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Edebrande Cavalieri | A Festa da Penha nos leva a celebrar Nossa Senhora das Alegrias oito dias após a Páscoa, uma das sete alegrias
Edebrande Cavalieri |

A Festa da Penha nos leva a celebrar Nossa Senhora das Alegrias oito dias após a Páscoa, uma das sete alegrias de Nossa Senhora conforme nos legou a tradição religiosa.  O Evangelista Lucas nos relata o Magnificat, um verdadeiro hino da alegria, proferido por Maria: “A minha alma glorifica ao Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador…”.

Frei Pedro Palácios, vindo de Portugal, trouxe um quadro dessa santa e numa gruta ao pé da montanha ele reunia moradores da região, escravos e indígenas para a reza do terço. Segundo a lenda, esse quadro apareceu diversas vezes no alto do morro. Então Pedro Palácios entendeu que deveria construir uma capela no topo do morro e mandou vir de Portugal uma imagem que logo ficou conhecida como Nossa Senhora da Penha. Nascia assim a devoção mariana com a imagem de Nossa Senhora da Penha e com o quadro de Nossa Senhora das Alegrias que hoje fica na lateral da capela do Convento.

A história dessa devoção é repleta de promessas, orações, placas que ficam na lateral da Igreja e objetos que são guardados na sala dos milagres ou ex-votos. É a história de tantas experiências de dor, de sofrimento, de esperança e agradecimento. Em silêncio cada devoto foi trazendo, quase sempre no silêncio e no recolhimento espiritual, sua forma de agradecimento por graça alcançada. Contemplar todos esses objetos é uma forma de mergulhar nas dores de um povo e sua forma de gratidão.

Como no ano passado, não podemos participar presencialmente das diversas celebrações e ritos. Tempo de pandemia, tempo de dores. Vivemos um tempo de muito sofrimento e de muita esperança. Nesse momento que precede a festa, recebi um quadro ilustrativo de Nossa Senhora feito pelo artista ilustrador Rodolpho Valdetaro que me chamou muito a atenção. E vocês podem conferir na foto da chamada do artigo acima. É a imagem de Nossa Senhora derramando lágrimas de sangue com o vestido também todo ensanguentado.

No primeiro olhar, um choque! Um espanto! Com calma, o espírito vai se acalmando e a contemplação se torna um verdadeiro mistério. Cada um de vocês, leitores, poderá descrever o que sentiu ao ver esse quadro. Logo me lembrei que o Filho, Jesus, suou sangue no Monte das Oliveiras. Isso mesmo! Chega a orar ao Pai: “se queres, afasta de mim este cálice”. O sofrimento é angustiante! Tem hora que bate até o desespero. Por isso somos convidados sempre a fortalecer a fé. Nesse calvário da pandemia as pessoas rezaram muito mais no escondido de suas casas!  Tantas dores! Tantas separações dolorosas! Tantos enterros silenciosos!

E também veio entre meus pensamentos uma imagem sempre serena da minha mãe. Raríssimas vezes eu a vi chorar, mesmo nos momentos mais difíceis. Hoje vejo que suas lágrimas, tantas vezes, eram de sangue também, que ela escondia em suas orações. Tantas mães choram lágrimas de sangue por seus filhos levados pelas doenças, pelas violências, pela fome.

Então pude olhar com mais calma o quadro de Maria chorando lágrimas de sangue, com as vestes manchadas também de sangue. E senti que se o Filho suou sangue, como sua mãe deve ter derramado tanto sangue no encontro com Ele no caminho do Calvário, aos pés da cruz, recebendo-o no colo com o coração traspassado e, por fim, enterrando-o no sepulcro! São dores de mãe! Nas dores de Maria tantas mães depositam suas próprias dores e confiam em sua intercessão.

O artista, Rodolpho Valdetaro, de Vila Velha, confessa que todo ano ele faz uma homenagem artística por essa época e nesse momento “queria expressar o acolhimento dela [Nossa Senhora da Penha] com todas as nossas dores e as circunstâncias que essa doença vem trazendo e que mesmo em momento de desespero, independente da religião de cada pessoa, fica a espera que não lhe falte alegria e amor para encarar e seguir em frente”. Esse testemunho me trouxe imediatamente outro título de Maria, tão celebrado pelo povo pobre e sofredor: Nossas Senhoras das Dores.

A devoção à Mater Dolorosa é medieval, porém está em plena sintonia com os Evangelhos. Desta forma, a devoção está marcada pelas sete dores de Maria que vão desde a Profecia de Simeão indicando que ela seria traspassada por uma espada, ao caminho do Calvário acompanhando o próprio filho até seu enterro no sepulcro.

Por outro lado, a devoção à Nossa Senhora das Alegrias nasce entre nós com Frei Pedro Palácios e a construção da ermida com o quadro dessa devoção mariana. O tema da alegria também é profundamente bíblico e São Paulo nos dizia: “Alegrai-vos sempre no Senhor!”. As alegrias de Maria também são indicadas com o número sete, e vão desde a Encarnação, passando pela Ressurreição e sua coroação no céu. Alguns falam inclusive das alegrias pascais, pois celebra-se a festa oito dias após a Páscoa.

E assim passei a entender que nesse ano teremos não apenas a Senhora das Alegrias, festejada como Nossa Senhora da Penha, mas também a Senhora das Dores. No ano passado as duas estavam presentes e nem notamos! Mas os corações dilacerados pela doença sentiram que era preciso recorrer à Mãe das Dores, à Mãe das Alegrias. Dois anos sem festejos com presença física nas diversas procissões e nas celebrações do Oitavário! Alegria e dor se misturam tantas vezes. Completam-se como no parto. Parecem fazer parte da realidade da vida, humana ou não.

As redes sociais tornaram-se obituários virtuais. Como é duro ler uma informação como “não tenho palavras para descrever o vazio de profunda tristeza que vive em nossos corações”. Ou “nossa família vive hoje uma profunda tristeza, mas com a certeza que logo estaremos juntos novamente”. Como é doloroso sair para tomar a vacina e um neto expressar a falta de um avô ou avó levados pela pandemia.

A procissão das dores ainda vai demorar. Ainda vamos ver muitas lágrimas de sangue, muita roupa ensanguentada. O egoísmo humano destrói o cuidado materno da acolhida dolorosa. Tantos parecem dançar diante de sepulturas abertas, diante dos números crescentes de óbitos.

A Senhora das Alegrias está entre nós. Deve ser celebrada. Deve ser abraçada. Essa é agora a nossa esperança. Cada pessoa que está sendo vacinada quer uma foto da alegria desse momento. É preciso registrar. É preciso dizer ao mundo que somente o carinho de mãe estampado na figura de Maria pode curar tantas dores. É preciso reverter as lágrimas de sangue. Chega! Temos meios seguros para barrar a pandemia, parar a abertura de sepulturas. Quem se alegra com o sangue inocente comete um dos maiores pecados. E por fim, “vosso olhar a nós volvei”! Como é tranquilizador o olhar da mãe no momento em que o filho se machuca! Que o mesmo olhar da Mãe que sofre e se alegra toque cada pessoa nesse calvário que estamos atravessando!

Vania Reis | Muitas vezes estamos tão acostumados a ver uma realidade que não prestamos mais atenção a ela. Ela vira o que a
Vania Reis |

Muitas vezes estamos tão acostumados a ver uma realidade que não prestamos mais atenção a ela. Ela vira o que a psicologia da percepção chama de “fundo”. Figura e o fundo são dois componentes da nossa percepção e nos ajudam a distinguir um objeto. Figura é quando delimitamos os contornos de algo e assim este é visto com mais nitidez, se destacando do restante da imagem. O fundo é o resultante deste processo. Ao se perceber algo como “fundo” este é cada vez mais indistinto, menos visível porque é na “figura” que fixamos nossa atenção. Para muitos a realidade pandemia e sua catástrofe em todo mundo, já virou uma realidade “fundo”.

As pessoas deixaram de olhar ao seu redor e a atenção, de muitos, foi para a política. Não nos importa aqui avaliar as discussões, os fantasmas pelos quais se dão as disputas que estão acontecendo neste confronto para saber quem está vendo a realidade de forma correta. O foco de atenção está sendo deixado de lado com realidades que gritam por socorro, não sendo ouvidas. O que queremos aqui é colocar luz para o grito que vem desta realidade “fundo”: a fome, a necessidade, a carência que está abrangendo pessoas que nunca precisaram de auxílio.
A sociedade é uma máquina com engrenagens que se multiplicam na complexidade. Com a pandemia emperrou-se parte das engrenagens, rapidamente surgiram novos atalhos e a roda continuou a girar, agora rangendo. O esforço descompensado fez danificar outras engrenagens menores e a falta de renda começou a estrangular todas. Vamos pôr foco em algumas “engrenagens” de uma pequeníssima parcela deste todo, para ouvir mais de perto, esse abafado grito por misericórdia.

Muitos idosos morreram, muitos destes pensionistas sustentavam outros dependentes sem condições de sustento. O atestado de óbito exige que se informe o número da inscrição do INSS. Como consequência, em 30/60 dias, no máximo, o benefício é cortado e, mesmo que haja a quem se deva transferir serão no mínimo 6 meses (quando não dois anos), para o novo benefício ser concedido. Muitos perderam seu sustento e suas famílias têm que recorrer à ajuda externa. Familiares ou amigos que em outros tempos poderiam ajudar hoje estão sem renda ou esta está muito reduzida. Dividem o pouco e todos ficam ainda mais carentes.

Mais sério ainda: muitas crianças, adolescentes e pessoas com necessidades especiais que se enquadram como com deficiência ou cadeirantes de todos os tipos, estão sozinhos enfrentando o drama de ver quem toma conta dela, de ver pai e da mãe com Covid-19, como é o caso de famílias da Pestalozzi em Santa Teresa. Pegando concretamente como exemplo algumas destas famílias para representar a engrenagem final da nossa sociedade que descrevemos acima, temos famílias que hoje não conseguem mais comprar fraldas para seus filhos e acabam por deixá-los, por exemplo, em cima de uma toalha no chão, por não verem outra saída. Temos crianças cujos pais não estão conseguindo comprar os remédios que seus filhos tanto precisam para não sofrer! Vemos muitas outras que estão dependendo de caridade para não passar fome. Muitos se envergonham de pedir ajuda.

No pano de fundo deste microcosmo da nossa sociedade, existem muitas pessoas passando por muitas necessidades, que simplesmente não estão sendo vistas. Vemos isso lá e vemos isso aqui do nosso lado. Há muitos envergonhados de pedir ajuda.

Não adianta esperarmos pelas autoridades, o foco deles, na melhor das expectativas, está nas macro engrenagens e vão custar a retornar o olhar aos pequenos. Temos que partir, sem demora, para a ajuda aos muitos de nós que estão passando fome! Temos que ajudá-los a carregarem as suas cruzes. Está pesada demais!

Eu imagino a alegria que o cireneu Simão sentiu quando descobriu que ajudou o Filho de Deus, em sua missão. Ajudar Deus a carregar sua cruz…quanta honra! Olhe à sua volta, seja um Simão para alguém em necessidade, ajude a carregar a cruz de Cristo em seu próximo! Não queira ser Pilatos!

Boas ações, boa Páscoa!

Jessé Calote | “Não tenhais medo! Cristo Ressuscitou!”  A Liturgia de hoje nos envolve no acontecimento central da fé cristã: a Páscoa da Ressurreição
Jessé Calote | “Não tenhais medo! Cristo Ressuscitou!” 

A Liturgia de hoje nos envolve no acontecimento central da fé cristã: a Páscoa da Ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo. O salmista (Sl 117) nos convida a proclamar: “Este é o dia que o Senhor fez para nós: alegremos-nos e nele exultemos”.

Na madrugada do primeiro dia da semana (cf. Mt 28, 5-6), ainda no escuro, Maria Madalena vai ao túmulo e percebe que a pesada pedra que o vedava havia sido removida. Imediatamente ela retorna para relatar o ocorrido aos discípulos. Sem demora, Pedro e o outro discípulo vão ao túmulo de Jesus.

A figura de Pedro, que era mais velho, representa sua hierarquia em relação aos demais discípulos, e o discípulo amado – aquele que havia reclinado a cabeça sobre o peito de Jesus -, em sua atitude de fé representa o amor à Cristo. Diz o Evangelho que apesar de ter chegado antes João ficou olhando de fora, enquanto Pedro entrou no túmulo. Pedro não conseguiu enxergar além do que tinha diante dos seus olhos, via apenas um espaço vazio, “as faixas de linho deitadas no chão” e o “pano enrolado num lugar à parte”. Quando entra aquele que Jesus amava, nos atesta o evangelista: “Ele viu e acreditou” (Cf. Jo 20,8b), pois tinha um olhar de amor mesmo diante de todos sinais de morte do ambiente.

Ambos viram a ausência do corpo de Cristo, mas a fé na ressurreição não nasceu imediatamente aos dois. João estava aberto inteiramente ao amor, enquanto Pedro, ainda tinha em seu coração sentimentos de dor por causa da crucificação e falta de perdão próprio por ter negado o Mestre.

Diante da cena apresentada no evangelho de hoje nós precisamos assumir um coração do discípulo amado e caminhar na fé do Cristo ressuscitado seguindo seu exemplo de fazer o bem aos necessitados do nosso tempo (Cf. At 10, 38).  

Se por um lado a Páscoa judaica significava a passagem da escravidão do Egito e iniciava a passagem da nova vida do povo em busca da Terra Prometida, a Páscoa cristã significa a passagem da escravidão do pecado e da morte para a liberdade da nova vida em Cristo. Nós somos chamados a nos converter sempre e a passar de uma vida de pecado para uma vida de pessoas ressucitadas no Senhor. 

A Igreja canta nesse dia: “ó morte onde está sua vitória?”. Ao vencer a morte, Jesus nos devolve a possibilidade de ir para o céu. A nossa condição adâmica, de homens e mulheres caídos, recebe agora a graça de assumir uma nova postura diante de Cristo ressucitado. Santo Irineu nos ensina que “A glória de Deus é o homem vivo”, por isso como nos exorta São Paulo “se ressucitastes com Cristo, esforçai-vos para alcançar as coisas do alto, onde está Cristo, sentado à direita de Deus” (Col 3, 1-2).

Infelizmente nos confrontamos diariamente com diversos sinais visíveis de morte em nossa sociedade imersa na violência causada pela desigualdade social e pela falta de políticas públicas efetivas com vistas à construção de uma sociedade mais justa, fraterna, humana e igualitária.

O mundo vem acompanhando estupefato a maior crise sanitária dos últimos tempos, e no nosso país estamos vivendo o pior momento da pandemia Covid-19, pelo que aproximadamente mais de 325 mil brasileiros já perderam suas vidas, deixando suas famílias enlutadas, com as quais temos o dever cristão de nos solidarizar com nossas orações neste momento de profunda dor que vivenciam. A essas famílias, queremos encorajar afirmando que os sofrimentos do tempo presente não têm proporção com a glória que há de ser revelada em nós (Rm 8,18).

Ao analisarmos mais criticamente o cenário, percebemos que há um projeto perverso, negacionista, apático, insensível, inerte, fechado em si mesmo e mais preocupado com a salvação do mercado do que com a vida humana, contribuindo diretamente para que a morte ceife a vida de tantos irmãos e irmãs.

Peçamos ao Senhor a graça de recebermos olhos pascais capazes de enxergar a realidade e assumir verdadeiramente nossa missão de homens e mulheres do Ressuscitado, denunciando as injustiças e anunciando felizes a alegria do Cristo a todos que ainda precisam ser alcançados pelo Evangelho.

“O Cristo que leva aos céus, caminha à frente dos seus! Ressuscitou de verdade. Ó rei, ó Cristo, piedade!”

(Sequência Pascal) 

Jessé Calote 

Seminarista do 2º ano de Teologia;

Paróquia de origem: Divino Espírito Santo, Santa Leopoldina – ES;

Paróquia de pastoral: São Pedro, Jacaraípe, Serra – ES.

Ewerton Venâncio | “Bendito o que vem em nome do Senhor”. Com a liturgia de hoje somos convidados a contemplar intimamente o mistério de

Ewerton Venâncio | “Bendito o que vem em nome do Senhor”.

Com a liturgia de hoje somos convidados a contemplar intimamente o mistério de Cristo, uma vez que nesta santa semana, recordamos e percorremos dia a dia os últimos passos do Senhor, do caminho da Cruz até à sua Ressureição. Neste sentido o Domingo de Ramos é a porta de entrada para este nosso caminhar. O Evangelho que antecede a procissão é retirado de São Marcos e nos remete à chegada de Jesus em Jerusalém (cf. Mc 11, 1-10).

Já na altura de Betfagé e Betânia, Jesus envia dois discípulos para encontrar no povoado, logo à frente, um jumentinho. Jesus pede aos discípulos que desamarrem o animal e o tragam até ele, e, entretanto, algumas pessoas questionam e não entendem tal solicitação. “Trouxeram então o jumentinho a Jesus, colocaram sobre ele seus mantos, e Jesus montou” (v.7). É uma cena que certamente surpreende, mas que encontra seu desfecho nos versículos seguintes: “Muitos estenderam seus mantos pelo caminho, outros espalharam ramos que haviam apanhado nos campos. (v.8) Essa atitude do povo que recebeu Jesus em Jerusalém recorda as antigas tradições de estender os mantos aos reis como sinal de aclamação e adoração, como, por exemplo, pode-se verificar na passagem do segundo livro de Reis: “Imediatamente todos pegaram seus mantos e os estenderam sobre os degraus, aos pés de Jeú […]” (2Rs 9, 13a).

É neste contexto que se realizou a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. Mas como se vê, Ele vem não se comporta como um rei ao estilo da época, a desfilar num majestoso cavalo de guerra como símbolo de força e poder. Para a surpresa de todos, Ele vem num jumentinho, usado pelos servos em seus duros trabalhos. Esperava-se um Messias que fosse rei potente, e eis que Deus envia um servo humilde e frágil, a ponto de as autoridades de Israel não suportarem tamanho escândalo e contradição. O que se segue bem costumamos recordar no tão conhecido canto popular: “Eles queriam uma grande Rei, que fosse forte e dominador. E por isso não creram n’Ele e mataram o Salvador…”.

É interessante destacar que o grande mistério da paixão começa com o grito de Hosana: “Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor!” (v.9). De fato, Cristo é Rei e Salvador, e tal expressão é um grito de louvor e adoração, que depois tristemente se desdobrará no clamor geral pela crucificação do inocente: “crucifica-O!” (Mc 15, 13). Não por acaso, mais para mostrar a grande entrega de amor que é a Cruz.

Bendito seja o Senhor que vem ao nosso encontro constantemente, sobretudo nestes tempos difíceis. Deixemo-nos conduzir por sua graça, e que Ele nos ajude a compreender e vivenciar o mistério da Paixão, que vamos adentrar nesta santa semana.


Paulus. Bíblia Sagrada: edição pastoral. 2. Ed. São Paulo, Paulus, 1990.

Ewerton Venâncio Mariani 

Seminarista do 3º ano de Filosofia;

Paróquia de origem: Sant’Ana, Marechal Floriano – ES;

Paróquia de pastoral: São Lucas, Novo México, Vila Velha – ES).

Vania Reis | Lidar com o desconhecido já é difícil para a maioria de nós, mas lidar com algo que não conheço e que
Vania Reis |

Lidar com o desconhecido já é difícil para a maioria de nós, mas lidar com algo que não conheço e que está cercado de mistérios de toda natureza, amedronta. Falar de morte incomoda, de mais de 300 mil mortos assusta. Para visualizar melhor são quase quatro Maracanãs cheios. Imaginando uma família nuclear pai, mãe e filho temos, minimamente, onze Maracanãs cheios de pessoas vivendo a perda de pessoas queridas.

Muitos estão experimentando a dor desse momento de partida. Muitos estão vivendo o luto, que ao mesmo tempo é particular, mas passa à dor coletiva pela perda de tantas pessoas amadas. Na pandemia, diferente de outros tempos, estamos impedidos de vivenciar apropriadamente esse luto. Não podemos realizar as despedidas nos rituais consoladores de funeral e enterro. Despedir, dar um beijo na testa, segurar na mão entrelaçada. Colocar um terço em suas mãos, olhar a pessoa sem vida, chorar, olhar de novo até o coração entender a realidade. Abraçar amigos, chorar nos ombros de outros queridos, tudo isso faz parte do processo do luto e é fundamental para encarar as dores mais profundas, acolher a angústia e a tristeza que são necessárias de serem vividas para, com cuidado, se organizar emocionalmente depois. É uma travessia penosa, mas que vivida em sua plenitude é curativa.

Nesta pandemia esse processo é todo recortado. O doente na UTI, uma vez morto é mais um corpo que é ensacado e posto em um caixão e lacrado para ser entregue aos familiares. A família não pode se despedir, olhar, tocar, beijar… Ao choro, falta a presença do morto querido. Um vazio, uma falta. Não há velório, não há consolo dos amigos, o enterro presenciado por poucos familiares, o medo do contágio ronda e o coração está dilacerado. Na missa de sétimo dia, poucos se aproximam. A dor é reprimida, é contida e a recuperação emocional certamente será penosa.

Como psicóloga, sei que reprimir as emoções, não enfrentar o luto, não se permitir vivenciar o processo da dor, traz dificuldades emocionais significativas. Sem ver o corpo fica mais fácil negar a morte. Sem viver os ritos de passagem entre a vida a morte o processo, como um todo, fica bem mais comprometido.

Como Padre Fábio tweetou em relação à sua mãe, que está na UTI: a fé não nos torna imunes ao sofrimento. Temos fé e rezamos com lágrimas. E assim precisamos agir, deixar fluir a dor, o medo nas lágrimas, falar da dor, partilhar os sentimentos de solidão e aos poucos, paulatinamente, a paz vai retornando.

Você vai poder aos poucos transformar em obras sua dor, acelerando a cura. Faça caridade, doe seu amor aos necessitados, até mesmo em função da própria pandemia, pessoas que estão desempregadas, guie, oriente, distraia a sua solidão e transforme sua dor em amor ao que tem ainda menos que você. Não será mágico, terá altos e baixos é certo, mas com a fé em poder reencontrar a pessoa amada após a nossa morte, podemos aspirar a paz de Cristo.

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Eder Hofmann | “Eis que conceberás em teu seio e darás à luz um filho”. São necessários nove meses para que uma mulher dê à

Eder Hofmann | “Eis que conceberás em teu seio e darás à luz um filho”.

São necessários nove meses para que uma mulher dê à luz seu filho. A partir desta emocionante data, a criança é completamente dependente da mãe para sua nutrição e cuidado. Alguns bons meses transcorrem até que a criança coma alimento sólido, diga suas primeiras palavras e dê seus primeiros passos. Para que consiga ler e fazer algumas simples contas, são precisos outros bons cinco ou seis anos. Quando finalmente alcança sua independência, quase duas décadas já se passaram.

Nós, humanos, por nossa própria natureza, somos biológica, psicológica e socialmente dependentes de nossos genitores, de modo que –é de nosso conhecimento comum– jamais chegaríamos à plena vida adulta se não fôssemos cuidados nesta longa fase de nossas vidas.

Toda essa sujeição e dependência, que em nós acontece pela natureza de nosso desenvolvimento, ocorreu em Cristo por seu amor a nós. Jesus Cristo é Deus! É o Verbo Eterno que existia desde toda a eternidade (Jo 1,1), é a Sabedoria Eterna e que, pelo qual, todas as coisas foram criadas (Cl 1, 16). Este Verbo – Deus onipotentíssimo e perfeitíssimo– fez-se carne e habitou entre nós (Jo 1,14) e aquele que os céus não puderam conter, uma Virgem o carregou em seu seio [1].

Maria Santíssima, ao dizer o fiat [2] ao anjo (Lc 1, 38), participa de um fiat semelhante –senão mais importante– àquele dos primeiros dias (Gn 1,3-31): em seu ventre, por meio de seu consentimento à vontade divina, o Verbo eterno de Deus assume, na plenitude dos tempos (Gl 4,4), a carne de nossa humanidade.

O próprio Deus, soberano sobre toda a obra da criação, esvazia-se e sujeita-se a ela, tomando sobre si a condição humana de escravo (Fl 2, 7): é gestado por noves meses (Lc 2,6), nasce e é colocado sobre uma manjedoura (Lc 2, 7), cresce obediente a seus pais (Lc 2,51), sofre dos homens a incompreensão de Seu divino projeto (Jo 19,7), é crucificado e morto (Jo 19,16-28).

Por que Deus permitiu-se tudo isso? Diz-nos São Leão Magno que “para saldar a dívida da condição humana, a natureza impassível [de Deus] uniu-se à natureza passível”. [3] Para nos resgatar de nossa infeliz condição de morte, Cristo fez-se pecado (2 Cor 5,21, Gl 3,13), para que o homem alcançasse a verdadeira vida.

Nesta Solenidade da Anunciação do Senhor, louvemos a Deus pela maior herança que a humanidade já recebeu. Pelo presente mais excelso por nós já auferido: um Deus descido dos Céus para nos salvar!


 

[1] Responsório da Liturgia das Horas rezado no Ofício de Leituras da Solenidade de Maria Mãe de Deus.

[2] Em Latim, faça-se. Alusão ao texto da vulgata Latina do mesmo versículo acima citado.

[3] Epist. 28, ad Flavianum, 3-4: PL 54, 763-767 (Séc. V)

 

Eder Hoffman Daniel 

Seminarista do 4º ano de Teologia;

Paróquia de origem: Santuário Bom Pastor, Campo Grande, Cariacica – ES;

Paróquia de pastoral: Ressurreição, Goiabeiras, Vitória – ES.

Bernardo Guadagnin | O tempo, que a ninguém perdoa, demanda que o demos mais atenção a cada dia, fazendo-nos ater menos à nossa história. Assim

Bernardo Guadagnin | O tempo, que a ninguém perdoa, demanda que o demos mais atenção a cada dia, fazendo-nos ater menos à nossa história. Assim acontece quando nos referimos com rotina à “Reta da Penha”. Esquecemo-nos de como a ação de Nossa Senhora da Penha fora – e ainda é – importante na vida de cada capixaba. De forma análoga, a posse dos “navegantes”  em geral pela Avenida de Nossa Senhora dos Navegantes também se torna uma grande ironia para nós cristãos. E quanto a São José, santo que se destaca por sua discrição?

Seja fruto do secularismo, mera falta de tempo ou desconhecimento, tal indiferença perante os nomes de ruas, avenidas e hospitais, nos torna cristãos que se afastam de Deus. É como se falássemos “Hospital São Lucas” sem ser pelo coração (Mt 12,34). Tantos são os Josés pelo mundo, muitos dos quais dedicados ao santo mas que depois se esqueceram (ou mesmo nem tiveram conhecimento). 

Uma coisa começa ficar clara, a possibilidade de se esquecer tanto pelo bem como pelo mal. São José fora o primeiro a poder se permitir esquecer de tudo quando pensou em abandonar Maria. No entanto, como bom homem que era, justo e aberto à oração, esteve à escuta do Espírito Santo, recebendo portanto a revelação de que aquilo que acontecera com Maria fora obra de Deus. Eis, portanto, o primeiro “esquecimento” de São José perante si próprio. Mal podemos imaginar o que passara por sua cabeça, mas uma coisa é clara, suas virtudes diante da tentação inicial floresceram. Ele se permitiu abrir à graça de Deus. São José assume o papel de guiar Nossa Mãe e ser pai adotivo de nosso Salvador.

Seu segundo “esquecimento” ocorre ainda diante da mesma mensagem no sonho, quando o Anjo informa que José deverá colocar o nome de Jesus ao seu filho. Mais uma vez, São José demonstra pequenez e abre mão da possibilidade de colocar um nome ao seu filho. O seu dispor diante da vontade de Deus através dos sonhos que tivera deixa claro sua intenção em servir ao Senhor. 

Enquanto um esquecimento é fruto de nossa indiferença, o esquecimento por parte de São José é fruto da grandeza de sua pequenez. Um homem que se coloca sempre em obediência à vontade de Deus é um homem não apenas de oração, mas que coloca Deus em primeiro lugar com todas as suas forças e capacidades. José não dispunha de um local para Maria dar a luz ao Menino Jesus, mas, como Papa Francisco em sua carta apostólica Patris Corde escreve: “[…] arranja um estábulo e prepara-o de modo a tornar-se o lugar mais acolhedor possível para o Filho de Deus, que vem ao mundo”. Ele não se esquece da revelação de que o menino é o Filho de Deus e se doa por completo para preparar sua chegada, mas se permite ser praticamente esquecido por nós.

Tal discrição de São José é como um reflexo de Deus num espelho, um Pai que é o Amor em Si, que respeita ser esquecido e deixado de lado por cada um. Somente um homem com estas características poderia ser escolhido para ser pai adotivo de Jesus. Só desta forma um santo de tão grande importância se permite ser pouco venerado (ou até mesmo desconhecido pelos católicos). Todo zelo que José teve por Maria e Jesus, suas orações, agonias e árduo trabalho como marceneiro nos mostra um exemplo de Homem que fez parte da grande sagrada família, ao qual o Venerável Fulton Sheen nunca se cansou de venerar em suas apresentações e aulas, escrevendo na lousa antes de qualquer conteúdo: “JMJ” (Jesus, Mary and Joseph).

Rezemos a São José para que ele interceda pelo nosso auto-esquecimento, para que seja sadio, dando espaço somente a Deus, o único que merece toda a glória. Que jamais venhamos a nos esquecer do Deus que permitiu tão grandioso Santo viver em nosso mundo. Que não venhamos a dar nenhum espaço às nossas vaidades e caprichos, apagando-nos, mas imprimindo um novo Cristo vivo em nós. 

 

Bernardo Guadagnin Gonçalves

Seminarista do 2º ano de Filosofia;

Paróquia de origem: São Camilo, Mata da Praia, Vitória – ES;

Paróquia de pastoral: Santíssima Trindade, Vila Capixaba, Cariacica – ES.

Antonio Vitor | “Para que todos os que Nele crerem tenham a vida eterna”  (Jo 3, 15). Ao celebrarmos o quarto Domingo da Quaresma,

Antonio Vitor | “Para que todos os que Nele crerem tenham a vida eterna”  (Jo 3, 15).

Ao celebrarmos o quarto Domingo da Quaresma, a Liturgia da Palavra nos convida a refletir sobre a Vida Eterna oferecida por Deus a todos. Deus leva seu amor pela humanidade às últimas consequências, ao enviar seu Filho único para nos salvar pela sua paixão, morte e ressureição.

A Primeira Leitura retirada do Segundo Livro das Crônicas nos relata brevemente o período de exílio na Babilônia do povo de Israel. A deportação para a Babilônia e a destruição de Jerusalém é vista pelo cronista como consequência direta dos pecados e infidelidades do povo de Israel que insta a ira de Deus: “[…] até que o furor do Senhor se levantou contra o seu povo e não houve mais remédio” (2Cr 36, 16).

Verifica-se, portanto, uma visão ainda primitiva da justiça de Deus que concede vida e felicidade quando o povo é fiel, mas quando se torna infiel, pune-o com toda sorte de sofrimentos. No entanto, o castigo não é a palavra final de Deus para o cronista, que logo em seguida narra o decreto do Imperador Persa libertando o povo de Israel para retornar à sua terra. Ou seja, Deus tem sempre planos de esperança e libertação para seu povo, permanecendo sempre fiel.  A Segunda Leitura retirada da Carta de São Paulo aos Efésios aponta ainda nesse mesmo sentido. Deus é misericordioso e responde com sua graça à situação pecaminosa do homem (cf. Ef 2, 5), libertando-o da escravidão da morte e abrindo as portas para a Vida que não tem fim.

Já no Evangelho (Jo 13, 14-21), Jesus explica a Nicodemos, referindo-se à sua própria morte, que o Messias deverá ser levantado assim como Moisés levantou a serpente no deserto. Como sabemos, durante a passagem pelo deserto, o povo de Israel em certo momento sofria com o ataque de serpentes. Ao se compadecer deles, Deus ordena a Moisés que coloque sobre uma haste uma serpente de metal e que todo aquele que for picado, ao olhar para tal serpente ficaria curado (cf. Nm 21, 6-9).

Se outrora a serpente de metal fora elevada no deserto para a cura, agora será o Filho do Homem levantado no madeiro da Cruz que possibilitará que o homem viva e viva eternamente. A Vida Eterna nos é possibilitada pelo sacrifício de Cristo que, pregado na Cruz, abre as portas da eternidade para a humanidade que crê e adere à sua mensagem salvadora. A missão de Jesus nesse sentido não é negativa, ou seja, de punir o mundo pelas suas faltas, mas ao contrário, é positiva, pois sua vinda ao mundo é justamente para o resgate da humanidade decaída no pecado (cf. Jo 3, 17) abrindo-lhes as portas da graça e salvação para que Nele crendo sejam salvos.

Nessa perspectiva, a salvação ou a condenação não podem ser entendidas como um prêmio ou castigo, mas são sempre em última instância produto da livre escolha do homem perante a incondicional proposta de salvação que Deus lhe faz. “Quem Nele crê, não é condenado, mas quem não crê, já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho unigênito” (Jo 3, 18).

Que nesta Quaresma, no deserto de nossa vida efêmera e tão cheia de sofrimentos, saibamos contemplar Jesus elevado na Cruz por nós, para nos salvar. Luz que ilumina a escuridão de nossos pecados e que é fonte que jorra para a Vida Eterna!

Antonio Vitor Favero

Seminarista do 1º ano de Teologia;

Paróquia de origem: Nossa Senhora da Conceição, Alfredo Chaves – ES;

Paróquia de pastoral: Bom Jesus, Novo Horizonte, Cariacica – ES.