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Edebrande Cavalieri Dois grandes eventos da Igreja Católica deverão implicar cada batizado em seu mundo particular e eclesial. Trata-se do Sínodo dos Bispos convocado

Edebrande Cavalieri

Dois grandes eventos da Igreja Católica deverão implicar cada batizado em seu mundo particular e eclesial. Trata-se do Sínodo dos Bispos convocado pelo Papa Francisco com início no dia 17 de outubro de 2021 em cada Igreja particular (diocese) e a ser concluído em outubro de 2023 em Roma. Parece estranho um Sínodo dos Bispos tão longo e iniciando na particularidade eclesial sob a responsabilidade de um bispo? Na verdade, o desejo do Papa Francisco, em sintonia com o Concílio Vaticano II, é de levar todos os batizados a participarem dessa grande assembleia, e não apenas os bispos. O primeiro momento que deve ser iniciado no dia 17 de outubro de 2021 e acontecerá em cada diocese com o início do processo de escuta, seguindo a via de uma mística de caminhada sinodal. Esse sínodo terá como tema “Igreja Sinodal, participação, comunhão e missão”.

Cada diocese é chamada a participar ativamente desses eventos. Com o Concílio Vaticano II abre-se um novo horizonte na Igreja que implica a própria fé cristã. De um fechamento no próprio território (comunitário, paroquial e diocesano) somos chamados a uma caminhada universal. Aqui está um dos pontos fortes do Magistério do Papa Francisco em termos de reforma da Igreja. A colegialidade episcopal e a experiência sinodal!

O sínodo dos bispos deverá comprometer cada bispo diocesano, ouvindo o povo de Deus de sua diocese, depois reunindo-se numa dimensão continental e encerrando-se em Roma junto com o Papa numa dimensão universal. Portanto, cada bispo será o porta voz do povo de sua Igreja local. Nisso fica muito forte o apelo do Concílio Vaticano II para a colegialidade episcopal, que se constitui com a sinodalidade, num caminhar junto.

Assim, antes da Assembleia de outubro de 2023 cada componente terá vivido essa experiência pessoalmente em sua espaço eclesial, em sua diocese, cada um com seu papel e com suas instâncias de representação. Ninguém deveria ir a Roma sem ter feito essa experiência sinodal em seu espaço eclesial. Quando uma Igreja particular se fecha no próprio território e nos seus interesses e necessidades ela enfraquece na fé apostólica.

Ao final do período da escuta, cada bispo diocesano tomará conhecimento de todas as vozes ouvidas em sua diocese, e discernirá a respeito da síntese que será enviada à Secretaria Geral do Sínodo para a elaboração do Instrumentum Laboris. Ou seja, os Bispos na Assembleia que irá ocorrer em Roma vão se debruçar sobre o que veio de cada Igreja particular do mundo inteiro. As sínteses de cada diocese também farão parte da síntese continental que será enviada à Secretaria do Sínodo.

O segundo evento importantíssimo é a I Assembleia Eclesial da América Latina e do Caribe, que deverá acontecer na Cidade do México nos dias 21 a 28 de novembro de 2021, e da mesma forma do Sínodo dos Bispos, essa Assembleia implica cada batizado do Continente Latinoamericano. Também aqui se inicia com a escuta de todo o povo de Deus entre os meses de abril a julho desse ano. Portanto, já começou! Nesse processo cada batizado poderá participar de maneira pessoal, em grupo de acordo com seu desejo e participação eclesial, em foros temáticos de acordo com o interesse e respondendo a uma enquete já disponível no site da Arquidiocese.

A I Assembleia Eclesial da América Latina e do Caribe na Cidade do México já se iniciou com o processo de escuta e deve constituir-se num encontro do povo de Deus. Tem como lema “Somos todos discípulos missionários em saída”. Não será uma Assembleia episcopal, mas de todo o povo sob o olhar amoroso de Nossa Senhora de Guadalupe. Em Aparecida, há 14 anos atrás, o povo pode acompanhar a V Conferência em diversas celebrações no Santuário. Na Cidade do México essa participação será ampliada, por esse motivo se diz eclesial e não apenas episcopal.

Agora o Papa Francisco vem fortalecer o empenho dos bispos do Continente Latinoamericano com um encontro que aponta para um horizonte muito próximo dos 500 anos do evento de Guadalupe em 2031 e dos 2.000 anos do Evento Redentor de Jesus Cristo em 2033. Para esses dois marcos da história cristã teremos a levar essa experiência feita no Sínodo de Roma e na I Assembleia Latinoamericana. Penso que um grande desafio da Igreja do Brasil é encurtar as distâncias com nossos irmãos latino-americanos. Os processos de colonização nos impuseram um distanciamento que precisa ser diminuído em termos eclesiais.

Da memória de Guadalupe temos o encontro de Juan Diego representante na cultura e sociedades da América Latina e do Caribe como mensageiro a serviço da transmissão da fé, da comunhão e da solidariedade entre os povos. No próximo artigo iremos abordar a devoção a Nossa Senhora de Guadalupe, a “Mãe Mestiça”, padroeira da América Latina e Caribe, não tanto conhecido no Brasil.

De maneira imediata, o que temos a fazer com urgência é participar no processo de escuta que foi aberto no mês de abril passado. Estamos um pouco atrasado? Depende de como iremos participar. Nem sempre o tempo mede o nível de nossa participação. Às vezes com pouco tempo podemos ter uma participação intensa. A vontade é determinante e a decisão de reunir para participar é fator essencial. Assim, de maneira concreta, dá-se o empenho sinodal, da caminhada em conjunto.

Foi essa experiência cristã dos tempos apostólicos que produziu o vigor missionário de cada batizado ao ponto de não temer sequer a tortura e a morte sob o poder dos imperadores romanos. O testemunho dos mártires é exemplo edificante dessa caminhada sinodal da Igreja. Cada cristão estava ao lado de outros tantos dando força, apoiando, ajudando, corrigindo, rezando. Por isso o sangue dos mártires é semente dos cristãos, como testemunha muito bem Tertuliano no século II.

Entre nós essa caminhada de Igreja produziu tantos frutos e também tantos mártires. Não poderia deixar de lembrar de São Oscar Romero que dizia: “O martírio é uma graça de Deus que eu acho que não mereço, mas se Deus aceita o sacrifício da minha vida, que o meu sangue seja uma semente de liberdade e o sinal de que a esperança será em breve realidade”. E assim entregou sua vida em favor dos menos favorecidos, dos pobres.

Usando uma expressão do Papa Francisco, talvez seja a hora de acabarmos com fofocas e teorias conspiratórias muito presentes em diversos espaços eclesiais e partirmos para uma ação de nos fazer ouvir, mostrando nossas esperanças, nossos desejos, nossas dores.  Do partir o pão e repartir com todos, sem exclusão, a Assembleia da América Latina e do Caribe terá forças para a caminhada, especialmente nesses tempos de tantas crises, tantas dores e tantas mortes.

A vivência sinodal em vista da I Assembleia Eclesial da América Latina se inicia com a escuta de todo o povo de Deus.  Dessa caminhada em conjunto, sinodal, a Igreja se fortalece, se revigora e cura suas doenças. Mãos à obra! Não podemos ficar esperando passivamente. As vozes do povo de Deus dessas terras deverão ecoar na Cidade do México e no Sínodo dos Bispos em Roma.

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Vania Reis Vania Reis Temos assistido (os que têm paciência), um debate na CPI da Pandemia, que nem sempre transcorre dentro do equilíbrio que

Vania Reis

Vania Reis

Temos assistido (os que têm paciência), um debate na CPI da Pandemia, que nem sempre transcorre dentro do equilíbrio que seria desejável, e que, muitas vezes, parece mesmo apenas um palanque eleitoral. Mas há quem seriamente busque entender o que está acontecendo na gestão da pandemia para evitar mais mortes.

Nos debates é frequente ouvir: “Isso é mentira!”, “Você está faltando com a verdade!” Quando assistimos ao interrogatório (desapaixonadamente), vemos o interrogador dizer: “você não respondeu ao que eu perguntei”, e o interrogado reafirmar sua resposta (já dada e não “reconhecida”). Porque aquele que pergunta não  “entende” ou não reconhece uma resposta dada como resposta? Por que acredita ser mentira o que é diferente do imaginado?

Vamos tentar entender, analisando estes questionamentos, partindo do princípio de que não há má fé, de nenhum dos lados, quando fazem as acusações acima. Então fica a pergunta: como pode uma realidade ser vista de forma tão diferente ?

Para responder, primeiro temos que analisar os conceitos básicos:  o que é uma mentira e o que é uma verdade?  Essa é uma discussão filosófica sem fim. Em termos gerais,  verdade é aquilo que permanece inalterável a quaisquer circunstâncias. Concordando com essa afirmativa estão os que pensam como René Descartes, o “pai do Racionalismo”, afirmando que “a certeza é o critério da verdade”. Mas, os pensadores do extremo oposto, como Nietzsche,  acreditam que a verdade “é um ponto de vista”.  Já na concepção dos pensadores como Aristóteles e São Tomás de Aquino a verdade é a adequação entre aquilo que se dá na realidade e aquilo que se dá na mente.

Se é discutido o que é verdade, poucos discordam de seu oposto: a mentira; onde a pessoa altera ou dissimula deliberadamente aquilo que ela reconhece como verdadeiro, transmitindo uma informação enganosa como se fosse verdadeira. Na doutrina cristã, assim como em toda nossa sociedade, mentir é uma falta grave e de um modo geral associado ao que é mau, maligno e indigno. Assim ninguém aceita ser chamado de mentiroso!

Vamos chegar mais perto. Então a verdade é algo fixo, imutável, percebido por todos de forma igual a ponto de nos dar certeza? A neurociência nos mostra que não. Mostra que o “penso logo existo” de Descartes precisa ser substituído por “sinto, por isso penso, logo existo” (leia entre outros o livro “O erro de Descartes” de Antonio Damásio). O erro a que Damásio se refere é o de que o pensamento, para ser preciso, necessita uma aproximação da realidade racional, distante, apartado do corpo. Damásio demostra que com a ausência dos sentimentos e das emoções a racionalidade pode ser destruída. Ele, entre inúmeros neurocientistas, comprova que são as emoções as reais balizadoras do comportamento racional.

Apesar das muitas descobertas da neurociência, o funcionamento da nossa mente é para muitos de nós algo muito pouco conhecido e um terreno muito escorregadio ainda. Apreendemos uma realidade, captamos seus significados, fazemos inferências a partir de nossas vivências. Pegando emprestado a terminologia da saúde, não há percepções “estéreis” elas sempre são “contaminadas”, ou melhor dizendo são impregnadas de nossos sentimentos, emoções e crenças. Não existe neutralidade.

Na CPI é o que estamos assistindo. Tirando os que podem estar de fato tentando manipular conscientemente o desentendimento/ a contestação, outra parte pode não conseguir perceber que o interrogado, por exemplo, respondeu ao questionado, porque suas percepções, crenças, sentimentos e emoções esperavam captar outra realidade. Assim sendo, recusando-se inconscientemente a captar “racionalmente” a situação. Nosso cérebro tem dificuldades em processar informações que acreditamos não serem possíveis, devido aos nossos referenciais internos. Nossas crenças bloqueiam nossas percepções.

Vou dar um exemplo. Procuro sem parar a chave do carro, me desespero porque não acho e quando peço ajuda a alguém(que não tem as minhas referências internas), a pessoa acha a chave e descubro que ela estava “bem na frente do meu nariz” e eu não a via. Meu cérebro se recusa a ver determinadas situações por sua vinculação com meus padrões emocionais mais complexos. Neste exemplo, posso inconscientemente não estar querendo sair de casa, por exemplo.

Diante da brevíssima exposição, podemos descortinar que a verdade cartesiana se aplica a apenas alguns aspectos das nossas percepções. Querer respostas ”sim ou não” para todas as perguntas e não permitir a contextualização é aprisionar a verdade. Voltando a São Tomás, “a verdade é a adequação entre aquilo que se dá na realidade e aquilo que se dá na mente”. Ninguém discutirá se um círculo é um quadrado. Mas muitos poderão deduzir, não necessariamente de forma correta, que o interrogado está mentindo. A verdade não é o que quero ouvir, nem a mentira é o que não consigo ouvir. Preciso abrir a minha mente para ouvir a perspectiva do outro, a contextualização do que está na mente do outro, para então entender se ele ou ela está dizendo a verdade ou, deliberadamente, a falseando.

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Edebrande Cavalieri Em uma carta enviada ao Cardeal Kevin Farrell, Prefeito do Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida, em preparação ao

Edebrande Cavalieri

Em uma carta enviada ao Cardeal Kevin Farrell, Prefeito do Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida, em preparação ao Encontro Mundial das Famílias ocorrido em 2018 em Dublin, assim o Papa Francisco explicitou o seu sonho de Igreja, que foi também mostrado em seu discurso aos membros do Conclave, antes de sua eleição: “Sonho com uma Igreja em saída, não autorreferente, uma Igreja não passe longe das feridas do homem, uma Igreja misericordiosa que anuncie o coração da revelação de Deus Amor que é a Misericórdia”. O que Francisco quer dizer com uma “Igreja em saída missionária”? Parece-me que aqui está uma chave interpretativa do seu programa de reformas.

Nesses oito anos de pontificado do Papa Francisco e da publicação da Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, publicado em 24 de novembro de 2013, documento central que traça algumas diretrizes para a reforma da Igreja e uma nova etapa evangelizadora, ouvimos muito a expressão “Igreja em saída”, mas será que compreendemos o real significado desse conceito eclesiológico fundamental do Magistério de Francisco? Esse documento está embasado na Constituição dogmática Lumen Gentium do Concílio Vaticano II. E o Papa nos alerta que suas reformas, desejadas pelo conclave que o elegeu, deve estar nessa linha de uma “Igreja em saída missionária”.

Ao mesmo tempo em que aponta essas diretrizes, o Papa vai alertando para os perigos de se manter a perspectiva da autorreferencialidade. A Igreja em saída se alegra com a vida inteira da comunidade dos discípulos missionários. Retomando o Magistério do Papa Paulo VI, Francisco nos diz que é preciso alargar o apelo à renovação para que a ação eclesial não se feche na comunidade dos discípulos, mas atinja a Igreja inteira. E para isso deve aprofundar a consciência de si mesma, fazer um rigoroso exame de consciência, meditar sobre o próprio mistério e comparar com a imagem ideal desejada por Cristo. Trata-se de responder à pergunta: Que rosto real a Igreja apresenta hoje? Daí nasce o desejo de reforma, de emendas dos defeitos, que a própria consciência denuncia e rejeita.

E nesse exame percebemo-nos na necessidade de sermos resgatados da nossa consciência isolada e da autorreferencialidade. No parágrafo 27 da Evangelii Gaudium Francisco explicita seu sonho: “Sonho com uma opção missionária capaz de transformar tudo, para que os costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda a estrutura eclesial se tornem um canal proporcionado mais à evangelização do mundo atual que à auto-preservação”. E no mesmo parágrafo retoma o Magistério do Papa João Paulo II que dizia aos Bispos da Oceania: “Toda renovação na Igreja há de ter como alvo a missão, para não cair vítima duma espécie de introversão eclesial”. Assim podemos entender de maneira bem clara que uma “Igreja em saída” missionária não é compatível com uma Igreja autorreferencial, que está mais preocupada com sua preservação institucional, vítima de uma espécie de introversão eclesial.

Tantas vezes ela não se dá conta do “mistério da lua” que não possui luz própria. Uma Igreja que “só confia nas suas próprias forças e se sente superior aos outros por cumprir determinadas normas ou por ser irredutivelmente fiel a um certo estilo católico próprio do passado não se encaixa no sonho de Francisco. Uma suposta segurança doutrinal ou disciplinar que dá lugar a um elitismo narcisista e autoritário, onde, em vez de evangelizar, se analisam e classificam os demais e, em vez de facilitar o acesso à graça, consomem suas energias a controlar”. O texto nos diz que “são manifestações dum imanentismo antropocêntrico”. Em vez de levar o Evangelho de Jesus Cristo, prendem-no dentro da Igreja. Nem nos damos conta que Jesus está batendo à porta para sair.

A autorreferencialidade se apresenta no desejo de “dominar o espaço da Igreja”, com uma liturgia pouco centrada no mistério da fé, no apego excessivo ao aspecto doutrinário e de prestígio da Igreja. Estamos diante de uma mundanismo espiritual que “esconde-se por detrás do fascínio de poder mostrar conquistas sociais e políticas, ou numa vanglória ligada à gestão de assuntos práticos, ou numa atração pelas dinâmicas de autoestima e de realização autorreferencial”. E acrescenta mais outras marcas da autorreferencialidade quando alguém “se apresenta a si mesmo numa densa vida social cheia de viagens, reuniões, jantares, recepções”. Inclui-se também no rol dos perigos da autorreferencialidade o esforço “num funcionalismo empresarial, carregado de estatísticas, planificações e avaliações”, onde o principal beneficiário é a Igreja enquanto organização presente na sociedade e não o povo de Deus, objeto de sua missão. Uma Igreja autorreferencial “não traz o selo de Cristo encarnado, crucificado e ressuscitado”, a verdadeira luz da Igreja.

Diante de uma Igreja em que ocorre um excesso de zelo para cuidar de si mesma, mais preocupada com as vestimentas pomposas e que causam status, com cerimônias pouco celebrativas do mistério da fé, Francisco nos diz que sua preferência é por “uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas a uma Igreja enferma pelo fechamento” (EG 49). Há muitas pessoas que estão mais preocupadas com uma espécie de restauração da identidade católica mostrada no Concilio Vaticano I, deixando de lado o Concílio Vaticano II de uma Igreja “Luz dos Povos”. Francisco formou-se padre bebendo das fontes do Concílio atual e por esse motivo sofre tantos ataques de grupos conservadores. Para Francisco é melhor uma Igreja enlameada nas estradas das periferias geográficas e existenciais que uma Igreja de vestimentas e pompas imperiais.

Francisco questiona profundamente a estrutura eclesial em função de seu clericalismo, classificado como “enfermidade” que destrói a Igreja a partir de dentro de si mesma. E assim resgata o espírito do Concílio Vaticano II. E chama todo o povo a uma nova evangelização, mas para isso é preciso “sair da própria comodidade e ter a coragem de alcançar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho” (EG 20). Essa é a Igreja em saída e não autorreferencial. Uma Igreja que se basta e que se acha com luz própria não é a Igreja conduzida pelo Papa Francisco.

Usando o próprio vocabulário do Papa Francisco podemos sintetizar o conceito eclesial de uma Igreja em saída da seguinte forma: trata-se de uma Igreja que se move, que faz opção pelos últimos, que vai à periferia, que sai de si mesma, que anda pela rua. Trata-se de uma Igreja inclusiva, não excludente, não narcisista, que não vive para si mesma, que não é cartório. Uma Igreja inteiramente missionária, discípula missionária. Francisco arrisca até a dizer que a vê como um hospital de campanha, um campo de refugiados. Aos bispos ele sempre pede que não poupem esforços para ir ao encontro do povo de Deus, que estejam perto das famílias com fragilidade e cuidem da formação dos seminaristas priorizando a qualidade e desconfiando daqueles que apresentam-se refugiados na rigidez.

Para que as reformas produzam frutos na perspectiva de uma “Igreja em saída” é preciso desvincular-se da centralidade de si mesmo. A autoridade eclesial deve superar a tentação da autorreferencialidade, abordando toda a rica tradição da Igreja não como uma história fechada, trilhos duros, uma espécie de museu das verdades a serem preservadas a qualquer preço, mas um jardim onde as mesmas plantas podem ser cultivadas, com novos adubos, novas técnicas. A tradição mostrou muitas flores e frutos, porém temos condições de fazer desse mesmo jardim algo muito mais belo e alimentador. Não queiramos ser a reencarnação de antigos jardineiros ou agricultores, pois a vida é puro dinamismo, e tudo está interligado. Não há mais o dentro e o fora (da Igreja). A salvação é oferecida a todos. O jardim da Igreja em saída missionária deve deixar as pessoas alegres, leves, livres. Talvez seja melhor percorrer as trilhas desses jardins que seguir a estrada de trilhos de ferro que tinham outros objetivos históricos e eclesiais.

Vania Reis A pandemia afeta emocionalmente todos nós. A  irritabilidade é uma das principais reações emocionais, especialmente entre os mais jovens. Mas, todos estamos

Vania Reis

A pandemia afeta emocionalmente todos nós. A  irritabilidade é uma das principais reações emocionais, especialmente entre os mais jovens. Mas, todos estamos privados em muitas de nossas  necessidades há mais de um ano. Somos seres sociais e a convivência entre nós é uma necessidade básica que nos desenvolve cognitiva, emocional e espiritualmente,  para falar o mínimo. A frustração é  um estado emocional que resulta do bloqueio de uma necessidade, um desejo. Para superar esse bloqueio nosso organismo libera uma energia, chamada agressiva, que é fonte saudável e necessária para o enfrentamento dos problemas que ameaçam o nosso bem-estar.  Isso é importante  entender pois a irritabilidade das crianças e jovens é absolutamente natural e saudável e é tarefa dos pais  ajudar aos filhos a aprender a usar essa energia de forma efetiva, solucionando o problema e não apenas expressando sua frustração.

Falando  em termos leigos (e sem pretender esgotar as possibilidades de reação), quando frustrados podemos basicamente ter três direções: a energia de ação / a energia agressiva, a raiva, pode ser “engolida” (introjetada), pode ser colocada para fora (extrojetada)  ou pode ser  minimizada, quando tiro a força da frustração. Expressar e responsabilizar o outro pelos problemas e, portanto, pela obrigação em superar os obstáculos, pode ser assertivo (muitos gestores fazem isso), mas, quando os obstáculos não são superados, expressar a raiva, na maior parte das vezes, só leva a atritos.

A maior parte das pessoas não expressa sua frustração. Elas “engolem’’ (introjetam)  e reprimem a raiva. Há também muitas situações  que não são contornáveis e não conseguimos superar o bloqueio dos nossos objetivos.  A possibilidade de agirmos assim (apenas reprimindo o que sentimos) e nos mantermos saudáveis depende diretamente da nossa habilidade em fazer isso assertivamente, ou seja de resolver a situação problema.

De outra forma, se reprimo o que sinto quando frustrado  e  não consigo superar o bloqueio do meu objetivo, mais cedo ou mais tarde posso chegar ao meu limite de lidar de forma saudável com isso. Se não consigo mudar minha realidade frustrante essa energia agressiva “engolida”, mal canalizada, pode se converter em doenças psicossomáticas (desde distúrbios alimentares, do sono, digestivos,  e tantos outros). Se nem assim a realidade mudou e  a energia agressiva não encontrou nenhuma outra forma de superação,  a sensação de impotência  aos poucos pode  levar a  um processo depressivo. Nada que eu fizer muda a minha situação, só me resta parar de tentar… A depressão é  a resultante deste parar de lutar. A irritabilidade é sinal de que ainda espero conseguir mudar o que me frustra.

Ora, nada que meu filho fizer resultará no fim da pandemia. Ele não consegue mudar  o isolamento social a que está sendo submetido e o binômio frustração/irritabilidade está cada vez mais elevado. Ele precisa entender e ser ensinado, que apenas colocar a raiva para fora, não leva à superação o problema e pode criar outros tantos. As pais precisam ajudá-los a aprender a contornar os problemas e a canalizar essa força assertivamente.

Para as crianças na segunda infância, com 7 ou 8 anos a falta dos amigos e professores é uma privação muito forte e  essa situação só vai piorando com o avanço da idade ficando crítica na adolescência. Se a distância de amigos na escola é uma frustração constante para este grupo nesta pandemia que dirá dos que ainda sofrem bullying nas salas virtuais ou redes sociais e perdem os amigos que tem.  A irritabilidade, nem sempre é expressa, o tédio, o desinteresse pelas aulas são  os sinais do processo mencionado  que podem levar  à depressão. A mesmice dos dias, a falta de estimulação, a falta  de um motivo para ação (motivação) também leva os jovens ao tédio e desânimo.

Temos que estar atentos e ter mais cuidado ainda com  a criança muito quietinha, muito no canto. Há pais que ficam aliviados porque ela não dá trabalho, mas ela pode estar nas primeiras manifestações da depressão.

Já os adolescentes, que dependem do seu grupo social para poder construir sua identidade,  a tristeza, a solidão e o tédio são fontes de muita ansiedade e dor emocional. Quem sou eu? Que vida é essa? Por que tudo isso?  São perguntas que ficam sem respostas e trazem um vazio difícil de viver.

Criar oportunidades para conseguir conversar e entender as dificuldades que tanto o jovem quanto a criança estão vivendo é essencial. Os pais devem ajudar a ampliar as possibilidades de  soluções, ou compensações para minimizar as dificuldades enfrentadas. É muito importante que eles tenham entretenimento em casa, que pratiquem esportes,   façam exercícios físicos para degastar essa energia, Experiências ricas e  variadas são importantes, mas o  essencial  é que eles possam se abrir com os pais.

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Edebrande Cavalieri No dia 10 de maio passado, o Papa Francisco, através da Carta Apostólica Antiquum ministerium, instituiu o Ministério de Catequista, um dos

Edebrande Cavalieri

No dia 10 de maio passado, o Papa Francisco, através da Carta Apostólica Antiquum ministerium, instituiu o Ministério de Catequista, um dos mais antigos da Igreja. Sua função eclesial é o de transmitir de forma mais orgânica, permanente e associada com as várias circunstâncias da vida, o ensinamento dos apóstolos e evangelistas. Leigos e leigas, em razão do seu Batismo, são chamados para o serviço da catequese. A evangelização no mundo contemporâneo é ainda mais desafiadora em vista da imposição de uma cultura globalizada.

O Papa Francisco não está reinventando a catequese ou trazendo novidades, mas reconhecendo o que, muitas vezes, a Igreja não conseguiu, ou seja, dando importância à missão do catequista. Assim entende dom José Antônio Peruzzo, presidente da Comissão para a Animação Bíblico-Catequética da CNBB.

Homens e mulheres são chamados para levar a tantas pessoas o conhecimento da beleza, da bondade e da verdade da fé cristã, contribuindo assim para a transformação da sociedade mediante a penetração dos valores cristãos no mundo social, político e econômico. Bispos, sacerdotes e diáconos possuem a missão de serem instrutores do ensino da doutrina dos apóstolos e evangelistas, mas nessa Carta Apostólica o Papa Francisco quer reforçar a dimensão laical dessa função como um ministério.

A pessoa do/a catequista é chamada para exprimir antes de tudo sua competência pastoral de transmissão da fé. A escolha e o chamado para alguém ser catequista implicam antes de mais nada esse critério. “O catequista é simultaneamente testemunha da fé, mestre e mistagogo, acompanhante e pedagogo que instrui em nome da Igreja”. Não basta ter “jeito para a coisa” como muitas vezes acontece. Não basta ter boa vontade. Não basta querer. Trata-se de uma identidade cristã marcada pela oração, pelo estudo e pela participação direta na vida da comunidade. Catequista desconhecido da comunidade não tem nenhum sentido.

Analisando os oito anos do Magistério do Papa Francisco e tomando a proposta de uma “Igreja em saída missionária”, a instituição do ministério de Catequista tem como ponto de partida a oração, a contemplação. No ano da fé em 2019 ele dizia aos seminaristas e noviças: “A evangelização faz-se de joelhos”. O primado é da oração sobre a ação. É preciso viver de Cristo para enfrentar o desafio de saber comunicá-lo e fazer com que os outros, o mundo, possam tomar parte nele.

É somente através da oração que o cristão pode superar a tentação da autorreferencialdiade, achando-se superior a todos, super capaz, que se basta. O ensino catequético é em vista de uma Igreja em saída missionária que antes da partida se põe de joelhos, de maneira humilde para se colocar a serviço. A Igreja não é lugar para aparecer!

Trazendo mais um elemento do Magistério de Francisco para melhor compreendermos a instituição do Ministério de Catequista parece-nos que a partir do “estar de joelhos”, chega-se à “mística da fraternidade” que ganha força a partir do fundamento encontrado em Cristo e na sua solidariedade com a humanidade. O que nos torna todos irmãos não se encaixa numa “fraternidade generalizada” e abstrata.

O Ministério de Catequista deve enfrentar o desafio de descobrir e transmitir a “mística” de viver juntos, numa verdadeira experiência de fraternidade, numa caminhada juntos e solidária, numa peregrinação sagrada. Conforme a Evangelii Gaudium (272): “Quando vivemos a mística de nos aproximar dos outros com a intenção de procurar o seu bem, ampliamos o nosso interior para receber os mais belos dons do Senhor. Cada vez que nos encontramos com um ser humano no amor, ficamos capazes de descobrir algo de novo sobre Deus”. Foi assim que São Francisco de Assis vivenciou a mística mais profunda e radical da fraternidade. E por isso o Francisco Papa nos recomenda o caminho das periferias geográficas e existenciais. “A contemplação que deixa de fora os outros é uma farsa” (EG 281).

É a partir dessa experiência cristã, da comunidade missionária de uma Igreja em saída, que os catequistas serão chamados, conhecidos e reconhecidos da comunidade. A Carta Apostólica ainda nos diz que o ministério instituído de Catequista deve contemplar homens e mulheres de fé profunda e maturidade humana.

Além disso, para sua formação torna-se necessário um tempo bastante longo de estudos e preparação. Em primeiro lugar é fundamental uma formação bíblica, profunda, sistemática. Vivemos um tempo em que transformamos a Bíblia em livro para discursos políticos e ideológicos, e até usamos para condenar e excluir pessoas, e não para a vivência da fé. Além dos estudos bíblicos há que se ter uma formação teológica adequada. E para completar a etapa formativa temos que atentar para as competências pastoral e pedagógica da pessoa catequista.

O ministério de Catequista tem forte valor vocacional e requer muito discernimento por parte do Bispo, devendo ser evidenciado com Rito de Instituição que será publicado em breve. Trata-se de “um serviço estável prestado à Igreja local de acordo com as exigências pastorais identificadas pelo Ordinário do lugar, mas desempenhado de maneira laical como exige a própria natureza do ministério”. O papa sublinha o aspecto laical do Ministério e isso está plenamente de acordo com as diretrizes do Concílio Vaticano II e do Magistério do Papa Francisco.

Por fim, talvez tenhamos que nos afastar de uma catequese de algum modelo tradicional, que produziu muitas flores e frutos numa determinada época histórica e tenhamos que pensar numa Catequese sintonizada com uma “Igreja em saída missionária”, de portas abertas, saindo em direção aos outros para atingir as periferias geográficas e existenciais, percorrendo novas trilhas, descobrindo novas belezas e produzindo novas flores e novos frutos. Não se trata de uma caminhada isolada ou sem direção. Uma catequese com olhos abertos e ouvidos dispostos a escutar as dores do mundo. Muitas vezes, é preciso deixar de lado as famosas “urgências” para encontrar e acompanhar quem ficou caído na beira do caminho.

Vania Reis Neste terceiro artigo sobre como a pandemia está afetando nosso cérebro, vamos focar nas estratégias para enfrentar esse cansaço mental, as dificuldades

Vania Reis

Neste terceiro artigo sobre como a pandemia está afetando nosso cérebro, vamos focar nas estratégias para enfrentar esse cansaço mental, as dificuldades de processamento das informações e tomada de decisão que nosso cérebro está vivenciando pelo excesso ou falta de estímulos. Pelo cansaço.

No nosso artigo anterior vimos o quanto a realidade que vivemos pode estar sendo nociva para nosso cérebro, (gerando “brain fog”, a névoa mental explicitada nos artigos anteriores), prejudicando nossa memória, atenção, concentração e capacidade de resolução de problemas entre outros desgastes.

Jon Simons e uma equipe de colegas da Universidade de Cambridge estão realizando um estudo para investigar o impacto do bloqueio na memória em pessoas com mais de 65 anos devido à pandemia. Um dos objetivos do estudo é testar a hipótese da “reserva cognitiva”, ou seja, a ideia de que “ter uma vida social rica e variada, repleta de estimulação intelectual, experiências desafiadoras e novas e relacionamentos gratificantes, pode ajudar a manter o cérebro estimulado e proteger contra o declínio cognitivo”. Se seu cotidiano está como a música “todo dia, tudo sempre igual”, está na hora de mudar. Quanto mais variado forem nossos dias, mais  fácil esta “névoa” do cérebro se dissipar.

Para enriquecer essa nossa conversa, entrevistei três senhoras entre 67e 81 anos, todas foram empresárias, duas solteiras e uma viúva, acostumadas a morar só e aposentadas. Seus relatos confirmaram os estudos de Simons e de seus colegas. Viveram o isolamento em níveis diferentes (a de menor reclusão teve Covid 19). Todas se cuidaram bastante e relataram estar bem. Todas muito ativas e apesar de muito reclusas buscaram fazer cursos na internet, exercícios físicos e se ocuparem com o que gostavam. Uma começou a estudar filosofia e a fazer meditação, a outra bordado, crochê e costura e a mais velha começou a fazer parte de um grupo com Terapeuta Ocupacional com outras 100 idosas que se reuniam em grupos alternados de 10 participantes, fazendo novos relacionamentos, se divertindo e ocupando-se com as tarefas do grupo. Atualmente, todas estão imunizadas contra a doença. Nenhuma delas teve sinais de “Brain-fog” (névoa mental). Apenas a que viveu muito isolada agora está vivendo a “Síndrome da Gaiola” Gaiola (explicada adiante)que ela mesma identificou. Ela, como muitos, terá que começar a aprender a “sair da gaiola”. Como passarinhos depois da tormenta, cautelosamente, mas sair.

Já escuto alguns gritando, mas estamos na pandemia, não podemos sair de casa! Sim. Podemos sair de casa, só não podemos aglomerar, nem quebrar os protocolos. Temos que ir descortinando e tirando os excessos, aos poucos, e assim irmos derrubando crenças que foram úteis quando não conhecíamos o Coronavírus, nem a Covid 19. Precisamos nos munir de informações corretas (técnicas e não políticas), e nos ater ao decreto do Governador. Não estamos em lockdown (quando não poderíamos mesmo sair de casa). Podemos sair,  quando precisarmos, com máscara, álcool gel e sem aglomerar. Sair de casa com as recomendações sanitárias é possível para a maioria de nós. Muitos estão em condições psicológicas precárias, e precisam. Temos aos poucos que refazer as trilhas onde o mato cresceu. Com cuidado.

Não são poucos os que estão com medo de sair de casa. O psiquiatra Dr. Gabriel Lopes, cunhou o termo Síndrome da Gaiola para se referir aos que estão tendo esta com dificuldade de sair deste isolamento social. Ele se referiu aos jovens que temem voltar as aulas presenciais, mas também se ajusta a uma série pessoas que não são tão jovens assim. O medo do Coronavirus e o “pânico” inicial quando desconhecíamos totalmente a ameaça fez com que a casa, ou o quarto, passassem a ser “o local” de segurança e proteção. Dois grandes grupos estão vivendo essa realidade: os jovens tiveram que adaptar a rotina escolar e a vida social para dentro de casa, e agora vivem a resistência em sair de casa devido a ansiedade que vivem.  E, agora com a vacinação avançando, os “menos jovens” que mesmo tendo recebido as duas doses e tendo passado o tempo de segurança, também temem sair de casa, outros temem voltar ao trabalho. O distanciamento social pelo medo da contaminação levou alguns a perceber a vida  lá fora e o relacionamento social como ameaçador. Para esses grupos as estratégias de enfrentamento dos efeitos da pandemia exigem ações mais específicas. Considerando que o medo de sair de casa está em nível de razoável um Terapeuta Ocupacional poderá, por exemplo, orientar e programar experiências sucessivas, administráveis para permitir primeiro pequenas saídas a espaços conhecidos (ir para a casa de parentes, por exemplo) e depois sucessivamente ir inserindo situações mais complexas (ir tomar um sorvete, ir à praia, ir à igreja), conforme o interesse, mas  sempre de forma prazerosa.

Para superar as restrições de ordem mais geral trazidas com o isolamento na pandemia, Peter Frost em seu livro “Emoções Tóxicas no Trabalho”, dá estratégias para a recuperação do estresse mental emocional enfrentadas neste período, e eu aqui as complemento:

Fortaleça sua capacidade física: mantenha-se em forma, faça exercícios regulares, Pilates, Yoga, faça massagem, caminhe, nade… Coma saudável e o suficiente, nem demais e nem de menos. Cuide para ter uma boa qualidade do seu sono. Não espere ter sono para ir dormir. Não estimule seu cérebro quando precisa dormir. As estratégias para descansar o cérebro são tão importantes quando o descansar, nutrir e proteger a mente.

 Melhore sua capacidade emocional: mantenha-se positivo, desligue a televisão, saia da briga nós e eles, não leve as coisas para o lado pessoal, não se deixe provocar por ofensas sem sentido, aceite o que você não pode mudar. Reserve tempo para cuidar de si e relaxar. Faça o que gosta.

Regenere sua capacidade mental: ajuste o foco da mente, faça uma coisa por vez. Limite e monitore seu tempo nas redes sociais. Dê descanso sonoro para seu cérebro e passe um dia com todas as “telas” desligadas. Use seus melhores momentos do dia para realizar as tarefas mais difíceis e desafiantes; organize seus espaços e os reorganize regularmente. Anote na agenda compromissos e informações importantes para deixar a sua mente desocupada. Procure fazer uma coisa de cada vez e realize as tarefas em várias etapas. Crie santuários mentais, foque no que você quer, crie um espaço pessoal, você com tempo diário para você. Aprenda a dizer “não”. Diga “não com opções” (crie soluções: não posso hoje, mas posso amanhã ou ainda: verei quem pode; não posso isso, mas posso aquilo). Analise a realidade, e se esta for tóxica, e sem possibilidades de deixar de ser, deixe o ambiente.

Construa sua capacidade espiritual: Seja claro nos seus valores e defenda-os com suavidade; honre seus princípios e busque um equilíbrio na sua vida. Pratique a meditação. Pratique o perdão. Perdão não é um sentimento é uma ação de libertação. Sua, mais do que do outro.

O caminho está aí. Tomando as rédeas de sua vida, escrevendo suas metas, fazendo uma lista e seguindo-a com dedicação, você não se entrega às dificuldades deste distanciamento forçado. Agora cabe a você  provocar as mudanças necessárias para sair da pandemia ainda melhor que entrou.

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Edebrande Cavalieri No mês de maio nossa vida retoma a ideia da maternidade sempre comemorada de maneira festiva como o Dia das Mães. Mas

Edebrande Cavalieri

No mês de maio nossa vida retoma a ideia da maternidade sempre comemorada de maneira festiva como o Dia das Mães. Mas um fenômeno vem crescendo sob nossos olhos: a diminuição do número de mães. E quando algum casal assume ter filhos, dificilmente ultrapassa a quantidade de dois. Parece que os tempos de famílias numerosas vão desaparecendo no horizonte de nossas vidas, no horizonte do mundo ocidental. Volta e meia essas questões surgem nos noticiários, e nesses dias o informativo do Vaticano informava que com a pandemia a tendência foi a queda ainda maior do número de nascituros.

Para se manter uma população nos níveis atuais de estabilidade sem crescimento ou queda, segundo cálculos da ONU, cada país deveria ter uma taxa de natalidade de 2,1 filhos por mulher. Mas o que vemos é a Europa manter a taxa de 1,59 filhos por mulher, a Rússia 1,48 e o Brasil 1,7. Parece que a ordem de Deus “crescei e multiplicai-vos” não está sendo seguida. Foi-se o tempo que lastimávamos as famílias numerosas nas camadas mais baixas da sociedade no ocidente.

No dia 14 de maio, em Roma, haverá o encontro denominado de Estado Geral da Natalidade, dedicado à crise demográfica, tendo como participante o Papa Francisco. Esse encontro foi convocado pelo Presidente do Forum Italiano das Associações de Famílias. Trata-se de se pensar o destino demográfico da Itália e do mundo. Entre os objetivos desse encontro está o movimento de corresponsabilidade para que o país possa recomeçar sua vida normal a partir de novos nascimentos.

Entre nós acabamos de ouvir uma manifestação feita pelo Ministro da Economia em que a longevidade não seria desejada. Isso resolveria o problema demográfico? A pandemia mostrou um quadro mais desolador, pois o número de mortes tem suplantado o número de nascimentos. Os países ocidentais envelheceram ainda mais.

A Itália há mais de uma década é um país cada vez mais velho e menos povoado. O mesmo vem acontecendo com os demais países europeus. O envelhecimento significa a perda de um conjunto grande de oportunidades do ponto de vista econômico e social. Com uma população idosa o horizonte fica estagnado em estruturas envelhecidas. Muitas estruturas sociais foram elaboradas considerando a população jovem, porém o envelhecimento demandará novas estruturas.

Em 2017 os países mais populosos do mundo eram China, Índia, EUA, Indonésia e Brasil; em 2055 os países mais populosos serão China, Índia, Nigéria, EUA, Indonésia. Metade da população mundial caminha assim para a via do decrescimento com envelhecimento da estrutura etária. No caso brasileiro, em 2047 estima-se que se chega ao ponto máximo da população com 232,8 milhões de habitantes; a partir de então se inicia um processo de decrescimento estimado em 231,5 milhões em 2055 e 190 milhões em 2100.

Teremos então no mundo um grande fosso demográfico, com os países da África e da Ásia sendo responsáveis pelo grande crescimento da população mundial. Alguns analistas falam de um “inverno demográfico” do ocidente em que os brancos não querem mais ter filhos enquanto negros e árabes continuam tendo filhos demais. O medo de um “colapso ambiental” com uma super população parece não ter efeitos positivos no ocidente. A Europa sofre com o processo migratório vindo do oriente e o projeto de uma imigração seletiva não parece produzir bons frutos. Daí mais de dois terços dos países europeus começam lançar medidas de incentivo para aumentar a taxa de natalidade.

Os motivos dessa recusa de filhos no ocidente estão em razões econômicas como os custos de uma boa educação, razões sociais e até razões ecológicas alegando que a terra não suportaria tantos habitantes. Temos uma predominância de casamentos tardios onde nem sempre o projeto de ter filhos está no horizonte do novo casal. Muitos também alegam o alto custo para a criação de filhos e a entrada da mulher do mercado de trabalho acaba afastando do objetivo de ser mãe. Também o advento de mecanismos de controle da natalidade como os anticonceptivos contribuem para a diminuição do número de filhos.

A fala do ministro da economia, Paulo Guedes, criticando a longevidade desejada ao dizer que “todo mundo quer viver 100 anos” nos coloca diante de uma grande questão. Em 1950, o Brasil possuía 2,6 milhões de idosos (4,9% da população) e cinquenta anos depois passa a ter 14,2 milhões de idosos (8,1%) da população. Calcula-se que em 2040 haverá 54,2 milhões de pessoas idosas (23,6% da população). Como o Brasil está se preparando para tamanha mudança no perfil populacional? Produzir discurso de aversão aos idosos considerados pesos, como tem havido no meio político, é das coisas mais cruéis que se possa fazer com as pessoas. Tem sido comum ouvir pessoas questionando a vacinação de idosos por eles não estarem mais no mercado de trabalho.

Outro dado que aparece de maneira crescente é a feminização do envelhecimento. Conforme dados prognosticados pelo IBGE, em 2060 teremos 33 milhões de homens idosos e 40,6 milhões de mulheres idosas. As estruturas sociais para essa mudança demográfica implicam altos investimentos e isso a política atual do Brasil parece não ter sensibilidade para essa questão. Ser idoso não pode significar ser indesejado, pária, rejeitado. Ou usando uma expressão do Papa Francisco, ser descartável e descartado. Em alguns momentos dessa pandemia tivemos a sensação de tratarmos os idosos como descartados da sociedade

A Europa já vem sentindo a necessidade de pessoas jovens e aptas para o mercado de trabalho e com qualificação profissional bem definida. Isso faz com que seja defendida uma elevação nos padrões da imigração seletiva tomando por base a nacionalidade e determinadas características, inclusive de cunho cultural ou religioso. Vemos como cresce o sentimento de rejeição aos milhares de migrantes que buscam asilo na Europa, muitas vezes arriscando a vida ao atravessar o Mar Mediterrâneo.

Não é nosso objetivo nesse artigo aprofundar a questão demográfica na política brasileira. Somente entendemos que esse assunto deveria ser pautado no Congresso Nacional e ser parte de projeto de governo em suas diversas esferas (federal, estadual e municipal).

E a Igreja, como está conduzindo essa questão? Será que somente o Papa Francisco está captando esse desafio da humanidade ocidental? Como estão sendo preparados os noivos para o casamento? Como os pais estão discutindo esse tema com os filhos adolescentes? E as escolas? O projeto de ter filhos deveria ser objeto de discussão com a presença de especialistas na área.

Na Europa, esse inverno demográfico está trazendo consequências enormes para a Igreja. Ao lado do processo de secularização da sociedade com o afastamento das pessoas da vida religiosa, esse inverno tem feito cair a cada ano o número de jovens vocacionados para serem padres ou irmãs religiosas. As dioceses e congregações também envelheceram em seus quadros. Alguns bispos estão partindo para buscar vocações religiosas na África e na Ásia. Seria a solução? Penso que não seja a melhor saída, pois a vocação não é uma espécie de mão de obra para o mercado religioso. A vocação deve ser expressão da fé cristã de uma comunidade.

Em março de 2019, o Papa Francisco esteve na Universidade Lateranense quando discutiu o tema da crise demográfica com professores e alunos daquela instituição. E nos diz que em grande parte essa crise é expressão da “doença do individualismo cômodo e mesquinho, preocupado apenas com o próprio bem-estar, com o próprio tempo livre e com sua autorrealização”. Geralmente os jovens casais dizem ao Papa que pensa em filhos, mas gostariam antes fazer uma determinada viagem, esperar mais um pouco, terminar a formação acadêmica com mestrado e doutorado; e assim o tempo passa. Como o casamento quase sempre vem depois dos estudos e da realização profissional, em poucos anos já se atinge idade inadequada para a geração de filhos.

O Papa Francisco não usa meias palavras. “O inverno demográfico que todos sofremos hoje é justamente o efeito desse pensamento único e egoísta, voltado apenas para si mesmo, que só busca a “minha” realização. Vocês, estudantes, pensem bem sobre isso: pensem em como esse pensamento único é tão ‘selvagem’, […[ porque impede que você faça história, que deixe uma história atrás de si”. Isso é a “ruína da criação”. E propõe como mecanismo para a superação dessa perspectiva individualista “a mística do nós, que se torna o fermento da fraternidade universal”.

Então no momento em que festejamos do Dia das Mães também é o momento de se pensar na construção social do nós, de maneira equilibrada, responsável. É a partir do nós que vamos construir uma história, pois deixaremos continuadores de nossa vida através dos nossos filhos. Habitar a terra é um ato coletivo. Com a maternidade a humanidade participa do ato criador de Deus. Com ela o homem abre-se para o mundo e estabelece um compromisso com a vida e a história.

Vania Reis No artigo da semana passada conversamos sobre como a pandemia está afetando nosso cérebro. O “Brain-fog” (névoa cerebral), assunto recente, é um

Vania Reis

No artigo da semana passada conversamos sobre como a pandemia está afetando nosso cérebro. O “Brain-fog” (névoa cerebral), assunto recente, é um novo termo que sintetiza a menor capacidade cognitiva e de processamento de informações que estamos vivendo com a pandemia. Apesar de existir quem associe o Brain-fog a efeitos colaterais da doença Covid, as evidências sustentam claramente que os sinais se correlacionam aos efeitos  do isolamento social, independentemente de a pessoa ter tido ou não Covid.

Vimos que na mesmice de vida isolada, temos que lidar com um bombardeio infinito de informações que super exigem da nossa mente, e isso se soma a uma rotina enfadonha que pouca distinção faz entre os dias, horas e acontecimentos. E tudo isso é nocivo para nosso cérebro, prejudicando nossa memória, atenção, concentração e capacidade de resolução de problemas.

A abordagem do prejuízo econômico, social e de alguns aspectos psicológicos como a depressão, são consequências da pandemia que tem sido bem explorado pela mídia. Entretanto muito pouca atenção está sendo dada a esses sinais de estresse mental, que podem parecer menos importantes, mas que, de fato, podem ser os fatores críticos de base para um processo que, ao gerar menor vigor mental e até uma letargia, leva a desvios na autopercepção, na autoestima, na crença em si mesmo e na motivação para a ação, que podem sim, corroborar com processos depressivos. Aqui a menor capacidade cognitiva e de processamento de informações, pela falta de estímulos de um lado e super exigências cognitivas de outro, leva a essa “nevoa mental’, sensação de inadequação, menos valia, cansaço e, no final do processo podendo levar à depressão.

Vamos ver um exemplo do atual cotidiano para entender melhor:  as reuniões de trabalho em plataformas de videoconferência. Nessa forma tecnológica de trabalhar que a pandemia amplificou estamos dispostos a uma menor estimulação tanto auditiva quanto visual para a compreensão da realidade, em relação ao que estávamos acostumados. Geralmente as reuniões são feitas na mesma plataforma, na mesma tela, dia após dia, mesmo formato, pouco diferenciando os estímulos. Nestas novas formas de trabalho, estamos diante de um “quadro” com muitas pessoas em suas “janelinhas”, se movimentando à sua frente e sua atenção correndo de um lado a outro, buscando se situar no grupo. Iniciada a reunião, alguém fala e por alguns segundos você não sabe quem falou e procura visualmente encontrar a pessoa. Enquanto isso você perdeu a atenção no conteúdo e perdeu o fio da conversa. Aflito busca então se desdobrar, via superconcentração, para compensar e recuperar o fio da meada e entrar na conversa. Você fica ansioso, afinal, perder o emprego, em uma hora desta, nem pensar! Das primeiras vezes que isso acontece você pede para que repitam, pois não conseguiu entender, mas acontecendo outras vezes e não querendo incomodar, passa a usar um grande esforço para “completar” a informação e preencher as lacunas.  O esforço de concentração é muito maior, a exigência cognitiva também.  O que acaba acontecendo é que a pessoa sai da reunião cansada. De início, pode acreditar que é apenas porque não dormiu direito ou que é “preguiça”, mas com o tempo percebe que sua agilidade mental não é a mesma, vai se sentindo menos capaz e percebendo que está perdendo competências, seu pensamento está mais confuso, como se tivesse uma névoa lhe tirando a clareza de suas percepções (este é o Brain-fog), e evidentemente  se sente frustrado, cansado. A pessoa não conversa na equipe pois acha que o problema é só dele/dela. Quando precisamos saber em qual reunião aquela decisão foi tomada, por exemplo, nossa mente tem dificuldade de distinguir uma reunião de outra. Quem levantou primeiro a questão… enfim, é preciso mais esforço para resgatar a informação.

O fato é que todo o esforço para acompanhar a reunião/o trabalho deixa menos espaço para a escuta do outro (lembra que estamos também tentando decifrar a comunicação não verbal do grupo e que quase só temos o rosto para isso).

O processamento das informações é mais complexo, a concentração menor, e veja que nem colocamos aqui variáveis como marido/esposa de cara feia, o filho chamando ou entrando na “live”, o caminhão do lixo passando… enfim as distrações do cotidiano.

E os encontros na hora do cafezinho? Perdemos nuances das relações, histórias que só se contam pessoalmente. As conversas espontâneas também estão “limitadas”. Com o cancelamento de feriados, casamentos, festas, shows e eventos adiados, os assuntos desidrataram.

Para ilustrar, compartilhei nas minhas redes o artigo anterior e questionei se as pessoas têm algum sinal de “brain-fog” (névoa cerebral).  Pelo depoimento delas, não estamos diferentes dos países pesquisados:

“me enquadro em várias dessas situações….para ler um livro, preciso voltar atrás algumas vezes porque li, mas não entendi nada; não  tenho dormido bem, o que também deve ser efeito desse estresse cerebral;  …  Meu cérebro não deve estar enxergando nada, tamanha a névoa!”

“…definição correta do momento que estamos vivendo”

“Me vi todinha ali….”

.”… tenho dormido muito mal, sinto vontade de jogar a toalha… dá uma sensação de letargia… difícil passar tudo isso e nem sei se a hora que passar, se é que vai passar, vou ter energia para tocar a vida. É um cansaço total, as vezes mesmo com zero esforço, mas o cansaço está presente.

“Essa parte da memória eu realmente senti. Perda momentânea de um raciocínio que seguia.

 “Não só tenho alguns desses sintomas como também ouço nos diversos atendimentos. Vivo há 1 ano e 2 meses exilada do contato com amigos e familiares. Esse confinamento bloqueia estímulos e assim aparecem atrofias diversas.”

 É, nosso cérebro está cansado.

Semana que vem vamos abordar algumas estratégias para enfrentarmos essa realidade. Por enquanto, tente sair desta super estimulação mental. Saia da frente de qualquer tela e passe um dia inteiro esvaziando a mente, olhando paisagem, “trocando” apenas com você, e me diz como se sentiu!

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