosa e discreta, sem se impor a nossa liberdade”. É preciso desconfiar de descrições mirabolantes de pessoas alegando terem sido chamadas por Deus. Ele não convoca através de alto falantes. Ao mesmo tempo é preciso tomar cuidado para não sufocar ou mesmo apagar o chamado de Deus em função de nossas inquietações e nossos desejos tão mercantilistas. O homem mais preocupado com seus interesses tem estado surdo ao chamado divino.

O mundo moderno toma da Sagrada Escritura o termo equivalente a vocação e aplica-o ao conceito de trabalho, que desde então vai perdendo sua conotação pejorativa. Estudiosos percebem essa mudança na própria tradução da Bíblia feita por Lutero. Doravante trabalho e vocação vão caminhando lado a lado. Era o que sistema capitalista necessitava: vocação como profissão para o mercado de trabalho.

Hoje chegamos ao cúmulo de mudar a formação de nossos jovens reduzindo-a ao mercado de trabalho e não para o mundo do trabalho. Corre-se o risco de transformar também determinadas vocações religiosas em algo para o mercado de trabalho. Padre ou Pastor correm esse risco com o advento das novas perspectivas religiosas. Isso seria um total descalabro no entendimento da vocação como chamado divino. Quando ser ministro ordenado descambar para uma visão mercantilista, como algo do mercado de trabalho religioso, funcionários do altar, perde-se a grandeza da vocação cristã como “luz do mundo e sal da terra”.

Gostaria de chamar mais a nossa reflexão para as vocações leigas. Diversas pesquisas com jovens brasileiros na atualidade nos mostram um quadro de grandes incertezas e inseguranças. Isso vale tanto para o caminho para a vocação cristã quando para a vida profissional. É nítida a incapacidade de um número crescente de jovens de decidir-se, de posicionar-se. Às vezes, temos a impressão que muitos jovens não amadurecem mesmo chegando aos 40 anos de idade. Vivem às custas dos próprios pais.

Um dos fatores que dificulta o discernimento para a decisão está na falta de critérios seguros e claros que ajudem na escolha do caminho. Também na vida religiosa os critérios são variados, e alguns são puramente conveniências estruturais do momento, “onda do momento”, que pouco tempo depois desaparecem ou tornam-se superados. Assim o mundo dos adultos precisa mostrar com clareza os princípios e critérios fundamentais para um jovem que aparece querendo seguir uma determinada vocação, especialmente a ministerial na vida eclesial.

Outro item em que nossos jovens se perdem com indecisões e incertezas se refere à questão dos valores. Vivemos um mundo de profunda instabilidade, relatividade; vive-se num mundo líquido. Então cabe perguntar sobre o que vale a pena seguir. Eu dizia quando, na condição de Diretor de Centro Universitário fazia a colação de grau dos formandos de curso superior, que eles deveriam empenhar esforços para que aquele diploma que estavam recebendo servisse para torná-los felizes. Assim, não há como escapar de questionamento sobre o sentido e a finalidade do existir.

Na vida cristã, antes da ordenação em qualquer ministério dever-se-ia perguntar a cada pessoa por que quer ser padre, ministro ou catequista. E completar com outra perguntinha instigante: para que você deseja exercer esse ministério? Sem responder a essas duas questões a pessoa não amadurece no discernimento vocacional. Já imaginaram essas duas questões sendo propostas aos grupos que usam da religião como trampolim para a vida política? Tem muito líder religioso que jamais seria chamado por Deus, pois o seu desejo é ganhar uma eleição política e assim atender aos grupos econômicos que o apoiaram.

O sociólogo Max Weber pronunciou duas conferências a estudantes universitários na Universidade de Munique em 1917 e 1919, tendo como temas “A ciência como vocação” e “A política como vocação”. Na política brasileira atual calhariam muito bem essas duas conferências. Penso que serviriam ainda mais para a nossa reflexão. Há uma política que nega a vocação para a ciência na medida em que se nega o valor de seu produto, o conhecimento.

O mais desafiador nos tempos atuais está, em meu entendimento, na compreensão da política como vocação. Podemos nos referir a uma vocação cristã para a vida política. Provavelmente as coisas seriam diferentes do que está na prática atual. Muitos políticos falam tanto de Deus, mas suas ações representam bem o caminho dos falsos profetas e vendilhões do tempo. Muitos fazem da política algo completamente contrário ao que reza a Constituição republicana e transformam sua ação apenas para atender a seus interesses pessoais, familiares e de grupos econômicos.

Weber dizia naquelas conferências proferidas no contexto da I Guerra Mundial que não era o florescimento do verão que se apresentaria diante daqueles jovens universitários, mas do início de uma noite polar de trevas e de durezas férreas. O mundo que se mostrava estava marcado pela amargura e pelo farisaísmo, grandemente embrutecido. Alguns empreenderam uma fuga mística do mundo. Todas essas pessoas que estavam conduzindo a política de então não estavam à altura do mundo, não possuíam a vocação para a política, a vocação que eles acreditavam possuir. A brutalidade política chega ao ponto mais cruel com o advento do nazismo com a disseminação do ódio, da intolerância, e do aniquilamento das pessoas.

A política como vocação é bem o contrário dessa estupidez. Significa um trabalho lento e forte de perfuração de duras madeiras ao mesmo tempo que apresenta ao mundo paixão e acuidade visual. Há que se ter firmeza para obter as condições de enfrentar o fracasso de todas as esperanças. E somente assim, mesmo com o mundo manifestando ainda mais estupidez e a pessoa não desistir dessa luta essa pessoa pode ser dita que possui vocação para a política.

Por fim, o Papa Francisco nos convoca para uma nova presença na política da América Latina, com novos rostos, novos métodos. Para ele, “entrar na política significa apostar na amizade social”. Não se restringe à administração do poder, dos recursos e das crises. “A política é uma vocação de serviço”, nos diz o Papa.

Edebrande Cavalieri

A Igreja católica celebrou no dia 09 de agosto a festa litúrgica dedicada a Santa Edith Stein, canonizada em 1998 e colocada como co-padroeira

A Igreja católica celebrou no dia 09 de agosto a festa litúrgica dedicada a Santa Edith Stein, canonizada em 1998 e colocada como co-padroeira da Europa ao lado de outras duas mulheres santas Catarina de Siena e Brígida da Suécia. O papa Bento XVI definiu-a como “luz na noite escura”. O papa João Paulo II que a canonizou dizia que essa santa representa “uma viagem na escola da cruz”. E o papa Francisco não economiza palavras para a definir. Trata-se, segundo ele, de uma “mártir, mulher de coerência, mulher que busca a Deus com honestidade, com amor e mulher mártir de seu povo judeu e cristão”.

O dia da festa litúrgica definido pela Igreja, 09 de agosto, parece ter sido inspiração do Espírito Santo, pois nesse dia foi lançada a segunda bomba atômica sobre o Japão, na segunda guerra mundial. E foi nesse mesmo dia 09 de agosto de 1942 que Santa Edith juntamente com sua irmã Rosa foram martirizadas no campo de concentração nazista de Auschwitz-Birkenau, na Alemanha, após serem deportadas da Holanda por ordem de Adolf Hitler.

O cenário da festa litúrgica contrasta de modo radical com esses dois eventos, frutos da irracionalidade humana que tantos ainda hoje querem negar. Edith Stein mais outros 244 judeus residentes na Holanda foram extraditados para a Alemanha por que o episcopado católico holandês se opôs publicamente contra as perseguições aos judeus. A ordem de Hitler chegou rapidamente listando as pessoas que deveriam ser enviadas para a Alemanha.

Essa perversidade ideológica levou à morte mais de seis milhões de judeus, verdadeiro holocausto, um genocídio. Não se sabe ao certo quantos foram sacrificados, pois os nazistas ao perceberem o final da guerra trataram de destruir grande parte da documentação existente e outras evidências que pudessem comprometer seus executores. Além do ódio aos judeus, o nazismo tinha outro foco do ódio conduzido por Hitler. Trata-se da União Soviética. Calcula-se que em torno de sete milhões de civis soviéticos, incluindo judeus, foram mortos pelas tropas nazistas e nos campos de concentração.

É nesse cenário de radical intolerância que desponta a figura dessa mulher santa. De família judia, desde pequena enfrentou a postura radical advinda da sinagoga. Seu desejo de estudar foi rompendo com qualquer postura de intolerância e assim passou a estudar filosofia fenomenológica com Edmund Husserl, sendo sua assistente, tornando-se a primeira mulher com o título de doutorado na Alemanha. Com essa habilitação ela estava apta parra exercer o magistério nas Universidades, mas o fato de ser mulher e judia impediu-a por toda a vida. E assim passou a se dedicar à educação das crianças e dos jovens, tornando-se uma grande pedagoga. Converteu-se ao catolicismo e acabou seguindo o caminho da vida religiosa como carmelita em Echt.

Foi na escola fenomenológica que ela aprofundou o conhecimento do humano. Logo teve que romper com a imagem cartesiana do “ego cogito”, isolado no mundo e dos outros. A ideia de sujeito que nasce na modernidade é perversa, pois não reconhece a existência do outo. O eu se basta. Eu penso, eu existo. Dane-se o mundo! Mas a fenomenologia que Stein estuda com Husserl mostra que eu nada sou sem o meu “analogon”, sem o outro (eu). O eu que existe no mundo jamais está isolado. Ele se constitui com o outro. Por isso dizemos Eu-Tu. Então seremos enquanto humanos um grande “nós”.

Nasce assim um conceito chave para entendermos a via da cruz na noite escura, que é a intersubjetividade. Sempre serei eu junto com tantos outros. Uma comunidade não é um amontoado de indivíduos isolados. Não é uma soma de seres. Nem é possível contarmos as pessoas que compõem uma comunidade, pois não apenas teremos aquelas que estão presentes corporalmente, mas também aquelas ausentes, aquelas pessoas que já morreram, as pessoas que ainda nascerão. Uma comunidade é um caminho de solidariedade entre vivos e mortos, mediados permanentemente pela solidariedade.

É na comunidade, no encontro solidário com o outro, que nossa ação deverá se desenvolver como verdadeiro protagonista. Não se trata de um agir isolado, como se fosse o salvador da pátria. Edith Stein representa a força da mulher que rompe diversos tipos de perversidade ideológica. Mesmo antes de morrer na câmara de gás, ao ser perguntada sobre o que se deveria fazer naquela situação ela só responde: agora nada mais a fazer, a não ser rezar.

A luta contra a perversidade ideológica deve ser permanente, para que não seja tarde. O machismo deve ser enfrentado não com revanchismo, mas com ações que alterem os rumos das relações humanas em nosso entorno e na comunidade. A luta contra a perversidade ideológica de regimes políticos deve ser permanente. Edith Stein jamais imaginaria que por ter trabalhado na primeira guerra como enfermeira seria levada à morte pelos próprios alemães a quem servira em 1914.

A perversidade ideológica não contabiliza ações humanitárias. Se for preciso passa-se por cima de todos seus próprios servidores. Hitler sempre dizia: “Comigo está o futuro da nação alemã. Contudo, existe, vivendo entre nós, uma raça não alemã, estrangeira, que não se dispõe e não é capaz de abrir mão de suas características. Suas atividades produzem uma tuberculose racial entre as nações”. Será que o mundo evoluiu depois da tragédia jamais vista na história humana? Hoje há diversos grupos que são objetos de ódio, de discriminação, de intolerância. E pior ainda, tudo feito em nome de Deus como a direita cristã tem agido em diversos lugares do mundo. Que Igrejas hoje são capazes de uma ação semelhante àquela que o episcopado holandês fez confrontando com as ações de Hitler? Foi nesse contexto que Edith Stein foi martirizada, depois de deportada da Holanda.

Desde estudante ela foi levada pelo mestre Edmund Husserl a estudar um fenômeno fundamental na relação intersubjetiva e na relação pedagógica e esse caminho tornou-se fundamental para enfrentar as diversas perversidades ideológicas. Em seu caminho ele propôs que ela estudasse com profundidade o conceito de “empatia” (em alemão Einfühlung). Hoje estão até exagerando no uso desse conceito. Fala-se em ser empático, ter empatia, como se fosse algo bem natural.

Na verdade, Edith Stein nos mostra que a empatia é uma experiência originária de encontro. Por ser originária, a empatia é constituinte, nos torna seres humanos. Para a fenomenologia, empatia é como se a gente sentisse o outro dentro de nós mesmos e juntos nos constituímos numa vida comunitária e de solidariedade. A empatia não é ausência de bons modos ou má educação. É algo muito profundo.

Hoje com as diversas perversidades ideológicas de cunho político e religioso, a empatia torna-se uma alavanca para mover esse mundo em vista de algo melhor. Quem não conseguir sentir o outro, o diferente, o sem lugar, de maneira não empática, alimentando sempre ódio, intolerância e indiferença, não trilha a escola da cruz, mesmo rezando ininterruptamente numa Igreja. A oração sem a experiência empática pouco vale; a principal função do amor está exatamente na capacidade de sentirmos o outro dentro de nós mesmos. Trata-se do amor radical expresso por São Francisco de Assis.

Por fim, estamos diante de uma das maiores filósofas de todos os tempos. É uma grande luz a iluminar o pensamento, a atividade intelectual. Em sua prática pedagógica com alunos da escola secundária ela dizia que estava diante de alunos que possuíam grande capacidade reflexiva que os levaria a melhor compreender a relação entre o ser humano e Deus, o ser humano e o mundo. O caminho pedagógico assim parte da descoberta desse mundo humano dos alunos integrando numa relação intersubjetiva Deus, Homem e Mundo. Edith Stein finca assim sua fé na história e constrói um caminho contra todo tipo de intolerância e perversidade.

Que tal trilharmos esse caminho da cruz!

Edebrande Cavalieri

Uma em cada quatro mulheres acima de 16 anos relata ter sofrido algum tipo de violência doméstica, durante a pandemia de Covid-19 (2019/2021) segundo

Uma em cada quatro mulheres acima de 16 anos relata ter sofrido algum tipo de violência doméstica, durante a pandemia de Covid-19 (2019/2021) segundo recente levantamento do Datafolha (06/2021) . A pesquisa  mostrou que  caiu a violência na rua (de 29% para 19%),  aumentaram as agressões dentro de casa, (passando de 42% para 48,8%) e cresceu a participação de companheiros, namorados e ex-parceiros nas agressões (de 39% para 43,5%). As  maiores vítimas de violência doméstica (65,7%) são as mulheres divorciadas e as solteiras. 87,8% têm entre 16 e 44 anos, sendo a idade inversamente proporcional à incidência de violência, ou seja quanto mais jovens maior a incidência: de 16 a 24 anos: 35,20%; de 25 a 34 anos 28,60%; de 35 a 44 anos 24,40%). As mulheres que sofreram violência doméstica estão entre as que mais perderam renda e emprego na pandemia, e quando se analisa a violência contra mulheres acima de 50 anos, por exemplo, cresce a participação de filhos e enteados nas agressões. Os pais também estão representados neste quadro de aumento de violência doméstica, crescendo 12,1% neste período.

A pandemia de fato impactou essas famílias que não conseguiram mais escapar de seus problemas nas relações pessoais. As dificuldades financeiras e a falta dos escapes usuais das pessoas em tempos de stress foram algumas das variáveis que pesaram e, em parte, explicam o aumento desta violência.

O que está acontecendo nas nossas famílias? Estamos mais agressivos ou menos tolerantes?  Vamos tentar entender um pouco mais.

Quem são estas mulheres? Elas nasceram após a geração das queimas de sutiãs nas praças, dos anticoncepcionais e da libertação feminina. Foram criadas por mães que lhes ensinavam: “não deixe nenhum homem mandar em você” e “trabalha para ter seu dinheiro e não depender de homem”. Essas mulheres, empoderadas desde o berço, não aceitam o lugar de submissão de suas mães, e convivem com homens criados, inclusive, pelas mesmas mulheres, que ensinam aos filhos a “não deixar mulher mandar em você”. Evidentemente, pelas nossas incoerências sociais,  o conflito foi e continua sendo inevitável.

Quem são  estes homens? Em contrapartida os homens brasileiros sempre foram criados para serem o “chefe” de suas famílias, a serem servidos e não a servir, a serem fortes, viris, corajosos, não lhe sendo permitido o medo, a insegurança,  choro ou qualquer fragilidade: “coisas de mulher”. Qualquer desvio do perfil machão era logo classificado de “maricas”( para usar um termo suave)!  Ser o chefe na familia, repetia  a visão secular de homem autoritário.

Durante as grandes guerras, as mulheres foram sendo chamadas a ocupar espaços profissionais e depois da segunda guerra, o ambiente nas empresas também foi sendo gradativamente modificado assim como o perfil dos colaboradores e de chefias. Surgiram novas tecnologias e com as novas mídias, era necessário conhecimento e não força, diálogo e não chicotes. As pessoas agora  eram “pagas para pensar” . Antes, o grande jargão do chefe autocrático era o oposto, “você não é pago para pensar”.

No Brasil, como no mundo todo, o índice de educação formal entre as mulheres é maior. Elas foram ganhando espaços também por terem salários no mínimo um terço a menos que os homens, além de serem acostumadas a multitarefas e a jornadas ampliadas. Aos poucos o estilo de gestão das empresas foi passando do imaginário masculino, focado no poder autocrático, para o imaginário feminino, compartilhado e participativo. No trabalho, o estilo autocrático (típica do estilo “machão”) ainda resistiu no topo das organizações, mas perdeu espaços para o estilo mais “soft” privilegiando as mulheres em muitas áreas. Os homens que não se adequaram às novas exigências, foram sendo demitidos e mesmo quando reabsorvidos pelo mercado, muitos o foram em funções mais operacionais ou subempregos e o estresse e as frustrações vivenciadas de uma forma ou outra. Esses homens tiverem que viver a transformação desse processo, da nova ética, imposta aos poucos e sem retorno. O índice de desemprego entre os homens subiu muito. As mulheres, com menores salários, foram chamadas a enfrentar os desafios  de mundo agora tão competitivo nos preços.

Com as grandes transformações culturais o perfil “machão”, muito criticado no  espaço público, ainda sobrevive no espaço do íntimo, nos lares. DaMatta, conhecido antropólogo brasileiro, nos mostra com muito primor que neste espaço íntimo, as pessoas se fundamentam em suas próprias regras. Desta forma, em suas casas, esses homens encontram o espaço de poder que já não encontram externamente. Os homens que tinham, no espaço “da casa”, sua ilha de poder e alicerce da sua identidade foram sendo confrontados por suas companheiras, que conquistaram a independência financeira e foram se libertando das relações autoritárias. Não conseguindo lidar com os sentimentos de fracasso e de frustração, alguns tentam abalar a autoconfiança da mulher, outros ameaçam e partem para a agressão. Não sabem lidar com as emoções, pois nossa sociedade nunca lhes permitiu outro caminho. Culturalmente no Brasil o papel masculino sempre foi estabelecido valorizando a imposição, o poder, a raiva e a briga.

A rejeição pública que esse homem vive  quando a sua mulher pede a separação/divórcio é um confrontar-se com a sua masculinidade, com a sua impotência. Ao serem abandonados  por elas, alguns não suportam a humilhação. Matam a mulher e muitas vezes se matam.

Nossa sociedade tem que se dar conta de suas responsabilidades neste cenário. É até cruel ir em busca de culpados. São  as nossas incoerências que estão nesta base. Precisamos encarar as mesmas, para transformar essa realidade.  O feminicídio é resultado de nossa dificuldade em rever e preparar as novas e as antigas gerações para os novos parâmetros.  As mudanças no imaginário demoram, não acontecem porque as  pessoas passaram a conceituar que um jeito de ser não é mais desejado. Novos comportamentos  precisam  ser internalizados por homens, mulheres, pais e mães Todos. A escola também é vital nesse movimento. Precisa ajudar nesse processo, de forma mais sistêmica  e sair do simplesmente ser instrumento de desequilíbrio destas forças.

O problema está “estourando” muito pelas  frustrações de homens que não  conseguem encontrar mais seus espaços.  Mas a mudança desta realidade não é apenas empoderar a mulher e desvalorizar o homem “padrão”, que não é uma roupa que está fora de moda.  Falta refletirmos em modos de transformar a realidade, modos motivar, de ensinar, de apreender e internalizar o direito de todos ao respeito e ao amor como nos ensinou Jesus e, assim, libertando os casais deste modelo de relacionamento pautado pelo poder e não pelo amor.

Vania Reis

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Todos nós estamos nos perguntando sobre evento de horror ocorrido na Praia da Costa, Vila Velha, quando um jovem de 22 anos que cursava

Todos nós estamos nos perguntando sobre evento de horror ocorrido na Praia da Costa, Vila Velha, quando um jovem de 22 anos que cursava medicina executou sua mãe e seu pai com uma faca e depois pôs fim a si mesmo. O que isso significa? Ele deixou um cenário muito rico em símbolos e expressões no apartamento onde morava com os pais. Trata-se de uma tragédia que não é resultado de um impulso momentâneo, decorrente de um surto psicótico, como estamos acostumados a ver. Tentaremos olhar esse fenômeno no crivo das ciências da religião. Na verdade, a compreensão e explicação desse fato demandam vários olhares e o que se registra aqui é apenas um olhar, sem pretensão de esgotar o fato.

Pelo que foi possível observar nas fotos divulgadas do apartamento, percebe-se que o autor demandou bastante tempo para descrever o que estava sentindo naqueles momentos e registrando tudo nas portas, nas paredes, nos armários, no chão. O cenário ali descrito está todo produzido a partir do texto bíblico do livro do Apocalipse, especialmente o capítulo 12, que descreve a luta de uma mulher grávida vestida de sol e um enorme dragão vermelho com sete cabeças e dez chifres. O dragão queria arrancar o feto do ventre da mulher, porém esse menino foi arrebatado para junto de Deus e o dragão foi lançado sobre a terra, e a mulher fugiu para o deserto, lugar preparado por Deus, para se defender durante mil duzentos e sessenta dias.

O jovem se fixa no versículo 12 que diz: “celebrem-no, ó céus, e o que neles habitam, pois o diabo desceu até a terra e o mar. Ele está cheio de fúria, pois sabe que lhe resta pouco tempo”. O texto bíblico completa-se nesse capítulo dizendo que o diabo passou a guerrear contra o restante da descendência da mulher que se mantinha fiel a Deus. É o fim dos tempos! Não há tempo a perder.

A partir desse contexto, o jovem, filho daquele casal, passa a registrar diversos símbolos religiosos pelo apartamento todo, como a cruz invertida, o número 666, uma página rasgada da Bíblia com escrita em vermelho dizendo “Ele me obrigou”, “Ele é real”, cinzas sobre as páginas da Bíblia, garrafas de bebidas, etc.

A cruz invertida tem origem medieval e expressa algo demoníaco, contrariando a cruz que trouxe a salvação. A cruz invertida se assemelha a uma espada que serve para matar. Nesse sentido, o uso de arma branca para matar os pais e a si mesmo tem muita semelhança.

O número 666 é o mais conhecido entre nós. Representa a besta do Apocalipse e foi objeto de transferência significativa para o Imperador romano e até o próprio papa. As bebidas estão inseridas nos rituais de diversas religiões e o próprio cristianismo herda o vinho como elemento simbólico da última ceia de Jesus Cristo.

O que me chamou muito a atenção foi a página rasgada da Bíblia com escrita em vermelho “ele me obrigou”. Ora, se o capítulo 12 se refere ao dragão, não poderia ser outra coisa. E aqui a gente esbarra na pressa quando diz que o rapaz foi incorporado pelo demônio naquele momento. Penso que é muito prematuro afirmar que se trata de um endemoniamento. Prefiro entender esse momento como resultante de um processo bem forte de domínio religioso conduzido de maneira fragmentária, fundamentalista, sem acompanhamento pastoral. A incorporação de entidades demoníacas é muito defendida pelas posturas conservadoras. Isso não seria uma forma de se eximir da responsabilidade da formação de agentes demoníacos na sociedade? A sociedade atual precisa ser exorcizada de outras formas demoníacas que estão dominando o mundo.

A página rasgada da Bíblia também é muito significativa. Poderia ser algo casual, factual, mas prefiro entender na perspectiva simbólica. Assim como na morte de Jesus o véu do templo se rasgou, aqui também, nesse cenário, tudo está consumado. Essa atitude do jovem me leva a crer nessa direção. A força que o domina é tão grande, que a página bíblica de sua história se soltou da encadernação. As três vidas se soltaram da encadernação desse mundo.

Não temos como escapar desse ambiente de horror! Como olhar para esse cenário macabro?  É preciso evitar a resposta rápida e fácil. A descrição da perícia criminal é apenas um dos olhares. O juízo jurídico para o fato é outro olhar. E a instituição religiosa e as ciências da religião formam outros olhares. Não se pode desconsiderar os olhares da psicologia, da psicanálise e da psiquiatria. Portanto, estamos diante de um fenômeno bem complexo da cultura humana. Não cabe aqui nenhuma condenação ou suspeita em relação à estrutura familiar em que esse jovem nasceu e cresceu. Ao condenarmos o contexto familiar estamos nos isentando da corresponsabilidade diante desse fato. Logo que soube dessa ação eu me perguntei sobre o que se fez com a vida desse jovem. O que fizeram com ele nesses 22 anos? O que as escolas que ele frequentou, as ruas por onde passou, as Igrejas em que frequentou e rezou, as praias em que se divertiu, os amigos com quem conviveu, todos, o que fizemos com ele para que chegasse a esse ponto final?  Vamos parar de apontar o dedo achando que somos santos, escolhidos, salvos. Por que não suportamos a culpa, tendemos a culpar os outros.

Do ponto de vista das ciências da religião o que se apresenta de maneira muito forte é o domínio fundamentalista com o qual o jovem estava inserido, na cultura crescente que considera verdade apenas aquilo em que se acredita e se interpreta do texto bíblico. Daí uma interpretação meramente literal do texto bíblico, sem um exame hermenêutico acurado, sem ajuda das ciências bíblicas, mas apoiada apenas em sua livre interpretação. Estamos vendo crescer uma cultura que se basta na auto-interpretação dos textos sagrados. Isso é um grande risco para a sociedade. Essa perspectiva fundamentalista, ele absorveu da cultura em geral. Talvez tenha faltado ao pai, também pastor, sensibilidade para perceber em que caminhos seu filho estava trilhando. Muitas vezes acreditamos que jamais algo semelhante irá acontecer em nossa casa, com nossa família.

Penso que o caminho fundamentalista sempre será a morte e não a libertação. Podemos afirmar que se trata da maior pandemia espiritual dos tempos atuais. Sempre ‘fico com uma pulga atrás da orelha’ quando ouço alguém argumentar sobre determinado tema, geralmente de cunho moral, dizendo que “está na Bíblia”. Quem fala assim geralmente não está aberto ao diálogo. Já possui a verdade e a espada para matar o outro.

Os sinais de crescimento dessa cultura fundamentalista estão presentes na destruição de imagens sacras, na invasão de terreiros das religiões de matriz africana, no combate às devoções populares, na crença de que alguém pode ser considerado um messias, um enviado de Deus, um profeta, somente pelo fato de estar numa determinada posição de poder. A disseminação de ódio, de preconceito, de intolerância, de pregação de valores passados e tradicionalistas, bem mostram o quadro em que estamos inserindo nossos jovens e nossas crianças, tudo isso colabora para fortalecermos essa cultura de morte.

Particularmente não acredito que aquele jovem estivesse num conflito interno com pai e mãe. Pelo que se observa nos sinais deixados, parece-nos que sua decisão de levar os pais à morte bem como a si mesmo, estaria mais adequado a uma atitude de salvar a família do domínio do diabo. Ele acreditava que não haveria lugar para se proteger do maligno. Por isso, a obrigação de levar à morte, e assim, todos se juntarem a Deus como está escrito no texto bíblico.

Por fim, esse cenário de horror deve servir para uma profunda reflexão de cada um de nós; no convívio familiar, sempre atentos aos caminhos em que nossos filhos estão seguindo, e no convívio social para desenvolvermos uma cultura da tolerância, do estudo sério dos temas morais e religiosos sem uso político, e de uma cultura centrada no amor.

Edebrande Cavalieri

A convite do Centro de Apoio aos Direitos Humanos tive a oportunidade de participar de uma live para refletir sobre a dignidade humana a

A convite do Centro de Apoio aos Direitos Humanos tive a oportunidade de participar de uma live para refletir sobre a dignidade humana a partir de um olhar filosófico. Logo percebi como esse campo é tão complexo! Falar que temos que defender a dignidade do homem por que ele foi feito à imagem e semelhança de Deus, como o cristianismo trouxe para a humanidade, é até certo ponto fácil. Sem tirar as consequências do ato criador de Deus e implicar nossa responsabilidade na criação pouco ou nada nos eleva em termos de semelhança a Deus. A dignidade não é um carimbo que recebemos ao nascer. Sem nos perguntarmos quem é o sujeito digno de estima e consideração, sem olharmos a nossa volta e verificar o caráter de dignidade presente em tantas pessoas excluídas, pouco ou nada nos torna dignos de Deus.

Santo Agostinho nos diz que, pelo fato do homem ser dotado do livre arbítrio, ele possui capacidade de escolher livremente como agir. Assim poderá dar um rumo a sua própria existência, escolhendo a Lei Divina ou a Lei Humana. É essa capacidade de autodeterminação que nos permite a escolha voluntária de ações más que serão objeto de condenação ou boas que nos tornarão dignos de Deus.

Santo Tomás de Aquino dizia que a dignidade é algo absoluto e pertence à essência. Textualmente ele nos diz na Summa Theologica: “Tanto no homem como na mulher está a imagem de Deus, quanto a aquilo em que, principalmente, consiste a essência da imagem, a saber, a natureza racional”. Isso se deve ao fato de ele ser dotado de intelecto, de livre-arbítrio e revestido por si de poder. Ou seja, ao afirmar que o homem se define ontologicamente como um ser de dignidade estamos também afirmando que ele é princípio de suas ações, pois possui o livre-arbítrio e domínio sobre suas ações.

A Constituição brasileira em seu Artigo 1º descreve os cincos fundamentos da República Federativa do Brasil, incluindo no item III a “Dignidade da Pessoa Humana”, vindo na sequência da “soberania” e da “cidadania”. Sendo a dignidade um dos fundamentos da República brasileira, em todos os caminhos administrativos e políticos esse princípio deveria ser a lupa com a qual se deveria governar o país. Nenhuma reforma trabalhista deveria ser aprovada se não atendesse ao princípio da dignidade da pessoa humana. O mesmo valeria para qualquer outra reforma ou lei que pautasse a estrutura de governo federal, estadual e municipal.

Os cristãos católicos possuem um documento que é o balizador para as ações nesses campos tão delicados do Brasil atual. Esse documento é uma espécie de Constituição da vida cristã e ninguém deveria desconhecer. Vemos tantas pessoas fazendo acusações equivocadas contra lideranças religiosas que seguem esse balizamento chamando-as de comunistas. Nem a CNBB e o Papa escapam desses impropérios hipócritas! O Papa Leão XIII, na Encíclica Rerum Novarum dizia logo no início que o “homem precede o Estado” e que tanto a política como as leis deveriam servir as pessoas.

A Doutrina Social firma uma oposição a qualquer subordinação a um estado absolutista, a um governo que atenta aos direitos da pessoa, que submete as pessoas a seus interesses políticos para se preservar no poder. Afirma ainda mais que a “Igreja é o sinal e a salvaguarda da dignidade da pessoa humana. E todo o conjunto doutrinário da Igreja se desenvolve a partir do princípio que afirma a intangível dignidade da pessoa humana (n. 107).

Ninguém nasce mais ou menos digno como pessoa humana, mas torna-se digno a partir do momento em que se adquire a cidadania, em que tenha o “direito a ter direitos” como nos diz a filósofa Hannah Arendt. Ou nas palavras de Hegel, “todos devem ser pessoas e respeitar os outros como pessoas”. Então, em sintonia com a Doutrina Social da Igreja dizemos que o respeito pela dignidade da pessoa deverá obrigatoriamente obedecer ao princípio de considerar o próximo como outro eu, de modo a garantir tudo para a manutenção de sua vida e os meios necessários para mantê-la dignamente. Então, caberá ao Estado garantir que todos os programas sociais, científicos e culturais sejam orientados pela consciência do primado de cada pessoa humana.

A Igreja enquanto instituição estará sempre na defesa do homem como sujeito de direitos e isso não contraria em nenhuma hipótese o Evangelho de Jesus Cristo. A Igreja está inserida no processo histórico. Uma Igreja que se cala diante da supressão de direitos da pessoa humana não apenas contraria sua própria doutrina social, mas o Evangelho que lhe dá sustentação. Citando literalmente esse documento basilar da Igreja católica: “A pessoa não pode ser instrumentalizada para projetos de caráter econômico, social e político impostos por qualquer que seja a autoridade, mesmo que em nome de pretensos progressos da comunidade civil no seu conjunto ou de outras pessoas, no presente e no futuro”.

Os Direitos Humanos estão inseridos como exigência prática para garantia da pessoa, de modo a impedir qualquer ato que lese a dignidade pessoal. Ao defender o homem como pessoa, a Igreja compreende-o como “sujeito ativo e responsável do próprio processo de crescimento juntamente com a comunidade de que faz parte”.

É preciso olhar sempre a história em nossa volta com essa lupa – a dignidade da pessoa humana. Não seremos dignos de Deus se acharmos normal a morte de seis milhões de judeus nos campos de concentração nazista. E ainda entre nós encontramos tantas pessoas aderindo ao nazismo ou negando a existência dessa tragédia humana. E na mesma circunstância, não seremos dignos de Deus se acharmos normal a morte nas guerras com todo tipo de arma. Não seremos dignos de Deus se me livro do outro com arma na mão.

Não seremos dignos de Deus se acharmos normal que tantas pessoas vivam em situação de rua e nos incomodamos com sua presença solicitando que a polícia os retire de nosso caminho! Que dignidade possuem as mais de trezentas pessoas nessa situação em Vitória e mais de quatrocentas na Serra? Quando a solidariedade se apresenta como tem acontecido em alguns lugares com campanhas de alimentação e proteção do frio dessas pessoas, parece que estamos sendo coniventes com essa situação e somos acusados de facilitar a vida das pessoas que se aproximam de nossos prédios e ruas, como se fossem bandidos.

Não seremos dignos de Deus se a fome do nosso irmão não nos convocar para a ação solidária! Não seremos dignos de Deus se não nos importarmos com o frio que tantos sofrem! Não seremos dignos de Deus se o discurso da dignidade for apenas um desencargo de consciência para aliviar a culpa. Que o nosso viver esteja sempre sob essa lupa tão desafiadora e essencial da vida humana! A dignidade da pessoa humana deveria ser matéria obrigatória dos currículos escolares, das homilias dos líderes religiosos, dos discursos políticos, das campanhas eleitorais, dos grupos sociais, da vida em seu conjunto. É preciso que cada pessoa olhe sempre com essa lupa e assim seja sinal e salvaguarda da dignidade da pessoa humana.

Edebrande Cavalieri

Vania Reis Temos conversado sobre o que é verdade e o que é mentira sob vários ângulos. Sabemos que muitas vezes as pessoas estão

Vania Reis

Temos conversado sobre o que é verdade e o que é mentira sob vários ângulos. Sabemos que muitas vezes as pessoas estão apenas se apoiando em suposições, pressupostos e até crenças que não correspondem com os fatos e os dados e que conflitos acontecem por isso, inclusive nas nossas relações pessoais.

Hoje vamos ver uma ferramenta para ajudar a evitar que se tire conclusões incorretas e de como podemos ajudar o outro a desmontar os equívocos de raciocínio que  o leva para conclusões distanciados do real. Quando você desafia as conclusões de outras pessoas, precisa ter certeza de que o raciocínio delas e o seu, estão firmemente baseados nos fatos e nos dados, pois assim os dois podem “subir juntos” a   “Escada da Inferência”  em busca de uma visão compartilhada da realidade. Vamos ver como é isso.

O psicólogo organizacional dos anos 70, Chris Argyris trouxe contribuições valiosas neste sentido. Seus argumentos nos possibilitaram perceber que as pessoas têm “mapas mentais” que são guias que as direcionam nas tomadas de decisão. Peter Senge, aluno do Argyris e autor do clássico livro “A Quinta Disciplina”, nos possibilitou colocar em prática o conceito teórico  do Pensamento Sistêmico de Argyris lançando um modelo inovador de gestão com as “Organizações que Aprendem”.  Suas contribuições, no entanto, transcendem ao campo organizacional, pois  tomar de decisão faz parte de todos os espaços.

Nosso cérebro enfrenta, simultaneamente, 100 Milhões de Instruções Computacionais (MIPS) por segundo com sua enorme condição de processar informação, e quando precisamos tomar uma decisão, as vezes temos apenas poucos segundos. No caminho entre a organização do pensamento e a tomada de decisão, o cérebro percorre muitos caminhos. Começa considerando todas as alternativas, depois analisa e avalia dificuldades e possibilidades e, por fim, toma a decisão, se deparando o tempo todo com as variáveis emocionais envolvidas, pois já sabemos que o emocional é muito mais determinante que o racional na tomada da decisão. Então, nosso cérebro precisando analisar todas essas informações, em tão pouco tempo,  o que ele faz? Ele se utiliza de “mapas mentais”. O que é isto?

Ao longo da vida seu cérebro foi interpretando as suas experiências vividas  e moldando a forma de você ver e agir no mundo. Esse resultado, em termos simples, é o seu “mapa mental”. Assim fazendo o cérebro “corta caminho” na tomada de decisão  e consegue decidir rapidamente, naquela situação determinada, baseado nas suas escolhas e experiências passadas, sem precisar muito esforço. Mas, o que por vezes acontece é que esse mapa mental está sem as referências diante de uma situação desconhecida ou está de alguma forma desajustado por nossas emoções, por exemplo. E aí a coisa se dificulta.   O processo de formação de uma opinião passa por etapas sucessivas: primeiro minha mente precisa  observar a realidade em torno,  a partir disto selecionar a informação concreta que preciso (aqui eu posso selecionar só uma parte da informação, não ver o contexto todo e posso, assim, começar a desfigurar a minha escolha). Depois preciso dar significados /sentido (culturais e / ou pessoais)  às informações que percebi e selecionei. Nesta etapa também acontecem muitas distorções pois a informação passa por filtros emocionais. Em seguida,  faço suposições  / pressupostos baseadas nos significados que absorvi. Nesta etapa a distorção pode ficar grande pois as conclusões que tiro são baseadas nas etapas anteriores, que se estão baseadas em pressupostos frágeis, estão sem sustentação. Tendo a minha opinião formada,  eu aos poucos vou reforçando essas convicções e adotando crenças sobre o mundo e  agindo de acordo com minhas crenças.

O que podemos fazer para sair destas distorções  e compartilhar uma visão sistêmica saindo do conflito e ampliando minha percepção da realidade. A ideia é “descer”  junto com a pessoa  a escada da inferência que analisando a questão divergente. Em um momento vocês vão juntos perceberam aonde o raciocínio perdeu a sustentação e, juntos, conseguem “subir “ de novo a “escada”.

Veja na tabela abaixo. Na primeira coluna  está o número do “degrau” da ( hipotética) da escada. N segunda coluna estão as etapas/degraus desta “escada”. Leia na tabela a segunda tabela  abaixo, de baixo (1º degrau) para cima (7º degrau). Pense em uma decisão que você tomou ou precisa tomar e vai respondendo primeiro   as perguntas da terceira coluna “ Reflexões 1º plano” (mude a conjugação do verbo se necessário) e depois reflita sobre a quarta e última coluna  e veja. ao final, como a sua visão está muito mais ampliada.

Degraus da escada  ESCADA DA INFERÊNCIA  REFLEXÕES 1º PLANO  ABRINDO O LEQUE
7º degrau Ajo Por que escolhi agir assim? Existem outras ações que eu deveria/poderia ter considerado?
6º degrau Adoto crenças ·         Que crenças me levaram a essa ação?

 

Foi bem fundamentada? Que outras crenças você poderia fundamentar suas ações?
5º degrau tiro conclusões ·         Por que eu cheguei a essa conclusão? A conclusão é lógica? Poderia haver outras?
 

degrau

Crio pressupostos  ou  faço suposições baseadas nos significados que absorvi ·         O que estou assumindo quando faço essa suposição e por quê? As minhas suposições são válidas? Poderiam ter outras?
3º degrau Dou significados (culturais e pessoais) ao que percebi Como interpretei  o que percebi Poderiam ter outros significados?
2º degrau Seleciono os fatos a partir do que eu observo (entre os fatos e dados do primeiro degrau) ·         Quais fatos ou dados escolhi usar e por quê?

 

Eu selecionei dados com rigor? Deixei algo de fora? Deixei de  ver  algo?
1º degrau ·         Fatos e dados

(realidade objetiva)

Quais são os fatos que eu deveria estar usando? ·         Existem outros fatos que devo considerar? Estão completos?

 

Esse exercício vai lhe permitir observar as suas tendências  diante de decisões. Você poderá, assim, aprender a fazer esse estágio de raciocínio com cuidado extra no futuro. Experimente explicar seu raciocínio para um amigo que pense diferente. Perceba se seus argumentos são sólidos, veja que degrau você está pulando ou deixando o outro pular. Exercite  essa subida ou desça  a “escada” com o outro. Desçam juntos. Isso irá ampliar as suas habilidades e ajudar a outros a chegarem a uma conclusão compartilhada, e a evitar conflitos.

 

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Edebrande Cavalieri Estamos acompanhando essa grande celebração lúdica que teve origem na cidade de Olímpia, na Grécia, em 776 a.C. quando as cidades que

Edebrande Cavalieri

Estamos acompanhando essa grande celebração lúdica que teve origem na cidade de Olímpia, na Grécia, em 776 a.C. quando as cidades que formavam verdadeiros reinos selaram um acordo de paz ou trégua nas guerras para homenagear não apenas Zeus, o deus supremo do Olimpo, mas cada deus cultuado naquelas cidades. A paz, assim estabelecida, não tinha apenas uma dimensão política de acordo entre os reinos, mas também religiosa e lúdica.

A ideia de paz entre os povos prevalece até hoje compondo o chamado “espírito olímpico”, em que deveria preponderar a brincadeira frente à competição. O dia a dia já é de muita guerra. A paz deve oportunizar a superação do conflito e da disputa. Nas Olimpíadas de Tóquio um judoca da Argélia e outro do Sudão se negaram a enfrentar judoca de Israel. A Federação Internacional de Judô é muito radical na defesa do princípio fundamental da solidariedade entre os povos, mostrando total desacordo com a postura de rivalidade política transposta para a esfera esportiva. E o Comitê Olímpico Internacional deverá aplicar penalidades. É um mal sinal esse tipo de atitude.

Na história mais recente tivemos dois boicotes que ficaram famosos. Nas Olimpíadas de Moscou em 1980 os Estados Unidos impuseram um impedimento de 62 países de participarem do evento. Quatro anos depois foi a vez da União Soviética impedir a participação de todos os países do bloco comunista nas Olimpíadas de Los Angeles. Dessa forma, quando os jogos olímpicos não se realizam nas balizas da paz e da solidariedade entre os povos sinaliza-se para a existência de conflitos difíceis de serem superados. Não ficamos curados das epidemias políticas da Guerra Fria, do Apartheid, dos campos de concentração, dos conflitos raciais e culturais.

As Olimpíadas são uma festa envolta em símbolos e exemplos muito fortes. Os cinco aros entrelaçados representam os cinco continentes e pelo menos uma das cores desses cincos aros está na bandeira de cada Comitê Olímpico Nacional. Em todas as medalhas, cunhadas em tamanho regulamentar, está impressa a imagem da deusa grega Niké que personificava a vitória, a força e a velocidade. Era uma imagem de mulher que os romanos chamavam de Victoria. O capitalismo contemporâneo passou a utilizar esse mesmo nome para uma marca (Nike), verdadeira “heresia”.

Niké, na mitologia grega, representava uma entidade sagrada com qualidades extraordinárias, podendo correr e voar em grande velocidade, sempre carregando uma palma e uma coroa de louros. Era considerada uma deusa, fonte de boa sorte para todos os deuses, guerreiros e atletas, e por isso eles desejavam ter Niké a seu lado. Sempre estava ao lado de Atena, deusa da sabedoria. Por isso, era certa a obtenção da vitória. As instituições militares também passaram a cultuar essa deusa e construir grandes templos em sua honra. Niké era atenta para coroar sempre os vencedores com a fama e a glória, mas nem sempre era justa. Premiava sempre aquele que melhor sabia utilizar de estratégias. Assim, a mitologia grega se reveste de conteúdos antropomórficos, como esse de Niké, e expressa elementos da natureza humana sob a forma religiosa.

Mas nem tudo naquele tempo deve ser elevado e glorificado. As olimpíadas na Grécia também possuíam um lado excludente, pois delas não podiam participar os estrangeiros conhecidos como bárbaros, os escravos e as mulheres. Nas olimpíadas atuais também encontramos diversas lutas para romper preconceitos, discriminações, exclusões. Muitas imagens nos fazem ver a preponderância de determinado tipo socioeconômico. Vemos como se produz um país mercadoria que sedia os jogos, uma cidade mercadoria, um produto que se deseja vender de todo jeito. Perde-se o sentido de um lugar e um tempo onde se realiza a cidadania.

Esse nos parece ser o lado mais perverso desse evento. Cada atleta vem de uma grande luta para se manter e se preparar para os jogos, e acaba tendo que buscar apoio em empresas que vendem em seu uniforme. No caso brasileiro, sabemos que 80% dos atletas recebem a Bolsa Atleta criada em 2005. Os jogos tornam-se também expressão de um grande mercado. É preciso ter consciência disso e agir para que o espírito de solidariedade, de irmandade, de paz, prevaleça sempre sobre esse lado sombrio dos jogos.

O Papa Francisco saudou os jogos atuais realizados com dificuldades diversas em função da pandemia como “um sinal de esperança, de irmandade universal em nome da competição saudável”. E abençoou todas as pessoas envolvidas nesse grande festival esportivo.

Nos tempos atuais há uma ambiguidade entre dois tipos de jogos: esses olímpicos e os profissionais, com atletas que ganham muito dinheiro como no futebol e outros esportes. Eu, particularmente, gostaria de ver a inclusão de outros esportes brasileiros como o frescobol, o futebol de salão e a capoeira. Por que não estão incorporados aos jogos olímpicos? Como foi lindo ver a Rayssa Leal competindo com 13 anos de idade e ganhando uma medalha no skate! Penso também nos jogos Parolímpicos, não tão divulgados como merecem.

Os jogos tem uma função muito além do mercado e de competição envolvendo fortunas de dinheiro. Os jogos expressam também e muito a nossa maneira de ser e viver. O jogo é uma dimensão humana que se revela nos meios populares, nas peladas de várzea que não existe mais nas cidades, nas peladas de rua com bolinha feita com meia, nas praias, nos gramados e quadras. A gestão política de uma cidade pouco cuida de criar espaços para os jogos da criançada. É preciso garantir essa via de expressão da alegria e convivência. As brigas acontecem, mas logo tudo volta ao normal.

O cristianismo desenvolveu um significado transcendente do jogo, ao mostrar um Deus lúdico e uma Igreja lúdica. E passou a exaltar a criação como um grande jogo do Deus lúdico com a companhia das estrelas, dos planetas. Chegou-se a falar de uma “teatro da glória de Deus”.

Para São Tomás de Aquino Deus cria o mundo brincando, bem humorado, e isso nos leva a encarar a realidade também pelo viés da brincadeira, do humor. Tem algumas pessoas religiosas que, de tão sérias, despertam medo e até ameaça. A criação é a realização do puro prazer marcada pelo mistério. São Gregório de Nazianzeno que viveu por volta de 390 d.C. dizia que o Logos sublime brinca, enfeita com as mais variegadas imagens e por puro gosto e por todos os modos o cosmos inteiro.

Muito de nós fomos educados diante de uma imagem de Deus muito séria. O olhar de Deus representado no olho num triângulo que parecia vigiar tudo o que fazemos não condiz com a mistério divino. O Salmo 104 mostra um universo belo: “Quantas são as tuas obras, Senhor! Fizeste todas elas com sabedoria! A terra está cheia de seres que criaste. Eis o mar, imenso e vasto. Nele vivem inúmeras criaturas, seres vivos, pequenos e grandes. Nele passam os navios, e também o Leviatã, que formaste para com ele brincar”.

Com muita sabedoria, Tomás de Aquino dizia que “o brincar é necessário para levar a vida humana”. Entre nós, o filósofo Rubem Alves dizia que “Deus vê o mundo com os olhos de uma criança. Está sempre à procura de companheiros para brincar”. Talvez esteja aqui o verdadeiro espírito olímpico de que tanto falamos e tanto precisamos. Parece-me que a imagem da atleta Rayssa Leal no skate expressa muito bem essa perspectiva olímpica. Sem a seriedade dos velhos competidores, ela se alegrava na brincadeira de voar obstáculos. Tem horas que me parece que estamos levando muitas crianças a perderem esse tempo de brincadeira alimentando e enriquecendo os produtores de tecnologias.

Enfim, estamos diante de um evento que nos remete a diversas dimensões da existência, não apenas humana, mas do universo inteiro. O jogo como brincadeira, como coisa sagrada, como momento lúdico de prazer na convivência solidária. É o momento de rompermos os muros dos conflitos ideológicos, raciais e políticos, para a construção de pontes. O jogo é uma grande ponte para a união dos cinco continentes e do universo como um todo. O jogo não apenas não torna humanos, mas também criaturas de Deus.

Vania Reis Muitas  vezes acreditamos que compreendemos uma realidade e, de repente, nos deparamos com novas informações e nos damos conta que estávamos apenas

Vania Reis

Muitas  vezes acreditamos que compreendemos uma realidade e, de repente, nos deparamos com novas informações e nos damos conta que estávamos apenas com uma visão parcial dela. Refletindo, integramos essa nova visão e o nosso conhecimento se amplia. Situações mais complexas só podem ser entendidas assim. Um bom exemplo é quando tentamos compreender mais profundamente as bases de nossa fé. É gostoso sentir como Deus se dá a conhecer aos poucos, conforme procuramos, e como em uma cebola, descobrimos a amplitude de Deus em camadas sucessivas.

Eu lembro quando era criança, sempre ouvia as pessoas falando que “Jesus morreu para nos salvar” e confesso não compreendia direito. Por que tanto sofrimento era necessário para nos salvar e salvar de quê? Quando ouvia a explicação do pecado original mais intrigada ficava. O que tenho eu a ver com o erro deles? E se pedia maior explicação, invariavelmente a resposta era que não tínhamos condições de entender  os mistérios de Deus, mas apenas aceitar pela fé.

A catequese tinha me proporcionado uma pequena camada interna da cebola  e eu achava que estava com a cebola completa. Com minha busca pessoal fui ganhando noções mais amplas e outras camadas chegavam. Descobri que  o erro de Adão e Eva  foi  se deixarem seduzir pelas mentiras de Lúcifer, o anjo decaído que criou o pecado e, na forma da serpente, lhes acenava com o poder que poderiam ter ao desobedecer a Deus. Lúcifer era o anjo mais lindo entre todos e a sedução lhe era fácil. Adão e Eva acreditaram nas suas mentiras e desobedeceram a Deus. O demônio soberbo, orgulhoso, que hoje seria descrito como alguém que “se acha”, muito antes da criação do homem desejou ser como Deus. Em seu orgulho, desejo de poder, seduziu muitos e muitos anjos e todos caíram, sendo com eles expulsos do céu. Perderam seu lugar junto a Deus, pela mentira.

Conhecer que a mentira foi (e é) a arma do demônio me mostrou outra “camada da cebola” ao revelar tudo que a mentira trouxe aos seres humanos. Jesus teve que vir como um ser humano para nos mostrar que é possível obedecer ao Pai, mesmo nas mais cruéis situações. Vejam a ousadia do demônio tentando Jesus no deserto. Jesus estava se preparando para sua missão e naquele período ampliava seu conhecimento sobre ela, fazia jejum e após 40 dias sentia fome. Não é difícil imaginar que estava enfraquecido. Satanás  lhe oferece pão (tentação pela necessidade do seu corpo/pela carne), depois lhe tenta com o poder e a glória do possuir (sem sentido para Jesus, mas fonte de sedução para muitos de nós), e por último lhe provoca questionando Jesus como filho de Deus (seu poder espiritual) (Lc 4,1-14). Com essa passagem a Sagrada Escritura nos mostra os caminhos de sedução do demônio.

A sedução é a outra arma do Lúcifer. A palavra sedução vem do Latim seductio, que significa “afastar se de”  e ducere , “guiar, portar, levar”. Então sedução é guiar/levar a pessoa a  se afastar de… (o caminho que ela tinha escolhido anteriormente), neste caso o amor de Deus. Sempre achei que a palavra sedução tinha uma conotação ligada à sensualidade/ sexualidade. Na catequese, lá atrás,  a fruta proibida (coitada da maçã) era sexo. Assim a catequese na minha adolescência me fazia crer. Quando li a Bíblia (de Jerusalém) toda, entendi a interpretação fundamentalista que se deu naquele tempo e levou a esse excesso de peso nas questões  da sexualidade (outro dia conversaremos a esse respeito). Ao desviar o caminho do outro, o sedutor promete ao seduzido mundos e fundos de seus desejos íntimos. O demônio não lê nossos pensamentos, Deus não lhe deu esse poder, mas ele é um exímio observador e presta muita atenção aos nossos atos. Quando você olha para o bolo de chocolate, mas sabe que precisa fazer dieta para resguardar a saúde de seu corpo (templo de Deus), você para seu olhar no bolo e o demônio observa  a oportunidade de tentação e vem com a sedução em seu ouvido: “só um pouquinho”, “você merece”, “você está com fome”…

A sedução pode vir pelo desejo de ter sucesso e reconhecimento (poder e glória)  e aí a tentação é de se quebrarem regras éticas ou morais para levar vantagem nos negócios ou no trabalho, afinal “todo mundo faz”, “estou muito apertado financeiramente”…  Para desviar o caminho do outro (seduzi-lo portanto) o sedutor “doura a pílula”, esconde a sua feiura, coloca adereços chamativos para propositalmente ser aceito em suas ideias e em suas mentiras. Neste último patamar há inúmeros exemplos. Os ostensivos ataques à religião ou à organização da familia e, por fim, da própria sociedade, mas sempre feitas com as ‘pílulas douradas’ dos ideais desconstrutores dos valores cristãos. Ofendem ao Papa e a sua preocupação com os pobres e o tacham como comunista, para minar a igreja, a fé. Defendem ideologia de gênero para desorganizar a família via desautorização do poder dos pais sobre filhos. As estratégias são tantas que passaria anos aqui falando. O desejo do demônio sedutor é distorcer a ideia do que é bom e do que é mau, do que é certo e do que é errado porque assim, ele está se confrontando com Deus através de seus filhos amados. Um exemplo muito pequeno, mas com um poder ilustrativo muito bom é o do seriado da televisão paga (já na 5ª temporada) chamado “Lúcifer” que, entediado no inferno, resolve tirar férias e morar em Los Angeles. A sedução no seriado é mostrada com um Lúcifer bonitão e bonzinho, afastando dele sua imagem negativa visando manipular propositalmente a aceitação e desmitificação do demônio.  Temos aí a arma de sedução e mentira juntos. Ela é subliminar e ataca inserindo mensagens ao nosso subconsciente, nem de longe percebidas pelos que estão sendo atacados. Essa é uma entre milhões de estratégias deste que, pelas trevas, quer ser o senhor do mundo. São muitas as armadilhas de Lúcifer e temos que estar atentos em nosso pequeno cotidiano, porque ele nos ataca pelas beiradas,  não se arrisca no confronto, ele vai minando nossas estruturas pelas beiradas.

Vimos o poder destrutivo da mentira no  artigo da semana passada e neste lembramos que Jesus, “o caminho, a verdade e a vida”, quando falou “Ninguém vai ao Pai a não ser por mim”, dizia também, ninguém vai ao Pai a não ser pela Verdade. Jesus é o caminho, é a referência da qual não podemos nos afastar.  Jesus nos deu a possibilidade da vida eterna, revelando o caminho para nossa salvação: amar e obedecer a um só Deus.  Na pior das cruzes, Ele mostrou que esse caminho é humanamente possível (por isso tanto sofrimento). Sem o caminho mostrado por Jesus, provavelmente eu erraria como Adão e Eva, e perderia a vida eterna. Tal reflexão responde à minha pergunta da infância: o que tenho eu a ver com o erro de Adão e Eva? Simples: se eu não aprender essa lição perderei eternamente o convívio com o amor de Deus.

A mentira é a base e causa primeira de muitos de nossos males. Com a distorção proposital da verdade para tirar proveito pessoal, a mentira nos leva a sermos seduzidos por desejos que não são os desejos de Deus. Só enquanto essa vida de prazer “desregrado” (nada contra o prazer normal, das coisas boas) ou de orgulho, poder e de riqueza exacerbados nos atraírem é que poderemos ser seduzidos, ou seja, quando outros deuses quisermos adorar. Se formos humildes como São Miguel Arcanjo, um dos anjos menos graduados na hierarquia celestial, mas que teve o poder de expulsar dos céus todos os demônios, teremos a força para vencer todos os apelos da sedução e sermos felizes amando a um só Deus.

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