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Edebrande Cavalieri No próximo dia 26 de julho comemora-se o dia dos avós homenageando Santa Ana e São Joaquim, avós de Jesus Cristo. A

Edebrande Cavalieri

No próximo dia 26 de julho comemora-se o dia dos avós homenageando Santa Ana e São Joaquim, avós de Jesus Cristo. A Igreja irá celebrar essa festa comemorativa no domingo, dia 25 próximo. As pessoas mais velhas tem tantas histórias da casa dos avós onde se encontravam os netos, os filhos, os amigos. Casa sempre cheia com muita comida. Muita alegria! Mas o tempo mudou rapidamente. Cresce uma geração que não tem projeto de família com filhos.  Essa mesma geração vai rompendo assim com a tradição tão marcante em nossas vidas como a experiência de ser neto ou neta, de ter um avô e avó, possibilitando uma convivência rica com primos e primas. Quando os pais proibiam determinadas coisas, ali estavam os avós para quebrar aquele galho. Hoje sinto ainda muito forte o carinho dos meus avós!

O Papa Francisco escreveu uma linda mensagem especial para esse dia, especialmente num tempo difícil com a pandemia. A provação se abateu sobre a vida de tantos idosos, avós, levando muitos, rompendo os laços terrenos, isolando. Partiram antes da hora, pois não era a hora e nem vontade de Deus. Foram muitos que viveram a dolorosa experiência da despedida sem adeus de algum ente querido. E olhando a vida de São Joaquim o Papa nos diz: “Oxalá cada avô, cada idoso, cada avó, cada idosa, especialmente quem estiver mais sozinho, receba a visita de um anjo! Este anjo terá o rosto dos nossos netos, ou dos familiares, ou dos amigos de longa data ou dos conhecidos nesse tempo difícil”. Tantos anjos foram o auxílio que avós e idosos receberam em casa para fazer as compras em supermercado ou pagar as contas!

Gostaria de trazer para nossa reflexão duas realidades que estão implicadas na questão dos avós e idosos. Cresce uma geração que não tem como projeto a geração de filhos, alegando que os tempos são difíceis para educar e que não precisam de filhos para cuidarem no futuro dos pais. Os argumentos são bem racionais mostrando que é preciso parar com essa ideia obrigatória de casar para ter filhos. Essas pessoas frequentam também as Igrejas e falam abertamente, sem nenhum escrúpulo que não pretendem ter filhos. Colocam em primeiro lugar os diversos cursos de formação, geralmente longos, antes de pensar em filhos. Assim somam 4 ou 5 anos de graduação, 2 anos de mestrado e 4 anos de doutorado. Ainda tem o pós-doc (pós-doutorado)! Somente nessa linha sequencial teríamos mais 11 anos no mínimo a serem empregados na própria formação. Terminado esse tempo, como pensar em filho? É preciso arrumar um bom emprego, geralmente com cursos preparatórios para um ótimo concurso. Essas são razões bem objetivas e claras.

Assim o tempo se vai. Depois dos 40 anos, ter filhos parece uma loucura. O que fazer? Estamos constituindo uma nova humanidade, estagnada em pouco tempo. A população mundial não apenas está envelhecendo, mas diminuindo, principalmente em países desenvolvidos. Até mão de obra especializada vai faltando nos principais países europeus.

O envelhecimento da população com idosos vivendo cada vez mais sozinhos e isolados cresce no mundo inteiro e no Brasil, calcula-se que em 2060 haverá um terço da população acima dos 60 anos, ou seja, serão 74 milhões de pessoas. O grande número dessas pessoas não terá família não apenas para ajudar a romper a solidão, mas para apoiar nas despesas em cuidados médicos e remédios. Por outro lado, em 2060 o percentual de pessoas em idade ativa, de 20 a 60 anos, que trabalha e gera contribuições previdenciárias chega magramente a 48,4%. Nem o princípio da solidariedade entre as gerações será garantido. A relação empregados versus pensionistas não mais se sustenta com os modelos atuais previdenciários.

Dessa forma, torna-se impossível garantir os direitos previdenciários, tese permanente de nossos governantes para impor reformas que não beneficiam os pensionistas, mas as empresas. Porém, não se pode esquecer que a garantia de direitos previdenciários está diretamente relacionada com a garantia do pleno emprego. O crescimento do trabalho informal, via diversos tipos de aplicativos como uber, só nos dá a ilusão de empregabilidade, mas de nada serve ao sistema previdenciário. Ou seja, o pleno emprego não se sustenta sem trabalho decente.

Por fim, lutamos muito por políticas públicas direcionadas à infância. Com o envelhecimento da população brasileira há que se lutar por uma política pública em vista dos idosos acima dos 60 anos. É pecado alguém afirmar que a morte de um idoso significa um CPF a menos. No momento mais crítico da pandemia era comum ouvir essa expressão vinda até dos altos escalões do governo.

A palavra do Papa nos encoraja e nos dá o caminho a seguir. Na mesma mensagem para esse dia dos avós e idosos ele toma uma palavra do profeta Joel muito significativa: “Os vossos anciãos terão sonhos e os jovens terão visões”. Para o pontífice, o futuro da humanidade está nessa aliança entre os jovens e os idosos. Serão os jovens que terão por tarefa agarrar os sonhos dos idosos e levá-los à frente, sem deixar de sonhar pela justiça, pela paz e pela solidariedade. Em outra oportunidade o Papa nos diz que “não existe uma idade para aposentar-se da tarefa de anunciar o Evangelho, da tarefa de transmitir as tradições aos netos”.

Vivemos numa sociedade que descarta a pessoa a partir dos 60 anos. Pode ser que até em nossas comunidades, nossas instituições, os idosos que atuaram tanto em diversas atividades pastorais estejam nesse momento sendo descartados. Como é muito significativo ver a ordenação presbiteral de uma avô aos 77 anos a ocorrer no próximo dia 31 de julho! Que esse caminho possa crescer em meio a tantos Joaquins e Anas que vivem a experiência de avós em nossas comunidades e paróquias como anunciadores do Evangelho. Que saibamos garantir seu lugar em nossas vidas e na Igreja para que não sejam mais pessoas nas estatísticas do descarte, aguardando a morte chegar! Que anjos encham nossas casas! Ter neto e ser neto fazem da vida uma experiência sagrada!

Vania Reis Não é nenhum exagero adjetivar nosso tempo atual como o tempo das mentiras. Vivemos já há alguns anos a influência das Fake

Vania Reis

Não é nenhum exagero adjetivar nosso tempo atual como o tempo das mentiras.

Vivemos já há alguns anos a influência das Fake -News que são publicadas propositalmente para enganar e obter ganhos financeiros ou políticos. Essas notícias falsas visam criar um sentimento de ameaça, de medo ou ainda tentar dar uma suposta base às “narrativas” criadas, não verdadeiras.  Estamos tão rodeados de mentiras que muitas vezes nem nos damos conta quando é que estamos lidando com fatos.

Já vimos em outro artigo que há muitos aspectos que envolvem o conceito de Verdade. Vimos que se pensarmos como Descartes:  verdade é aquilo que permanece inalterável em qualquer circunstância. Mas, se pensarmos como Nietzsche, no extremo oposto, entenderemos a verdade apenas como “um ponto de vista”.  Dois extremos que levam a distorções.  Vamos preferir a concepção de Aristóteles, seguida por São Tomás de Aquino, que afirma que a verdade é “a adequação entre aquilo que se dá na realidade e aquilo que se dá na mente”.

Estamos assistindo ao tempo da verdade no sentido de Nietzsche. Mas, essa verdade particular aqui avançou seu espaço e a modificou com o propósito de enganar, produzindo intencionalmente uma mentira. O conceito fundamental da mentira se concretiza quando a pessoa altera ou dissimula deliberadamente aquilo que ela reconhece como verdadeiro, transmitindo uma informação enganosa com o propósito de parecer verdadeira.

Refletir sobre esse hábito tão comum entre as pessoas e o mal que encerra a mentira é o que queremos focar hoje. Vamos deixar os políticos, e os que fomentam suas imagens de lado, porque parece impossível separar muitos deles da mentira deliberada, intencional e  maldosa. Vamos falar aqui das mentiras do nosso cotidiano.

Sempre achei que uma mentira para poupar o outro de sofrimento era válida, achava que tinha mentirinhas que não era de fato mentira pois não causavam nenhum dano ao outro, pelo contrário, minimizava ou impedia a dor do outro. O que, no entanto precisamos ter em foco é o perigo de nos acostumarmos com o engano do outro e abrir espaço para tornar a mentira um hábito.  Precisamos enfrentar e nos libertar das mentiras do nosso dia a dia  que contamos por medo ou vergonha de assumir a verdade.

Não assumir a responsabilidade de nossos atos/erros é algo grave, não só pelas regras morais, éticas da nossa sociedade, mas, mais ainda perante nossos valores cristãos. Foi uma desobediência não assumida a responsável pela expulsão de Adão e Eva  do Paraíso. Ao desobedecer a Deus, Adão responsabilizou Eva e  Eva responsabilizou a serpente. Não tiveram humildade, não reconheceram seus erros.  Ampliaram suas faltas.

Antes de ler a Bíblia integralmente eu não tinha a noção do valor que Deus dá à verdade. Conhecia o trecho onde Jesus, conversando com seus apóstolos, respondeu a Tomé que perguntava como encontrá-Lo após Sua partida e como saberiam o caminho até Ele, e Jesus respondeu : “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai a não ser por mim. (João 14,6), mas não entendia que “ninguém vai ao Pai a não ser por mim”, significava também, ninguém vai ao Pai não ser pela Verdade. Ao ler a Bíblia percebi que a mentira é uma falta muito maior que muitos outros pecados (dos quais se fala tanto).  Vamos relembrar alguns dos trechos da Bíblia que Deus condena a mentira:

No Antigo Testamento  além de Êxodo 20,16; Levítico 19,11;  Números 23,19 ;Provérbios 12,22  temos:

  • Não vai morar na minha casa quem comete fraudes; quem diz mentiras não ficará na minha presença. Salmos 101,7.
  • Seis coisas detesta o Senhor e uma sétima sua alma abomina: olhos empinados, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente, coração que maquina projetos perversos, pés velozes para correrem ao mal, testemunha falsa, proferindo mentiras, e quem semeia a discórdia entre irmãos. Provérbios 6,16-19
  • Quem ajunta tesouros com língua mentirosa, o vento o lançará nos laços da morte .Provérbios 21,6
  • Ninguém mais praticará a injustiça, nem contará mentiras, nem mais sairão de suas bocas palavras enganadoras e, assim, todos poderão comer e descansar sem que ninguém os incomode. Sofonias 3,13

No Novo Testamento além de Efésios 4, 25

  • O vosso pai é o diabo, e quereis cumprir o desejo do vosso pai. Ele era assassino desde o começo e não se manteve na verdade, porque nele não há verdade. Quando ele fala mentira ,fala o que é próprio dele, pois ele é mentiroso e pai da mentira. João 8,44
  • O Espírito diz claramente que, nos últimos tempos, alguns renegarão a fé e se apegarão a embusteiros e a doutrinas diabólicas, 2 deixando-se iludir por pessoas falsas e mentirosas, com a consciência marcada por ferro em brasa 1 Timóteo 4 ,1-2
  • Mas ficarão de fora os cães, os feiticeiros, os libertinos, os assassinos e os idólatras ,e todos os que amam a mentira e a praticam. Apocalipse 22, 15

Em mais de um trecho o assassino está equiparado ao mentiroso! Pense seriamente nisto. É forte! Sabemos que se pode matar com uma mentira, pode-se acabar com a reputação de alguém, carreira…. tantas coisas… muitas das quais temos bem o conhecimento.

Mas as vezes não pensamos que estamos mentindo também quando reproduzo uma notícia alarmista, ameaçadora, quando encaminho  Fake News. Perceba ,  pense nisso! Você pode estar reproduzindo uma mentira. Sou responsável por minhas palavras. Estou mandando uma mensagem minha, mesmo que formulada por outro. Tenho que ter cuidado, e checar a informação antes de colocar a minha assinatura nela. Na dúvida, não reencaminhe. Avalie e não repasse ódio, não repasse violência e acima de tudo não minta.

Não dê desculpas pelo seu atraso, ou ausência, ou falta. Peça desculpas pelos seus erros e assume a sua responsabilidade perante eles. Você sentirá a leveza vindo ao seu coração.

Peça perdão com humildade e com amor… esse é o caminho ensinado por Jesus!

 

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Edebrande Cavalieri O último tema que o Documento para o caminho da I Assembleia Eclesial nos apresenta refere-se ao desafio da pastoral urbana. Na

Edebrande Cavalieri

O último tema que o Documento para o caminho da I Assembleia Eclesial nos apresenta refere-se ao desafio da pastoral urbana. Na apresentação dessa questão o texto nos traz uma afirmação forte – Deus vive na cidade – que tem sua origem na experiência pastoral em Buenos Aires do Cardeal Jorge Mario Bergoglio, futuro Papa Francisco, que foi incorporado no Documento de Aparecida em 2007. Em suas palavras: “Deus vive na cidade, e a Igreja vive na cidade. A missão não se opõe a ter de aprender da cidade – de suas culturas e de suas mudanças – ao mesmo tempo que saímos a pregar o evangelho”. A semente cai nesse terreno, interagindo com ele, enfrentando os desafios inerentes a essa terra complexa em diversos sentidos com todo tipo de mudanças, espinhos, pedregulhos, lama, barro, predadores. Mas Deus vive nessa terra, nessa cidade.

A cidade no Brasil é uma realidade nova enquanto distinta do mundo rural advindo dos tempos de colonização e do padroado. Grande parte das pessoas que chegaram nas cidades são oriundas de um mundo em que tudo girava em torno da Igreja. Os sinos representavam o tempo e a ordem do trabalho, do descanso, da morte. Sim! Também a morte era noticiada através de uma batida específica do sino. Essas pessoas, oriundas de um enorme êxodo rural, foram povoando as periferias e bairros das cidades, trazendo a memória dos tempos rurais e conseguindo reorganizar suas vidas a partir daquele horizonte deixado para trás. Em termos mundiais, em 2007, a população urbana superou a rural. Vivemos um mundo globalizado urbano.

O que resta desse mundo na cidade atual?  Conforme o Censo do IBGE de 2010, a população do Brasil era constituída por 190.732.694 pessoas, sendo que 84%  – mais de 160 milhões – vivendo em zonas urbanas. Podemos até brincar dizendo que até Deus se mudou para a cidade.  Uma das reações mais fortes das pessoas que vieram nesse êxodo rural foi a demonização da cidade, considerada como lugar da ausência de Deus. É compreensível, pois esse deslocamento desestruturou as mentes e as vidas das pessoas, quebrou relações e laços fortes que existiam no mundo rural, onde todos eram reconhecidos.

O terreno urbano já não é o mesmo terreno onde os imigrantes construíram suas vidas há tempos atrás. Os filhos da cidade nasceram e cresceram com outros desafios. Muitos sentem saudades dos tempos da vida rural e até tentam reconstruir voltando para onde moravam com mais frequência. Contudo, a força da cidade foi impactando tudo, inclusive aquela realidade rural. As capelinhas construídas nas pequenas propriedades hoje estão abandonadas, fechadas, com todo tipo de mato em volta. Algumas resistem bravamente, mas em sua volta a cultura dominante é urbana. A capoeira cresceu e aquelas comunidades foram evacuadas diante da realidade atrativa das novas terras – a cidade.

E aqui fica uma questão: estamos dispostos a conhecer a cidade que aí está ou continuamos a nos esconder em refúgios tradicionalistas de um passado que não existe mais? A cidade global é a nossa realidade. E Deus vive nesse ambiente? Como ele se mostra? Como ele nos chama?

Na vivência religiosa atual tem crescido formas imaginárias de cidades, numa tentativa de restaurar aquelas que foram objeto desafiador dos antigos judeus como descrevem os textos bíblicos. Até Templo de Salomão foi construído nessa epopeia restauradora. A nova Jerusalém não é a reprodução daquela cidade destruída pelos romanos no ano 70 d.C. Eis a questão mais desafiadora na pastoral urbana. Muitos tentam se agarrar à tradição por medo ou por insegurança. Mas no horizonte temos as periferias geográficas e existenciais a serem redescobertas com suas contradições.

O Papa Francisco nos diz que sempre reza por sua cidade, Buenos Aires, e por ela tem grande carinho e grande familiaridade. Nesse caminho ele nos diz que isso ajuda a encarnar a universalidade da fé que abraça todas as pessoas de toda cidade. É preciso ser cidadão da cidade com sua complexidade que vincula raça, história e cultura, não mais homogêneos como era no mundo rural.

Contudo, nem todos são cidadãos na cidade atual. Há muitíssimos “não cidadãos”, “cidadãos pela metade” e “sobrantes”, pois “não gozam dos plenos direitos como os excluídos, os estrangeiros, as pessoas sem documentos, os jovens sem escolaridade, os anciãos e os enfermos sem plano de saúde”.

Nos últimos anos, entre nós brotou um movimento de cristandade de cunho pentecostal que, através do poder político, acredita trazer a salvação e a libertação da cidade de todos os seus males. Muitos acreditam que isso resulta das tensões e medos ocasionados pela cidade, num sentimento de impotência diante dos novos horizontes culturais. Em Aparecida já se constatava que estamos diante de uma mudança de paradigma e o cristão não mais se encontra na linha de frente da produção cultural, mas recebe todo tipo de impacto e sofrimentos da cultura urbana. Acreditamos que a cristandade nada mais é que uma ilusão que será abortada tão logo se alterem as forças do poder político.

O cristianismo nasceu como experiência religiosa em contexto urbano. Jerusalém, conforme Joaquim Jeremias, era uma cidade que em tempos normais contava entre 25 a 30 mil habitantes dentro e fora dos muros. Por ocasião das Festas Judaicas sua população chegava a casa de 125 mil pessoas. A cidade de Roma no tempo de Jesus tinha em torno de um milhão de habitantes. A cidade de Antioquia dos tempos de Santo Inácio chegava a 300 mil pessoas. A região da Galileia onde nasceu Jesus e pertencia ao império romano tinha 200 mil habitantes. A cidade de Corinto da época de Paulo possuía em torno de 50 mil pessoas.

Muitas vezes romantizamos as cidades antigas como se fossem cidades celestiais. Contudo, quando nos debruçamos com estudos mais aprofundados sobre as condições de vida urbana nos tempos em que Jesus e os Apóstolos viveram, podemos perceber os enormes desafios para as pessoas. As cidades eram lugares muito insalubres, sem nenhum tipo de saneamento. Havia banheiros públicos, contudo o mais comum era o uso dos famosos penicos, depois esvaziados pelas janelas das casas. Não havia nenhum tipo de segurança pública, e isso impedia as pessoas de saírem à noite devido à violência. As casas eram construídas de maneira apinhada, em que apenas uma parede separava uma casa da outra, sem ventilação entre elas. Era comum cercar a cidade com muralhas ou muros, como forma de proteção, porém do lado de fora dos muros formavam-se as grandes periferias urbanas com escravos, estrangeiros, servos. Dentro dos muros moravam os cidadãos. Por outro lado, a vida rural estava sujeita a todo tipo de intempérie e desgraças. Os salteadores (ladrões) aproveitavam o pouco que restava dos pobres agricultores e pastores.

A cidade globalizada dos tempos atuais é também muito religiosa, porém nem sempre as referências religiosas e cultuais se remetem à vida cristã. Há um discurso religioso muito arraigado entre as pessoas, formando outra espécie de cultura urbana, que somente é cristão de maneira tangencial. Não se trata de uma expressão genuinamente evangélica, cristã. Muitas vezes, usa-se a própria Bíblia, recuperando experiências do Antigo Testamento, mas carentes de uma fé cristã genuína.

O grande desafio para a Igreja da América Latina e do Caribe é redescobrir a presença de Deus na cidade, torná-lo horizonte de vida. Um Deus que só é usado como discurso para dissimular posturas farisaicas e hipócritas não serve à cidade. Ao mesmo tempo, em termos pastorais, penso que não é um bom caminho a proposição de modalidades e estruturas de vida da Igreja que pertenceram a outros tempos. Às vezes, temos a impressão que a Igreja é chamada para uma batalha, uma luta, uma guerra. Esse foi o modelo das Cruzadas. O desafio para a Igreja atual não está dentro dos muros da cidade, mas nas periferias, expressão de uma sociedade que abandonou uma parte de si mesma negando os direitos mais rudimentares. Se a tranquilidade de dentro dos muros está ameaçada é porque a sobrevivência dos que sobram nas cidades há muito foi jogada ao “deus dará”, entregue à própria sorte.

A Igreja hoje é convocada na cidade para um movimento de conversão para fora dos muros. Sem isso a cidade poderá falar muito de Deus, no entanto Ele foi expulso, Ele foi assassinado. Ele está vivendo nos barracos miseráveis, naqueles bairros onde a violência é a céu aberto. Um Deus que escapa das periferias geográficas, sociais e existenciais não vive na cidade. É, sobretudo, nas periferias e suas contradições que se deve forjar o nascimento de um novo modelo de espiritualidade e evangelização. O Papa Francisco aponta a direção de uma pastoral urbana a partir de uma Igreja em estado permanente de saída missionária, superando uma pastoral da conservação.

 

Vania Reis A disposição para a fazer valer a sua opinião parece estar passando dos limites da razoabilidade. O que eu penso é o

Vania Reis

A disposição para a fazer valer a sua opinião parece estar passando dos limites da razoabilidade. O que eu penso é o certo, o que você pensa é errado, e eu não me disponho a lhe ouvir e muito menos em dialogar. É triste ver que hoje ainda o que predomina na confrontação das visões individuais ou narrativas (nome da moda para falar da versão que está sendo apresentada) quem fala mais forte “ganha”. A agressividade na fala, a intimidação são formas arcaicas de opressão. Todos sabem que as palavras tem poder e o que se fala pode ferir de morte. “A chicotada produz um ferimento, porém uma língua má quebra os ossos. Muitos homens morreram a fio de espada, mas não tantos quantos os que pereceram por causa da língua”(Eco28,21-22).

A CPI da Pandemia tem sido um exemplo gritante do retrato de uma disputa de poder que com o escudo do “saber a verdade” usa as palavras como espada mortal. Quantos ali já vimos “morrer”! Quantos não serão inocentados nos processos jurídicos que se seguirão, mas talvez nunca recuperarão suas vidas! O que parece importar ali, não é saber a verdade, mas sim criar uma “narrativa”, para que aquilo que eu penso seja a verdade. Falta humildade e sobra prepotência. Não há dialogo e sim um uso da palavra como espada, porque não se busca “a” verdade, mas sim a “minha” verdade, a que eu quero que seja vista como verdade. Quanta precipitação!  As pessoas ainda estão presas a um mundo que só pode ter dois lados de uma moeda, quando já temos clara noção que nossa realidade é muito, muito mais complexa. Não quero aqui defender os que procederam contra as leis, de forma alguma. O objetivo é dar maior clareza ao que assistimos que tem se mostrado claramente como um uso do poder, para ter mais poder. Acredito que na luta de espadas, a língua, como dito em Eclesiástico está matando.

Apesar das muitas descobertas da neurociência, o funcionamento da nossa mente é muito pouco conhecido e um terreno muito escorregadio ainda. Apreendemos uma realidade, captamos seus significados, fazemos inferências a partir de nossas vivências pessoais e depois agimos conforme esse nosso referencial interno. Quando compartilhamos com outras pessoas nossos valores, ideias, pensamentos vamos tendo experiências próximas e assim, ampliando a escala, formamos grupos de pessoas que compartilham a mesma realidade. Para esse grupo tal informação ou fato será possivelmente compreendido de forma semelhante e vista como verdadeira.

Outros que tiveram outras experiências, possuem outros valores, ideias, pensamentos possivelmente não terão a mesma percepção. Não pode haver assim uma percepção única, inequívoca, neutra ou imparcial da realidade, pois para dar significado a algo que vejo, tenho que buscar no meu repertório interno, nas minhas vivências a compreensão.  Minhas vivencias são diferentes da sua e sempre teremos diferenças entre a as nossas formas de entender as coisas. Não somos robôs. Minha visão de mundo, meus valores, vivências são muito diferentes de Renan Calheiros, assim sempre terei que fazer um esforço enorme para compreender a visão de mundo dele.

Para melhor entender e pegando emprestado a terminologia da saúde, não há uma percepção “estéril”. Minha percepção sempre estará sempre “contaminada”, ou melhor dizendo está impregnada de meus sentimentos, emoções e crenças. Não existe neutralidade.

Então a verdade não é algo fixo, percebida por todos de forma igual a ponto de nos dar certeza. A neurociência nos mostra isto. Temos que estar abertos a ouvir atentamente, sem interromper o outro, sem julgar se quisermos ver o que, para o outro. Mas hoje, o cada vez mais comum são pessoas que têm a mente “cheia” de suas verdades e, com isso não conseguem ouvir o outro. Já estão fechados em suas verdades.

Infelizmente essa dificuldade não aparece apenas na CPI da pandemia. Na pressão do cotidiano, no aperto financeiro, na escassez afetiva, de tempo e paciência não deixamos espaço para o outro. As pessoas assim se estranham, brigam, rompem relacionamentos. Um não ouve o outro. Escutam as palavras que estão sendo ditas, mas não ouvem. Em suas mentes já está sendo entendido o que está sendo dito pelo outro, mesmo antes deste falar. Não há diálogo. Cada um só escuta a si mesmo

Aqui cabe bem a continuação do trecho do Eclesiástico acima citado
“Derrete teu ouro e tua prata; faze uma balança para pesar as tuas palavras, e para a tua boca, um freio bem ajustado”(Eclo 28, 28b-29).

Pelo menos na sua vida, nos seus relacionamentos coloque esta balança e escute, ouça mais o outro, tente entender como ele ou ela vê o mundo. Esvazie de pré-concepções, de pré-conceitos e ouça o outro, calce seus sapatos, ponha-se no lugar dele ou dela e depois peça que ele ou ela faça o mesmo. Se os dois quiserem dialogar, assim será possível.

Quanto à CPI da pandemia, deixe o (triste) “espetáculo” continuar, a história vai julgar. Alí não há diálogo, apenas confronto em busca de poder. E esperamos que não seja o mais forte a ganhar e sim o mais justo.

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Edebrande Cavalieri A I Assembleia Eclesial da América Latina e do Caribe nos coloca a necessidade de olharmos para uma das questões mais espinhosas

Edebrande Cavalieri

A I Assembleia Eclesial da América Latina e do Caribe nos coloca a necessidade de olharmos para uma das questões mais espinhosas e desafiadoras, presente na Igreja, que é o clericalismo. O Papa Francisco disse por diversas vezes que esse mal é “obstáculo para uma Igreja sinodal”. Está muito presente em toda a Igreja essa espécie de cultura clerical, que toma o ministério não como serviço, mas como poder e a Igreja como sua propriedade, sob seu controle.

O Papa Francisco alerta-nos dizendo que é raiz de muitos males na Igreja. Em diálogo com os confrades jesuítas de Moçambique em 2019 ele disse que “o clericalismo é uma verdadeira perversão na Igreja”, pois coloca o pastor sempre à frente, definindo a rota da Igreja e punindo com exclusão aquelas pessoas que se afastam do rebanho ou aquelas que são uma espécie de ameaça ao poder instituído pela pessoa. E acrescenta imediatamente que o caminho sinodal é o remédio eficaz para esse mal, pois coloca o pastor à frente, mas também atrás do povo para não perder ninguém e ajudar os que vão em marcha lenta e no meio do povo, caminhando junto. Podemos até generalizar dizendo que o clericalismo é a ausência da sinodalidade.

Nesses tempos de pandemia por diversas vezes e em muitos lugares, diante das orientações sanitárias e normativas da gestão pública que indicava a necessidade do fechamento dos templos para que se evitassem aglomeração e crescimento das infecções por Covid-19, ouvimos leigos, padres e até bispos dizendo que ninguém fecharia a sua Igreja. Nas redes sociais circularam diversos folders com os dizeres: “A porta que Deus abre ninguém fecha”; “Ninguém fecha a minha Igreja”; “Minha Igreja, um lugar seguro para as crianças”. Já vimos panfleto com os dizeres: “Essa é a minha paróquia. Ame-a ou deixe-a”. Essas expressões não são sem sentido; são muito tristes e contrárias ao Evangelho, pois a Igreja é de Jesus Cristo. Não existe um dono como se ela fosse uma empresa, um negócio, ou a própria casa onde se mora. O templo onde a comunidade se reúne pertence ao povo de Deus que se junta para a oração, para a instrução e para a Eucaristia (partir o pão).

De maneira bem concreta, outra situação em que se mostra o perfil do clericalismo pode ser encontrado em algumas situações em que, na administração de dioceses, os Bispos sentem muitas dificuldades na hora de transferir determinado padre de uma paróquia para outra. Entendemos o lado afetivo que une as pessoas e os próprios paroquianos gostariam muito que determinado sacerdote ali permanecesse, porém o caminho sinodal implica esse movimento de uma Igreja peregrina, em que seus ministros servem ao conjunto do povo de Deus e não apenas a um determinado grupo geográfico. Aqui temos que registrar como foi bonito ver os quatro diáconos provisórios enviados em missão, cumprindo a necessidade do estágio diaconal na Diocese de Conceição do Araguaia no Pará. Nesse pouco tempo aprenderam tantas coisas e relativizaram outras questões que lhes pareciam absolutas. Na missão, o que importa mais é o chamado de Deus e não os desejos e interesses pessoais.

O clericalismo também se entranha na vida cotidiana da Igreja quando numa paróquia ou comunidade não existem o Conselho para os assuntos econômicos e administrativos e o Conselho Pastoral. Como se conduz essa comunidade eclesial? Quem toma as decisões e de que forma? Em algumas comunidades há leigos que exercem um controle enorme a ponto de afastar e até excluir quem for ameaça a esse poder. São leigos clericalizados.

A voz do papa nos indica o remédio para esse mal. A sinodalidade deve atingir todos os espaços eclesiais: comunidades, paróquias, órgãos eclesiais, espaços formativos, etc. O clericalismo afeta até a questão do dízimo na medida em que não se mostram os balancetes, as necessidades, os projetos, etc. Nesse sentindo, o Papa fez algumas mudanças muito importantes na administração do Vaticano e convoca toda a Igreja para uma “absoluta transparência das atividades institucionais, especialmente no campo econômico e financeiro”.

O Sínodo da Amazônia reconheceu “a sinodalidade como uma dimensão constitutiva da Igreja” e para isso torna-se essencial o caminho da conversão para a superação o mal do clericalismo que aos poucos vai apagando “o fogo profético que toda a Igreja é chamada a testemunhar no coração de seu povo”.

Então nesse caminho de escuta que a Igreja da América Latina e do Caribe está realizando torna-se essencial a experiência da sinodalidade como prática corresponsável. Não serviria para nada se algum líder respondesse a todas as questões indicadas no Documento para o caminho e enviasse em nome da comunidade, da paróquia ou da Arquidiocese para a secretaria geral da Assembleia. Sabemos que dá muito trabalho ouvir o outro, o povo. É mais rápido responder em nome dele. Mas isso não é Igreja sinodal.

Por fim, a sinododalidade acaba se tornando o caminho mais seguro e forte em vista de um enriquecimento comunitário. Assim ganhamos força e coragem na caminhada. Foi na vida comunitária que os cristãos encontraram forças durante as perseguições. Nos dias que correm, diante de tantas inseguranças e desafios, alguns grupos se agarram às normas e às práticas tradicionais da Igreja numa espécie de restauração. Mas a orientação vinda do timoneiro da Barca de Pedro é a via sinodal, em que os pequenos grupos se ajudam comunitariamente.

Foi vivendo a experiência sinodal que os Apóstolos superaram as visões particulares, o legalismo na questão da circuncisão e os contextos culturais diferentes fazendo avançar a dinâmica de uma “Igreja em saída”. Foi caminhando todos juntos, tendo Pedro como exemplo de escuta e condução como está descrito de maneira magnífica em Atos 15, que a Igreja dos tempos apostólicos se abriu à ação do Espírito Santo.

O remédio da sinodalidade irá, com certeza, fortalecer a “Igreja em saída” missionária, superando o mal do clericalismo e outros males. Dará força para a caminhada ecumênica. E, sobretudo, fará aumentar o número de seus discípulos e de vocações sacerdotais. O clericalismo restringe e divide o corpo eclesial, e faz definhar a fé. A caminhada sinodal nos torna alegres, fortes, corajosos, esperançosos e livres.

Vania Reis Essa semana Padre Joãozinho em sua reflexão diária nos falou de uma passagem muito significativa nestes tempos de tantas forças geradoras de

Vania Reis

Essa semana Padre Joãozinho em sua reflexão diária nos falou de uma passagem muito significativa nestes tempos de tantas forças geradoras de insegurança. Na semana passada conversamos aqui sobre a necessidade de ter fé  “Não tenhas medo e vimos  formas de nos proteger neste cenário atual. Um tempo que se beneficia com a insegurança, provocando ainda mais fragilidade em nossos corações. Padre Joãozinho nos fortalece com seu o raciocínio:

Diante das forças malignas, dê ordens determinantes; o mal, na verdade, é frágil e não suporta a autoridade que vem de Deus (grifo nosso).  Mesmo quando o mal parece muito forte, como naquele dia em que Jesus passava por uma região e viu uma legião de demônios! E Ele deu uma ordem para que eles fossem embora dali. E os demônios entraram numa manada de porcos e se precipitaram monte abaixo, para dentro do mar, afogando-se nas águas.

Jesus falou com autoridade, não se alterou, falou com determinação  e o mal  se mostrou submisso, perdendo seu poder. E  Jesus, “serenamente, continuou o seu caminho, porque Ele sabia que a força maligna faz de conta que é forte, mas, na verdade, é imensamente frágil !” (#minisermao de 30/06/21).

Estamos vivendo muitas lutas …vírus que mesmo estando mais dominado ainda deixa um rastro de consequências e seus medos, desemprego, dificuldades financeiras, sentimento de perda de todo tipo, separações, ansiedades, desânimo, depressão e cansaço!

Já não bastasse o turbilhão da vida pessoal ainda se somam as angústias pela turbulência que o nosso mundo político tem provocado, desconhecendo que a pressão sobre a população já está muito grande e que não é trazendo mais tumulto para o cenário que as coisas vão melhorar. De dentro vem um grito abafado: misericórdia, Senhor!

As guerras pessoais, as guerras contra o mal, de todas as formas e lugares, nos fazem sentir acuados como a população daquela região onde havia a legião de demônios.  Mas não¹ Não podemos nos deixar abater: a marca de Jesus está em cada um de nós, nos revestindo de força. Nunca se esqueça disso! Não tenha medo das guerras que você precisa enfrentar para se libertar das angústias que estão lhe aprisionando, pois quando precisar enfrentar essas guerras,  você  não estará sozinho, Jesus sempre estará com você.

Para buscar sua força, a sua autoridade interna como cristão, proponho um movimento de fé: experimente dizer em voz alta, agora, uma ordem com uma força e determinação crescentes, iniciando como  uma súplica que  com a repetição da frase se transforma em certeza crescente, em um verdadeira ordem: DEUS TEM MAIS PODER E VENCEREMOS ESSAS TREVAS!  (repita e repita). Não temas, só confia.

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Edebrande Cavalieri Esse é outro tema que o Documento para o caminho da I Assembleia Eclesial nos apresenta nesse momento de escuta: o crescimento

Edebrande Cavalieri

Esse é outro tema que o Documento para o caminho da I Assembleia Eclesial nos apresenta nesse momento de escuta: o crescimento cada vez maior das Igrejas evangélicas e pentecostais no nosso continente, com acentuado declínio do número de católicos em decorrência da emigração para outras realidades eclesiásticas. Segundo projeções das pesquisas sobre questões da religião, em 2022 teremos no Brasil 49,9% de católicos contra 31,8% de evangélicos e pentecostais. Em 2032 a projeção apresenta um país com 38,6% de católicos e 39,8% de evangélicos. Esse processo se acentuou a partir de 1991 com o declínio de católicos a uma taxa de 1% ao ano.

O Documento da Assembleia Eclesial nos põe a questão: o que é que as pessoas procuram noutras igrejas? Por que é que não o encontram na Igreja Católica? O que é que está faltando? Na Conferência de Aparecida em 2007 falava-se do “êxodo de fieis para seitas e outros grupos religiosos”. As filiações evangélicas são consistentes e também cresce o grupo dos chamados “sem religião e ateus.

Vamos apresentar alguns dados históricos que nos permitem compreender esse processo de crescimento tão forte das Igrejas Pentecostais, conhecidas como evangélicas. Não há um consenso em relação à distinção entre protestantes da Reforma e pentecostalismo, pois esse nasce das próprias Igrejas protestantes, em função de uma busca de renovação espiritual. Suas bases estão fincadas no território norteamericano com o movimento de santificação levado sob a liderança de pregadores itinerantes que acreditavam na promessa do derramamento do Espírito Santo.

Ao mesmo tempo, desde o início, esse movimento religioso tendia a reduzir tudo ao nível espiritual. Acreditam de maneira absoluta que “tudo depende da vontade de Deus”; daí um discurso predominantemente mágico-religioso. As três Igrejas que compõem esse início são a Assembleia de Deus, a Congregação Cristã e a Evangelho Quadrangular. Dessa forma, vamos compreender o crescimento do pentecostalismo em toda a América Latina tendo sua origem a partir dos Estados Unidos e não dos países europeus que foram berço da Reforma protestante.

O protestantismo europeu, em função dos acordos entre o Papa de Roma e os monarcas de Portugal e Espanha, conhecidos como Padroado, encontrou muitas resistências nas colônias espanholas e portuguesa. Era praticamente impossível romper a cristandade colonial. A vinda dos primeiros evangélicos aconteceu meio às escondidas com os imigrantes alemães e suíços, só recebendo autorização para a implantação de Igrejas com a Proclamação da República em 1889.

O grande marco para a entrada dos pentecostais no Brasil foi a separação entre Igreja e Estado pela Constituição de 1891, pondo fim ao regime de padroado que conferia à Igreja Católica o direito de ser a Religião Oficial. Em 1910 a Congregação Cristã, e no ano seguinte a Assembleia de Deus compõem a primeira onda de presença pentecostal em terras brasileiras. Nas décadas de 50 e 60 foi a vez de O Brasil para Cristo, Deus é Amor, e Evangelho Quadrangular, formando a segunda onda. Por fim, nas décadas de 70 e 80 temos o nascimento da Igreja Universal do Reino de Deus (1977) e a Igreja Internacional da Graça em 1983. Daí em diante, os grupos religiosos foram se multiplicando numa verdadeira progressão geométrica.

O crescimento do pentecostalismo no Brasil pode ser marcado em três grandes movimentos: a disseminação da Assembleia de Deus entre as camadas mais pobres e de pouca escolaridade, as Igrejas eletrônicas e o ingresso na política partidária.

No primeiro momento, os adeptos do pentecostalismo, especialmente da Assembleia de Deus, foram muito discriminados pelos protestantes históricos e até perseguidos por determinados grupos católicos. Logo e de maneira rápida foram fincando pequenas igrejinhas nas periferias dos centros urbanos e lugares mais afastados. Nesse momento, a posição da Igreja pentecostal era de afastamento de qualquer assunto relacionado à política.

O segundo marco de expansão está na linha das Igrejas eletrônicas, com evangelistas que usam de maneira intensa os meios de comunicação, especialmente rádio e TV. Se no início o objetivo era a pregação transmitida e espalhada de maneira rápida através de revistas, panfletos, pregações nas ruas, nas Igrejas eletrônicas os meios são basicamente suas próprias redes de TV e Rádio e as redes sociais.

A grande guinada da Assembleia de Deus e outras denominações pentecostais é bem recente e foi feita de maneira deliberada com o ingresso na política partidária e na busca do poder, da visibilidade pública e da respeitabilidade social. A maior expansão desse tipo de postura está nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Vitória. Foi nesse movimento de ingresso na vida política partidária que Eduardo Bolsonaro, membro da Igreja Batista do Rio de Janeiro, foi eleito com quase 2 milhões de votos. Na mesma linha Joice Hasselmann, nascida na Assembleia de Deus e frequentadora da Igreja Batista recebeu mais de um milhão de votos. Não devemos esquecer dos parlamentares Eduardo Cunha da Igreja Sara Nossa Terra, Marco Feliciano da Assembleia de Deus e tantos outros.

O ingresso do pentecostalismo na esfera do poder político foi determinante na vida política brasileira. Alguns analistas consideram esse segmento como determinante nas eleições. Hoje a Frente Parlamentar mais atuante com pauta própria e interesses particulares é a Evangélica com mais de 180 parlamentares de 20 partidos. Essa Frente foi decisiva na eleição do Presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira. Nas últimas eleições foi possível constatar o aumento de candidatos religiosos com os nomes de pastor ou missionário, demonstrando que a via política parece ser definitiva para as Igrejas pentecostais na defesa de seus interesses.

Diante desse quadro, ficam algumas questões que o Documento para o caminho da I Assembleia Eclesial: o que é que as pessoas procuram noutras igrejas? Por que é que não o encontram na Igreja Católica? O que é que está faltando? São questões que devem ser objeto de muitas reflexões nas comunidades católicas. Aqui queremos colocar um problema que nos parece importante refletir. Tem aumentado a percepção de que a grande guinada para o crescimento do meio evangélico no Brasil decorre da decisão de algumas Igrejas de usarem o espaço político como forma de fortalecer sua posição de poder na sociedade.

Em 2016 Damares Alves, pastora da Igreja do Evangelho Quadrangular e da Igreja Batista de Lagoinha em Belo Horizonte, dizia que “é o momento de a Igreja ocupar a nação. É o momento de a Igreja dizer à nação a que viemos. É o momento de a Igreja governar”. Essas palavras estão ligadas diretamente às palavras de Deus descritas no Salmo 33, 12: “Feliz é a nação cujo Deus é o Senhor, cujo povo ele escolheu para si mesmo”. Uma leitura fundamentalista e descontextualizada do texto bíblico leva automaticamente as pessoas a acreditarem em alguém que, ao ser batizado no Rio Jordão, seja visto como ungido de Deus. Expressões e ações de cunho religioso tem crescido em todas as esferas de poder político, tanto federal, como estadual e municipal. A própria nomeação de ministro do STF tem sido pautada com essa intenção – “ministro terrivelmente evangélico”.

Essa é a questão mais importante a ser refletida pelos católicos no caminho da I Assembleia Eclesial.  A América Latina e o Caribe, e não apenas o Brasil, tem presenciado o crescimento desse tipo de posicionamento religioso-político. A união entre política e religião na história da humanidade gerou tantas mortes, tantos sofrimentos. Os homens mataram-se em nome de Deus. Mas de qual Deus? Conhecemos tantas histórias das cruzadas medievais, das guerras de religião nos tempos modernos, das “guerras santas” dos muçulmanos. A luta pelo poder político com uso da religião e seus elementos simbólicos atenta contra o Estado democrático de direito. Não é compatível com o princípio do Estado laico. O que compete a qualquer Estado é garantir a liberdade de consciência, a liberdade religiosa plural, a liberdade de expressão da diversidade cultural e religiosa.

A formação de um pluralismo religioso no mundo atual é inconteste. As peias que amarravam as pessoas em seu recinto religioso caíram por terra. A liberdade de escolher o próprio caminho dentro de uma mesma família é comum nos dias atuais. O pluralismo religioso é uma questão essencial e o Papa Francisco nos coloca o caminho de uma “Igreja em saída” e não de uma fixação identitária. Ele nos pede “deixar-se surpreender por Deus”, que nos afastemos de um proselitismo tradicional que é “pecado problemático”. Ele proclama um Deus que surpreende, um Deus acolhedor e misericordioso. “Não é um Deus católico, mas que vem colorido pela diversidade”. Trata-se de um Deus acolhedor, feito de doçura e gratuidade nesse contexto de pluralidade.

Dessa forma, o crescimento das Igrejas Evangélicas e Pentecostais não deve ser motivo de desespero para os católicos, de uma nova cruzada aos infiéis que abandonaram a Igreja. É motivo sim para um verdadeiro exame de consciência de cada batizado, pois muitas pessoas abandonaram a Igreja por falta de acolhimento. A vontade misteriosa de Deus é insondável. Quem sabe Ele nos coloca esse caminho da pluralidade e em meio a ela Ele nos pede para deixarmo-nos surpreender com sua presença! O caminho para o Mistério maior que é Deus não é compatível com um fanatismo religioso que se espalha e cresce com movimentos afirmando certezas absolutas e convicções petrificadas.

O Papa Francisco nos diz que “se alguém tem a resposta a todas as perguntas, esta é a prova de que Deus não está com ele. Quer dizer que é um falso profeta, que usa a religião para si próprio. Devemos deixar espaço ao Senhor, não às nossas certezas”. Diante do crescimento das Igrejas evangélicas e pentecostais no continente latino-americano e no mundo o caminho a seguir é a construção de uma cultura do encontro e do diálogo. Não apenas diálogo com Igrejas, mas com as diversas espiritualidades presentes no mundo. Há que se derrubar os muros para a construção de pontes, tornando nova a própria humanidade.

 

Vania Reis Há algum tempo escrevemos aqui sobre nossa realidade tão radicalizada. As notícias parecem sempre buscar manchetes sensacionalistas como as de filme de

Vania Reis

Há algum tempo escrevemos aqui sobre nossa realidade tão radicalizada. As notícias parecem sempre buscar manchetes sensacionalistas como as de filme de suspense . O medo tem sido estimulado diariamente.

Já vimos que o medo é um sentimento de autopreservação, que existe para nos proteger de ameaças à nossa integridade, ao nosso bem-estar e que é então saudável, mas, com o coronavírus e nosso mundo dividido em dois, estamos sendo mantidos em constante estado de alerta,  e aí as coisas tendem a ficar mais complicadas. A raiva também está sendo provocada por esse cotidiano de dois lados que provocam e realimentam diariamente a briga política desde o segundo turno das eleições presidenciais passadas. Esses dois sentimentos, os mais básicos de todos, (além da afetividade e da alegria), foram e continuam sendo dramaticamente expostos e explorados por muitos grupos em função dos seus mais diversos interesses.

Vimos que as fake-news, ou até mesmo notícias reais, mas descontextualizadas ou distorcidas continuam sendo  geradas, aos milhares, para alimentar e reforçar o medo. Toma vacina/não toma; essa vacina não funciona/aquela; a verdade é essa/não, é essa que é boa; sempre em dois polos opostos, os dois lados estimulando o instinto e a luta de preservação diariamente.

Já entendemos que a base de funcionamento das mídias sociais (os algoritmos), funcionam para melhorar exponencialmente os  resultados destas mídias e de seus clientes. Para isso produzem um efeito de reforçar a sua opinião cada vez mais ao sempre só mandar para você o que você gosta, deseja ou procura. Como consequência fundamentalmente, radicalizam nossa opinião ao só  tomarmos contato com aquilo que queremos ver, ouvir ou pensar pois, não querendo nos desagradar eles “escolhem” o que apresentam para nós e só tomamos contato, no final das contas, com “meu espelho”, ou seja comigo mesmo e não nos abrimos para outras visões da mesma situação.

Em artigo anterior vimos que os algoritmos medem, entre outros, o engajamento de uma pessoa, ou seja, os likes, compartilhamentos ou buscas de um assunto. Assim as mídias sociais utilizam algoritmos para determinar o perfil de cada um e assim se outros posts semelhantes deveriam ser priorizados ou não para ser mostrado para essa pessoa. Assim você  é reforçado diariamente nas suas convicções. Como falamos, o reforço de uma crença torna essa crença cada vez mais forte, as vezes até cristaliza as opiniões.

Desde o início do século passado Einstein nos ver que  a realidade é muito mais ampla e que toda realidade tem mais de uma forma de ser vista.  Ao fecharem as possibilidades de  acesso às diversas informações (pelo efeito dos algoritmos descritos acima) e limitando nossa compreensão mais ampla estamos cada vez mais à mercê do que querem que pensemos. Esse mecanismo está sendo “fertilizado” com o nosso medo e ficamos diante de uma ameaça que compromete nosso bem-estar.

Se uma pessoa não consegue ver outra forma de sair desta ciclo criado, o controle da situação se perde, assim como a racionalidade e a capacidade de ouvir qualquer argumento fora do meu sistema de proteção .Aí a chance de adoecer é real.

Grande parte das pessoas está presa neste lugar e  muitas estão mesmo adoecendo. A Covid-19,  em si, como toda doença contagiosa provoca na população medo, ansiedade, insegurança… Mexe com a noção de imprevisibilidade, não só em relação ao comportamento do vírus em cada pessoa atingida mas também com o medo do desconhecido que é tão primário em nós.

Então…São duas as escolhas que temos:  posso ficar preso(a)  nesta “roda do medo”  assistindo as notícias e discutindo eterna e inutilmente, achando que vou descobrir quem está com a razão, e nunca chegar a lugar nenhum e, continuar a ter ainda mais medo ou, posso ser mais esperto(a). Posso entender que essa situação é igual a do cachorro mordendo seu próprio rabo e entender que essa situação está me fazendo mal e  me dar conta que não quero ficar nesta insanidade provocada artificialmente pelas mídias sociais. Posso tomar as rédeas da minha vida e desligar a televisão e escolher onde vou buscar informações mais isentas (os telejornais da Canção Nova são ótimos). Esquecer as mídias mais inflamadas como Twitter e Facebook,  fugir e não abrir as mensagens dos grupos radicais do WhatsApp, ou as “dicas” de notícias do Google  e  assim ir “saneando” minha vida da ciranda nociva que vivemos. Pensa antes de clicar: cada vez que eu clico no celular na mensagem chamativa eu reforço que isso me interessa e mais eu tenho que lidar com a roda do medo. Tenho que tirar meu foco e o meu interesse das “iscas” das brigas. Mude o disco como se falava antigamente. Você sabe o que você precisa saber da Covid-19, vacine-se e proteja-se use máscara, lave as mãos prefira locais ao ar livre longe de aglomeração. Depois disso não importa saber se tem cepa tal ou qual por aí ou se minha vacina me deu tal ou qual imunidade. Livre se das  notícias apocalípticas! Saia da roda de insanidade que está sendo construída. Concentre-se no que importa e escolha a vida que quer ter.

Diariamente se assegure e “escute” em sua mente e com seu coração as Palavras que realmente me devem guiar “Não tenhais medo”  (Is,41,10), “O Senhor é meu pastor e nada me faltará” (Salmo 23) e encerre com as palavras de Jesus: “Não temas; crê somente” (Mc 5,36).

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