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Papa Francisco desde o início de seu pontificado tem trabalhado intensamente na reforma da Igreja onde o presbítero seja marcado pelo “cuidado pastoral”,

Alessandro Rebonato 

Edebrande Cavalieri 

O Papa Francisco desde o início de seu pontificado tem trabalhado intensamente na reforma da Igreja onde o presbítero seja marcado pelo “cuidado pastoral”, e que os escândalos sejam enfrentados, pois estamos em “tempos de purificação eclesial” que logo resultarão fecundos entre nós e nos transformarão em padres alegres e simples”. E acrescente numa carta aos sacerdotes: “Não desanimemos! O Senhor está a purificar a sua Esposa e, a todos, nos está convertendo a Ele”. E lembra ainda que o Senhor “está-nos a salvar da hipocrisia e da espiritualidade das aparências”.

No momento em que a Arquidiocese de Vitória convida o povo de Deus para a ordenação de quatro seminaristas como diáconos provisórios em vista da ordenação presbiteral, torna-se fundamental refletir sobre uma questão essencial: para que Igreja esses seminaristas serão ordenados? Essa pergunta bateu fundo na consciência de um deles que assina esse artigo comigo acabou tomando esse tema como elemento base para o Trabalho de Conclusão de Curso de Teologia: “O Presbítero no Magistério do Papa Francisco”. 

Trata-se de uma tema instigante, provocante, e quando lhe perguntei por que tinha escolhido esse tema, prontamente me disse que estava solicitando a ordenação presbiteral para servir à Igreja conduzida pelo Papa Francisco. E assim seu desejo era se aprofundar sobre este chamado. Não estava buscando esse caminho para realizar algum projeto pessoal e nem fugindo do mundo, mas para ser um presbítero próximo do povo e sinal de esperança, misericórdia e amor de Deus.

Logo após o Cardeal Jorge Mário Bergoglio ser escolhido como novo Papa, o mundo também toma conhecimento que ele assumirá o nome de Francisco. Configurava-se assim a primeira vez que um papa assumiria o mesmo nome do Santo de Assis. Essa escolha está profundamente em consonância com programa de trabalho que Francisco executará durante todo o ministério papal. Porém, é um programa já muito vivenciado ainda em terras latino-americana. Nesse sentido, o nome Francisco nasce de uma vida religiosa inteiramente dedicada aos mais necessitados e aos que vivem à margem, totalmente excluídos do convívio social. 

Francisco transpira o mais original perfume de Cristo. Suas atitudes e posturas estão em perfeita consonância com o Evangelho de Jesus. Para que Igreja esses seminaristas estão sendo chamados a servir? É na pessoa do Papa que se notam a coerência de vida, a capacidade de abaixar-se, de relaciona-se e de ir ao encontro do outro e de tantas outras virtudes. Foi assim também a formação e o crescimento da comunidade que se juntou ao Santo de Assis. Trata-se de uma opção radical em prol dos últimos. Francisco afirma que “muitas vezes é melhor diminuir o ritmo, deixar de lado a ansiedade para olhar nos olhos e escutar, ou renunciar às urgências para acompanhar quem ficou caído à beira do caminho”. Então teremos um presbítero que se debruça como o Samaritano para cuidar da pessoa caída no caminho. Essa é a misericórdia exigida aos seguidores de Jesus. 

De fato, o presbítero de uma Igreja em saída se conduz com atitudes de solidariedade e fraternidade em vista de uma evangelização mais humanizada e mais encarnada na realidade do povo. É imprescindível em toda obra de evangelização romper com toda a atitude de fechamento e garantir, com a ajuda do Espírito Santo, uma obra evangelizadora marcada pela fraternidade. Além disso, “o isolamento e o fechamento em nós mesmos ou nos próprios interesses nunca serão o caminho para voltar a dar esperança e realizar uma renovação, mas é a proximidade, a cultura do encontro”.

O chamado é para uma Igreja com presbíteros pastores, cheios de ternura, que evangelizem com a própria vida, que sejam solidários e fraternos em todos os momentos. Daí a sua afirmação: “Como seria bom, salutar, libertador, esperançoso, se pudéssemos trilhar este caminho! Sair de si mesmo para se unir aos outros faz bem”. O individualismo e o comodismo deformam as relações interpessoais, por isso “a ação pastoral deve mostrar ainda melhor que a relação com o nosso Pai exige e incentiva uma comunhão que cura, promove e fortalece os vínculos interpessoais”.

De maneira bem concreta, o Papa apresenta o perfil de presbítero para a Igreja atual: “Os projetos pastorais, os planos pastorais são necessários, mas como meios, um meio para ajudar a proximidade, a pregação do Evangelho, mas por si só não servem. O caminho do encontro, da escuta, da partilha é a vida da Igreja. Crescer juntos na paróquia, seguir os percursos dos jovens na escola, acompanhar de perto as vocações, as famílias, os doentes; criar lugares de encontro nos quais rezar, refletir, brincar, passar o tempo de modo sadio e aprender a ser bons cristãos e cidadãos honestos. Esta é uma pastoral que gera, e que regenera o próprio sacerdote, a própria religiosa”.

Algumas características do presbítero não devem ser relativizadas. Para uma “Igreja em saída” é preciso um presbítero missionário: Nas palavras do próprio Papa Francisco: “Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças”. A missão não é um negócio ou um projeto empresarial, e muito menos uma organização filantrópica e humanitária.

A Igreja sempre apontou a necessidade de se ter presbíteros místicos, que tenham uma vida transfigurada pela presença de Deus. Não são funcionários do sagrados, mas expressão viva da presença de Deus no mundo e na história. Pois é o Espírito Santo que infunde a força para anunciar a novidade do Evangelho. Sem essa experiência profunda de Deus dificilmente a ação do presbítero resultará eficaz no anúncio do Evangelho. Um sacerdote de oração e assim ser testemunho desse “espírito de fé. Somente assim poderá ser reconhecido como digno ministro de Cristo Senhor”, reafirmam os bispos latino-americanos em Medellín. Sem um encontro diário com Deus, diversos presbíteros “muitas vezes, contra o impulso do Espírito, transformam a vida da Igreja em uma peça de museu ou em uma propriedade de poucos”, nos diz o Papa. E acrescenta: “Ao mesmo tempo, ‘há que rejeitar a tentação duma espiritualidade intimista e individualista, que dificilmente se coaduna com as exigências da caridade, com a lógica da encarnação’”.

Autênticos pregadores da Palavra de Deus devem ser os presbíteros e devem comunicar com alegria o Evangelho, sem cara de funeral, recuperando e aumentando “a suave e reconfortante alegria de evangelizar, mesmo quando for preciso semear com lágrimas”. A Igreja necessita de presbíteros alegres, não tristes e desalentados, impacientes ou ansiosos.

Outra característica do presbítero é que ele seja pastor com cheiro de ovelhas. Foram escolhidos e constituídos para o serviço das coisas de Deus, e não para serem donos da Igreja, exercitando “com júbilo e caridade sincera a obra sacerdotal de Cristo, concentrados unicamente em agradar a Deus e não a vós mesmos”, em comunhão filial com o próprio bispo. Presbíteros pastores cheios de ternura, solidários e fraternos em todos os momentos, em vista de uma comunhão que cura, promove e fortalece os vínculos interpessoais.

O Papa ainda frisa que para serem verdadeiramente evangelizadores os presbíteros devem estar o mais próximo possível da vida das pessoas, nos moldes do Bom Samaritano. 

Por fim, o perfil do presbítero no Magistério de Francisco culmina na prática da misericórdia de Deus, “fruto de ter experimentado a misericórdia infinita do Pai e a sua força difusiva”. Como dizia São Policarpo no século III, “os presbíteros sejam compassivos, misericordiosos para com todos, o órfão e o pobre, mas sejam sempre solícitos no bem de Deus e dos homens”. A misericórdia se destina prioritariamente para com os pecadores, as pessoas pobres, os marginalizados, os doentes e pessoas atribuladas. 

O perfil do Presbítero chega assim na Igreja local e seguindo a orientação do Arcebispo, Dom Frei Dario Campos: “Somos todos chamados a proclamar o tempo da graça do Senhor, de maneira especial, pelo modo que vivemos e nos comprometemos com nossos irmãos e irmãs principalmente com os mais pobres e excluídos. Como homens e mulheres marcados pela fé, pela esperança e caridade, anunciaremos o tempo da graça divina a todos e todas. Eis a nossa Alegria. Eis a nossa Missão”.

Tomar uma decisão a princípio parece simples: analiso bem uma situação, defino o problema, identifico o que vou levar em conta para decidir (os

Vania Reis |

Tomar uma decisão a princípio parece simples: analiso bem uma situação, defino o problema, identifico o que vou levar em conta para decidir (os critérios) defino a importância de cada critério (gravidade, urgência, tendência a piorar), avalio as alternativas e escolho a melhor alternativa. Pronto! Qual a dificuldade? A questão é que nós seres humanos, em muitas ocasiões tomamos decisões e fazemos escolhas com informações incompletas, impulsivas, com julgamentos errôneos e com falta de visão de longo prazo.

Por que isso acontece?

A dicotomia histórica entre a tomada de decisão “emocional” e a tomada de decisão “racional”, foi totalmente desbancada pela neurociência moderna. Os estudos encerraram essa discussão de forma surpreendente e convincente, ao demostrar que pessoas que sofrem danos às partes do cérebro responsáveis ​​pelas reações emocionais são incapazes de decidir! O que acontece é que a sua mente racional hesita interminavelmente sobre as possíveis razões racionais/alternativas, para cada curso de ação. Sem as emoções não se toma decisão. Antonio Damásio nos mostra de forma brilhante no seu livro o “Erro de Descartes”, que a máxima de Descartes: “Penso logo existo”, é incorreta e demonstrou o caminho do cérebro: sinto, por isso penso e então existo.

A Neurociência nos mostra dois importantes sistemas de processamento de informações: o reflexivo (movido pela lógica e a razão) e o automático (operado de forma rápida, imediata, exigindo baixo esforço do cérebro, e assim agilidade. O cérebro pode processar, em uma contagem simplista, 100 terabytes de informações. Assim é evidente que não é possível fazer escolhas percorrendo aquele caminho todo do sistema reflexivo descrito acima em todas as minhas decisões.

As informações que se tornaram hábitos, fazem parte das experiências pessoais,  que por terem sido assertivas no passado, são facilmente deslocadas para o sistema automático. As escolhas mais críticas, no entanto, não podem (nem devem) usar o sistema automático como referência. Não devem ser rápidas. O problema é que somos pressionados, cada vez mais, a tomar decisões rápidas em áreas onde não temos experiência pessoal suficiente para amparar nossas decisões. Assim sou mais passível de ser influenciada a agir da mesma maneira que outros estão agindo. A pressão dos pares ou da ação de grupos são forças que influenciam. E aí, como ficamos?

Nosso cérebro é algo espetacular e quando não temos tempo ele usa o que chamamos de “heurísticas da escolha”, ou seja, as regras de bolso do cérebro quando este não tem tempo para decidir.  Assim é que quanto mais disponível a informação estiver na memória, mais fácil é acreditar que aquela situação analisada é de fato frequente, e assim poderia ser mais “confiáveis” (fácil explicar o bombardeio de informações, marketing ou pesquisas de boca de urna por exemplo, no tempo de eleições). Querem nos fazer acreditar que aquela informação já é conhecida e por isso não é preciso analisar muito o problema). Outra situação é quando, por exemplo, comprei um carro amarelo e então começo a ver mais outros carros amarelos. Com essa percepção seletiva posso achar que aquela escolha é mais comum, mais frequente, aumentando a minha confiança na tomada de decisão. A sensibilidade à perda, é outro parâmetro que influência muito na escolha e me faz ancorar no que é “mais conhecido”, mesmo que de fato não há essa ligação, em termos reais. São muitos os “desvios cognitivos” que nos podem induzir a fazer escolhas racionais ou não, e, de fato, muitos de nós temos nos sucumbido as irracionais.  

Sabemos que o sol faz mal e não colocamos protetor, sabemos que o vírus é desconhecido e mortal e muitos não se protegem. Sabemos que carregar muito peso arrebenta a coluna, mas… Por que negamos o problema? Por que mantemos uma atitude onipotente e irracional?  A pandemia nos deu tempo para pensar… Difícil alguém negar isso! A análise do problema é o primeiro passo, para a escolha da alternativa para a superação das dificuldades, mas se eu nego o problema, como eu enfrento? Toda escolha tem suas consequências. Alguns enfrentam esse dilema adiando se posicionar, sem tomar qualquer atitude, mas essa é uma escolha que só é válida se a situação não é grave e não tem tendência a piorar. Não escolher, não fazer nada diante de dificuldades sérias é uma escolha, na maioria das vezes desastrosa!!!

Ano que vem, ao que tudo indica, não vai ser mais fácil do que esse. A vacina para os jovens e adultos (sem comorbidades) não está prevista. A ajuda emergencial não virá. Os políticos dentro ou fora do parlamento, até aqui, pouco ajudaram. A falta de visibilidade, de médio prazo, nos faz procurar sem muito sucesso, um norte. Uma coisa é certa estaremos possivelmente até metade do ano confinados e com recursos escassos, mesmo com sinais de que o pior já passou. Final de Ano, Natal programe seus gastos  privilegiando os produtos, o comércio e os serviços locais. Esse dinheiro gasto aqui, gira aqui para outros capixabas, trazendo benefícios locais, mas compre e gaste o estreitamente necessário. Reflita sobre o que é essencial, não se deixe levar pela tentação do consumo. Prepare-se para os ventos fortes e “construa sua casa na rocha”. Não desperdice. Pode ser um ano difícil, mas você estará preparado para ele.  Não deixe de ponderar sobre os problemas, encare-os, converse a respeito, veja como se você estivesse fora do mesmo, mas faça escolhas refletindo bem. Tenha domínio de si e de sua vida. Tenha moderação dos seus desejos e lembre-se sempre, é você que tem os seus desejos nas mãos e não o contrário. A palavra chave é temperança, e não esqueça. no final, em todos os aspectos (físicos, emocionais e espirituais) será você e as escolhas que você fez na sua vida. 

Somente eu não sabia que havia um sistema me vigiando e dizendo para os meus amigos que aquele restaurante poderia ser uma opção para

Edebrande Cavalieri | 

Nesses meses de pandemia fui obrigado a comprar algumas coisas pela internet, algo do tipo um livro, uma cadeira para escritório, um aparelho de ar condicionado. E, como sempre faço, entro na página do Google ou de alguma loja conhecida e busco a mercadoria do meu interesse. E logo começaram a chegar ofertas daqueles produtos em qualquer entrada na rede de internet.

Depois de dois meses de pandemia, não resisti à vontade de ir a um restaurante comer uma “bela moqueca”. Chegando lá, meio às escondidas, me vejo sem acesso à internet e peço a garçom a senha do Wi-Fi que prontamente me diz que é acesso pelo facebook. E no mesmo dia diversos amigos meus já sabiam que eu tinha ido àquele restaurante. Como?

Assim qualquer busca na internet principalmente de produtos do mercado incluindo viagens e passagens aéreas vai resultar numa avalanche de retornos de ofertas e preços. Então me pergunto: como sabem que estou procurando isso? Como meus amigos ficaram sabendo que eu estive naquele restaurante? Eu pensava que estivesse escondido! Doce ingenuidade a minha! Eu procurei ao máximo nesse período não me expor nas ruas, ficando em casa. Mas não fiquei despercebido. Foram encontrar-me exatamente na via dos meus desejos.

Se tantas pessoas souberam que eu estive no restaurante e tantas lojas comerciais sabiam dos meus interesses comerciais, tem alguma coisa estranha nisso tudo. No restaurante só havia duas mesas com pessoas. Mas foram muitos amigos que me viram. Vem à memória a imagem medieval dos tempos do Imperador Carlos Magno que nomeava algumas pessoas para serem os “olhos e ouvidos do Rei”. Esses funcionários percorriam todo o império e relatavam ao imperador tudo o que tinha visto e ouvido. Hoje estamos sendo vigiados por entes que funcionam como “olhos e ouvidos” do capital. Quem me viu no restaurante? Como tantas lojas ficaram sabendo do meu interesse em algum produto?

Somente eu não sabia que havia um sistema me vigiando e dizendo para os meus amigos que aquele restaurante poderia ser uma opção para eles também. Indicava até o mapa e a distância! Olha só! Através de mim, no meu modo escondido de agir, eu acabei fazendo uma grande propaganda para o dono do restaurante. E ele nem me agradeceu! Somente eu agradeci o grande favor que ele me concedeu ao permitir acesso ao Wi-Fi do seu negócio.

E após as procuras por mercadorias no Google e empresas interligadas nessa ferramenta, parece que todo mundo sabia das minhas necessidades, dos meus interesses, e começou a chover oferta de produto cada uma mais tentadora que outra. As ofertas até hoje não param de aparecer logo que tomo o celular (smarthphone) ou ligo o computador. Criamos um costume de acordar e logo olhar as horas no celular, ou ver se alguém enviou algum recado para a gente. E o que recebo imediatamente é imagem de algum produto do meu interesse, do meu desejo.

Esse cenário não é particular, mas envolve o mundo todo. A indústria virtual é a que mais prospera e se baseia da capacidade de extrair dados pessoais, interesses, desejos, mostrados em cada movimento, em cada perfil configurado, em cada busca de internet, em cada foto publicada, enfim, capacidade de se infiltrar em nossa vida prevendo futuros comportamentos, e vendendo tudo isso para os anunciantes de produtos. A grande vitrine da propaganda hoje é o nosso próprio perfil, construído por cada usuário de alguma rede social. Não apenas a tecnologia é capaz de prever comportamento, mas também de modificar os comportamentos humanos.

É assim que nasce o capitalismo da informação ou da vigilância. O controle das pessoas é feito de maneira bem sutil e isso é o que gera mais lucros. Não se refere a algum produto da tecnologia. Nós somos o produto a ser vendido. Somos produtos gratuitos. E achamos um grande favor obter a permissão de acesso ao Wi-Fi do restaurante.

O mundo está abrindo as portas para a internet 5G – quinta geração de rede de internet móvel – capaz de tornar tudo conectado como celular, automóveis, casas, geladeiras, máquinas de lavar, câmeras de segurança. Enfim, uma cidade conectada, também chamada de cidade inteligente, numa velocidade que vai de 10 a 20 vezes maior que a atual.

É nos supercomputadores que são armazenadas as informações sobre cada um de nós que está conectado. Esses supercomputadores serão o novo cérebro do mundo. Através de vários processos analíticos as informações não precisam estar explicitadas nos perfis, pois podem ser deduzidas com alta margem de segurança. E ainda mais: a possibilidade de se criar novos perfis, novos personagens, incluindo o que vem sendo chamado de robots.

Então até mesmo a prática política pode ser objeto de consumo, de previsão de comportamento e até de construção de uma realidade virtual capaz de modificar um cenário concreto. É o desastre da democracia!? É a sua sepultura? A ação das milícias virtuais dá a impressão de estarmos diante de uma multidão de pessoas. Na verdade, trata-se de uma multidão de perfis (muitas vezes falsos) que tem a força de mudar os comportamentos eleitorais. A propaganda eleitoral não depende mais tanto do tempo de rádio e TV.

Temos assim uma economia de vigilância onde cada um de nós se torna um “produto” a ser vendido. Ou seja, somos uma espécie de espaço geográfico onde se extraem as riquezas das empresas. Nasce aqui um dos maiores desafios dos tempos atuais dessa economia de vigilância: até onde é ético proceder dessa forma? As empresas de internet exploram nosso território pessoal levando para as usinas de inteligência artificial que fabricam previsões de comportamentos a serem vendidos para os clientes reais. Os novos mercados comportamentais geram a grande riqueza nesse capitalismo de vigilância.

Há uma revolução enorme no desenvolvimento econômico da humanidade. Não estamos conseguindo acompanhar e nossos sistemas educacionais tão pouco conseguem desenvolver uma certa consciência crítica para que as pessoas possam sobreviver nessa avalanche tecnológica. Não basta resistir decidindo não entrar nas redes. Se você for a um médico, você já estará conectado. E o mundo vai planejando como lidar com novas formas de doenças e como auferir lucros maiores na indústria farmacêutica.

Tenho a impressão que nosso maior e imediato compromisso como cidadãos é desenvolver padrões de comportamento ético que possam moldar essa cultura num mínimo de razoabilidade. Assim como na Revolução Industrial foi necessário um movimento ético em defesa dos operários, das mulheres e das crianças, resultando numa legislação trabalhista, agora também temos necessidade de estabelecer limites de ação desse capitalismo para preservar um mínimo de vida ética entre nós.

O calor está chegando e nesta época é grande a preocupação com a hidratação de todos nós.

O calor está chegando e nesta época é grande a preocupação com a hidratação de todos nós.

Nosso organismo é composto por cerca de 80% de água. Sendo assim, precisamos estar renovando esta molécula com a ingestão de líquidos saudáveis ao longo do nosso dia. Por meio da água, nosso corpo consegue realizar as funções metabólicas com qualidade.

Quando a hidratação é feita de forma errada, seja para menos ou mais, temos sintomas, que podem ser graves. A desidratação é caracterizada por dores de cabeça, cansaço, dificuldade de raciocínio e memória, náuseas, podendo levar em casos extremos a desmaios e, mais gravemente, ao choque (condição em que a pressão arterial cai e o sangue não consegue oxigenar o organismo suficientemente). Já a hiper-hidratação, ou seja, excesso de ingestão hídrica, pode levar até mesmo ao coma pela diluição excessiva do sangue. Cuidado para não se afogar com consumos excessivos. Tudo na vida em excesso faz mal, inclusive a água.

Dessa forma, a busca por correta hidratação se faz necessária. O cálculo da quantidade de água é bem simples para adultos: em média, 30mL para cada quilograma de peso do paciente por dia. Desse modo, uma pessoa de 70kg necessitará de 2.100mL de água em 24horas.

Algumas condições, como atividade física, aumentam a transpiração, elevam a necessidade hídrica, sendo necessário um aporte maior de água. Geralmente, para cada hora de atividade física intensa, há necessidade de 1 litro de água a mais.

A maneira mais correta e saudável de se hidratar é com a ingestão de água pura. Podendo ser considerado os sucos de frutas e a água côco, bem como as bebidas isotônicas encontradas facilmente em supermercados.

Como está sua ingestão de água? Faça seu cálculo e não deixe de ingerir essa substância que é a mais importante para a existência biológica da vida.

Roger Bongestab

Médico Cirurgião Geral e Nutrólogo (CRM-ES:9827, RQE:7324 / 7889).

 

O amor é sempre uma experiência carregada de promessas. Se encontra, porém, continuamente com a dificuldade da realidade, onde se confronta também o falimento.

 

 

 

 

Pe. Renato Criste |

O amor é sempre uma experiência carregada de promessas. Se encontra, porém, continuamente com a dificuldade da realidade, onde se confronta também o falimento. Às vezes experimentamos, quando vamos a um matrimônio, esta desconcertante inquietude de duvidar se estes noivos que queremos bem serão capazes de viver as experiências que os animam. Eu mesmo, quando converso com os noivos para verificar se há impedimento para a realização do matrimônio, chego à desconfiança se essa relação vai durar para sempre. E, infelizmente, não são poucos os casos de matrimônio que já nos primeiros meses chegaram ao falimento. Por que tal desilusão?

O erro não está, geralmente, na falta de sinceridade inicial, nem na falta de generosidade. Quando as pessoas se amam sinceramente e estão dispostas a casarem-se, sabem bem o que estão fazendo e querem seriamente vivê-lo. Onde está a razão de tantos falimentos? O erro está exatamente na confusão inicial: pensar que para construir a promessa do amor, um matrimônio e uma família, basta a sinceridade do sentimento e a boa vontade. Como se tudo se reduzisse à decisão da vontade.

Amar é um ato de toda a pessoa, no qual intervém os seus diferentes princípios de amor, princípios que não são ordenados nem integrados entre eles naturalmente. Porque são os dois a agir, a co-agir, são dois “atores”. Se faz necessário a aquisição de uma habilidade, de uma arte, absolutamente pessoal e pormenorizada que os consente de conhecerem-se, aceitarem-se, compreenderem-se, saberem tratar-se, saberem acolher-se, saberem ajudar-se.

Se abre assim a tarefa principal da preparação imediata para o matrimônio: ajudar indistintamente os noivos a adquirir a virtude que consente aos dois de construir a comunhão prometida e assim verificar o seu amor, a luz da fé da Revelação cristã. Todo o trabalho de verificação do amor fica assim unido à construção de uma subjetividade.

A tarefa do noivado se configura, então, como um caminho de maturidade, entre a experiência vivida e a possibilidade de viver a plena comunhão. O noivado é um tempo de graça que consentirá um amanhã de entrega verdadeira.

Por que você quer casar-se comigo? Como sei que você é a pessoa certa?

No noivado se deve verificar, em primeiro lugar, se a revelação que o sujeito teve é ocorrida também na outra pessoa. Se ambos veem a mesma verdade e estão dispostos a lutar por isso. E, segundo lugar, se a causa deste mesmo ideal se vai produzindo em recíproca concórdia, se busca o modo de viver as práticas de condutas da vida. Em terceiro lugar, se vão pouco a pouco integrando-se as diversas dimensões do amor, se já em um como no outro. Aparece assim evidente que a verificação está unida à construção da própria subjetividade.

Isso acontece na vida cotidiana de ambos: mediante as reações diante das diversas circunstâncias da vida, nas conversas, nos projetos conjuntos, nos discursões, e porque não até nas ausências da pessoa amada.

Pe. Renato Criste Covre

Mestre em Teologia do Matrimônio e Família pelo Instituto João Paulo II – Roma.

 

Artigo motivado pela morte de um cliente no Carrefour, RS.

Vânia Reis

[email protected]

A morte do João Alberto no Carrefour chocou o mundo. Não poderia ser diferente. Um assassinato bárbaro, assistido como algo normal e garantido pela funcionária da instituição a não interrupção. Levantam a hipótese de ter sido um ataque racista é mas há muito mais nesta cena que assistimos. Vamos analisar os fatos:

O cliente teve uma embate com a funcionária minutos antes,  estava alterado emocionalmente e ao que parece, já haviam tido outros desentendimentos. Atender  clientes desequilibrados faz parte do dia a dia da empresa comercial.  O desequilíbrio emocional dos seguranças é inegável. O ódio, a violência não são dos fatos ocorridos. Estes dois rapazes viveram a síndrome do porteiro ou do “pequeno poder”, conforme os teóricos definem. Nesta síndrome a pessoa ao receber pequena parcela de poder o exerce de forma absoluta, irracional e tirânica, sem se preocupar com as consequências. Os dois deram vazão descontrolada aos seus impulsos reprimidos percebendo-os como tendo sido autorizado pelo cargo. Isso para a Fiscal é tão forte que ela filma, de perto, a cena, a centímetros do assassinato. Ela autorizava institucionalmente o assassinato.

 A atividade de segurança atrai pessoas com dificuldades emocionais, por inúmeras razões. Há normas para porte de armas, mas as nossas políticas públicas (é claro) não consideram punhos, joelhos e mata-leão, que mataram João Alberto, como armas, assim não obriga avaliação psicológica dos que não usam armas.

Para as leis brasileiras a empresa que contrata terceiros é corresponsável pelos atos deles, assim não é cabível o argumento que quer tirar a responsabilidade da empresa dizendo que os seguranças “eram terceirizados”. Responsabilidade sem culpa? Pode até ser, mas neste caso o Carrefour não está sozinho. São raras as empresas de segurança no Brasil que realizam avaliações psicológicos em seu quadro (à exceção dos que tem porte de armas).  Como dar poder às pessoas desequilibradas. Isto é inaceitável e precisa ser revisto, não importa a que tom de pele esteja se falando.

A reposta oficial do Carrefour abrange a cobertura financeira à família do João Alberto e o treinamento do seu pessoal como resposta ao acontecido. É inquestionável que os funcionários envolvidos, terceirizados ou não, estavam despreparados para as suas atividades. Mas pensar que treinamento vai impedir que isso aconteça novamente, é ter visão muito curta. O foco precisa ser ampliado, inclusive da empresa. Treinar é obrigação dela. Inibir o racismo também.

Houve preconceito racial dos dois seguranças brancos contra o cliente negro? Não temos clareza pois a fala de um dos seguranças: “Já te avisamos da última vez!” levanta outras hipóteses também e é necessário aprofundar, com seriedade, os fatos. Condenar antes de investigar é muito comum aqui no Brasil e não pode acontecer.

É bem possível que o estopim do ataque se não gerado pelo preconceito racial ou social que muitos brasileiros sentem, foi formatado por eles. Veja a diferença do acontecido com uma advogada muito alterada em uma padaria há poucos dias em São Paulo. Apesar do total desequilíbrio e ofensas da advogada, de classe média, que humilhava uma funcionária, branca, o desfecho foi totalmente diferente. Chamada a polícia, a cliente foi presa em flagrante. Souberam lidar com o problema, mas isso se deveu ao fato dela ser branca? Ou de classe média? Possivelmente, mas o certo é que foi a competência dos gestores presentes na padaria que deu o desfecho correto e hoje a advogada cumpre prisão domiciliar.  Esse é “o ponto”, o diferencial: pessoas que sabem lidar com pessoas.

A discussão sobre o racismo no Brasil é antiga, mas contesto o atual adjetivo dado ao mesmo como “Racismo Estrutural”. O racismo não estrutura o brasileiro. Faz parte da nossa cultura sem dúvida, tem que mudar essa cultura, não tenha dúvida. A forma de enfrentar a questão racial no Brasil é internamente tão diferenciada que não pode ser colocada como hegemônica. O brasileiro é racista ou o brasileiro não é racista. Essa parece mais como uma simplificação, um enquadre em um discurso único, que não nos define. Vamos pegar duas realidades bem distintas da nossa formação como nação para tornar claro nosso ponto de vista. Dois exemplos do espaço social do negro no Brasil: na Bahia colonizada lá atrás por portugueses que usavam a miscigenação como forma de colonização e no Rio Grande do Sul, colonizado por alemães, que não só não miscigenavam como segregavam duramente os negros. Não preciso falar da diferença abismal destes dois contextos. Essa diferença de força do preconceito gerados nestes contextos gerado forças e ações diferenciadas. Somos todos brasileiros e fomos educados informalmente com essas diferenças. Está na educação não formal, ou seja, na que é transmitida pela família, o alvo final. Mudar, não necessariamente por dívida histórica, mas por uma visão humanista da realidade atual. O preconceito é algo construído e a base está no núcleo familiar. As ações de educação formal já chegaria tarde para mudar essa visão. Essa mudança cultural, que implica na mudança do imaginário de uma população, como afirma Le Goff, precisaria 100 anos para mudar. Não é simples mudar cultura. Mas essa mudança cultural já foi iniciada, desde o século passado. O esforço continuado na busca da mudança do nosso imaginário, ainda precisaria empenho sistemático de mais uma geração, para chegarmos onde queremos: pessoas de qualquer cor, origem ou feios ou bonitos, magros ou gordos respeitados e não discriminados. Temos que persistir no desejo de mudança, sem perder a nossa visão mais sistêmica da realidade.

Que há preconceito social no Brasil não parece haver dúvida. O que não podemos esquecer que o preconceito racial anda de mão dada com o social. Quando houve a abolição da escravatura, não predominava a consciência que era preciso dar condições de desenvolvimento para esses antigos escravos. O resultado disto foi o surgimento de uma nova forma de escravidão pela falta de qualificação e alfabetização da maioria destes recém libertos. A impossibilidade de sair da pobreza os levou a uma escravidão social, pela baixa remuneração e de oportunidades. Dessa escravidão muitos brasileiros precisam ser libertos.

Pessoas desequilibradas, não treinadas adequadamente, admitidas por empresas que mesmo corresponsáveis, não exigem no processo seletivo a avaliação da saúde mental da sua equipe de segurança e, requerem apenas que o indivíduo seja forte, saudável fisicamente e sem antecedentes criminais é uma outra situação que não pode continuar.

Por não ter uma Gestão Estratégica do Recursos Humanos, pela atitude insana de sua fiscal de Caixa o Carrefour perde diariamente o valor de suas ações na Bolsa de Valores. Por falhar na seleção e no treinamento o Carrefour precisa ser punido exemplarmente. As empresas precisam ser confrontadas com as consequências das suas ações como alerta para as demais.

Quanto aos nossos preconceitos precisamos uma revisão cultural, mas sem simplificação ideológica do problema. Medidas que precisarão de uma geração inteira para se ter êxito, são complexas e não podemos esmorecer. Temos que exigir ações públicas efetivas, especialmente na área da educação, para começar a mudar, de fato, essa realidade.

Edebrande Cavalieri Acompanhamos no final de semana passada o Encontro A Economia de Francisco que deveria acontecer em Assis no início do ano, mas

Edebrande Cavalieri

Acompanhamos no final de semana passada o Encontro A Economia de Francisco que deveria acontecer em Assis no início do ano, mas foi adiado e agora teve que ser realizado online. Dois mil jovens economistas e empresários foram convidados pelo Papa Francisco para esse encontro. O cardeal Peter Turkson, prefeito do Dicastério para a Promoção do Desenvolvimento Humano Integral, disse na abertura que “Vocês decidiram dar vida a uma rede global de jovens que iniciará a mudança”, “decidiram ajudar o Papa, a Igreja e o mundo a realizar uma economia inclusiva e justa, a serviço de todos, uma economia social que investe nas pessoas, garantindo formação e trabalho digno”. E o Papa Francisco de forma ainda mais profunda nos diz que é preciso “realmar a economia”.

Nessa semana, esse espaço se abre para ouvir um dos jovens economistas convidado pelo Papa para esse encontro e que está entre nós. Trata-se do Seminarista e futuro diácono provisório de nossa Arquidiocese, Vitor Noronha. Ele também escolheu como tema de seu Trabalho de Conclusão do Curso de Teologia a Economia de Francisco, que deverá ser publicado. Então vamos ler o que ele nos diz:

Como aconteceu esse chamado para você participar do encontro A Economia de Francisco com o Papa?

Vitor Noronha: Já que estamos falando de chamado, neste caso, me vejo um pouco como o Profeta Jeremias, que declarou que antes mesmo de estar no ventre da sua mãe, Deus já o chamava para aquela missão (Jr 1,5). Do mesmo modo, me sinto chamado para contribuir na construção de uma Economia de Francisco muito antes do Papa ter convocado este encontro. Aliás, na carta que o convoca, o Papa diz justamente isso, que os jovens já estão criando uma nova economia para uma nova sociedade, que tratava-se de articular, potencializar e organizar essas forças vivas para vencer esta economia do hoje e criar uma economia do amanhã. Então, nos valores que aprendi na Igreja; na participação desde a adolescência em projetos sociais, pastorais sociais e movimentos populares; no que eu tive a oportunidade de estudar, seja na graduação em economia e em teologia, seja no mestrado em filosofia; enfim, tudo, de algum modo, me conduziu para a Economia de Francisco. E, agora, sinto-me estimulado, realmado – como diz o papa – para aprofundar o caminho com um novo vigor, pensar, praticar e criar uma economia que não se sirva da vida, mas esteja a serviço dela.

Como espera colocar em prática a missão decorrente desse chamado na condição de futuro diácono/padre e economista?

Vitor Noronha: Não sei, porque essa é uma tarefa coletiva. Não existe diácono ou padre no vácuo, seria uma aberração pensar em um pastor sem as ovelhas. De fato, sei de algumas coisas, por exemplo que o sistema é estruturalmente perverso, como diz o Papa Francisco na Laudato Si’. Então, nada que venha do sistema, nem da lógica da mundaneidade que faz reproduzir esse sistema, é compatível com o Evangelho de Jesus. Também sei que, pela graça de Deus, receberei o Sacramento da Ordem, primeiro o grau diaconal e depois o presbiteral, que é o sacramento do serviço por excelência. Então, quero estar junto ao povo, não em cima governando, mas embaixo lavando os pés. Por isso, existe muito mais coisas que eu não sei, como, por exemplo, quem será este povo e quais são as suas necessidades. Então, é difícil responder. Se, por exemplo, houver projetos sociais e pastorais sociais, certamente será uma prioridade. A rigor, eu só sei que quero amá-lo e servi-lo, especialmente nos últimos. De resto é estar aberto para as surpresas de Deus, especialmente nas necessidades concretas da Igreja, em comunhão com o nosso Bispo. 

Eu gostaria que você comentasse uma frase do Papa Francisco no encerramento do Encontro: “Para mim, este encontro virtual em Assis não é um ponto de chegada, mas o impulso inicial de um processo que somos convidados a viver como vocação, como cultura e como pacto”.

Vitor Noronha: É uma ideia que o Papa tem trabalhado muito, desde a Evangelii Gaudium, mas em muitos documentos e discursos. Fundamentalmente, é compreender que o processo é mais importante do que aquilo que foi ocupado, pois o processo acumula. Do mesmo modo, o tempo é mais importante que o espaço. Então, ele vê a Economia de Francisco como lugar de construir processo, de articular, de pensar e praticar uma nova economia. Não há um plano de pegar os dois mil jovens e alocá-los em Governos, Bancos Centrais e diretorias de grandes empresas. Talvez, assim, só fariam o mesmo que a geração anterior. O Papa Francisco nos chama para ser dirigentes de um processo, incluindo tantos outros, de modo especial os últimos, essa é a nossa vocação (do latim vocare = chamar). Ao mesmo tempo, trata-se de fazer uma nova cultura, não uma cultura do provisório, do descartável, do consumismo. Mas, uma cultura do encontro e da fraternidade universal. Por isso, é necessário um pacto, no sentido de um acordo e um projeto. Se o sistema capitalista é insuportável, pois não suporta o camponês, os trabalhadores, as comunidades e a Mãe Terra, é necessário estabelecer um pacto inspirado em São Francisco de Assis. O pobrezinho de Assis teve no centro da sua vida os pobres e a criação. Essa é a alma da nova economia que o Papa nos chama a nos comprometer e contribuir para criar.

Que pontos que foram mais marcantes nesse encontro em sua percepção?

Vitor Noronha: Tantos. Diria que ainda estou meditando, refletindo, até ruminando, aquilo tudo que foi vivido no encontro virtual deste ano e, em expectativa, já esperando o presencial em novembro de 2021. Primeiro, diria que não concordo com a alcunha de “Davos do Papa”, ao menos por dois motivos. Em primeiro lugar, que não é só do Papa, é convocada pelo Papa, inspirada em São Francisco, mas aberta para todas as religiões, credos, países e culturas. Em segundo, porque é mais uma “anti-Davos” do que uma “Davos alternativa”. É a favor de uma outra economia, de outro sistema, não que mate, exclua e gere desigualdade, mas que esteja à serviço da vida. Mas, destaco três presenças marcantes. A primeira é a o do próprio Papa Francisco, dizendo por exemplo não devemos nos submeter ao paradigma tecnocrático, mas colocar a economia e a política à serviço da vida. Uma segunda é do Leonardo Boff, muito conhecido dos brasileiros, articulando seu conceito-síntese de grito da Terra e grito dos pobres, que foi assumido pelo Papa Francisco na Laudato Si’. Um terceiro, não menos importante, foi o Padre Vilson Groh, de Santa Catarina, que partilhou uma linda experiência, a Casa de Francisco e Clara. Uma instituição que é inspirada, numa perspectiva de vivência e imersão, na Economia de Francisco.  

Adiante para os leitores um ponto da sua pesquisa sobre a Economia de Francisco.

Vitor Noronha: Creio que a contribuição mais importante é demonstrar que existe no Magistério do Papa Francisco uma crítica teológica ao sistema estruturalmente perverso, usando linguagem religiosa, ou, em linguagem secular, uma crítica à economia política. Por isso, frases como “esta economia mata”, da Evangelii Gaudium, ou “este sistema é estruturalmente perverso”, na Laudato Si’, não são ocasionais. Mas, compõem um pensamento sistemático que, inclusive, tem muita correlação com a reflexão feita pela Teologia da Libertação, não só com o ramo argentino ao qual o Papa é proveniente, conhecido como Teologia do Povo, mas também com reflexões mais surpreendentes, como por exemplo àquela sobre idolatria da chamada escola do DEI (Departamento Ecumênico de Investigações, Costa Rica). É impossível compreender como o Papa pensa e interpela o sistema, sem compreender sua opção preferencial pelos pobres e sua latino-americanidade. É a partir da periferia, seja econômico-social, seja geográfica, que ele estabelece sua crítica. Por isso, a economia capitalista é vista como fetichista, porque produz vítimas. Portanto, para se produzir uma nova economia que promova a vida e inclua, é necessário partir das mesmas vítimas do sistema, os pobres e suas periferias. 

A Arquidiocese de Vitória teve como escolhidos além do Vitor Noronha, a Crislayne Zeferino e Marcos Herkenhoff. São três jovens vocacionados para caminhos bem específicos. Eles não apenas representam os demais jovens da Arquidiocese, mas se juntam a tantos outros pelo mundo inteiro que são chamados para uma grande mudança da economia, pensando novos modelos de desenvolvimento, de progresso e de sustentabilidade. Para esses jovens é colocada como tarefa o rompimento e a superação de uma orientação que além de alienar só irá perpetuar as dinâmicas da degradação da casa comum, da exclusão da maior parte da humanidade, da violência produzida para assegurar essa dinâmica perversa.

E nos alerta o Papa Francisco a respeito do período pós-pandemia: “Passada esta crise sanitária que estamos vivendo, a pior reação seria cair ainda num febril consumismo e em novas formas de autoproteção egoísta”. E nos diz que essa é a hora. “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”, nos diz a música de Geraldo Vandré. Por isso, “colhamos a oportunidade e coloquemo-nos todos a serviço do bem comum. Que no final não existam mais ‘os outros’, mas um grande nós”. É para isso que os jovens são convocados pelo Papa Francisco. É preciso superar a “economia que mata”. São chamados para dar vida a essa cultura econômica, para fazer florescer esperanças, para enfaixar feridas e criar relações.

Até a pouco tempo atrás falar sobre o suicídio era um tabu. Na esfera íntima só se falava em tom de confidência e publicamente

Até a pouco tempo atrás falar sobre o suicídio era um tabu. Na esfera íntima só se falava em tom de confidência e publicamente era totalmente interditado A estrutura de tabu em torno deste assunto toma forma quando da publicação em 1774, de um livro de Goethe chamado “Os sofrimentos do jovem Werther”. O livro contava a trágica história de amor de um jovem e poderia ser apenas mais uma literatura clássica de Goethe na Europa, se não fosse o fato de ter levado muitas pessoas ao suicídio.

Pessoas que se mataram replicando as mesmas características cênicas de protagonista, após ler o livro.O Efeito Werther, como passou a ser conhecido esse fenômeno,mostrou o que pode ocorrer quando um suicídio é amplamente divulgado. Estudos posteriores comprovaram esse fenômeno e o resultado foi que ficou proibido divulgar suicídios e todos esconderam essas mortes. Pensavam que estavam prevenindo assim o suicídio.

Passaram-se muito anos até que se pode ter claro que ofato de evitar o assunto não só não previne o problema, mas nos impediu de perceber a epidemia silenciosa que está em curso.Ao contrário de não falar sobre o assunto, é tomando consciência do problema, conhecendo a realidade dos transtornos mentais que estão por trás de 96,8% dos casos de suicídio no Brasil, segundo a Associação Brasileira de Psiquiatria, é que podemos enfrentar os desafios para superar essa triste realidade.As estatísticas mostram o grave problema de saúde pública que está a nossa frente, mobilizando estudos e programas de prevenção não só no Brasil, mas pelo mundo afora.

Se alguém lhe perguntasse em qual grupo há maior incidência de depressão se no de idosos ou no de jovens, qual você diria que é? Pensou?

Acertou quem identificou que são nos jovens. Estudo da OMS apontou  já em 2018, portanto antes da pandemia, que a principal causa de morte entre 15 e 29 anos foi o suicídio, superando as causas por acidente. Só no último ano a taxa de suicídio no Brasil subiu 115%.Os adolescentes masculinos predominam nestas estatísticas.

Os cenários hoje na pandemia (como os previstos na pós pandemia) em nada são melhores: as questões da vulnerabilidade social e financeira, o desemprego,o stress social devido ao isolamento ou confinamento,a falta de perspectivas trazidas ou ampliadas pela pandemia são fatores agravantes deste cenários que devem persistir no pós-pandemia. Além disso as medidas de isolamento atuais levam muitos jovens a ficarem mais fragilizados ou pela falta do grupo que neste período é vital para lhes conferir a própria identidade, ou pelo distanciamento de seus afetos  ou, ao contrário, são atormentadas por estarem confinados na convivência em um lar abusivo. O isolamento social aprisionando o jovem em um ambiente nocivo o leva a adoecer.

A prevenção evidentemente vai variar conforme idade da pessoa. Pensando nos jovens temos que ter em conta que, além vulnerabilidade socioeconômica e da presença de sofrimento psíquico, atuam no Brasil, como fatores de risco importantes,o uso abusivo de álcool e outras drogas e todas as questões que se aliam ao mesmo.

São quatro os principais sentimentos de quem pensa em suicídio. São conhecidos como 4Ds:   depressão, desamparo, desesperança e desespero. Quando à percepção da presença destes sentimentos se acresce o que chamamos de “frases de alerta”, as ideias de morte são apresentadas claramente (“Preferiria morrer”, “Não aguento mais”…)Temos que ouvir essa realidade, como gritos por ajuda, pois estão se organizando em pensamentos e intenções suicidas concretas. A maioria das pessoas com ideias de morte dá sinais de seus 4D’s e esses pedidos de ajuda não podem ser ignorados. O risco de suicídio precisa ser cuidadosamente investigado. São sinais de 4D’s a falta de cuidado consigo mesmo tanto no plano da higiene pessoal quanto da alimentação; o desejo de isolamento fora da padrão da pessoa; a falta de interesse para com o ambiente a sua volta, o desinteresse em falar com as pessoas, em responder mensagens, a irritabilidade e a insônia, para citar alguns.

Escutar o grito de pedido de ajuda de seu filho ou filha pode necessitar trilhar vários caminhos de ajuda, mas vamos focar hoje no mais importante: na sua relação com este jovem que aqui imaginamos como sendo seu filho e você tendo com o mesmo(a) uma escuta empática, sem julgamento. É preciso chegar perto deste jovem acuado pelos 4 Ds, com o seu interesse despojado de seu olhar de mundo. Na maioria das vezes, não é preciso dizer nada, basta estar junto, inteiramente disponível e ouvir. A escuta empática, sem julgamento, nada mais é que isso: eu esvazio o meu ser de julgamentos (onde errei?, qual é a causa disso? quem é o culpado? isso é bobagem!  é frescura! é efeito de droga, das companhias… não importa) eu esvazio o meu ser de julgamentos e me coloco inteiramente no lugar de meu filho(a). Sinto o que é viver como ele(a) em um mundo em que desde bebê a pessoa é instigada a ter sucesso, a ser um vencedor, não tendo lugar para pessoas medianas. Lembro o que é ter hormônios explodindo descoordenadamente no meu corpo fazendo com que eu derrube tudo porque eu mesma perdi as referencias do tamanho do meu braço, ou perna. Penso na exposição das mídias sociais que meu filho tem e naquela espinha horrorosa que antes era escondida pela antiga pomada Minâncora, agora virou bullying virtual, um meme nas redes sociais, exposta para todos. Poderíamos dar exemplos por horas… o que importa é: ponha se inteiramente na pele de seu filho(a) com o olhar dele(a). Não julgando, não explicando, mas com a atitude básica que Carl Rogers nos ensinou: com aceitação incondicional. Aceite seu filho como ele é, sem julgamento. Rogers nos ensinou que nestas condições, todos buscam a saúde. Aos poucos vá abrindo janelas na sua comunicação com seu filho(a) e vai tirando os D’s da vida dele.

Ter uma escuta empática, cuidadosa, respeitosa e franca, sem dúvida,mas acima de tudo balizada com muito amor. Tenha calma, não apresse o rio. Dê tempo para que ele ou ela se sinta confiante e consiga pegar na mão que você lhe estende. Vocês dois vão sair transformados desta experiência de abertura e aceitação.

Entre em contato se tiver dúvidas.

Vania Reis

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