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Na Exortação Apostólica pós-sinodal “Querida Amazônia”, o Papa Francisco nos apresenta quatro sonhos e um deles é o sonho eclesial que tem como características

Edebrande Cavalieri

Na Exortação Apostólica pós-sinodal “Querida Amazônia”, o Papa Francisco nos apresenta quatro sonhos e um deles é o sonho eclesial que tem como características a sinodalidade, a colegialidade, a inculturaçao, a participação das mulheres e a itinerância apostólica. E no que se refere à sinodalidade, Francisco nos aponta a necessidade de uma renovação na forma de estruturar as Igrejas locais em cada região e país. Um dos exemplos inspiradores da sinodalidade foram as comunidades eclesiais quando souberam integrar a defesa dos direitos sociais com o anúncio missionário e a espiritualidade.

Foi nesse espírito de renovação que o Conselho Episcopal Latino-americano (Celam) anunciou a caminhada sinodal rumo à Assembleia Eclesial Latino-Americana e Caribenha que acontecerá entre os dias 21 a 28 de novembro de 2021 na Cidade do México. O Papa Francisco anunciou no último dia 24 de janeiro essa grande novidade definindo-a como “um encontro do Povo de Deus”.

O Pontífice enviou uma mensagem para esse momento indicando dois critérios para a caminhada que nos abrirá novos horizontes de esperança. Que seja realizada junto com o povo de Deus, “que não seja uma elite separada do santo povo fiel de Deus”, pois somos parte desse povo e dele nascemos. É do povo de Deus “que surgem as elites, as elites iluminadas por uma ideologia ou outra, e esta não é a Igreja”. Essa questão é fundamental para os dias atuais em que grupos ideológicos, apoiados em visões de Igreja do passado que foram redimensionadas pelo Concilio Vaticano II, tentam impor seu próprio caminho como eclesial para toda a Igreja, muitas vezes, pondo em risco a própria unidade.

E nos esclarece ainda mais nessa mensagem. “A Igreja se dá no partir do pão, a Igreja se dá com todos, sem exclusão”. Ser Igreja é bem diferente de seguir uma escola filosófica, um guru iluminado, um astro de TV. Há uma diferença profunda entre o palco e o altar e ela está alicerçada na Eucaristia enquanto comungamos e nos encontramos como povo de Deus. O pão é para todos. “Uma Assembleia de Igreja é o sinal de uma Igreja sem exclusão”. A Assembleia Eclesial não pode ser um encontro de notáveis, como se fosse uma espécie de Congresso. A mesa da Palavra nos reúne e nos alimenta, e somente dessa forma pode ser dita Assembleia Eclesial. Ninguém deverá estar nessa Assembleia para apresentar os últimos resultados de uma pesquisa, mas para levar as vozes, as dores, os anseios, as esperanças do Povo de Deus.

O segundo critério que o Papa nos pede para levarmos em conta de maneira séria é a oração, pois “o Senhor está em nosso meio. Que o Senhor se faça ouvir, daí nosso pedido de que Ele esteja conosco”. Uma caminhada sinodal dará frutos na medida em que integrar esses dois princípios. A Arquidiocese de Vitória já fez uma experiência de caminhada sinodal de três anos por ocasião do I Sínodo Arquidiocesano concluído em 24 de agosto de 2009, que tinha como lema “Caminhar juntos na acolhida fraterna e na esperança”. Foi uma grande experiência de caminhada. Nada fácil, pois temos o hábito de caminhar sozinhos ou somente com quem anda na mesma direção e velocidade.

Essa caminhada que ora se inicia, seguindo esses princípios norteadores, será feita com três momentos fundamentais de preparação: a dimensão espiritual numa perspectiva de uma “mística da caminhada”, o momento da escuta do povo de Deus para que suas vozes possam repercutir no Encontro que acontecerá na Cidade do México.

Essa Assembleia é também uma retomada da reflexão sobre os importantes aspectos do Documento de Aparecida resultante da V Conferência Episcopal Latino-americana ocorrida em 2007. Dom Walmor de Azevedo, presidente da CNBB, nos lembra que assim concebida a Assembleia da Cidade do México se destina não a uma elite eclesial, mas “aos leigos e leigas, religiosas e religiosos, diáconos, seminaristas, sacerdotes, bispos, cardeais e pessoas de boa vontade”, que farão parte das mais diferentes formas deste grande evento eclesial.

Alguém poderia nos perguntar pela Conferência Episcopal. Ela continuará a existir, mas já demonstra uma reestruturação dotando-a de uma organização mais leve, mais flexível e eficaz. Desde setembro do ano passado, quando ocorreu uma reunião de todas as conferências que compõem o CELAM, essa organização eclesial apresenta-se na linha de renovação da Igreja desejada pelo Papa Francisco, promovendo “uma Igreja mais evangelizadora, missionária, sinodal e em saída”. O sonho dos participantes dessa reunião do ano passado era “tecer uma ‘rede de redes’, articular e integrar os organismos eclesiais e fortalecer as alianças institucionais para que, numa chave de colegialidade e sinodalidade missionária, se promova uma conversão integral, descentralizada e profética na Igreja na América Latina”.

A retomada de Aparecida é muito significativa, configurando “uma proposta restauradora e regeneradora”, que se expande além do perfil episcopal para se tornar sinodal. Não se trata de revisar Aparecida, mas incorporar nesse momento a caminhada do povo com maior presença. Muitas vezes, quem está à frente de uma determinada comunidade se esquece que tem pessoas que caminham devagar, alguns quase parando, outros correm. Aparecida representa uma caminhada extraordinária, com um enorme apelo de renovação da vida da Igreja em nosso continente, como discípulos missionários. Agora a Assembleia que acontecerá na Cidade do México quer continuar essa caminhada de Aparecida com maior força sinodal, com todo o Povo de Deus caminhando junto.

Segundo dom Odilo Scherer, vice-presidente do CELAM, essa assembleia é uma oportunidade de “recordação dos principais pontos da Conferência de Aparecida, que ainda talvez precisam ser destacados mais e ser retomados”. Na verdade, essa Assembleia está fincada no Magistério do Papa Francisco não apenas retornando ao Documento de Aparecida em que teve papel destacado como redator, mas avançando com novos caminhos, para uma Igreja de discípulos missionários, rumo ao sonho de uma “fraternidade universidade e amizade social”.

Aparecida foi muito marcante na vida da Igreja Latino-Americana em diversos aspectos. A metodologia adotada acabou trazendo o povo para bem pertinho. Todas as manhãs a Conferencia de Aparecida se iniciava com uma Eucaristia da qual participavam as multidões de fiéis no Santuário. E foi exatamente no dia 16 de maio, quando o Cardeal Bergoglio que era o principal redator do Documento concluía sua homilia ele foi aplaudido por toda a assembleia, algo não comum nas celebrações. Aquele aplauso que ecoou pelo Santuário despertou em muitos a consciência de que algo muito importante havia sido dito e o povo de Deus tinha entendido.

Talvez muitas comunidades ainda não tenham se dado conta da importância do evento que ocorreu em Aparecida em 2006. O próprio Bergoglio confessa que na redação daquele documento já estava cansado de tanto ouvir falar da Amazônia e se perguntava: “O que a Amazônia tem a ver com a evangelização?” Em 2015, ao publicar a Laudato Si’ confessa: “Eu tive um caminho de conversão, para entender o problema ecológico. Antes eu não entendia nada”.

Desta forma nasce a Assembleia Eclesial da América Latina e do Caribe, colocando-se na esteira da Evangelii Gaudium dando um novo impulso às Conferências Episcopais e retomando a visão do Concílio Vaticano II. Será um tempo de conversão e renovação. Abre-se o caminho a nossa frente! Um horizonte a ser desbravado, não por aventureiros isolados, ou pelos que se acham os melhores conhecedores do caminho, mas pelo Povo de Deus peregrino. 

O egoísta é reconhecido em qualquer lugar como sendo aquele que privilegia exageradamente ou até exclusivamente seus próprios interesses acima dos interesses de outros.

Vania Reis

O egoísta é reconhecido em qualquer lugar como sendo aquele que privilegia exageradamente ou até exclusivamente seus próprios interesses acima dos interesses de outros. É perfil tão conhecido no nosso cotidiano que não precisaos maiores introduções. Ninguém gosta de conviver com um egoísta. Vamos tentar entender essa dinâmica nas relações familiares.

Analisando grupos sociais Bert Hellinger, psicoterapeuta alemão que desenvolveu a teoria da Constelação Familiar, percebeu que uma relação harmoniosa só acontece quando cada parte compartilha o dar e o receber de forma equilibrada. Esse dar e receber pode ter a mais diversa configuração: atenção, cuidado, carinho, compreensão, tempo, dinheiro, proteção, paciência, reconhecimento, acolhimento, enfim a necessidade do outro. Uma relação assim, onde cada um dá e recebe aquilo que é capaz, é uma relação que promove o amadurecimento e dá espaço para a liberdade e a satisfação mútua. Só assim o sistema familiar (como qualquer outro) se mantém em ordem, em equilíbrio, e é por ser  tão importante que Hellinger o colocou como uma “lei sistêmica: a Lei do Equilíbrio de Troca” que é fundamental para as relações que se quer harmoniosas. 

Quando em qualquer relacionamento existe esse equilíbrio, existe satisfação, não importa se na relação de casais, de irmãos, de amigos, de sócios ou de parceiros de trabalho. Se há desequilíbrio o que deu em excesso, sente-se no direito de cobrar ou considera o outro ingrato se este deixa a relação. O que recebeu em excesso se sente diminuído em sua dignidade, em dívida, aprisionado por essa dívida. Quando recebe mas não dá ao outro – e aqui se enquadra o egoísta – surge o ressentimento. Quando uma das partes acaba dando muito mais do que a outra possa retribuir surgem os conflitos.

Aqui tem um ponto importante: preciso distinguir o egoísta daquele que não pode retribuir. Não posso exigir do outro o que ele não tem para dar. Se meu parceiro teve uma criação muito seca afetivamente ele criou mecanismos para sobreviver à essa carência. Se ele não sabe expressar seu carinho com palavras, não adianta eu reclamar que ele não me elogia.  Ele só pode dar o que recebeu, só pode retribuir o que tem. Compreendendo essa dinâmica a relação se torna mais harmônica, amadurecida uma vez que entendo que precisarei abrir mão desta necessidade. Mas se ele não consegue dar o afeto de outra forma, cabe a reflexão se esta é uma relação que quero estimular. Disto resulta a liberdade de escolha e a satisfação final

O equilíbrio perfeito entre o dar e o receber leva ao “saldo zero” nesta troca e assim não tem movimento. O que permite a vida e os relacionamentos é a busca do equilíbrio, não o equilíbrio em si. Assim sempre se balançará na busca deste equilíbrio imperfeito. Só há uma relação que esse equilíbrio não consegue acontecer: na relação pai e filhos. Pais deram a vida aos filhos e isso é algo que não se pode compensar/retribuir a altura. O reconhecimento e a gratidão são as retribuições possíveis e necessárias para cada um poder ter uma vida plena. Mas sobre isso conversaremos semana que vem.

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Desde o final do ano passado quando as notícias de feminicídios tomavam conta dos noticiários e das redes sociais, passamos a elaborar esse artigo

Edebrande Cavalieri

Desde o final do ano passado quando as notícias de feminicídios tomavam conta dos noticiários e das redes sociais, passamos a elaborar esse artigo sobre o mesmo assunto tentando expor a situação em que se encontra o Brasil em relação à violência contra a mulher e como a Igreja Católica em seu Magistério, de modo especial a Doutrina Social da Igreja, apresenta os principais fundamentos na defesa da dignidade da mulher.

Foi na homilia feita no dia primeiro de janeiro de 2020 que o Papa nos brindou com uma reflexão que parecia prenunciar para nós brasileiros como chegaríamos ao final desse mesmo ano. A morte da juíza Viviane Vieira do Amaral no momento em que levava as filhas para passarem o Natal com o pai assassino mostrou a escalada da violência contra a mulher no Brasil de forma tão cruel. E logo foram noticiados tantos feminicídios país a fora.

O feminicídio é todo crime contra a mulher decorrente de sua condição de mulher e desde 2015 é considerado pelo Código Penal Brasileiro como crime hediondo. Tem crescido muito. Conforme o Anuário da Segurança Pública calcula-se uma média de três mortes por dia. Trata-se de uma das chagas mais dolorosas, mais sangrentas e mortais dos dias atuais. Segundo Dom Pedro Brito Guimarães, bispo de Palmas, “o feminicídio é a hemorragia do nosso tempo”.

Na maioria dos casos as mulheres assassinadas já haviam apresentado denúncias contra seus agressores, como foi o caso da juíza que teve um tempo sendo escoltada. A violência de gênero é produzida geralmente sob forma de violências físicas e sexuais por parte de seus companheiros, ex-companheiro, namorados, ex-namorados; enfim, são essas pessoas tão próximas que acabam sendo os grandes executores da violência contra a mulher que culmina com sua morte. E muitas delas não denunciam com medo de morrer; e morrem mesmo assim.

Os autores desses crimes hediondos geralmente não lidam bem com suas frustrações, suas perdas, não aceitam um “não” da companheira ou mesmo não aceitam o fim de um relacionamento. A situação se agrava ainda mais com o aumento de armas de fogo nas residências. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, no período de 2013 a 2018 houve um crescimento de 25% de assassinatos de mulheres com armas de fogo.

A violência contra a mulher traz consigo outro dado preocupante: o aumento de crianças e jovens órfãos de mãe porque morreu, e de pai porque ele tá preso e perde a guarda quando sai da prisão. Crianças e jovens são as vítimas que se juntam à mãe assassinada. No Brasil calcula-se que por ano são em torno de 2.000 órfãos nessas circunstâncias.

Muitas questões podem ser feitas a partir dessa realidade cruel, verdadeira profanação de Deus. O Papa Francisco em meados de abril de 2020 alertava sobre o aumento da violência de gênero durante a pandemia da Covid-19. Interessa-nos aqui abordar de maneira sintética o posicionamento da Igreja a respeito da mulher em sua Doutrina Social.

Para assegurar a dignidade humana (nº 145), conforme nos diz a Carta de São Tiago, é necessário assegurar as mesmas condições de igual oportunidade entre homens e mulheres. Não cabe no contexto bíblico uma orientação moral limitando os estudos da mulher porque o homem é a cabeça da família. Esse moralismo machista é formador de todo tipo de discriminação. A dignidade da pessoa é o primeiro ponto do Ensino Social.

No parágrafo seguinte a Doutrina Social da Igreja nos diz que há um específico masculino e feminino, que são diferentes, determinando a identidade pessoal própria da mulher e de recíproca complementaridade. Ou seja, homem e mulher não são iguais. A igualdade que se fala se refere aos direitos. Não é a mulher um complemento de uma totalidade chamada homem, como se fosse um pedaço, mas os dois se completam de maneira equivalente.

São complementares em termos de realização. Não há uma superioridade do masculino sobre o feminino. E afirma: “A mulher é o complemento do homem, como o homem é o complemento da mulher: mulher e homem se completam mutuamente, não somente do ponto de vista físico e psíquico, mas também ontológico” (n. 147). Os dois formam uma unidade, baseada na “lógica do amor e da solidariedade”.

Outro aspecto ainda cabe ressaltar: o lugar da mulher no mundo do trabalho, área que pareceria exclusiva dos homens, que tantas vezes negam inclusive o valor do próprio trabalho doméstico. Vejamos então como a questão do trabalho toca a realidade feminina.

Conforme o Ensino da Igreja, compete à sociedade garantir o acesso a uma formação profissional às mulheres, seja qual for. Nesse aspecto a organização do mundo do trabalho deve levar em conta a dignidade e a vocação da mulher, de modo que “ela não se veja obrigada a pagar a própria promoção com o ter de abandonar a sua especificidade e com detrimento da sua família”. É o caso da mulher que tem dupla ou tripla jornada de trabalho. E são tantas nesse Brasil a fora! Por exercer uma profissão a mulher não pode ser obrigada a abdicar da maternidade. A forma como a sociedade trata a mãe trabalhadora é o espelho de como se caracteriza a qualidade dessa sociedade e a efetiva tutela das mulheres ao trabalho. É preciso romper com todas as formas de discriminação ofensiva da dignidade e vocação da mulher, inclusive no que diz respeito a sua remuneração.

O Ensino Social se refere a um conjunto de adversidades em relação à mulher nesse aspecto na humanidade atual. Há inúmeras situações de discriminação, de marginalização e até de escravidão de mulheres. No Brasil ainda se acrescenta o grande o tráfico de mulheres para outras partes do mundo para servirem de prostitutas. O Ensino Social nos chama a atenção: “Há urgência de um efetivo reconhecimento dos direitos das mulheres no trabalho” em termos de remuneração eguivalente a do homem na mesma função, de segurança e proteção e de garantia previdenciária.

Assim não é da competência da Igreja resolver o problema da violência contra as mulheres, mas dar a sua contribuição na formação das pessoas, homens e mulheres, desde a catequese com as crianças. A reprodução dos diversos tipos de machismo acontece nas salas de aula e nos encontros de catequese, além da própria família. Trata-se de uma trabalho educativo para harmonizar e humanizar as relações entre homem e mulher. 

A orientação da Igreja é muito clara. A violência contra a mulher é uma profanação de Deus, cujo filho se encarnou a partir do corpo de uma mulher. Nosso nível de humanidade e de fé cristã é medido pela forma como tratamos o corpo da mulher. O Papa nos diz: “Muitas vezes as mulheres são ofendidas, espancadas, violadas, induzidas a se prostituírem […] Se queremos um mundo melhor, que seja uma casa de paz e não tribunal de guerra devemos todos fazer muito mais pela dignidade de cada mulher”.

Conforme Dom Pedro Brito, “o pior de um homem é matar uma mulher que não o quer mais como companheiro”. Aqui está o grande desafio pastoral para a Igreja. Temos visto que muitas pregações propõem para a mulher apenas o caminho da oração e da submissão. Será que é isso que Deus quer? O projeto de Deus está bem claro nas palavras de Adão, logo que viu pela primeira vez sua mulher: “é osso dos meus ossos e carne da minha carne”.

A defesa do matrimônio a qualquer preço pode incorrer num grave erro, decorrente de um estudo mais profundo daquela relação violenta. Aquele matrimônio pode ter sido nulo desde o início da relação. Nos encontros preparatórios para o matrimônio, que deveriam continuar sob a forma de acompanhamento pastoral, o maior tempo deveria ser investido no ensino para o amor. E nos casos de relações desfeitas, decorrentes de processos nulos, em vez de se pautar a disciplina condenatória, o melhor caminho deveria ser ensinar principalmente aos homens a começar um novo relacionamento amoroso de verdade.

Enfim, a questão da violência contra a mulher não pode ser mais postergada ou silenciada. O feminicídio é uma tragédia que precisa ser estancada. Deve ser enfrentada em várias frentes, e o caminho religioso nos parece ser fundamental para eliminar a profanação do nome de Deus com o sangue derramado de tantas mulheres.

Início de ano sempre queremos renovar, mudar de vida, ter o foco certo e superar, de alguma maneira, as nossas deficiências ou necessidades.

Vania Reis

Início de ano sempre queremos renovar, mudar de vida, ter o foco certo e superar, de alguma maneira, as nossas deficiências ou necessidades.

Difícil achar uma pessoa que não pense assim. Claro que há os pessimistas que não acreditam que podem mudar algo e nem tentam. Nós que ou somos otimistas ou acreditamos que após ter muita clareza do que queremos e porque queremos podemos alcançar nossos objetivos, usualmente arregaçamos a manga e nos colocamos em movimento atrás destas mudanças, destes objetivos.

Por vezes o desafio é grande porque temos hábitos arraigados, que com dois ou três dias  de resolução de Ano Novo,  esses hábitos teimam em retomar as rédeas de nosso cotidiano e, quando você vê seus objetivos estão indo por água abaixo. Olhamos a meta que queremos alcançar e achamos que isto é suficiente, que basta querer e pouco ou nada fazemos de concreto.

Claro que não vamos conseguir. Sem estratégias eficazes, não chego aonde quero. Vou dar um exemplo: quero equilibrar as minhas finanças, mas não anoto meus gastos, não tenho agenda para me lembrar de pendências, não planejo os gastos futuros já devidos (IPTU em março, Imposto de Renda em abril ou maio, emplacamento do carro conforme a placa em julho, agosto…), enfim, são tantos! Se não me preparo, não consigo chegar lá, vou me descontrolar financeiramente e, adeus meta!

O nosso cérebro é super eficiente em nos proteger de ameaças, por isso quando nos deparamos com um conflito (continuando no exemplo escolhido), quero fazer tal coisa e meu dinheiro não dá para assumir esse gasto e, para resolver o conflito, “esqueço” a parte do problema que me impede de realizar meu desejo (e esquece mesmo). Assim o problema fica “resolvido” na minha cabeça e me desfaço do conflito. Ao esquecer que aquele dinheiro não podia ser gasto pois já havia uma despesa já prevista, e gastei no que não podia, o problema se instala. Mas se anoto todos os meus gastos e ponho a cabeça para funcionar vou descobrir onde posso diminuir minhas despesas ou, se já estou no limite, que estratégias preciso buscar para aumentar minha renda/receita para enfrentar o problema.

Qual é o nosso foco aqui? Mostrar a engenhosidade do nosso cérebro, que se deixarmos agir sozinho, anda na mesma trilha de sempre. Se quero mudar de vida, tenho que mudar meus hábitos relacionados ao problema.  Outro exemplo de estratégias concretas, práticas para alcançar metas. Trabalhar em casa na pandemia trouxe inúmeras mudanças e a facilidade de beliscar algo enquanto se está trabalhando é fácil de acontecer e, lá vem os quilos extras. Quero emagrecer, mas aqui não dá muito para esquecer que estou gordo(a). Preciso mudar meu hábito alimentar. Estratégias concretas que poderiam ser adotadas: não comprar petiscos que engordam, comer em prato menor que o habitual para diminuir a quantidade a ser ingerida, não segurar o garfo enquanto mastiga (deixa descansando no prato) para espaçar mais a comida, ou algo mais drástico como por exemplo por uma foto sua bem “ruim” na frente do armário de alimentos ou da geladeira.  Então, ao ter uma meta pessoal eu preciso mudar concretamente meu cotidiano e preciso me lembrar constantemente deste desejo. Preciso de algo físico concreto que vai me lembrar do meu compromisso comigo mesmo, para tirar os hábitos “do trilho”. Mas não é só em estratégias que você precisa focar. Antes de tudo preciso ter clareza do que estou buscando. Esse é o ponto central.

Nossos anseios por uma vida melhor precisam ser bem pensados. Em minhas palestras ensino um modo de fazer um mini planejamento estratégico pessoal simples, e convido você a fazê-lo. Você vai gostar!

Primeiro encontre um lugar calmo, coloque uma música instrumental e procure um relaxamento gostoso. Então vá se perguntando:

* Qual o meu sonho/desejo/meta? O que quero para meu futuro?

* Porque desejo/quero isso? Qual meu objetivo íntimo? O que espero alcançar com isso?

*  É só com esse sonho que alcançarei esse objetivo? Se não, de que outra forma posso atingir meu objetivo?

* Quando quero que se realize meu desejo?

* Se acontecesse hoje a realização desse desejo estaria pronta para receber?

*  Como posso conseguir alcançar o que desejo (que estratégias precisarei)?

Sabendo o que busca, porque busca e de que forma buscar você amplia muito as suas chances de alcançar o que você deseja! Então, agora pode ir em frente!

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O próprio Papa anunciou no final de semana passada que irá se vacinar nessa semana juntamente com toda a população do Vaticano. A data

Edebrande Cavalieri

O número de mortes causados pela Covid-19 ultrapassou a casa das 200.000 mortes e vemos no mundo todo um movimento em torno da vacinação da população. E o próprio Papa anunciou no final de semana passada que irá se vacinar nessa semana juntamente com toda a população do Vaticano. A data já está marcada para ele. E nos diz: “Acredito que do ponto de vista ético todos devem ser vacinados”. E ao mesmo tempo se entristece afirmando que “há um negacionismo suicida que não consigo explicar”.

Aqui no Brasil a CNBB emitiu sua primeira mensagem de 2021 com o título “Unidos e responsáveis rumo ao novo que desejamos”, trazendo 11 pontos de reflexão em torno da vacinação. O próprio Presidente da CNBB fez uma vídeo enviado a todos com essa mensagem de compromisso da Igreja no combate à pandemia.

Estamos nas trilhas do Magistério em relação à pandemia. Trata-se de uma orientação ética que inclui toda a humanidade e a condenação das posturas negacionistas. Vamos então apresentar alguns pontos que nos parecem fundamentais nessa condução, esclarecendo o que vem a ser a atitude negacionista e o que significa postura ética.

O negacionismo nasce de situações de instabilidades culturais e de modo bem preciso entre nós se apresenta contestando a ciência em relação à imunização através de vacinas; em relação às pandemias nega seu alcance e assim transforma o número de mortes como irrelevante e repudia os resultados das pesquisas a respeito do aquecimento global.

Dessa forma essa postura se nega a acreditar nos fatos como forma de escapar deles, e sustenta-se em teorias e discursos conspiratórios, muitas vezes se servindo dos próprios autores ligados ao fato. Portanto, é comum encontrarmos algum médico que nega o alcance da pandemia e o valor da vacinação como forma de controle da pandemia. As redes sociais infelizmente serviram para o compartilhamento de muitas inverdades científicas, muitos discursos apoiados em fake News, prejudicando muito o enfrentamento da Covid-19.

Há uma espécie de negacionismo inclusive entranhado em algumas religiões ou Igrejas, com padres ou pastores proferindo homilias baseadas em teorias e discursos conspiratórios. Tentam desconstruir a condução sanitária que a humanidade está se propondo para vencer a pandemia e estagnar o número de mortes. Uma religião que não serve à vida não serve para mais nada e no caso cristão nega o próprio Evangelho de Jesus Cristo que diz que “veio para que todos tivessem vida”.

Sempre que se fala de ética estamos fugindo da perspectiva individualista de comportamento. É comum a postura negacionista dizendo que “ninguém me obriga a tomar vacina”. Sendo uma questão ética, não temos como escapar do compromisso social, pois “nenhum homem é uma ilha”, dizia Thomas Morus. Na convivência social e comunitária os homens se realizam e podem ser felizes.

A vacina traz esperança, mas não o fim da pandemia. Não podemos nos descuidar da saúde pública. Então a vacinação é um fato social, e também um laço social, pois implica cada um de nós e não uma pessoa isoladamente. Por isso a vacinação é uma questão ética. Os Bispos do Brasil nos alertam que “Não podemos nos render à indiferença de alguns, negacionismos de outros ou à tentação de nos aglomerarmos” alimentando ainda mais o processo de contágio e aumentando o número de mortos. É preciso preservar a vida de todas as formas possíveis. É preciso que cada um de nós seja vigilante nisso.

O tamanho de vidas perdidas, com tantas famílias enlutadas, exige de todos um caminhar junto e solidário. A luta para se vencer a pandemia depende da união e cuidado e a vacina que chega deve ser para todos. Por enquanto três grupos estarão de fora da vacinação: crianças, adolescentes e gestantes. Mesmo após a pessoa ser vacinada os cuidados permanecem, pois a pessoa pode transmitir a infecção. Desta forma, a questão ética do cuidado se estende ao longo do tempo. As vacinas salvarão vidas, mas irão demorar meses e até anos para diminuir a transmissão e o contágio, e dependem da colaboração da própria população.

Os Bispos do Brasil nos orientam no sentido de seguirmos como princípios de ação a justiça, a solidariedade e a inclusão. Esses são os critérios que devem nortear o processo de vacinação. A ainda mais atenção deve ser dada aos vulneráveis de nossa sociedade.

O movimento dos laboratórios privados em importar a vacina somente se sustenta do ponto de vista ético se isso não representar uma vacinação antecipada para quem tem dinheiro e nem de levar os Governos (Federal, Estadual e Municipal) a abdicarem de sua responsabilidade social com toda a população. Contudo, o direito que a classe mais favorecida entende ter deveria ser investido na exigência de vacinas para todos, independentemente da situação socioeconômica.

Sendo uma ação ética, a dimensão política não pode estar fora desse movimento social. Os governantes das três esferas de poder (Federal, Estadual e Municipal) devem pautar a ação política de maneira integrada seguindo os critérios éticos acima apontados e as orientações técnicas das autoridades sanitárias do mundo da ciência.

E essa visão ética da vacinação também está fundamentada na perspectiva científica. Uma das maiores autoridades mundiais em saúde coletiva e referência em estudos epidemiológicos, Doutora Ethel Maciel, nos diz que a “vacina não é remédio, é uma estratégia coletiva. Pois se você comprar e se vacinar e todo o seu entorno não vacinar, o vírus pode fazer uma mutação e sua vacina não servir para nada. Dinheiro jogado fora”.

A humanidade toda deve caminhar nessa perspectiva ética de responsabilidade e compromisso coletivo. E Ethel completa: “Porque se alguém em algum lugar ficar sem vacinação e o vírus fizer uma mudança em sua estrutura, todo o esforço será perdido. Precisamos do maior número em todos os lugares vacinados. Imunidade coletiva”.

Desta forma, as palavras duras do Papa Francisco ganham a maior seriedade e deve ser levada em consideração por todo mundo. O “negacionismo suicida” acaba se tornando uma nova pandemia, um novo coronavírus, “porque você não só põe em risco a sua saúde, a sua vida, mas também a dos outros”, explicou bem claramente o Papa. Não tem nenhum sentido as pessoas que nasceram e cresceram experimentando os mais diversos processos de vacinação, sempre apresentando a “carteirinha comprobatória” nas escolas, agora formando um grupo ideológico negacionista da vacinação. Não há como explicar tamanha ignorância e falta de compromisso ético.

Os Bispos do Brasil, diante de uma humanidade adoecida pela pandemia, nos alertam que a cura somente acontecerá se caminharmos unidos, tendo a solidariedade como princípio, na defesa do direito de todos à oportunidade de se vacinar. Dessa forma, a fé cristã não escapa do agir ético e qualquer outra forma de conduzir a ação pastoral fica em desfalque com o Evangelho de Jesus Cristo. Vamos nos cuidar solidariamente!

É muito comum às pessoas emocionalmente frágeis se protegerem com defesas emocionais rígidas. Com o passar do tempo essas pessoas vão se tornando inflexíveis,

Vania Reis

Assistimos de certa forma atônitos o triste espetáculo da invasão da sede do Congresso Americano por radicais, apoiadores de Trump, que tentavam impedir a certificação do resultado da eleição dando a vitória ao Presidente Joe Biden e que resultou em quatro mortos. Não tem como negar a incitação do Presidente Trump no processo. As consequências virão.

Várias análises podem ser feitas, mas vamos despersonalizar parcialmente a figura do Trump e focar na categoria em que ele se colocou: uma pessoa que não sabe perder.  Trump não só não soube perder como criou uma narrativa para evitar se confrontar com um fato simples: ele errou. Quando Trump tinha o programa de televisão que o fez famoso, demitir sem piedade quem errou era a sua marca. A história de vida de Trump mostra que ele já viveu diversas vezes fracassos, mas lidar com um fracasso frente ao mundo todo, para a autoimagem dele é absurdamente crítico.

As defesas emocionais comuns aos que escolhem esse caminho são várias. Vamos pinçar duas:

É muito comum às pessoas emocionalmente frágeis se protegerem com defesas emocionais rígidas. Com o passar do tempo essas pessoas vão se tornando inflexíveis, se irritam com qualquer tentativa de rever suas posições. Reagem cada vez mais forte, de forma a repelir os que se aproximam com uma visão de mundo diferenciada. Pela agressividade se defendem e comportam-se facilmente como “ogros”, sem qualquer sentimento de culpa, por suas ofensas.

É igualmente comum às pessoas soberbas ter uma autoestima frágil. Para se protegerem, se apoiam em poder e símbolos de poder externos. Por ser um “recurso externo”, temem perder esse poder, pois sem eles a pessoa se desnuda. Não sabem perder pois não sabem conviver com as suas fragilidades. No caso do Trump a irracionalidade gerada pelo medo da eminente perda de poder o fez criar a narrativa de fraude, que coloca no outro o problema. Cercado por pessoas que igualmente se sustentam com a mesma lógica, não houve voz dissonante que tivesse permanecido no poder, ao seu lado. Sem voz moderadora por perto, Trump acreditou na narrativa que ele criou. Uma suposição nos primeiros momentos da apuração, que poderia ser razoável, foi ganhando força de “escudo do seu fracasso” e tornou-se tão fora da realidade que passou a ser doentio. Há uma frase muito conhecida entre os alunos de psicologia que delimitam jocosamente o limite entre a neurose e a psicose: “O neurótico é aquele que cria castelos; o psicótico é aquele que vive neles”. Trump passou a “morar” em sua fantasia.

Mas, deixemos de lado essa linha de análise. Não é o nosso foco.

Qual foi o erro conceitual de Trump? Aponto um que registro como estratégico: considerar o erro como gerador de fracasso. A história humana é fruto de uma imensidão de erros e de suas consequentes aprendizagens. É com os erros que, uma vez revistos e reconsiderados pelo processo de aprendizagem, nos permitem os saltos em desenvolvimento. Só errando 999 vezes que Thomas Edison foi capaz de descobrir como fazer a lâmpada elétrica. Para reconhecer que errou, Trump teria que ter humildade. Sua estrutura emocional não deu conta de abrir essa brecha, então só resultou culpar o outro ou o “establishment”.  Ser humilde, há muito, não é opção para Trump.

Sei que você vai me dizer: mas perder não é bom mesmo! Claro, todos queremos fugir de erros, aí vamos para a segunda falha estratégica do presidente americano: não conseguir conviver com pessoas e vozes não-espelho, ou seja, com quem não pensa como ele. Precisamos de uma visão abrangente para analisar um problema. Se olho só para um aspecto, não avalio as possibilidades e riscos que são de outro aspecto que não estou vendo. Se não tenho essa visão abrangente, minha possibilidade de errar é bem maior. Os arrogantes, os “ogros”, precisam de certezas, essas reforçam o poder deles, quando vão se tornando mais rígidos, não suportam que apontem o que ele não vê e assim ele descarta a visão do outro.

E é aí que saio da metáfora que a invasão do Congresso Americano nos proporcionou e vou para nossas famílias. A polêmica criada entre “o nós” e “o eles” no Brasil trouxe a discussão dos extremos para dentro de nossas casas. Convivendo mais de perto por causa da pandemia, os conflitos ampliaram. Para preservar os afetos, os guardiões da paz de cada família impuseram regras de “convivência” mútuas. Assim no Whastapp, por exemplo, muitas famílias acertaram que nenhum membro da família pode falar de temas polêmicos (em especial política). Por outro lado, empresas como Facebook, Google e outros fazem suas operações comerciais com as nossas informações e os algoritmos mandam notícias em cima de nossos interesses. Desta maneira, cada vez mais são desligadas as vozes dissonantes do nosso cotidiano. Reforçados pelos dois lados (proibição de discutir problemas e reforço diário de minhas opiniões), as pessoas, cada vez mais, se tornam mais convictas de suas posições, assim se tornam mais rígidas, mais irritáveis e intolerantes, pois não criam espaços para o contraditório, opiniões divergentes, que não espelham o que a pessoa sente, afinal “Narciso acha feio tudo que não é espelho”.

Poucos são espiritualizados bastante para, sem maiores elaborações, entender e aceitar que perder pode ser até muito bom.  A grande preocupação é que a radicalidade passe a moldar nossas mentes, e assim diminuir nossa capacidade cognitiva e nos tornar menos felizes. Outra frase bem conhecida: O importante não é o erro é o que você faz com o erro. A experiência do fracasso pode me fazer crescer ou me abater e jogar na lona: a escolha é sua!

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Olhando retrospectivamente o ano que passou, marcado especialmente pela pandemia, e projetando o novo ciclo que se inicia, o Papa Francisco em sua celebração

Edebrande Cavalieri

Olhando retrospectivamente o ano que passou, marcado especialmente pela pandemia, e projetando o novo ciclo que se inicia, o Papa Francisco em sua celebração do dia primeiro de Janeiro, Dia da Paz, nos aponta a direção para o novo ano. Ele nos diz: “Além da vacina do corpo é necessária a vacina do coração: o cuidado”.

Diante da pandemia temos visto tanta indiferença com os problemas dos outros, com a dor das pessoas até próximas e da própria família. Temos visto como é essencial nos preocuparmos com os problemas dos outros, com as preocupações e dores sentidas pelo nosso próximo. Mas a insensibilidade tem crescido. A ação de se aglomerar de maneira irresponsável nas mais diversas formas é uma demonstração concreta da falta de cuidado, de respeito.

Nas Igrejas somos orientados corretamente sobre o ato de não nos abraçar nas celebrações, mas saindo daí tudo parece permitido. Tem-se a impressão que só precisamos respeitar e cuidar do outro no momento em que rezamos a Deus. Depois tudo parece ser permitido. E o Papa nos alerta: “Neste ano, enquanto aguardamos um renascimento e novos tratamentos, não negligenciemos o cuidado” tanto em relação à vacina para o corpo como a vacina para o coração.

Em outra celebração nesse início de ano, o Papa nos diz que parece que ninguém mais ouve a voz que clama no deserto, pois vivemos uma crise de fé. Todo mundo diz que crê em Deus, é cristão, é de uma determinada Igreja, “mas a sua vida está muito distante de ser cristã, muito longe de Deus”. Crer implica em converter o coração. E o cuidado é de maneira concreta a expressão dessa conversão.

A conversão através do cuidado é bem complexa e ampla. Tanto se refere ao cuidado que temos de ter conosco, como do cuidado dos outros, do mundo, da criação. “Pouco aproveita conhecer muitas pessoas e muitas coisas”, tendo milhares de seguidores nas redes sociais e conhecendo o mundo, “se não cuidarmos delas”, diz-nos o Papa.

Então é preciso mostrar que se é cristão convertido dentro da própria casa, com pai cuidando da família, com filhos cuidando dos pais. A vacina contra a Covid-19 não será suficiente para melhorarmos a sociedade. Inclusive muitos se negam ao cuidado no tratamento e prevenção da pandemia por razões ideológicas. Muitos revelaram um egoísmo enorme pouco se importando com o uso de máscara onde era preciso e não mantendo o distanciamento recomendado. Assim aglomerados, sem máscara e sem responsabilidade essas pessoas se tornaram responsáveis em grande parte pelo elevado número de pessoas infectadas e mortas.

O maior exemplo de cuidado está representado na figura de Nossa Senhora que cuidou do seu filho até a morte e hoje cuida de cada um de nós. O cuidado de mãe é redentor. Maria de Nazaré, mãe de Deus, é o modelo central do cuidado redentor.

Que o novo ano nos converta também para o “bendizer, em nome de Deus”. Segundo o Papa, “o mundo está gravemente poluído por falar mal e pensar mal dos outros, da sociedade, de nós mesmos. De fato, a maledicência corrompe, faz degenerar tudo, enquanto a bênção regenera, dá força para recomeçar”.

A conversão do coração implica uma atitude semelhante a das mulheres que são capazes de “tecer os fios da vida”. Pois, “não estamos no mundo para morrer” como se essa fosse a vontade de Deus. Nossa luta é por gerar vida. Por isso, a vacina da vida e a do coração devem ser tomadas ao mesmo tempo. Estamos então num desafio nesse novo ano: concretizar e empenhar nossa solidariedade com a vida e em prol da vida.

Para concluir quero retomar um pensamento que o Papa nos brindou há bastante tempo e que se tornou epígrafe em artigos científicos e conferências e se aplica perfeitamente a esse momento que vivemos:

“Os rios não bebem sua própria água; as árvores não comem seus próprios frutos. O sol não brilha para si mesmo; e as flores não espalham sua fragrância para si. Jesus não se sacrificou por si mesmo, mas por nós. Viver para os outros é uma regra da natureza. Todos nós nascemos para ajudar uns aos outros. Não importa quão difícil seja a situação em que você se encontra; continue fazendo o bem aos outros. A vida é boa quando você está feliz, mas a vida é muito melhor quando os outros estão felizes por sua causa”. Que a vacina do coração nos faça mais solidários cuidando uns dos outros nesse novo ano!

Sempre é bom recomeçar, renovar esperanças, realizar novos sonhos. Ano Novo sempre traz esses anseios.

Vania Reis

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Sempre é bom recomeçar, renovar esperanças, realizar novos sonhos. Ano Novo sempre traz esses anseios. Racionalmente são apenas outras 24 horas, mas emocionalmente a coisa é outra. Já conversamos aqui do embate fictício entre o racional e emocional. Os estudos da neurociência já nos mostraram que a falta de critérios emocionais em nossos posicionamentos frente à vida ou nas tomadas de decisão, por exemplo, pode nos levar a grandes equívocos. São as emoções corretamente acessadas que balizam a nossa racionalidade.

A visão binária de mundo, tão comum até os anos 60, separava tudo em dois extremos: certo ou errado, bom ou mau, claro ou escuro … Esse raciocínio tinha sentido quando vivíamos em um mundo mais simples, não digital, estável e previsível. As pessoas entravam em um emprego e ficavam 20/30 anos. Hoje, a realidade mudou. Dois aviões são atirados em dois edifícios, em outro hemisfério, e nossa vida muda aqui. Vem um vírus, lá do outro lado do mundo, e muda nossa vida. Edward Lorenz, do MIT, com estudos em supercomputadores provou que o futuro não é matematicamente previsível. Temos que viver numa realidade muito inconstante. Não é fácil viver nesta realidade fluída, mas, temos que aprender.

Das escolhas certas depende a nossa felicidade.  Nossas escolhas são feitas pelos nossos valores e visão do mundo. Se priorizo a vida no hoje posso ter escolhas que desconsiderem o futuro. Se priorizo o futuro posso negligenciar o presente. Se me atenho ao passado posso deixar de viver o agora.

É claro que fazemos muitas escolhas erradas, faz parte da vida. O que importa é aprender com os erros. A análise do fracasso nos permite fazer ajustes na nossa percepção para não errar de novo. Muitas pessoas quando vivenciam um fracasso, de qualquer natureza, fogem desta análise. Tentam apenas esquecer o episódio. A chance de repetir o erro é imensa.

Todo fracasso tem lições a serem aprendidas. E a primeira lição é entender que o sentimento de tristeza que vem com o fracasso é para fazer a gente parar e olhar para o que aconteceu. Não negue a tristeza. Tire proveito dela. Acesse corretamente as suas emoções. Então pergunte a si mesma diante de algo que não deu certo: o que tenho que aprender com isso? Mas lembre-se sempre do pressuposto básico de todos nós cristãos: todo fracasso que você vivencia é para lhe fazer uma pessoa melhor. Analisando o fracasso, tirando lições certas posso olhar para o futuro com mais esperança.

O ano de 2020 trouxe perdas para muitos de nós. As perdas materiais podem ter trazido sentimentos negativos que “armazenados” assim, nos farão mal. Se este foi o seu caso, faz uma experiência e olhe para o que aconteceu fazendo uma análise tirando o “quem foi o responsável” e substituindo pelo “porque aconteceu” (o que eu poderia ter feito para prevenir o problema? Estava ao meu alcance? O que posso fazer, agora, para tirar proveito do problema?). O mundo ao nosso redor é muito complexo e nunca poderemos ter controle de tudo. Analisou o problema? Então a tristeza ou depressão não são mais úteis. Jogue-as fora. Planeje seu futuro com as lições que aprendeu do passado e, agora, viva a alegria de estar vivo quando tantos não tiveram a mesma sorte. Essa é uma escolha que você pode fazer e, das escolhas certas depende a sua felicidade.  

Feliz 2021!