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Arthur Cristo | “Levanta como um sinal sobre nós, Senhor, a luz da tua face!” O segundo Domingo da Quaresma, celebrado neste dia, nos

Arthur Cristo | “Levanta como um sinal sobre nós, Senhor, a luz da tua face!”

O segundo Domingo da Quaresma, celebrado neste dia, nos apresenta o mistério da Transfiguração de Jesus (cf. Mc 9,2-10). Após anunciar (cf. Mc 8, 31-38) que deveria sofrer, morrer, e ressuscitar em três dias, Jesus leva Pedro, Tiago e João a um monte. Ali o Senhor se transfigura diante dos três Apóstolos, aparecem Moisés e Elias, e por último, uma nuvem desce envolvendo a todos, e dela se ouve uma voz que diz: “Este é meu Filho amado. Escutai o que ele diz!

À primeira vista, nos parece estranho, ou talvez inadequado, ouvir o Evangelho da Transfiguração do Senhor durante o tempo quaresmal da Igreja. Textos sobre penitência, conversão, cura, misericórdia, nos parecem mais conectados ao espírito de austeridade que é próprio deste período. No tempo em que o cristão deve revisar sua vida e olhar para sua própria miséria, seus pecados, o Evangelho deste domingo, ao contrário, mostra aos cristãos a glória do Filho de Deus, cheio de esplendor na Transfiguração.

Ora, ao contemplar tão grande mistério, quais são os sentimentos que brotam da alma cristã? Acaso tal visão divinal move a alma à penitência e à conversão como ocorre ao se olhar para cruz de Cristo?

Recordar o Evangelho do Domingo anterior pode nos ajudar a penetrar melhor na liturgia deste dia. Leu-se no primeiro Domingo da Quaresma o relato dos quarenta dias em que Jesus jejuou no deserto e sofreu a tentação pelo Diabo. Embora não encontremos no Evangelho de Marcos uma descrição da tentação, Mateus (cf. Mt 4, 1-11) nos indica que: primeiramente, o Diabo tenta Jesus pedindo que use levianamente o poder que tem, transformando pedras em pão; depois transporta Jesus ao beiral do Templo e pede que se jogue dali para que os anjos viessem em auxílio; por fim, o Diabo sobe com o Senhor até um alto monte, mostra-lhe os reinos e a glória deste mundo, propõe ser adorado em troca da glória desses reinos. À medida que a matéria das tentações cresce, cresce igualmente a altura do lugar da tentação.

Agora nos detemos diante de dois montes. Jesus está em ambos. No primeiro Jesus olha para a glória do mundo; no segundo, o temos em glória transfigurado. Jesus passa do monte das tentações para o monte da glória de Filho muito amado do Pai. O que temos aqui senão o que ocorre com a alma que sai vitoriosa da tentação? O cristão deve sair do monte das tentações, onde o Diabo o tenta com as glórias do mundo, e se colocar no monte de Deus, onde o Senhor nos mostra a verdadeira glória, a glória do Filho de Deus. Eis aqui o verdadeiro espírito quaresmal! Eis o caminho que Jesus nos ensinou!

Agora que sabemos em qual monte devemos estar, e porque a Liturgia nos propõe o Evangelho de hoje, resta-nos agora contemplar o mistério da Transfiguração, propriamente dito.

O texto da Transfiguração está entre dois anúncios da Paixão de Cristo. Ao subir com os principais apóstolos ao monte, o Divino Mestre quer confirmar a fé deles em sua palavra, e para isso mostra-lhes um pouco de sua grandeza como prova de sua divindade. No ato, aparecem Moisés e Elias, confirmando que Jesus de fato era o esperado pelos profetas, e o novo Moisés, com quem Deus vai fazer a Nova e Eterna Aliança. Moisés recebeu de Deus a Lei da Antiga Aliança (cf. Ex 24) no monte de Deus, o Sinai; na transfiguração ele contempla o autor da Lei da Nova Aliança. Elias, no mesmo monte que Moisés, presencia a manifestação de Deus (1Rs 19), que lhe veio em forma de brisa leve, mas agora, na Transfiguração, contempla o Verbo em sua glória. Jesus no Tabor é ao mesmo tempo realização das profecias antigas e o Moisés da Nova Aliança de Deus com a humanidade.

Além do testemunho de Moisés e Elias, o Pai mesmo vem testemunhar em favor do Filho, e envolve a todos com o Espírito Santo – na nuvem. Todos escutam a voz que diz: Este é meu filho amado, escutai-o. Escutar Jesus e tê-lo como mestre é o dever de todo os homens. Como presenciar manifestação tão extraordinária e não ter a fé renovada no Filho de Deus? Certamente, contemplar esse mistério removeu do coração daqueles três apóstolos qualquer espécie de fé oscilante. Quão inspirados não devem ter ficado os três e quanto não gostavam de partilhar entre si as maravilhas que Deus os havia mostrado? O segredo exigido por Jesus aos três tem fundamento na pedagogia divina.

Jesus revela progressivamente sua divina filiação, porque nem todos estavam prontos para compreender esse mistério. À medida em que seus discípulos são purificados das falsas ideias sobre o Messias, o Senhor vai lhes dando a conhecer sobre os mistérios de sua Encarnação e Paixão.

Neste Domingo, Jesus quer nos instruir sobre como vencer o mal, ao mesmo tempo em que nos mostra um pouquinho de sua glória para nos animar na dura caminhada quaresmal, renovando nossa fé, fundada no testemunho da Lei e nos profetas, nos apóstolos e no próprio Deus que diz: escutai-O.

Arthur Cristo da Silva

Seminarista do 1º ano de Teologia;

Paróquia de origem: São João Paulo II, Praia de Itaparica, Vila Velha – ES;

Paróquia de pastoral: São José, São José, Guarapari – ES.

Edebrande Cavalieri | As comunidades e grupos católicos ainda precisam avançar com mais força e empenho no estudo e na meditação da Doutrina Social

Edebrande Cavalieri |

As comunidades e grupos católicos ainda precisam avançar com mais força e empenho no estudo e na meditação da Doutrina Social da Igreja Católica. Nesse tempo de Campanha da Fraternidade Ecumênica que tem como tema “Fraternidade e diálogo: compromisso de amor”, é imprescindível o estudo dessa riqueza que a Igreja, através de seu Magistério, vem deixando para os fiéis. Muitas vezes, vemos com tristeza as pessoas brigando por causa de uma norma canônica ou litúrgica e, a partir de sua compreensão, vão tirando conclusões e proferindo condenações. Esquecem que há uma riqueza imensurável a seu dispor que é a Doutrina Social, que ampliaria em muito sua compreensão da fé cristã.

No Compêndio que pode ser baixado gratuitamente da internet a partir do site do Vaticano afirma-se que a Doutrina Social é um “instrumento eficaz de diálogo entre as comunidades cristãs e a comunidade civil e política”. Trata-se de uma visão bem abrangente do que vem a ser o diálogo que a Igreja nos aponta, para ser luz do mundo e sal da terra. Sem diálogo não teremos nem luz e nem sal. Tudo morre por inanição. Uma Igreja que se fecha em si mesma, autorreferente, está na contramão de uma “Igreja em saída” desejada pelo Papa Francisco. Uma Igreja fechada na sacristia tende a passar bem longe das feridas do homem. Para ser misericordiosa ela deve se abrir ao mundo.

Através do diálogo as comunidades cristãs enriquecem e fortalecem a relação com a sociedade civil e política. Foi-se o tempo em que a voz condenatória da Igreja era suficiente para pôr fim um determinado conflito entre as nações. O caminho atual se apresenta como uma possibilidade e um desejo de uma fecunda colaboração; jamais troca de favores como algumas vezes aconteceu na Igreja. Quando a Igreja recebe um favor do poder político pode-se ter certeza que o boleto da conta virá mais à frente. O custo é grande, e muitas vezes, vergonhoso, e anti-evangélico.

Nesse tempo de Quaresma com a Campanha da Fraternidade encontra-se um momento forte para que as comunidades cristãs possam denunciar as violências que se cometem contra os menos favorecidos e a violação dos Direitos Humanos. É preciso fazer ecoar a voz profética de Isaias: “Clamem com voz como de trombeta! Denunciem claramente ao meu povo a sua maldade, aos descendentes de Jacó os seus pecados”. Querem ter uma aparência de piedade e religiosidade, frequentam o templo diariamente, ouvem as leis do Senhor como se quisessem obedecer-lhes. Fingem cumprir corretamente os preceitos da justiça. Mas o profeta não teme proclamar sua hipocrisia e denuncia sua falsidade de coração.

A relação com as esferas civil e política não pode se descuidar. Cada pessoa que atua na sociedade e na política encontra na Doutrina Social não apenas apoio e orientação para fundamentar suas ações concretas, mas também como fonte de inspiração. O veredicto que se tornou tão comum para desqualificar qualquer ação social da Igreja como algo “comunista” precisa ser enfrentado e desconstruído com os conteúdos do Magistério da Igreja, com a sua Doutrina Social que se formou ao longo da história.

Hoje os católicos e cristãos são convocados para a defesa da dignidade da pessoa humana e as fontes para seu trabalho social estão no Evangelho de Jesus Cristo e na Doutrina Social da Igreja. É preciso romper alguns preconceitos formados nessa questão. Assim o Documento da Doutrina amplia os setores em que se pode encontrar fundamentos de apoio para a “promoção da paz; na luta concreta e eficaz contra as misérias do nosso tempo, tais como a fome e a indigência, o analfabetismo, a distribuição não equitativa dos bens e a carência de moradas”. Pessoas mal intencionadas irão dizer que esses pontos são da doutrina comunista. Não! Busquem no número 535 e seguintes da Doutrina Social da Igreja. Vivemos também uma epidemia de preconceitos e de compartilhamento de mentiras inclusive contra a própria Igreja.

Ao lermos o texto base da Campanha da Fraternidade deste ano podemos notar de maneira bem concreta como a Doutrina Social serviu de inspiração para a elaboração do texto. Nesse mesmo número acima citado as comunidades cristãs são chamadas para levar a sério isso, pois com esses fundamentos se “acresce a consciência da fraternidade em Cristo facilitando o caminho ecumênico”.

Por fim, o campo do diálogo torna-se ainda mais essencial nos dias atuais diante de tantos muros que separam as religiões e as nações do mundo. A Doutrina Social da Igreja não restringe o diálogo apenas com as Igrejas cristãs, mas aponta para a necessidade de uma diálogo fecundo “com todos os crentes das religiões do mundo, para que saibam compartilhar a busca de formas mais oportunas de colaboração” em vista da paz. O empenho comum é fator crucial para o desenvolvimento integral do homem. Assim todos são convocados para “um testemunho eficaz dos valores comuns a toda a família humana”.

Quero concluir essa reflexão trazendo à memória a imagem que percorreu o mundo, ocorrida no domingo, quando uma Freira em Mianmar saiu às ruas e, de joelhos em frente a uma tropa de soldados, pediu que as forças de segurança não atirassem nos jovens manifestantes que protestavam pacificamente. Sua ação foi eficaz num momento de alta repressão política. O apelo da Freira surpreendeu o mundo e percorreu as redes sociais. De maneira muito concreta, para mim, aquela imagem da Freira ajoelhada diante da tropa de soldados ecoa nos meus ouvidos o grito: “Cristo é a nossa Paz!”

Essa é a imagem de alguém que entendeu o Evangelho de Jesus Cristo e se faz voz profética sem nenhum palco. Para muitos líderes cristãos essa imagem é uma convocação para saírem de suas zonas de conforto, das proteções do medo, da insegurança de perder a referência social. A imagem se torna ainda mais significativa quando olhamos a composição religiosa desse país de 52 milhões de habitantes. A principal religião representando 87,9% da população é o Budismo. Os cristãos totalizam apenas 6,2% da população. Depois vem os muçulmanos, os animistas e os hindus. Afinal, quem era aquela Freira? Silencia-se seu nome, mas o mundo foi incapaz de silenciar seu grito. Diante do apelo daquela Freira a polícia parou. O empenho pastoral, segundo a Doutrina Social, se desenvolve como “anúncio do fundamento cristão dos direitos do homem e da denúncia das violações de tais direitos”. O palco da denúncia pode ser o chão sobre o qual os joelhos se dobram!

César Delarmelina | Foi tentado por Satanás, e os anjos o serviam. Logo no início do itinerário quaresmal, somos chamados a aprender com Jesus

César Delarmelina | Foi tentado por Satanás, e os anjos o serviam.

Logo no início do itinerário quaresmal, somos chamados a aprender com Jesus o correto enfrentamento das tentações, que possuem valor pedagógico na caminhada cristã. O deserto, lugar inóspito e solitário, constitui o cenário para a provação descrita no Evangelho de Marcos (Mc 1, 12-15), à qual o Mestre, tendo sido batizado por João e cheio do Espírito (cf. Lc 4,1), é pelo mesmo Espírito conduzido.

Quis o Senhor dirigir-se sozinho ao deserto para nos ensinar acerca da realidade das tentações, e do modo como devemos – mais cedo ou mais tarde – enfrentá-las. A aparente solidão de Cristo não quer dizer que o Pai O tenha abandonado às tentações, já que, como afirma o próprio texto, Ele era auxiliado pelo serviço dos anjos (Mc 1, 13); mas, em contrário, ensina-nos que, mesmo contando com os auxílios sobrenaturais da graça, há momentos em que a iminência das tentações obriga a vontade a decidir: ceder ou recalcitrar, lutar ou esmorecer.

Em outra passagem este mesmo episódio é descrito com mais pormenores (cf. Mt 4, 1-11), direcionando as tentações às ambições do poder, das posses e do prazer. No entanto, Marcos se limita a ambientar o acontecimento e a fixá-lo no intervalo de quarenta dias, colocando Jesus entre a assistência serviçal dos anjos e a companhia dos animais selvagens. De fato, Cristo fez seu retiro, em meio às feras como Homem, e junto aos anjos, como Deus, ressignificando aquele lugar para o qual Adão tinha sido expulso após a primeira queda e que fora caminho de expiação para o povo eleito. O panorama deste “campo de treinamento”, em vista da obra que Jesus havia de iniciar logo após, pode ensinar-nos a como nos preparar bem para seguir a proposta da vida cristã.

“Convertei-vos e crede no Evangelho!” (Mc 1, 15): João Batista havia sido preso, e o chamado à conversão era passível de esmorecimento. Pois é desde o deserto – partindo donde João começara -, e rumando para a Galileia, que Jesus continua a pregar, unindo o discurso de João à novidade de sua Pessoa: anunciando o Evangelho de Deus.

A página do Santo Evangelho nos propõe afinal, neste Domingo, duas lições: uma a respeito das tentações; e outra referente à busca de uma sincera conversão. Acerca das tentações, ensina-nos que, embora estas não devam ser desejadas, por si mesmas se apresentam como ocasiões de fortalecimento e, quando nos sobrevêm, podem e devem ser vencidas com auxílio sobrenatural. Assim, a cada vitória fortifica-se a vontade e aumentam os méritos e a confiança na misericórdia de Deus, ao qual em oração sempre pedimos não que nos prive, mas que não nos deixe cair em tentação (cf. Lc 11, 4).

A segunda lição se encontra naquele imperativo do versículo final, que obriga o cristão por toda a vida: convertei-vos. As tentações nos recordam da árdua tarefa de santificação, à qual, por meio da busca sincera de Deus que se mostra mais enfática neste tempo favorável de oração, esmola e jejum, devemos aderir com renovado ânimo e vigor.

Que o Senhor Jesus nos ajude a fazer de nossos desertos e tentações um caminho de renascimento e florescimento espiritual. Que Ele nos dê da água viva (cf. Jo 4, 13), para nos saciar e purificar rumo às alegrias da Páscoa.

 

César Augusto Flegler Delarmelina

Seminarista do 2º ano de Teologia;

Paróquia de Origem: São Sebastião do Alto Guandú, Afonso Cláudio – ES;

Paróquia de Pastoral: Cristo Rei. Campo Verde, Cariacica – ES.

Essa frase famosa que coloca acertadamente a possibilidade de erro em todos nós humanos, se completa maravilhosamente com a sua sequência “perdoar é divino.”

Essa frase famosa que coloca acertadamente a possibilidade de erro em todos nós humanos, se completa maravilhosamente com a sua sequência “perdoar é divino.”  A autoria da frase é do poeta londrino Alexander Pope, que viveu no século 17. Mas o erro de grafia é de um qualquer de nós que, humildemente, se colocou, apropriadamente, como falível.

Somos humanos quando por nossa própria vontade, por nosso livre arbítrio, agimos. É isso que nos torna humanos e nos diferencia das criaturas irracionais: temos o domínio de nossos atos. Domínio pela razão e pela vontade, ou seja temos o livre-arbítrio. São Tomás de Aquino explica “são propriamente ditas humanas as ações que procedem da vontade deliberada. Se outras ações, são próprias do homem, poderão ser chamadas de ações do homem, mas não são propriamente ações humanas, pois não são do homem enquanto homem”. (Suma Teológica, Ia IIae, q. 1, a. 1).

Errar pressupõe uma oposição intencional (do contrário é engano) ao estabelecido na realidade em que se está inserido. Nesse conceito poderíamos discorrer longamente no plano filosófico, moral, jurídico, só para começar. Mas aí nos distanciaríamos de nosso propósito aqui e assim vamos, intencionalmente, estreitar nossa visão conceitual. Errar para nós aqui será tomado como uma ação de minha livre vontade que externa ou internamente é reprovado (por mim ou pela sociedade).

Por que erramos?

Faltou prudência/discernimento, diria São Tomás de Aquino, ou ainda, faltou inteligência emocional, atualizaria  Daniel Goleman e os estudos atuais da neurociência.

 São Tomás de Aquino nos mostra que a lógica da ação humana, a prudência ou discernimento é o último passo que determina o ato moral e que leva” à compreensão de sua realização e concretude” (ou seja, a consciência do ato a ser praticado). Esse último passo “é oferecido pela prudência, porque com ela se alcança a lucidez, a retidão e a firmeza das decisões que o homem é levado a tomar, na condução de sua vida. A prudência é algo que diz respeito à razão, em sua função prática, aplicando à ação singular os princípios morais.”

Goleman clareia com a noção base tomista,  o conceito de Inteligência Emocional.

É a Inteligência Emocional que vai me dar a lucidez e discernimento para que minhas ações sejam guiadas pelo uso amadurecido dos meus próprios sentimentos, assim como a noção do impacto nos sentimentos e efetividade para as ações /reações dos outros.

Saber gerir bem as emoções internas e nossos relacionamentos. Ter efetividade no enfrentamento dos nossos problemas ou frustrações, ou nas palavras de Aristóteles agir: com a pessoa certa, na medida certa, na hora certa, pelo motivo certo e da maneira certa.

Por que é tão difícil reconhecer que erramos?

As pessoas temem o sentimento de fragilidade que acompanha o reconhecimento do erro. Temem sentir-se “nús”, expostos. Temem a vergonha. Temem a autopercepção de não ser um “Deus”, infalível e, assim, edificam suas defesas negando o erro, como Adão, como Eva, pela noção arcaicamente construída no nosso inconsciente coletivo… Nem Adão nem Eva assumiram a responsabilidade de seus atos livres e voluntários. Não foram “prudentes” segundo São Tomás.

O que muitos não compreendem é a real importância da segunda parte da frase do poeta londrino: “perdoar é divino”. É neste ato que verdadeiramente nos  aproximamos do divino, do ideal de Deus, para nós.

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A Quaresma chega e junto nos encontramos com umas das práticas mais antigas presentes tanto no judaísmo como no cristianismo, e também em outras

A Quaresma chega e junto nos encontramos com umas das práticas mais antigas presentes tanto no judaísmo como no cristianismo, e também em outras religiões. Trata-se da prática do jejum. Conhecemos a história descrita pelos evangelistas Mateus, Marcos e Lucas relatando o jejum de 40 dias e noites de Jesus no deserto da Judeia e as tentações sofridas. Esse tempo precedeu o seu ministério, a sua pregação.

No Antigo Testamento temos diversas passagens que relatam práticas do jejum. Esdras nos fala de pessoas que viajavam para Jerusalém e jejuavam em vista de obter ajuda de Javé. O profeta Joel nos descreve uma norma dada por Deus para que o povo se voltasse de todo o coração, com jejum, choro e lamento. Em Levítico Deus dá uma ordem a Israel que incluía o jejum no dia da expiação e isso deveria servir para que o povo não se esquecesse de sua imperfeição. O Novo Testamento chama-nos a atenção da prática do jejum de Paulo e Barnabé antes da escolha de seus ministros anciãos, para que o escolhido de fato representasse a vontade de Deus. Vemos até aqui como o jejum tem diversos significados e finalidades.

Mas onde encontramos uma ampliação do sentido do jejum é no profeta Isaias, no capítulo 58. Em questão estava o motivo do jejum, ou seja, “por que jejuamos?” O texto bíblico alerta que o povo ao jejuar está “fazendo o que é do agrado de si mesmos e exploram os seus empregados”. A prática de jejum criticada pelo Profeta está na forma de jejuar pois a pessoa espera que seja vista e ouvida. Ou seja, trata-se de um jejum hipócrita, só para se mostrar. E diz claramente: “O jejum que desejo é soltar as correntes da injustiça, desatar as cordas do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e romper todo jugo”. E mais ainda: “é partilhar sua comida com o faminto, abrigar o pobre desamparado, vestir o nu que você encontrou e não recusar ajuda ao próximo”.

Inserindo um parênteses aqui, é nesse sentido que a Igreja Católica apresenta nesse período quaresmal as diversas Campanhas da Fraternidade. É um movimento de caridade, de solidariedade, de justiça. É preciso estarmos muito atentos a essa dimensão social da fé, entranhada nos textos bíblicos já no Antigo Testamento.

Com essa pequena fundamentação bíblica já é possível ter claro que celebrar uma santa quaresma, como tantos andam falando por aí achando que a Campanha da Fraternidade estaria desvirtuando o propósito da mesma, implica um tempo de penitência, de jejum, de oração e conversão. Não há outro caminho melhor para se preparar para a Páscoa. Os diversos tipos e práticas de espiritualismos sem processos de conversão pessoal e comunitária são muitas vezes sem sentido e com pouca expressão de fé. Há inclusive algumas práticas como a autoflagelação que devem ser deixadas no passado histórico e não ressuscitar como se fossem práticas miraculosas de conversão e fé.

A Igreja conduzida pelo Papa Francisco convoca os cristãos católicos para um tempo de conversão e exorta a evitarmos um jejum fingido. Ele nos orienta que “se não puder fazer um jejum total, que faz sentir fome até os ossos, faça um jejum humilde, mas verdadeiro”. Além do mais, todo esse tempo já está sob a luz da Ressurreição. Uma quaresma sem esse foco deixa o fiel perdido em sua fé, confundida muitas vezes com elementos culturais agregados pela história. O olhar para o Jesus morto não pode estar dissociado do olhar para o Jesus ressuscitado.

Assim, o jejum que se apresenta como privação deve sempre levar as pessoas à redescoberta do dom de Deus para a salvação da humanidade. Então o jejum implica em fazer-se pobre com os pobres, que são privados cotidianamente de sua alimentação. O ato de jejuar deve libertar-nos de tudo o que nos aprisiona no mundo. Para os dias atuais o jejum deve nos libertar do aprisionamento das informações já saturadas, muitas vezes falsas, mentirosas e prejudiciais até mesmo dentro da Igreja. Também o consumismo nos aprisiona; um jejum sem mexer nessa prática pouco vale. E o Papa nos diz que é preciso que o nosso jejum abra as portas de nosso coração para Aquele que vem a nós pobre de tudo, mas cheio de graça. E completa: “A caridade se alegra ao ver o outro crescer; e de igual modo sofre quando o encontra na angústia: sozinho, doente, sem abrigo, desprezado, necessidade”.

Por fim, é através do amor social que faremos avançar a civilização do amor. A caridade em seu dinamismo universal poderá construir um mundo novo. Segundo o Papa Francisco, viver uma quaresma de santidade é viver uma quaresma de caridade que “significa cuidar de quem se encontra em condições de sofrimento, abandono ou angústia por causa da pandemia da Covid-19”. Nessa incerteza toda, inclusive até com respeito às vacinas e as novas mutações do vírus, o cristão está convocado para uma obra de caridade, com uma palavra de confiança. O cristão que não contribui com isso, negando inclusive as propostas de cura advindas da ciência e da medicina, não estará fazendo uma santa quaresma.

A Campanha da Fraternidade deste ano está programada para ser realizada de maneira ecumênica, seguindo uma proposta que vem sendo feita desde o ano

Edebrande Cavalieri

A Campanha da Fraternidade deste ano está programada para ser realizada de maneira ecumênica, seguindo uma proposta que vem sendo feita desde o ano 2000 a cada cinco anos, ou seja, todas as Igrejas que participam do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs estão empenhadas nessa caminhada comum. Que Igrejas participam dessa Comissão? Igreja Apostólica Romana, Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia, Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, Igreja Presbiteriana Unida, Aliança de Batistas do Brasil; ainda participaram da preparação os representantes do Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e a Igreja Betesda.

Gostaria de tratar nessa artigo um pouco da história do Ecumenismo, e assim esclarecer algumas incompreensões e equívocos a respeito dessa temática. Considerando que o Ecumenismo foi muito bem definido pelo Concílio Vaticano II, aprovado por 2.200 bispos do mundo inteiro, não se trata de opinião particular de uma determinada autoridade religiosa. O Concílio é Magistério da Igreja.

Antes de mais nada a palavra ecumenismo vem da língua grega – oikouméne – que significa literalmente “mundo habitado”. Ou seja, estamos falando de nossa “casa comum”. E no meio cristão esse termo se refere à unidade das Igrejas de fé cristã ou até a unidade entre as religiões.

A principal referência bíblica está em Jo 17, 21. O desejo de Jesus Cristo é que todos sejam um assim como a própria Trindade é una. Os primeiros Padres da Igreja ao realizarem as Assembleias conciliares passaram a denominá-las de ecumênicas. Portanto, a ideia de ecumenismo é ponto central da fé cristã expressa de maneira claríssima pelo Evangelista João.

Antes de mais nada é preciso distinguir ecumenismo de diálogo inter-religioso. Enquanto o ecumenismo se relaciona com o caminho conjunto de Igrejas Cristãs, o Diálogo Inter-religioso se apresenta como a disposição de abertura entre as Igrejas, entre as religiões, dos mais diversos credos e doutrinas. O diálogo projeta a construção de uma ética mundial em vista da sobrevivência humana; tem no horizonte a construção da paz entre as religiões.

Aqui está o grande desafio da humanidade. Uma ação ecumênica envolvendo as Igrejas cristãs é o primeiro passo de coragem em direção ao diferente. Se não conseguirmos nos abrir e dar as mãos entre os cristãos, impossível será um diálogo com as doutrinas mais distantes do credo cristão. Logo no início do século XX com a I Guerra Mundial o ecumenismo tomou um caminho como movimento formado para resolver o problema da paz, conforme descreve o Arcebispo luterano Nathan Söderblom.

O grande ideal seria na verdade um ecumenismo universal, indicando assim a possibilidade concreta de se viver na mesma casa. O Papa Francisco tem insistido muito no projeto de se constituir uma casa comum, onde se respeitam as diferenças principalmente doutrinárias e se pratica uma fé sustentada pela caridade e solidariedade. Na verdade, são esses fundamentos da fé cristã que tornam possível a convivência entre as religiões, pois jamais as ações de caridade e de solidariedade serão condições de separação entre os povos.

O ecumenismo não nasceu nem da teologia, nem dos dirigentes eclesiásticos, mas de grupos independentes de renovação religiosa, e muitas vezes até com atitude deliberada e consciente de oposição ao que estava instituído. Não nasceu nas Igrejas, mas a sua margem. Nasceu na atuação e nos ideais de cristãos leigos e leigas que desenvolveram profundamente o espírito de diálogo e aspiração à unidade.

Esse movimento nasceu no século XIX entre leigos e leigas, que se uniam para orar e realizar ações de caridade. Posteriormente os líderes das Igreja se integraram na caminhada ecumênica de caráter laical. Era um movimento cristão, mas a Igreja Católica não esteve presente nesse início. Era difícil naqueles tempos superar a posição de exclusivismo eclesiástico baseado na tese de que “fora da Igreja não haveria salvação”.

Os primeiros grupos ecumênicos reuniam jovens (1844), mulheres jovens (1854), Estudantes cristãos (1895). A preocupação não era aproximar as Igrejas, mas evangelizar a sociedade e os ambientes universitários. Pode-se dizer que era predominantemente uma aspiração de jovens que buscavam ampliar o Reino de Deus entre a juventude. Foi através desses grupos de jovens que as Igrejas realizaram a aproximação e o intercâmbio ecumênico. O primeiro grupo de jovens católicos acabou se aproximando ao movimento de Oxford (Universidade) no seio do anglicanismo, mesmo não tendo autorização eclesiástica para isso.

Esse movimento de jovens no ecumenismo expandiu a perspectiva internacional, organizando muitos eventos reunindo jovens dos mais diversos países e isso acabou fortalecendo a preocupação missionária em direção às novas Igrejas da Ásia e da África. Aqui temos um ingrediente valiosíssimo: a construção de uma unidade na missão. A missionariedade é um caminho muito propício ao desenvolvimento do ecumenismo até hoje.

Um grande passo na Igreja Católica foi dado em 1952, com o Papa Pio XII que criou a Conferência Internacional para os Problemas Ecumênicos. Em 1960 essa Conferência foi transformada em “Secretariado para a Promoção da Unidade Cristã”. Com a convocação do Concílio Vaticano II esse tema foi objeto de uma Comissão Conciliar, responsável pela elaboração do Decreto sobre o Ecumenismo “Unitatis Redingratio”. Entre 1962 e 1965, em torno de 2.200 bispos do mundo inteiro participaram ativamente desse grande evento eclesial, e foram esses bispos de maneira conjunta (sinodal) que aprovaram o Decreto sobre o Ecumenismo, reconhecendo-o como um movimento causado pelo Espírito e uma tarefe para toda a Igreja, fieis e pastores.

Desta forma se entende que a questão do ecumenismo definida pelo Concílio Vaticano II faz parte do “grande catecismo dos novos tempos”, como nos dizia o Papa Paulo VI. E o Papa Francisco de maneira ainda mais contundente nos diz que trata-se de um imperativo seguir o Concílio para não se colocar fora da Igreja. Ninguém é dono da fé ou da doutrina cristã. E não se tem o direito de ensinar algo que brote de suas visões particulares de mundo. A Igreja definiu coletivamente o que deveria ser ensinado. O Papa Francisco nos alerta: “quem apresentar uma catequese que não esteja de acordo com o Magistério da Igreja levará as pessoas à ruína”.

Portanto, a questão ecumênica está definida exemplarmente pelo Concílio Vaticano II e deverá sempre ser objeto da catequese e da vivência cristã no seio da Igreja. Nas palavras do Papa Francisco: “As diferenças tradições teológicas, litúrgicas, espirituais e canônicas que se desenvolveram no mundo cristão, quando permanecem enraizadas de modo autêntico na tradição apostólica, são uma riqueza e não uma ameaça para a unidade da Igreja”. E em outra oportunidade ele nos garante que “a unidade dos cristãos não é um ecumenismo de ‘marcha ré’, não obriga ninguém a renegar a própria história de fé; nem é possível tolerar o proselitismo que envenena o caminho ecumênico”. A CNBB alerta para o risco de se ter uma fé sem razão, que é o caminho mais curto para a intolerância e o fundamentalismo.

O tema da Campanha da Fraternidade se reveste este ano de um ecumenismo prático tendo por tema “Fraternidade e diálogo”. Ainda nos alerta a CNBB para um investimento grande numa comunicação dialógica. Quem combate a Campanha da Fraternidade é contra o diálogo. Está fechado em si mesmo. O Papa Francisco fala sempre na construção de pontes. Aproveita-se o tempo da Quaresma de 40 dias para o estabelecimento de novas pontes ecumênicas, na fraternidade e no diálogo. Nesse sentido, o objetivo atual dessa Campanha é de despertar a solidariedade dos fiéis das Igrejas do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs e da sociedade em geral para o problema concreto do diálogo.

Há muita diferença entre dialogar e conversar. Trata-se do desafio de se abrir ao outro, ao diferente de mim. Não se trata de uma conversa entre amigos. Isso é muito fácil. E também o diálogo na ótica da Campanha da Fraternidade entre as Igrejas não se caracteriza como técnica de convencer o outro para a nossa Igreja; não é proselitismo; não é “converter” o outro considerado como perdido.

Dialogar se coloca no rumo dos sonhos, da esperança, que toca cada pessoa com quem nos defrontamos. É também uma atitude de compreensão do diferente. Diante do outro nos colocamos em estado de abertura para sentir as suas expectativas, ouvir e compreender suas frustações. Estar a seu lado em suas tristezas e alegrias. Essas situações são muito diferentes das nossas conversas sobre futebol, sobre política, sobre fofocas, etc. Como tem faltado entre nós a atitude dialógica! No diálogo não apenas percebemos o outro em sua diferença e identidade, mas nos colocamos na postura de estar abertos para a sua descoberta.

Nossa mentalidade cotidiana naturaliza o outro e se nega a descobrir o que ele tem a nos mostrar. O ecumenismo que se estabelece no meio cristão fica mais rico na medida em que as próprias Igrejas que participam da Campanha da Fraternidade Ecumênica se colocam na postura da descoberta de cada Igreja. E isso somente se torna possível na medida em que levamos a sério nossa identidade cristã de sermos todos “irmãos”.

 

Sob esse aspecto a Campanha da Fraternidade desde o início em 1962, quando três padres da Caritas brasileira fizeram a primeira Campanha na Quaresma em Natal, Rio Grande do Norte, apontava para a dimensão social da fé. Como é tempo de jejum, a inspiração bíblica vem de Isaías 58, 6 que diz que o jejum que desejo “é soltar as correntes da injustiça, desatar as cordas do jugo, por em liberdade os oprimidos e romper todo jugo”. E continua de forma muito forte o texto bíblico. O jejum que o Senhor deseja “é partilhar sua comida com o faminto, abrigar o pobre desamparado, vestir o nu que você encontrou, e não recusar ajuda ao próximo”. Somente assim a luz irromperá como a alvorada e surgirá a sua cura. Nascia assim no nordeste brasileiro um ação profética que fortalecia ainda mais a fé no tempo da quaresma.

No ano seguinte, essa mesma Campanha se ampliava para 16 dioceses do Nordeste do Brasil. Em 1964 a Campanha da Fraternidade foi encampada por todo o Brasil, tendo como lema “Igreja em Renovação”, já sinalizando as mudanças que estavam acontecendo com o Concílio Vaticano II.

A Campanha da Fraternidade realizada de maneira ecumênica a cada cinco anos deve nos levar a compreender de modo irreversível o caminho da busca ecumênica, fruto de uma compreensão profunda no mistério da Igreja entendida como comunhão. Esse esforço deve estar presente na vida cotidiana das comunidades e dos indivíduos.

A campanha da fraternidade desse ano deve servir para abrirmos os horizontes na construção de tantas pontes que foram destruídas pelo ódio e pela intolerância, buscando construir uma civilização do amor, da justiça, da igualdade e da paz. Nada mais do que isso. 

Francisco é o primeiro papa ordenado sacerdote depois do Concílio, 1969. Estudou teologia bebendo das fontes de renovação da Igreja

Edebrande Cavalieri

Não é comum um Papa proferir um discurso extenso e duro, como o que foi dirigido no dia 24 de janeiro passado ao Escritório Catequético da Conferência Episcopal Italiana quando fez essa afirmação tão contundente e também tão óbvia de que o Concílio é magistério da Igreja, é ensinamento, e quem não segue não está na barca de Pedro. Por que motivo o Papa está falando assim e o que ele quer apontar como caminho para os cristãos católicos?

Francisco é o primeiro papa ordenado sacerdote depois do Concílio, 1969. Estudou teologia bebendo das fontes de renovação da Igreja. E agora enfrenta o desafio de conduzir a Barca de Pedro de acordo com esse grande ensinamento. Paulo VI dizia que o Concílio “será o grande catecismo dos novos tempos” e a tarefa da catequese está exatamente na busca de compreensão dos problemas que surgem do coração do homem para levar de volta ao dom do amor que cria e salva. Essa é missão da Igreja.

Esse discurso tão forte do Papa me lembra a história descrita em Atos 15 conhecida como Concílio de Jerusalém. A Igreja nascente estava dividida, cada um tentando levar para o seu modo de ver e agir, achando que esse seria o caminho da salvação. Parecia até uma briga política entre “esquerda e direita”, o grupo de Paulo e Barnabé e o grupo de Tiago. O foco da questão estava no quesito da circuncisão, considerada por um grupo como essencial à salvação, como se fosse uma doutrina, uma Lei canônica, um desígnio do Senhor, afinal estava escrito na Bíblia em Gênesis 17, 11: “Todos os do sexo masculino entre vocês serão circuncidados na carne”.

Os primeiros cristãos eram judeus e circuncidados conforme estabelecia a Sagrada Escritura, mas no momento em que o cristianismo se expande com o trabalho missionário de Paulo e Barnabé em territórios de população helênica, portanto não judaica, como proceder? Um grupo acha que o que estava estabelecido no Antigo Testamento deveria permanecer intocável como Lei para todos os povos. Mas por que considerar a circuncisão um dogma imutável indispensável para a salvação? Paulo é taxativo. Com Cristo nos libertamos de maneira total, e é preciso vigiar para não se submeter “novamente a um jugo de escravidão”. E completa de maneira incisiva: “Caso se deixem circuncidar, Cristo de nada lhes servirá” (Gl 5, 2). Como essa palavra de Paulo faz tanta falta nos dias atuais com tantos querendo impor jugos da escravidão superados com a vinda de Cristo!

Esse é um dos pecados que a Igreja incorreu em alguns momentos de sua história: considerar o que é transitório, o que faz parte da cultura, da história daquele momento, como algo dogmático, definitivo e derradeiro. Nos dias atuais tem diversos grupos se alinhando a essa forma de pensar o caminho da salvação. E recorrem às Leis e orientações de um passado bem remoto, anterior ao Concílio Vaticano II, aplicando aos dias atuais. Como é comum ouvir tantas pessoas dizendo: “Tá na Bíblia”! Eu sempre respondo que tem tantas coisas na Bíblia, especialmente no Antigo Testamento, que se tomarmos literalmente o texto sagrado ficaremos presos e perdidos com certas normas de conduta especialmente de cunho moral. Mas até líderes religiosos estão com preguiça de se debruçar sobre os textos e estudá-los seriamente. Tomam o caminho do fundamentalismo fácil, que serve apenas para exercício de dominação.

Na Igreja atual tem aumentado o número de pessoas e grupos querendo impor o próprio modo de ver, o próprio modo de pensar e viver o Evangelho para toda a comunidade, para todo mundo. E quando encontram pessoas que pensam e agem de maneira diferente logo chamam de “comunistas”, de “hereges”, etc. Nem o próprio Papa escapa dessas condenações. Alguns chegam ao ponto de negar o próprio Concílio dizendo estar ultrapassado. E ressuscitam Encíclicas de Papas do passado para impor um caminho restaurador. Fazem dessas coisas aplicáveis em tempos antigos código de normas e dogmas absolutos. Atacam o próprio Papa Francisco, timoneiro da barca de Pedro.

Volto novamente ao testemunho de Atos 15 que assim registra aquele encontro em Jerusalém: “Depois de muita discussão, Pedro levantou-se e dirigiu-se a eles: ‘Irmãos, vocês sabem que há muito tempo Deus me escolheu dentre vocês para que os gentios ouvissem de meus lábios a mensagem do Evangelho e cressem’”. Vejam que Lucas não esconde a tensão na assembleia. O clima esquentou mesmo. E observem o lugar de Pedro escolhido pelo próprio Jesus, que é o mesmo lugar do Papa em todos os tempos da história da Igreja.

A Igreja nascente aprendeu desde o início que o caminho da evangelização não é conduzido isoladamente por um apóstolo, por uma pessoa. O caminho é sinodal, é coletivo. E a decisão, tomada em conjunto e assumida pelo sucessor de Pedro, deve ser respeitada sempre, deve ser seguida. Todos os apóstolos se submeteram à decisão tomada em Jerusalém. Esse é o primeiro exemplo de sinodalidade da Igreja enfatizada intensamente no Concílio Vaticano II.

E ainda Lucas acrescenta que Deus não faz nenhuma distinção entre os judeus circuncidados e os pagãos não circuncidados. Pedro em seu discurso de encerramento é mais duro ainda com um dos grupos: “Então, por que agora vocês estão querendo tentar a Deus, pondo sobre os discípulos um jugo que nem nós nem nossos antepassados conseguimos suportar?” E logo toda a assembleia se calou, cada um colocando o rabinho entre as pernas. E o próprio Tiago que liderava o grupo que queria obrigar os pagãos à circuncisão conclui dizendo que “não devemos por dificuldades aos gentios que estão se convertendo a Deus”.

É assim que se caminha na Igreja. E não como aqueles que ao terminar o Concílio Vaticano II romperam com a Igreja pregando contra as decisões tomadas pelos padres conciliares. Até hoje há alguns herdeiros daquelas posturas radicais pós-conciliares e andam fazendo miséria no seio da Igreja. Não apenas pessoas, mas também grupos religiosos que se não negam abertamente o Concílio, o renegam em termos de caminho eclesial, prático, pois buscam desvios restauradores. Ou seja, ouvem o Papa, mas seguem caminho próprio e contrário ao Pontífice.

O Papa Francisco ainda precisa lembrar a todos nós que “o Concílio é magistério da Igreja. Ou você está com a Igreja e, portanto, segue o Concílio, e se não segue o Concílio ou o interpreta a sua maneira, a sua própria vontade, você não está na Igreja”. Não se negocia o ensinamento, o Concílio. E Francisco esclarece ainda mais: “Isso me faz pensar tanto num grupo de bispos que depois do Vaticano I foram embora, com um grupo de leigos, para continuar a ‘verdadeira doutrina’ que não era a do Vaticano I”. Nada diferente com o que aconteceu com um pequeno grupo no Concílio Vaticano II.

Por fim, Francisco fala mais diretamente ao Escritório Catequético: “A atitude mais severa para custodiar a fé sem o magistério da Igreja nos leva à ruina. Por favor, nenhuma concessão para aqueles que tentam apresentar uma catequese que não esteja de acordo com o Magistério da Igreja”.

Vania Reis  [email protected]   Semana passada vimos que o terapeuta familiar Bert Hellinger em seus estudos percebeu que o equilíbrio entre o dar e

Vania Reis

 [email protected]

 

Semana passada vimos que o terapeuta familiar Bert Hellinger em seus estudos percebeu que o equilíbrio entre o dar e o receber afeta não apenas as partes envolvidas na interação, mas o sistema familiar como um todo. O equilíbrio das trocas na interação, de qualquer tipo, é a base para a harmonia nos relacionamentos e a manutenção do equilíbrio do sistema familiar.

Vimos também que pelo fato de os pais terem dado a vida aos filhos, o equilíbrio desta relação não consegue acontecer. Não há como o filho compensar plenamente aos pais por suas vidas. Isso é natural. Berth aponta que o reconhecimento e a gratidão são as retribuições que mais do que possíveis, são necessárias para cada um poder ter uma vida plena. O filho precisa honrar, mostrar gratidão aos pais pelo dom da sua vida, se não quiser emaranhar-se em seu sistema familiar. Se estou emaranhada no sistema familiar, minha vida pessoal não se desenvolve plenamente, não anda! Falar em honrar parece fácil, mas se os pais foram abusivos, se houve estupro, maus tratos é muito difícil. O importante ter claro que esse filho/filha não precisa amar esses pais. O que é necessário é o reconhecimento que ele/ela não existiria sem eles. Honrar a origem não significa estar preso a esse relacionamento. É uma intenção racional de aceitar esse espaço, sem precisar necessariamente estabelecer qualquer outo vínculo, caso não se queira, o que não isenta o filho/filha de suas responsabilidades, como veremos adiante.

 

Nas relações familiares usuais, há diversos estágios que têm suas exigências de trocas próprias. De início, o bebê, totalmente dependente e igualmente passivo, só recebe. Neste momento não existe a troca entre pais/filhos, pois cada um só pode dar e receber aquilo que é capaz e o bebê pouco pode dar. Aos poucos surgem o sorriso, os sinais de satisfação e o aconchego. Para os pais são dias e noites, anos a fora, de dedicação, sonhos abdicados, necessidades reprimidas muitas renúncias fazendo parte deste pacote, e o amor vai sendo retribuído pelo desenrolar da vida.

 

Na adolescência normal, o equilíbrio muitas vezes é rompido porque na busca de sua identidade o adolescente usualmente rejeita a forma de dar dos pais, que, por sua vez, não perceberam a sua necessidade de individuação. A contestação é saudável e necessária, mas trabalhosa, quando não sofrida. Graças à Deus essa fase difícil, para as duas partes, passa.

 

A maturidade chega e usualmente é um tempo mais calmo, com menos trocas, porém, mais focadas nas necessidades específicas. Pais e filhos independentes e produtivos. A idade vai avançando e aos poucos, bem devagarzinho o equilíbrio entre o dar e o receber vai se rompendo novamente. Os pais vão se fragilizando fisicamente e os filhos têm dificuldade em perceber isso, exigindo dos pais o que agora pesa para eles. Quando fica evidente a fragilidade deles, muitas vezes confundem a debilidade física, a necessidade de andar mais devagar, de processar mais devagar as informações muito novas, com senilidade (entendida aqui no sentido social do termo e não clínico).

 

Neste processo de envelhecimento dos pais, os filhos podem querer comandar a situação, ignorando a opinião dos pais. A falta de tempo, a exigência de agilidade, de objetividade, de foco que estão impregnados no cotidiano da vida dos filhos são transportados para a relação com os pais. Aí vem a falta de paciência, sobram palavras ásperas, descaso quando não abandono e o desequilíbrio entre o dar e receber está estabelecido novamente. Quando os pais são dependentes financeiramente dos filhos a situação se agrava.

 

Começam a querer decidir pelos pais, a querer ter autoridade sobre eles. Não aceitam a diferença de visão, de valores. Alguns poderão até confrontar diretamente e desconsiderar a dignidade dos pais, desrespeitando as pessoas que estes pais são. Não simplesmente as pessoas que os pais foram, mas desconsiderar as pessoas que estes pais são agora (que, obviamente, é inseparável de quem foram no passado). Reconhecer a dignidade dos pais que envelheceram é crucial, mesmo quando esses estiverem totalmente senis. Isto é honrar os pais. E esta é a condição necessária para o filho sistemicamente poder ter uma vida tranquila. Assim, mesmo com pais senis, que esqueceram quem são, os filhos não podem esquecer. Honrar é tornar a vida deles tão dignas quanto se tivessem lúcidos.

 

Os filhos precisam nesta fase rever seus conceitos da mesma forma que seus pais tiveram que fazer na adolescência deles. Agora são os pais que muitas vezes sem conseguir retribuir, precisam ser cuidados, amados, não na condição infantilizada onde os filhos apenas simplesmente querem trocar de papéis com os pais. Não há troca de papeis. Pais são pais sempre. O que precisam agora é apenas serem cuidados, com amor, com carinho. Precisam ser compensados pelo que deram afetivamente aos filhos, honrando o lugar (hierarquicamente superior) deles.