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Edebrande Cavalieri Continuando a refletir sobre alguns temas que são objetos da escuta da Igreja para a I Assembleia Eclesial da América Latina e

Edebrande Cavalieri

Continuando a refletir sobre alguns temas que são objetos da escuta da Igreja para a I Assembleia Eclesial da América Latina e do Caribe, queremos olhar o rosto dos nossos jovens. Trata-se de uma realidade tão importante que fez o Papa Bento XVI dizer por ocasião de quando veio ao Brasil que “sem o rosto jovem a Igreja se apresentaria desfigurada”. Ele disse isso no discurso que fez no encontro do Pacaembu, em São Paulo em maio de 2007. E completava ainda mais esse pensamento: “Vós, jovens, não sois apenas o futuro da Igreja e da humanidade, como uma espécie de fuga do presente. Pelo contrário: vós sois o presente jovem da Igreja e da humanidade. Sois seu rosto jovem”.

O Papa Francisco no encontro com os jovens do mundo inteiro nos chamou a atenção para o fato de que tantas vezes estamos falando com os jovens sem perguntar a eles o que estão pensando. E nos aponta a saída missionária: “A Igreja deve ousar caminhos novos, mesmo se envolver riscos. Devemos nos arriscar, porque o amor sabe como correr riscos. Sem arriscar, sabem o que acontece a um jovem? Envelhece. E também a Igreja envelhece”. Então um rosto de um jovem que não encara os riscos de abrir caminhos torna a Igreja envelhecida. O que se apresenta a eles como desafios?

Então precisamos olhar os jovens da América Latina e Caribe, escutá-los, ir ao encontro deles, perder tempo com eles, entender o que eles pensam, saber de seus sonhos e de suas lutas. Não há outro caminho. Novamente o Papa Francisco nos questiona: “Como é o meu olhar? Vejo com os olhos atentos ou como faço ao repassar rapidamente as milhares de fotografias no meu celular ou os perfis sociais?”

Em preparação para o I Sínodo Arquidiocesano de Vitória ocorrido entre 2006-2009, foi realizada uma pesquisa conduzida de maneira científica com questionário e grupos de discussão com os jovens. Naquele momento foi possível sentir um pouco suas angústias diante da dificuldade dos adultos em ouvir esses jovens. Ele nos diziam, por exemplo, que não entendiam o que acontecia no rito litúrgico da Celebração da Eucaristia. E nos perguntavam: por que tantos movimentos de “senta e levanta”?

O tema da juventude aparece e se destaca no Documento para o caminho da I Assembleia Eclesial. No Sínodo para a região amazônica foi possível ver que entre os diversos perfis da Igreja estão os rostos jovens, com identidade indígena, afrodescendente, ribeirinho, extrativista, migrante, refugiado, jovens rurais, jovens urbanos, que sonham e buscam melhores condições de vida. São jovens estudantes e trabalhadores que convivem com tristes realidades como a pobreza, a violência, a doença, o abuso, a exploração sexual, o uso e tráfico de drogas, e até o aumento de suicídios. Muitos tem a vida ceifada antes dos trinta anos e outros vivem nos sistemas prisionais, verdadeiras escolas para o crime.

A juventude sempre foi apresentada como a idade dos sonhos e da esperança, mas esse cenário está mudando. Como a Igreja poderia acompanhar esse rosto tão forte e presente em nossa sociedade e na própria Igreja? O Sínodo da Amazônia reconhece o “lugar teológico” dos jovens, verdadeiros “profetas da esperança”. Contudo, eles vivem uma realidade que precisa ser transformada. Que mundo estamos deixando para nossos filhos jovens?

Conforme a Lei 12.852/2013 que criou o Estatuto da Juventude e definiu sua Política Nacional considera-se jovem toda pessoa entre 15 e 29 anos. É bom não confundir com adolescente que se refere ao intervalo de 12 a 18 anos. Em termos de política para a juventude é consenso entre todas as esferas de poder e das organizações sociais que esse setor requer um urgente investimento econômico, educacional, cultural, político e social. Estamos diante de uma realidade tratada coletivamente, mas com alto grau de diversidade com inúmeras determinações sociais. A diversidade de rostos jovens é cada dia maior.

O primeiro desafio está na promoção humana e defesa dos direitos dos mesmos, especialmente aqueles que vivem em maior grau a vulnerabilidade social como a violência. A pandemia agravou ainda mais a precariedade da vida que vivem com um futuro incerto, sem possibilidade de continuar os estudos e uma grande maioria vivendo desempregado. Conforme o Atlas das Juventudes publicado pela FGV Social 47% dos jovens brasileiros consideram seriamente a possibilidade de sair do Brasil não para fazer intercâmbio, ou estudar MBA ou cursar pós-graduação stricto sensu, mas para arrumar sua vida profissional encontrando trabalho e renda.

Temos uma população jovem bem grande, porém salta aos olhos vê-la sem perspectiva de trabalho e insatisfeita. Ninguém desejaria sair do país nessas condições de ausência de horizonte satisfatório de vida profissional. Trata-se de um grande potencial para o mercado de trabalho que poderá ser desperdiçado no Brasil em vista do crescimento e da produtividade, sem contar o êxodo de cérebros que irão agigantar a pesquisa em outros centros promissores. É mais certo que o Brasil precisaria crescer antes de envelhecer.

Segundo dados do IBGE/2007, o Brasil possui 50,2 milhões de jovens, ou seja, 26,4% da população. Desses, 14 milhões vivem em famílias com meio salário mínimo per capita. Apenas 13% desses 50 milhões de jovens estão em curso superior. O quadro acima fica mais cruel ao se constatar que 70% dos jovens pobres são negros, que convivem com altos índices de contaminados com HIV, gravidez não planejada, uso de drogas ilícitas e envolvimento no crime. O quadro fica ainda mais sombrio quando, em pesquisa realizada pelo IBGE sobre a população “nem-nem” (nem trabalha, nem estuda), se percebe um crescimento nos últimos anos chegando a quase 26% dos jovens sem trabalho e sem estudo.

Poderíamos ampliar esse quadro da realidade jovem, mas queremos deixar que cada comunidade, cada grupo, cada paróquia, faça essa escuta em vista da I Assembleia Eclesial. É preciso levar muito a sério as palavras iniciais expostas acima dos Papa Bento XVI e Francisco e olhar para a fé dos jovens para que se possa potencializar o papel dos mesmos na Igreja, envolvendo-os cada vez mais e nos aproximando de sua vida cotidiana. É triste verificar em muitas reuniões eclesiais a quase ausência total do rosto dos jovens.

É preciso tornar presente cada vez mais o rosto dos jovens na Igreja para manter viva a mística de tantos empobrecidos no continente latino-americano. Com a juventude e sua linguagem criativa, crítica, com beleza, arte, poesia, expressão corporal pode-se encontrar o melhor caminho para nos aproximarmos da experiência do povo de Deus que sofreu, mas chegou à Terra Prometida e para experienciar a vida do povo cristão, martirizado e testemunha da fé.

Muitos se perguntam por que tantos jovens abandonam a Igreja. É preciso que nos perguntemos por que poucos jovens frequentam semanalmente a missa e mais de um terço não está filiado a nenhuma religião. Algumas pesquisas mostram que muitos jovens acham que os cristãos demonizam tudo o que não tem a ver com a Igreja, especialmente filmes, músicas, videogames, e diversões em geral. Outros declaram que as Igrejas ignoram os problemas do mundo concreto.

O terreno de fé para os jovens não é tão tranquilo como muitos acham. As pesquisas apontam que determinadas posições das Igrejas se chocam com a realidade dos jovens. Muitas vezes encontram contradições entre o que estudam nas cadeiras escolares em relação à ciência e o que se ouve em alguns lugares eclesiais como os pré-julgamentos fáceis e rápidos sobre as questões de sexo e sexualidade, o julgamento severo sobre seus erros, as formas de ensino a respeito do sexo e da sexualidade, o fechamento de algumas lideranças religiosas para outras experiências espirituais, e por fim, a falta de acolhimento em suas dúvidas sobre a fé. Isso causa profundo impacto na vivência da fé desses jovens. Em geral, os jovens vão se afastando de posturas de alguns que acham conhecer toda a doutrina, todas as leis canônicas, e se postam como juízes e condutores do “bom caminho”.

Em preparação para o Sínodo dos Bispos em 2018, que tinha por tema “os jovens, a fé e o discernimento vocacional”, o Papa Francisco dizia que “através dos jovens, a Igreja poderá ouvir a voz do Senhor que ressoa inclusive nos dias de hoje”. Assim, na I Assembleia Eclesial da América Latina e do Caribe a escuta dos jovens com suas dúvidas, sua vida mais secularizada que religiosa, que reagem às formas tradicionais de educar da fé, seu senso de vida ética que parece mais forte que o senso religioso, podem servir como caminho para ouvir a voz do Senhor. É através dos sofrimentos e angústias do povo que o Senhor manifesta o caminho a ser construído. Estrada pré-determinada, construída em outros tempos para outras realidades, nem sempre vai dar em verdes pastagens.

Vania Reis Você já se perguntou  por que  seu cachorro sabe quando você está chegando em casa, e espera na porta? Ou por que

Vania Reis

Você já se perguntou  por que  seu cachorro sabe quando você está chegando em casa, e espera na porta? Ou por que seu gato corre para perto do telefone quando é você que está ligando?   Porque as mães sabem quando o bebê está precisando dela, mesmo se ele não está chorando? Não? Mas você é como 80% dos pesquisados do Sheldrake que já tiveram a experiência de pensar em uma pessoa e esta lhe telefona. Por que isso acontece? Pois o biólogo inglês Rupert Sheldrake responde a estas e outras perguntas muito mais importantes  propondo a sua instigante hipótese científica: a dos “campos mórficos” ou também “campos morfogenéticos”.

Uma ideia complexa,  mas que Sheldrake deixa mais clara com a história (fictícia) da “ teoria do centésimo macaco”  exemplificando seu pensamento:

Era uma vez duas ilhas tropicais, habitadas pela mesma espécie de macaco, mas sem qualquer contato perceptível entre si. Depois de várias tentativas e erros, um esperto símio da ilha “A” descobre uma maneira engenhosa de quebrar cocos, que lhe permite aproveitar melhor a água e a polpa. Ninguém jamais havia quebrado cocos dessa forma. Por imitação, o procedimento rapidamente se difunde entre os seus companheiros e logo uma população crítica de 99 macacos domina a nova metodologia. Quando o centésimo símio da ilha “A” aprende a técnica recém-descoberta, os macacos da ilha “B” começam espontaneamente a quebrar cocos da mesma maneira. Não houve nenhuma comunicação convencional entre as duas populações: o conhecimento simplesmente se incorporou aos hábitos da espécie.

Como isso aconteceu?  Segundo o respeitado pesquisador mundialmente conhecido, “existem campos de informações não materiais que são transmitidos por ressonância”. Como nos explica  Gonçalves (2020): essa ressonância mórfica acontece dentro de sistemas que compartilham características semelhantes em sua formação. Quanto maior a similaridade destas características, maior é a ressonância e quanto maior será a influência desse “campo imaterial de informação”. Da mesma maneira que dentro de um sistema similar os indivíduos deste sistema são influenciados em seus comportamentos, descobertas e aprendizados e passam a influenciar este campo. Nesse sentido, essas informações passam a fazer parte do campo que influencia a todos que pertencem ao referido grupo de iguais características semelhantes.

Segundo Sheldrake, os campos mórficos são estruturas que se estendem no espaço-tempo e moldam a forma e o comportamento de todos os sistemas do mundo material.  Esses campos armazenam e enviam informações (não energia) como uma  memória coletiva, na qual cada membro daquela espécie recorre e para a qual cada um deles contribui. Quanto mais parecidos os que acessam, quanto maior o vínculo   entre eles (como entre familiares e pessoas, ou você e seu cachorro),  maior a  ressonância. O tema é fascinante  e mesmo  que você possa achar estranho e pensar que isso é bobagem, assista a entrevista de Sheldrake em https://www.youtube.com/watch?v=AnskITfJRwQ.

As pesquisas poderão trazer grandes desafios para vários campos destacando a psicologia, a educação, a saúde  e tantos outros, mas especialmente no entendimento de características e de grupos sociais e, quem saiba, possamos entender melhor a nossa realidade.

Quem tem um forte vínculo a um grupo,  (como você e seu cachorro), forma um “campo mórfico” e se  comunicam de forma imaterial, mesmo se estiverem longe. Sheldrake acredita que  isso se dá pela telepatia. Eu, não sei dizer, mas  que isso acontece, acontece! Acho fascinante esse mundo de inúmeras possibilidades!! E você?

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Edebrande Cavalieri Em preparação para o momento de escuta da I Assembleia Eclesial da América Latina e do Caribe, o Documento para o caminho,

Edebrande Cavalieri

Em preparação para o momento de escuta da I Assembleia Eclesial da América Latina e do Caribe, o Documento para o caminho, disponibilizado no site do evento, orienta o povo de Deus para um olhar sobre a realidade da Igreja no hoje de nossa história. Um dos pontos ali apresentados se refere ao avanço da secularização nos países da América Latina, já constatado no Documento de Aparecida como “sérias tendências de secularização”.

Hoje podemos afirmar que o processo cresceu e se agravou. Em que consiste a secularização? Ouvíamos falar sempre que esse processo estava presente na realidade europeia. E hoje constatamos um crescimento muito presente entre os adolescentes e jovens de nossa sociedade. Em pesquisa do Instituto Datafolha de 2020 com jovens entre 16 e 24 anos, apenas 13% se diziam católicos. Também entre os evangélicos essa faixa etária é a que apresenta menor percentagem de cristãos, em torno de 19%.

Em termos de América Latina as últimas pesquisas confirmam o crescimento do fenômeno dos “sem religião”. Por ocasião da vinda do Papa ao Chile em 2018, foi divulgada uma pesquisa mostrando que esse país tinha em torno de 35% de sua população que se considerava sem religião, seguido pelo Uruguai com 31%, El Salvador com 30% e República Dominicana com 28%. Nessa pesquisa o Brasil aparece com 14% de pessoas sem religião.

Em 1980 era apenas de 1.5% de pessoas sem religião segundo dados do IBGE. Também é bom registrar que nesse continente já são quase 10 países onde a Igreja Católica tem menos de 50% da população, mostrando que não apenas o fenômeno da secularização lhe toca profundamente, mas também a migração de seus fiéis para outras denominações, especialmente as chamadas Igrejas pentecostais e neopentecostais. No Chile e no Uruguai a queda do número de católicos não indicou como consequência o aumento das Igrejas pentecostais, mas aumento do percentual de pessoas sem religião. Ou seja, nesses países a secularização se mostra mais forte e consistente.

Como podemos compreender esse fenômeno que não mais se restringe ao mundo europeu e penetra em países que tiveram uma história marcadamente católica, fruto do acordo entre Igreja e países colonialistas chamado Padroado? Alguns fatores podem ser mencionados a partir de pesquisas realizadas nos diversos centros de estudos sobre religião.

Tem diminuído significativamente a transmissão da fé cristã no seio familiar, e assim adolescentes e jovens passam a viver de maneira bem distante e indiferente em relação à religião. Há até uma atitude de crítica e oposição à Igreja Católica, considerada conservadora e pouco aberta a novos desenvolvimentos das ciências. Há uma desorientação generalizada em relação aos princípios da fé.

O Papa Francisco tem alertado frequentemente a Igreja sobre o aumento da secularização. Aos bispos poloneses em 2016 ele dizia que a cultura secularizada está conduzindo ao crescimento de cristãos “órfãos”. E alerta ainda mais: está crescendo uma espiritualidade sem Cristo, uma “espiritualidade gnóstica”. O desejo de romper o movimento de secularização com esse modelo de espiritualidade está levando a uma descristianização da sociedade

Um fator que atinge praticamente todas as Igrejas em relação ao abandono dos fieis é uma certa insatisfação com a instituição a que pertence, muitas vezes até em relação às lideranças que a conduzem. Tem crescido entre nós o número de pessoas chamadas de “desigrejadas”, que afirmam que “a igreja sou eu, é você, somos nós”. Alguns estudiosos tratam como “igreja orgânica”. O crescimento desse fenômeno, bem como o aumento de pequenas Igrejas sem vínculos maiores em termos institucionais, mostram que a religiosidade não combaliu. Há sim um crescimento da vinculação institucional.

Conforme dados do IBGE de 2010, há no Brasil mais de 10 milhões de pessoas sem vínculo denominacional. As projeções apontam maior crescimento até 2040. Os fatores que levam as pessoas a romperem com suas denominações são diversos, e os principais são: a maior ênfase na cobrança dos dízimos em nome da fé em vista de grandes construções arquitetônicas ou empresas de comunicação; a ascensão de líderes manipuladores, discurso e práticas contraditórias, demagogia, superficialidade das pregações, escândalos financeiros e morais cada vez maiores. A má formação humana e teológica de tantas lideranças acaba maculando o conjunto dos ministros da Igreja.

Para o grupo dos desigrejados, a instituição seria desnecessária e acreditam que a fé cristã poderia ser exercida desvinculada da comunhão da Igreja. Nesse caso, haveria cultos e orações não mais feitos nos templos, mas nas casas. Assim, o próprio dízimo desapareceria como obrigação eclesial. Professa-se uma forma de fé para além da instituição. Trata-se de um fenômeno crescente que exige estudo para entender as causas e as motivações. Entre os evangélicos o crescimento é maior, mas nota-se um crescente na Igreja Católica também. Os desigrejados abrem o caminho para a secularização, sem dúvida, pois vai enfraquecendo os laços eclesiais de comunhão e participação.

A insatisfação religiosa das pessoas que abandonaram a instituição deve ser compreendida no contexto de fieis que tiveram longa andança pelas Igrejas ou numa mesma Igreja. Isso não significaria apenas a queda no ateísmo, mas principalmente um enfraquecimento das crenças tradicionais. A ausência de comprometimento a partir da prática religiosa já é um forte indicativo desse enfraquecimento religioso. Até mesmo a relação com os dogmas religiosos vai denotando um enfraquecimento no vínculo com a religião.

Uma pesquisa realizada pelo Datafolha em 2007 constata no meio católico que 95% das pessoas são favoráveis aos anticoncepcionais ou utilizam sem maiores dificuldades, 72,2% são favoráveis ao divórcio e 70,6% são favoráveis à mudança da Lei sobre o aborto, de modo a permiti-lo em situações mais relevantes. Há um discurso dogmático que não se relaciona com a prática. É o caso das doutrinas relativas a questões morais e sociais. A reação tradicionalista autoritária que alguns grupos tentam mostrar e impor para barrar esse enfraquecimento não atinge o grupo que tem vínculo eclesial enfraquecido. Ao contrário, fortalece ainda mais o desejo de afastamento religioso das pessoas.

Até mesmo a politização das questões morais acaba fortalecendo o movimento de secularização. O crescimento da Direita Cristã vai enquadrando a religião na esfera política, tornando-se um verdadeiro partido. A aproximação da religião com a política traz consequências nefastas para a fé e torna ainda mais tênues os laços que unem as pessoas a uma determinada denominação religiosa. O domínio político instrumentalizando a religião em seu benefício quase sempre esbarra no enfraquecimento da fé.

O apego aos modelos tradicionais de impor a fé na sociedade com que alguns grupos tentam exercer a liderança abre um fosso ainda maior na perda da autoridade e da influência da religião sobre os indivíduos. O uso da religião como instrumento de controle e de poder como acontecia nos tempos da cristandade não surte mais eficácia. Aumenta mais o distanciamento da cultura religiosa imposta pelas Igrejas em relação ao mundo. Não é por causa desses grupos tradicionais que a secularização será estancada. Ao contrário, isso provoca uma maior reação e desilusão em relação à própria Instituição. As pessoas não tomam decisões a partir dos catecismos ensinados ou das cartilhas doutrinais impostas.

No Brasil, os impactos provocados pelo crescimento das Igrejas pentecostais e neopentecostais e a atração exercida pelas lideranças midiáticas podem nos enganar achando que com isso estaria estancada a secularização. Mas alguns estudiosos entendem que não apenas o crescimento do mundo evangélico, como o consequente pluralismo religioso e a incorporação da religião no espaço do palanque político devem fortalecer esse desencantamento das pessoas com a instituição religiosa levando ao aumento da secularização. Não se deveria criar Igreja como se criam partidos políticos. A vida útil dos partidos políticos é muito pequena. Já imaginaram esse caminho na vida das Igrejas? O desencantamento com um partido político teria assim como equivalente o desencantamento com uma determinada Igreja ou mesmo com a própria religião.

Uma questão merece ser aprofundada: até que ponto os movimentos de reavivamento da vida religiosa com práticas até estranhas ao Concílio Vaticano II e restauradoras de tempos passados podem estancar o crescimento da secularização? No caso católico, esse movimento acabou aproximando muitas vezes a cultura católica tradicional da cultura pentecostal. Isso tem enfraquecido a identidade católica, favorecendo a migração religiosa, com o abandono da Igreja na qual recebeu os sacramentos de Iniciação Cristã.

É inegável a sede espiritual do homem contemporâneo, mas nem sempre essa sede leva esse mesmo homem para o poço de água viva que é Cristo. Para o Papa, é preciso que a Igreja saia de si mesma, vá para fora, entre o povo, para as periferias, próxima às pessoas e disposta a “perder tempo” com elas. E lembra o exemplo de São João Paulo II que no magistério universitário “dava aula aos jovens e depois saia com eles para as montanhas; isso é proximidade. Ele os escutava, ele ficava com os jovens”.

Nesse momento do primeiro passo da Assembleia Eclesial conhecido como “VER” é muito importante que as pessoas sejam ouvidas a respeito dessa questão, dizendo como a secularização se apresenta em seu cotidiano, em sua comunidade, em sua família. Que essas vozes sejam enviadas para que ecoem durante o evento da Cidade do México, sob o olhar de Nossa Senhora de Guadalupe.

 

Vania Reis A realidade que vivemos hoje é estranha para todos nós. No mundo todo esse, ainda tão pouco conhecido vírus, mudou a vida

Vania Reis

A realidade que vivemos hoje é estranha para todos nós. No mundo todo esse, ainda tão pouco conhecido vírus, mudou a vida de quase toda população mundial,  e  mudou sem pedir licença. Independente das perdas pessoais, todos estamos cansados destas frustrações que estamos vivenciando. Alguns estão sofrendo mais que outros, uns porque não estavam emocionalmente preparados para esse longo encontro consigo mesmo, outros porque não estavam financeiramente estáveis ou preparados, outros porque não souberam enfrentar as oportunidades surgidas ou foram paralisados pelas ameaças. A sensação de perda é muito grande, muitos estão sofrendo, muitos desemparados, muitos com medo e, a pior resultante destas dificuldades, muitos estão desesperançados quanto ao futuro.

O grande entrave destas pessoas é justamente a desesperança. Não há quem duvide que a retomada à vida normal  vai nos exigir esforços como de um pós-guerra. O mundo está em uma jornada que nunca esteve.

Como já ouvimos, as grandes transformações  que o mundo precisará enfrentar passará pelas pessoas que souberem dar as respostas que o mundo espera.  Eu preciso estar preparado para o futuro que se abrirá provavelmente em poucos meses.   Que caminhos me levarão para onde quero ir. Mas como posso saber , como  posso ver oportunidades se meu olhar é de desesperança!?

A esperança é o que me constrói. A fé e a esperança são meu esteios.  Mas  essa reflexão leva a um impasse: como sair deste ciclo de realização negativo?  Como fazer para recuperar o meu eixo e sair deste lugar de desesperança onde quanto mais sem fé , sem crenças positivas, menos realizo. Uma coisa é certa, sozinho não dá.

Em recente Congresso sobre o Espírito Santo, o Teólogo Rafael Brito explanava sobre a ação de nos redimir, do Espírito Santo. Redimir significa colocar no eixo novamente. Brito usou a imagem da Bíblia dada em Gênesis 1, 2 que pode ser a nossa metáfora-guia  aqui, deste poder que tantos de nós precisa para nos colocar no eixo: “A terra estava informe e vazia; as trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as águas”. Com a ação do Espírito Santo, que “pairava sobre as águas”,  as coisas acharam o seu lugar: a água foi separada do firmamento e desceu; a pedra achou o seu lugar e virou a terra separada das águas; o ar e  o fogo subiram  cada um achando o seu espaço e o seu lugar.  O mundo era um caos e o Espírito Santo, que é a força do amor entre Deus e Jesus, deu ordem ao nosso mundo. A força construtiva que está em cada um de nós, a partir do momento que fomos feitos à imagem de nosso Pai, é descrita em muitas passagens. Deus não criou as trevas, ele fez a luz para nos iluminar. ELE pode iluminar nossos pensamentos, nossos caminhos para que achemos a forma de sair desta descrença que tomou conta. ELE colocou ordem no mundo, posso (e devo) pedir que ELE me ajude a colocar  ordem no meu mundo!

Mesmo que haja trevas neste mundo caótico  e mesmo tendo que continuar sem as respostas aos questionamentos constantes do mundo externo, eu posso  sair deste caos. Não posso responder pelos outros e não os julgarei, mas podemos nos libertar das angústias, pela força do amor do Espírito Santo em nós. Temos como a superar as nossas crenças negativas e assim agir construtivamente na busca dos caminhos que me levem a ser feliz, acreditando que outros grãos de areia se juntarão a nós, praticando e ensinando os valores cristãos como nosso horizonte para lidar com o caos deste mundo e ajudar a outros neste mesmo caminho.

Sabemos que Deus é o lastro de nosso barco e que pela oração nós seremos guiados para  navegar em mares revoltos. Assim, se o “vento”, ou seja, se o Espírito Santo ainda não me levou a um porto seguro, certamente lá chegarei um dia, pois é Jesus que está no leme. Basta ter fé, basta LHE pedir. Se pelo caminho as coisas  ficarem tensas, não tenhas medo, confie, pois na SUA didática  Deus nos ensina a  sermos melhores pessoas, para atingir portos ainda mais seguros.

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Edebrande Cavalieri A I Assembleia Eclesial da América Latina e do Caribe que ocorrerá entre os dias 21 a 28 de novembro do próximo

Edebrande Cavalieri

A I Assembleia Eclesial da América Latina e do Caribe que ocorrerá entre os dias 21 a 28 de novembro do próximo ano na Cidade do México nos mostrará, de maneira próxima e carinhosa, os dois rostos de Maria: o rosto moreno da Mãe Aparecida e o rosto indígena da Mãe de Guadalupe. E sob o olhar desses dois rostos de mãe a Assembleia quer ser uma genuína expressão de uma presença que acolhe, com o coração de mãe, as esperanças e os desejos das pessoas que compõem a Igreja desse espaço geográfico.

Essas duas festas marianas são celebradas no mesmo mês de outubro nos dias 12 com a Mãe Aparecida e no dia 21 com a Virgem de Guadalupe. Sob seus olhares as pessoas vão se colocando como discípulos missionários em saída. Essa Assembleia aponta na direção de um horizonte muito próximo dos 500 anos do evento de Guadalupe a ser celebrado em 2031 e dos 2.000 anos do evento Redentor de Jesus Cristo em 2033.

A memória de Aparecida, celebrada em 2007, se une ao momento atual da realização dessa Assembleia de Guadalupe. Os dois eventos são expressão de um trabalho de muitas forças e uma grande experiência de comunhão com o povo. O Magistério do Papa Francisco traz consigo as grandes intuições de Aparecida e vai penetrando na Igreja do mundo todo. A Assembleia de Guadalupe, além de firmar ainda mais as intuições de Aparecida, será uma nova primavera para nossa Igreja na América Latina e no Caribe.

Da memória de Guadalupe temos o encontro de Juan Diego, representante das culturas e sociedades da América Latina e do Caribe, como mensageiro a serviço da transmissão da fé, da comunhão e da solidariedade entre os povos. Na celebração do dia 13 de dezembro de 2019, o Papa Francisco, em sua homilia, destacou três adjetivos para Maria, e um deles se refere à Guadalupe quando ela quis ser mestiça, não apenas para Juan Diego, mas mestiça para todos. Ela se tornou mestiça! E nos diz o Papa: “Maria mãe mestiça do verdadeiro Deus e verdadeiro homem”. E completa: “Que ela fale conosco assim como falou com São Diego desses três títulos com ternura, com candor feminino e mestiça”.

Essa devoção é tão forte que desde o início de seu pontificado Francisco celebra uma missa em horário compatível com o fuso horário da América Latina, para que se possa acompanhar essa celebração.  Assim, em Aparecida estivemos sob o olhar de “Maria negra” e agora na Cidade do México estaremos sob o olhar de “Maria mestiça”. Duas grandes devoções marianas! Nossa Senhora de Guadalupe desde 24 de agosto de 1910 foi declarada Celestial Padroeira da América Latina pelo Papa Pio X. E a Virgem Aparecida, declarada padroeira do Brasil desde 1930 pelo Papa Pio XI.

A devoção mariana de Guadalupe tem origem com um indígena asteca Juan Diego Cuauhtlatoatzin em 1531, quando se dirigia para a Cidade do México para receber a catequese e tem três aparições de Nossa Senhora. Em uma delas, ela solicita ao indígena Diego que peça ao Bispo que construa um santuário na colina de Tepeyac para honra e glória de Deus. Mas o Bispo relutava em iniciar essa obra e pediu um sinal da Virgem ao indígena, que ocorreu na terceira aparição. Maria disse a Juan Diego: “Filho querido, essas rosas são o sinal que tu levarás ao bispo. Diz-lhe em meu nome que, nessas rosas, ele verá minha vontade e a cumprirá. Tu és meu embaixador e merece a minha confiança […] Quando chegares diante do bispo, desdobres o teu manto e mostra-lhe o que carregas, porém só na presença do bispo”. E naquele momento sublime do encontro entre o indígena e o bispo, surge no manto a linda pintura da mãe de Jesus.

As flores caíram no chão e no manto de Juan Diego apareceu a imagem de nossa Senhora de Guadalupe. No mesmo instante o tio de Juan que estava doente diz ter recebido a visita de Nossa Senhora e ficou curado de uma enfermidade.

Era o dia 12 de dezembro de 1531. E nesse dia o bispo Dom Juan de Zumárraga aprovou o culto a Nossa Senhora de Guadalupe e em 25 de maio de 1754 o Papa Bento XIV aprovou a celebração litúrgica a nossa Senhora de Guadalupe. Em 2002, o Papa São João Paulo II canonizou Juan Diego tendo o dia 09 de dezembro como festa litúrgica.

Consta na história que Juan Diego nesse momento tinha 57 anos de idade e a partir desse evento, ele transferiu seus bens para o tio e passou a viver numa sala ao lado da capela onde ficou depositado o manto com a sagrada imagem. E logo se dedicou a propagar por toda a vida o evento das aparições de Nossa Senhora a seus irmãos nativos demonstrando profundo amor à Eucaristia e assim recebeu a autorização do Bispo para comungar três vezes por semana, coisa raríssima na época. Diego representa a transformação do homem marginalizado pela sociedade, perseguido pelas forças colonizadoras dos espanhóis, a evangelizador.

O nome “Guadalupe” tem sido motivo para diversos debates, não havendo um consenso sobre sua origem. Para alguns estudiosos esse nome se refere a uma imagem de Nossa Senhora venerada em Extremadura, na Espanha. Para outros, quer indicar a forma como o Bispo que era espanhol entendeu o nome indígena de Juan Diego. Outros dizem que “Guadalupe” é de origem árabe e significa leito do rio. Seja como for, Guadalupe representa a identidade do povo mexicano. A própria viagem em 2016 do Papa Francisco ao México foi motivada por Nossa Senhora de Guadalupe.

A respeito do templo solicitado por Nossa Senhora, sabemos que o Bispo depois do evento da imagem de Maria estampada no manto iniciou em 1531 a construção do “Templo Expiatório a Cristo Rey”, tendo sido concluído em 1709. Foi transformado em Basílica em 1904 e em 1921 uma bomba colocada sob o altar por um ativista anticlerical explodiu causando grandes prejuízos. Na década de 1970 o piso da basílica começou a afundar e foi necessária a construção de uma nova basílica com 350 pilares de fundação que abriga 10 mil pessoas, mas em ocasiões especiais comporta até 40 mil pessoas. Hoje o templo de Guadalupe é a segunda basílica mais visitada do mundo, com 20 milhões de pessoas por ano, perdendo apenas para a Basílica de São Pedro.

Dessa forma nasceu e se desenvolveu a devoção a Nossa Senhora de Guadalupe representando sempre a esperança de novos céus e nova terra, cumprimento da justiça social. Na festa do ano passado no dia 12 de dezembro o Papa Francisco nos dizia em referência a Guadalupe que nesse devoção estão presentes a mãe, – mãe do filho de Deus e Mãe da Igreja -, a mestiça e a mulher de todos os nossos povos que “tornou mestiço também Deus”.

A devoção iniciada em 1531 a partir de um primeiro milagre serve como memória viva de tudo. No encontro de Maria com Juan “Deus despertou a esperança de um povo, despertou e desperta a esperança dos mais humildes, dos atribulados, dos deslocados e marginalizados, de quantos sentem que não tem um lugar digno nessas terras”, nos diz o Papa Francisco. São Juan naquele momento experimentou de maneira concreta em sua vida o que é a esperança, o que é a misericórdia de Deus.

O Santuário construído não tinha por objetivo a imponência arquitetônica, mas servir de indicativo do caminho da esperança de um povo. São Juan “é escolhido para vigiar, cuidar, proteger e incentivar” a construção da fé e da esperança de um povo. E o Papa Francisco dizia aos Bispos mexicanos em sua visita que “a virgem morenita ensina-nos que a única força capaz de conquistar o coração dos homens é a ternura de Deus”. E conclui: “Quando nos contam histórias, não devemos nos perder atrás de bobagens, Maria é mãe, mãe do seu Filho e da Santa Mãe Igreja hierárquica, e é mestiça, mulher dos nossos povos que tornou mestiço também Deus”.

A realização da I Assembleia Eclesial sob o olhar da mãe de Guadalupe nos mostra com clareza e audácia como as propostas para concretização do processo de renovação da Igreja conduzida pelo Papa Francisco nos faz tomar consciência que, através da unção do Espírito Santo, a Igreja Latino-americana é agora a fonte da Igreja universal e os processos sinodais postos em marcha hão de se transformar em tesouro para a Igreja universal. Por isso, a Assembleia de Aparecida, que foi um processo sinodal, desemboca em Guadalupe.

A Igreja peregrina nesse caminho sinodal não é uma monarquia política ou uma democracia, mas uma “assembleia eclesial que escuta, discerne e procura superar as tensões e discórdias, na expectativa da ação do Espírito Santo”, nos mesmos moldes do Concílio de Jerusalém dos tempos apostólicos descritos no livro dos Atos. O caminho sinodal assim deverá ser a expressão da ternura de Deus expressa nas imagens da Mãe Aparecida e da Mãe de Guadalupe e da misericórdia nesses tempos tão difíceis em que vivemos.

Vania Reis Estamos vivendo um tempo muito estranho em que a imposição de limites é constantemente questionada de um lado e altamente utilizada de

Vania Reis

Estamos vivendo um tempo muito estranho em que a imposição de limites é constantemente questionada de um lado e altamente utilizada de outro, sem qualquer regra explícita que nos ajude a colocar o cotidiano sob uma ótica da racionalidade. Este estado das coisas, que nos parece confuso e caótico, “virou a nossa mesa” e, de fato, nada tem a ver com a pandemia. Desde o pensamento iluminista, mas significativamente com os pensadores do século passado,  tomou corpo a ideia  de uma desconstrução sistemática de tudo o que nos deu referência  e assim vimos (quase) tudo que era sólido se desmanchar no ar. Todas as estruturas, regras e inclusive as autoridades que as defendiam foram/são gradativa e constantemente atacadas.

Todos os dias vemos questões muito controversas que comprovam a falta de referenciais e valores sólidos em nossa sociedade e que nos fazem pensar na pergunta que Galvão Bueno cunhou: “e pode isso, Arnaldo?”  Assistimos as transgressões às regras até então válidas serem feitas sem qualquer cerimônia. Sem especificar, pois são inúmeros e controversos os exemplos, vejamos algumas destas questões que nos causa espanto:

  • Quais são os limites de ação de cada poder do Estado Brasileiro? O STF pode fazer isso? Os senadores podem agir assim? O Presidente pode dizer isso? O General pode agir assim ? Os Ministros podem decidir nestas circunstâncias?
  • Qual o limite de ação entre o Estado e a Família? O Estado pode determinar as ideias ou o “como penso”, para a educação dos meus filhos?
  • Quais os limites da sociedade: A imprensa pode fazer isso? Posso misturar as regras da minha casa com as do espaço público? Posso falar tudo que eu penso? Na hora que eu quiser? O que é certo? O que é errado?

Parece que os valores, a ética e a moral passaram a ser relativos e circunstanciais. Nada mais é absoluto.  Só em falar em moral e bons costumes já torcem o nariz. Então qualquer “costume”, qualquer prática, pode ser boa? Onde será traçado o limite? Onde está o “juiz Arnaldo”, que respeitado, era exemplo? Que ideia mais angustiante a de não ter referências, quão aflitivo é a noção de não ter limites às ações! As regras hoje parecem ser ditadas pela consciência individual. Como viemos parar neste lugar tão caótico?

Foram diversos os teóricos precursores e  formadores da mentalidade moderna. Muito, antes da emblemática Revolução Francesa já havia desigualdade social e autocracia,  mas foi nela que as ideias ali difundidas, muito ansiadas pelo povo, acharam sua força: “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”.

Com o tempo as margens destes valores foram se alargando e hoje extrapolaram alguns limites nos fazendo deparar com perguntas essenciais e urgentes. A primeira: liberdade até que ponto?

Vamos pegar os pensamentos nucleares que vieram e desconstruíram modos de pensar, incluindo o da liberdade individual  que extrapolados hoje, nos levam a esse sentimento de falta de chão! Algumas das ideias que mais atacaram os pilares do nosso cotidiano foram as de Schumpeter e sua proposição da “destruição criativa”, que pregava jogar no chão todas a estruturas e criar a partir disto. O pensamento que inovação valeria por si só e que os fins justificariam os meios. As de Marx e seus companheiros, com materialismo histórico que rompeu com qualquer tradição idealista, e atacou qualquer ideia de  autoridade constituída: a do pai, a do patrão ou  a de Deus. E as de Nietzsche que atacam frontalmente a religião, a moral, a cultura e a filosofia: “Deus está morto! Deus permanece morto! E quem o matou fomos nós!” ele falou e propôs em seguida: “Não teremos de nos tornar nós próprios deuses, para parecermos apenas dignos dele? Nunca existiu ato mais grandioso, e, quem quer que nasça depois de nós, passará a fazer parte, mercê deste ato, de uma história superior a toda a história até hoje!” Dando status de deuses a cada um, junto com outros muitos pensadores contemporâneos desta “história superior”, chegamos neste aparente caos do individualismo onde as regras são estabelecidas a partir da ótica de quem as determina. A liberdade não encontra limites e o individualismo é chão instável. Não ter estruturas coletivas sólidas é absurdamente angustiante para a grande maioria de nós.

Se esse caminha de liberdade sem limites é fonte de angústia , então tomemos emprestada a frase do antigo ministro Rubens Ricupero: “se o futuro é pior que o passado”, temos que seguir essa estrada delineada? Temos que viver esse futuro que não queremos assim mesmo?  A ideia central é clara: “O futuro não é absolutamente predeterminado por nosso difícil presente”. Podemos  sim mudar nosso mundo e nosso destino. Não podemos pensar que podemos mudar o mundo inteiro, nem que podemos fazer isso sozinhos, mas, temos condições de mudar o nosso mundo pessoal. Se formos coerentes com nossas crenças e valores cristãos, teremos sempre as referências necessárias para nossa ação na sociedade. Pela minha consciência cristã agirei e, que o outro responda pela ação dele. Mas para agir assim será preciso ter força para remar contra a corrente do pensamento hegemônico. Não tirarei vantagem pessoal mesmo podendo, quando minha consciência me diz que não devo.

Posso até continuar sem as respostas aos questionamentos do mundo externo acima colocadas, mas eu posso  sair deste caos. Não posso responder pelos outros e não os julgarei. Posso me libertar das angústias, superar as incongruências externas e assim ser feliz, acreditando que outros se juntarão a nós, praticando e ensinando os valores cristãos como nosso horizonte para lidar com o caos deste mundo e ajudando a outros neste mesmo caminho. Nossa força não virá de impulsos externos, mas será construída internamente pela coerência de nossas ações, pelas nossas orações, mas acima de tudo pela força do amor do Espírito Santo em nós. Esse é sim é um terreno seguro!

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Vania Reis Um interessante artigo de Teté Ribeiro na Folha retoma o assunto que abordamos aqui algumas semanas atrás, mas com uma abordagem que

Vania Reis

Um interessante artigo de Teté Ribeiro na Folha retoma o assunto que abordamos aqui algumas semanas atrás, mas com uma abordagem que amplia nosso olhar sobre as consequências das constantes reuniões nas diversas plataformas digitais.

Já é totalmente conhecido atualmente que a falta de vida social contribui para que as pessoas fiquem mais tempo online. A necessidade de “preencher um vazio” é a base psicológica para que isso aconteça. Para a maioria, nesta pandemia, a videochamada  é a única forma de se reunir / de ver os amigos e parentes e, também, de fazer reuniões de trabalho simultâneas sem aglomeração. Pesquisas iniciais mostram que pela maior produtividade e pela diminuição de custos que as empresas tiveram, entre outros afores, é possível que várias pretendem manter o modelo atual. Precisamos então mergulhar mais nestas novas realidades, para melhor enfrentar as mesmas.

Vimos pouco tempo atrás o efeito do Brain-fog,  no nosso cérebro causado pela excessiva exposição nas telas, enxurrada de informações simultâneas (nem sempre congruentes), a baixíssima estimulação do cotidiano e as suas consequências. Hoje vamos focar as peculiaridades das reuniões nas plataformas digitais. O ponto de análise é  a fadiga excessiva que estamos vivendo, pelo excesso de foco em si mesmo, trazido pela excessiva percepção da auto exposição que estamos tendo, em tempo real de como nos apresentamos visualmente. Esse fenômeno recebeu o nome de “fadiga do Zoom”, sintetizando o que acontece nesta plataforma como em todas as outras com seu uso excessivo atual. Estou eu na tela, me vendo constantemente, focando em como me apresento e, muitas vezes, descontente com o feedback “espelho” que as janelinhas das plataformas digitais me obrigam a receber, assim como com a minha luta em querer  parecer melhor e ser mais apreciado(a)- que é uma das necessidades mais básicas! Essa cobrança traz um cansaço que Teté apresenta como sendo muito maior nas mulheres(13,8%), do que nos homens(5,5%).  Como os grandes fabricantes na área de TI não deixam passar oportunidades, há atualmente inclusive filtros de maquiagem disponíveis, para minorar o problema, mas a verdade é que essa pressão por um desempenho, uma pressão para ter uma “performance” impecável, cansa!

Para minimizar, em muitos lugares já é comum permitir ligar ou não video durante as reuniões. Em instituições de ensino superior se proibiu a exigência dessa exposição do aluno (o que leva a outros problemas como vimos no brain-fog. De forma ainda mais saudável há instituições que recomendam um “aquecimento inicial” da reunião com os vídeos ligados atualizando a conversa, tipo do cafezinho, para compensar a falta do contato social, para depois entrar no tema e deixar livre para quem quiser desligar ou não o video.

Outro aspecto que, segundo as pesquisas, torna cansativa  as reuniões nas plataformas  digitais é  ter tão constante o contato olho a olho. Não estamos acostumados  a ficar tanto tempo com olho no olho. Cansa mais. A conversa assim como  nossa linguagem corporal é mais ampla. Hoje temos muitas vezes apenas os olhos, pois pessoas que repartem salas têm que usar máscaras nas video chamadas. Para sair deste intenso e cansativo olho no olho, uma das sugestões dos pesquisadores é desligar o video em alguns momentos ou até retomar ao antigo e mais cômodo contato, neste aspecto, via celular sem video, sempre que possível.

Segundo especialista em identidade ouvido por Teté Ribeiro, nas plataformas digitais a nossa imagem projetada não é réplica dos espelhos de casa ou das selfies tão bem ensaiadas, onde podemos “projetar fantasias e autoilusões”. A imagem  é uma  experiência nova porque é continua (ninguém passava o dia todo com um espelho a sua frente), não é estanque, como a foto em cima da mesa, e cria certo estranhamento entre a autoimagem idealizada, internalizada e a realidade captada, sem reservas, e friamente pela máquina. Em certo sentido é como quando ouvimos nossa própria voz gravada que soa estranha para nós, conforme lembra Eric Yuan , criador do Zoom. Yuan classifica essa estranheza percebida da nossa imagem na tela como um fenômeno neuropsicológico. “Hoje a gente tem a noção  da imagem que  a gente passa” , ele diz . E essa visão difere da nossa imagem mental. É como se estivéssemos constantemente em frente a um espelho  com luz fria para piorar. Assim sendo, temos que  lidar  mais com  o como o outro me vê e cuidar de rever  ou ajustar a imagem que eu penso ter de mim. Psicólogos, desde o tempo da antiga “Janela de Johari”, sabem que esse exercício de sair de si mesmo e de se ver com os olhos de outros, pode ser muito enriquecedor, se a autocrítica excessiva não  perseguir e bloquear. Posso ver que passo a imagem de rabugento e me preocupar em ser mais suave nas interações para ser mais fidedigno com a minha realidade interna. Neste caso peguei um limão e fiz uma limonada.  Se me aprisiono nesta imagem, passo e perseguir apenas o melhorar externamente a imagem, e, se ainda coloco a minha segurança/autoestima nesta balança, vou acabar nesta  cansativa “ansiedade do espelho” e vou parar no Brain-fog o que é pior ainda. Na “Fadiga de Zoom” o cansaço e a sensação de estar exaurido após a reunião é o problema.

Os especialistas aconselham antes de uma “call” que a pessoa saia da frente do computador e dê espaço para seu corpo e cérebro descansarem por alguns minutos, não importando a atividade, desde que longe da tela. Que fechem as janelas desnecessárias e coloquem o aplicativo no modo “orador”, assim você  apenas vê  quem está falando, e não todos na reunião, diminuindo os estímulos e as distrações(caso seja possível). Há softwares que permitem que você configure para esconder a autoimagem. Neste modo o outro lhe vê , mas você não se vê. Mas, cuidado, a câmera está ainda ligada, mesmo você não se vendo e, as pessoas estão lhe vendo. Não faça nada que lhe traga alguma “saia justa”. Você pode ainda desfocar ou colocar uma tela de fundo em sua imagem, com opções já preparadas pelos softwares para simular um outro ambiente e diminuir a ansiedade de mostrar seu espaço de casa, seu espaço do íntimo. Pode usar fones de ouvido para reduzir a possibilidade de um som do ambiente ser captado, ou simplesmente fechar seu som quando não precisar se comunicar.

Na pandemia houve ganhos significativos para o meio ambiente como ar mais limpo (em São Paulo como na China a redução da poluição chegou a 50%);  a despoluição de rios (no Rio Ganges as águas ficaram 80% mais limpas). O consumo de energia caiu possibilitando a recuperação do nível de armazenamento dos nossos reservatórios de água…Agora, temos que focar mais nos efeitos do nosso ecossistema humano, ressaltando neste os aspectos psicológicos e cognitivos.

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Edebrande Cavalieri Essa foi a brincadeira feita pelo Papa Francisco a respeito do Brasil numa conversa com um padre brasileiro. Penso que até as

Edebrande Cavalieri

Essa foi a brincadeira feita pelo Papa Francisco a respeito do Brasil numa conversa com um padre brasileiro. Penso que até as brincadeiras precisam ser levadas a sério. Nem sempre elas são assim tão inocentes como parecem. No caso da fala do Papa penso que seja pura brincadeira mesmo. Contudo, essa brincadeira nos leva a pensar e a nos perguntar: como estamos rezando? Para refletir um pouco a respeito da oração, vamos permanecer com Francisco, agora falando sério!

Ele, em uma das catequeses ministrada em dezembro de 2020, nos diz que a oração é o nosso coração. E explica muito bem essa história. A busca pela solidão e pelo silêncio não deve ter como justificativa apenas o fato de não sermos incomodados. É comum a gente ouvir que determinados barulhos, até uma criança chorando numa celebração, atrapalham nossa oração. Não atrapalham nunca. Somente buscamos o silêncio para ouvir melhor a voz de Deus. Podemos nos retirar do mundo, ir para o deserto, ficar isolados em nosso quarto. O essencial não está nesse silêncio se a porta do nosso coração não estiver aberta.

A oração deve nascer de um coração compassivo, que não exclui ninguém. Assim a oração se torna a voz de tantas pessoas impossibilitadas de rezar. A verdadeira oração nos leva a ser coração e voz das pessoas, todas e não apenas de quem queremos bem. E o papa de maneira brilhante nos diz: “Na solidão nos separamos de tudo e de todos para encontrar tudo e todos em Deus”. Então, a pessoa orante carrega nos ombros não apenas suas dores, suas angústias, suas necessidades, mas carrega as dores e os pecados do mundo inteiro.

E de maneira poética Francisco nos diz que a oração verdadeira é como a “antena” de Deus neste mundo. “Em cada pobre que bate à porta, em cada pessoa que perdeu o sentido das coisas, aquele que reza vê o rosto de Cristo”.

Nesses tempos difíceis de pandemia houve muita discussão em torno das Igrejas fechadas para as celebrações. O povo teve que rezar a partir de casa, olhando para sua TV ou seu pequeno celular ou ouvindo o rádio. As antenas não ficaram quebradas porque os templos estavam fechados. Deus continuou mais ainda antenado no mundo. Nunca se rezou tanto nesses tempos. Como foi importante a oração para romper esse túnel, principalmente quando não se via nenhuma luz à frente. E não rezávamos apenas para cada um de nós, mas para o mundo inteiro.

Muitas vezes nos templos ficamos distraídos em nossas orações. Há sim outras coisas que atrapalham a oração nos templos e não o choro das crianças. Ficamos distraídos olhando que está indo na fila da comunhão. Ficamos distraídos quando olhamos ao nosso redor para observar as pessoas como estão vestidas. Ficamos distraídos quando fiscalizamos a liturgia e os cantos para que nada ocorra de errado. Esse zelo excessivo em muitas celebrações distraem nossas orações. Essas cachaças sim impedem nossa oração.

Com os templos fechados, também sentimos falta da nosso irmão celebrando lado a lado. Sentimos falta de rezar juntos, da oração comunitária, expressando nossa comunhão, produzindo um coletivo de antenas de Deus. Essa é a Igreja que segue o Evangelho de Jesus Cristo. “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles”, nos orienta o Mestre.  Ainda Francisco nos alerta dizendo que a “Igreja nasce na oração” e cresce a partir da oração.

Tantas pessoas e organizações ficam sensibilizadas por reformas e mudanças na Igreja. E sabem de cor e salteado tudo o que deve mudar na Igreja. E o papa pergunta, de maneira séria agora: “Onde está a oração”? E acrescenta que tantas vezes as mudanças na Igreja na verdade são mudanças de grupo quando feitas sem oração. Quando a oração desaparece na Igreja, em pouco tempo ela se torna um invólucro vazio, pois “perdeu o seu eixo central”. Os inimigos da Igreja tentam destruí-la secando suas fontes, impedindo as pessoas de rezar.

Por esse motivo tantas pessoas compreenderam de maneira equivocada o fechamento dos templos, achando que essa medida sanitária estaria impedindo as pessoas de rezarem. Ninguém ficou impedido de rezar. Como tantos avançaram no caminho da santificação! Os santos e os mártires encontraram forças na oração, sempre. Por isso foram até o fim na caminhada da fé e na esperança. Não sucumbiram. Os santos sustentaram o mundo, não com as armas do dinheiro e do poder, mas com as armas da oração. Por isso o Papa, mesmo na brincadeira, nos chama a atenção para a força da oração como salvação do mundo, com abstinência de tantas “chachaças” que destroem essa antena de Deus no mundo.