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Dom João Batista da Mota e Albuquerque, ao abrir as portas da Catedral de Vitória para abrigar mais de 500 pessoas despejadas que ocupavam

Edebrande Cavalieri

Essa expressão, tão forte, foi proferida por Dom João Batista da Mota e Albuquerque, ao abrir as portas da Catedral de Vitória para abrigar mais de 500 pessoas despejadas que ocupavam uma área em Cariacica em 1982. Nesse momento, o Estado do Espírito Santo passava por profundas transformações socioeconômicas com a implantação de grandes projetos industriais e o aumento do êxodo rural. A grande Vitória ficou inchada, alargando a periferia e a pobreza.

Foi o momento em que na região de São Pedro, lugar escolhido pela administração municipal para depósito do lixo de Vitória, cresceu com as ocupações feitas por pessoas que corriam para o lixão, atrás dos caminhões coletores em meio aos urubus e cachorros. É desse período a produção de um Documentário dirigido pelo jornalista Amilton de Almeida intitulado “Lugar de Toda Pobreza”, que os mais velhos devem ter visto em colégios e Igrejas.

Nesse documentário, o testemunho de uma criança na época representa de maneira crua e cruel a forma de vida que ali se estabelecia e contextualiza um pouco a ação de Dom João Batista: “Eu era aquela garotinha que balança, com meus cinco, sete anos. A gente comia comida vencida. Como o lixo era todo misturado, não tinha separação como hoje, vinha lixo de hospital misturado com comida. E a gente comia ali, e eu lembro que eu engolia e quando sentia o gosto daquela comida era um gosto de mosca”.

A realidade capixaba estava se transformando rapidamente. As décadas de 70 e 80 viram o crescimento do número de pessoas sem moradia e sem trabalho e o lixo era uma forma de garantir a subsistência. A implantação de projetos como a indústria de celulose em Aracruz, a CST, Tubarão e outros grandes empreendimentos, acabou trazendo insegurança e violência dos mais diversos tipos. Nas periferias de Serra, de Vitória, de Cariacica e Vila Velha a situação era semelhante. Formam-se os bolsões de pobreza.

Assim a decisão de abrir as portas da Catedral para abrigar os despejados foi de grande coragem, e muito arriscada. E mostra como o Concílio Vaticano II marcou profundamente sua vida. Foi um dos propositores e signatários do “Pacto das Catacumbas” em 16 de novembro de 1965. Ao retornar após o Concílio, era bem claro o efeito do Concílio iluminando com sua luz a condução pastoral da Igreja de Vitória. O gesto expressava um grito profético: era preciso fazer caber essas pessoas na cidade! E para isso os despejados podiam contar com o apoio e o acolhimento da Igreja.

O Pacto das Catacumbas expressava um compromisso colegial sendo feitocom mais de 500 bispos que participavam do Concílio. Era um “Pacto por uma Igreja Serva e Pobre”, expressando assim um compromisso por uma “opção preferencial pelos pobres”. Com muita alegria, por ocasião do Sínodo da Amazônia, vimos um novo “Pacto das Catacumbas pela Casa Comum” – por uma “Igreja com rosto amazônico, pobre e servidora, profética e samaritana”. Isso mostra como determinados compromissos eclesiais transcendem o tempo de sua realização e se vinculam uns aos outros, pois procedem de uma mesma fonte – o Evangelho de Jesus Cristo.

Abrir as portas da Catedral era muito mais que encontrar um abrigo para as pessoas despejadas. É lógico que se Dom João falasse com alguma pessoa, aqueles despejados teriam onde dormir por um determinado número de noites. Na verdade, a abertura das portas expressava de maneira simbólica e concreta o compromisso da Igreja com os mais pobres da sociedade.

Outros gestos também muito significativos foram marcantes no magistério de Dom João. Assim ainda em Roma na época do Concílio fez a doação de sua cruz peitoral de ouro e pedras preciosas para um grupo de pobres da Cidade romana. Depois dessa doação, ela passou a usar uma cruz peitoral feita em madeira.

Chegando em Vitória desfez-se do carro oficial com motorista, e aprendeu a dirigir usando um fusquinha que se tornou famoso. E também foi com esse carrinho que sofreu alguns acidentes sendo o mais grave em 1968 ao retornar de Santa Teresa tendo sofrido dezessete fraturas. São símbolos muito significativos de uma Igreja pobre e para os pobres.

Lembro com muita alegria quando eu estudava em São Paulo e Dom Paulo Evaristo Arns abria também as portas da Catedral da Sé para acolher as pessoas perseguidas pelo regime político de então. Muitos padres estavam presos e eram torturados, e Dom Paulo simbolicamente punha a Igreja como uma mãe acolhedora.

Assim as portas que se abrem guardam uma significação muito profunda. Não é preciso de templos suntuosos para abrigar e alimentar a fé das pessoas. Precisamos sim de uma Igreja acolhedora, samaritana, sempre de “portas abertas” para receber os despejados da sociedade, os rejeitados.

Cada cristão então se torna responsável pela abertura de portas da Igreja: a porta do acolhimento, a porta da misericórdia, a porta do perdão, a porta da comunhão. Temos um exemplo concreto em São Francisco de Assis que abriu as portas do próprio espírito tornando-se pobre para viver com os mais pobres.Jesus se viu despejado ao nascer do ventre de Maria. O desafio cristão está exatamente na abertura das portas, para que entrem os injustiçados, os despejados, os famintos, os sem tetos, os excluídos, os sem terras. O Natal se avizinha e ele representa a abertura da porta em que o Menino Deus se encarnou. E através dele os “despejados do mundo” puderam encontrar a vida e a salvação.

Dentro da Nutrologia, a pobreza vem cercada de deficiências nutricionais, em decorrência da escassez de bons alimentos no dia-a-dia das pessoas acometidas por esta

Roger Bongestab

Médico Cirurgião Geral e Nutrólogo

(CRM-ES:9827, RQE:7324 / 7889)

Nesta semana, a Igreja faz sua reflexão sobre os pobres. Dentro da Nutrologia, a pobreza vem cercada de deficiências nutricionais, em decorrência da escassez de bons alimentos no dia-a-dia das pessoas acometidas por esta desigualdade de distribuição de renda ao redor do mundo.

Denutrição é um termo que significa nutrição inadequada, podendo ser a hiponutrição ou a hipernutrição. Porém, convencionaremos aqui como sendo, conforme entendimento leigo, a desnutrição equivalendo-se à hiponutrição.

Alimentos ricos em proteínas são caros, como carnes, laticínios e ovos. Em contrapartida, temos os carboidratos como os mais baratos, tais como as farinhas de trigo e de milho. Sendo assim, os pobres tendem a receber diariamente uma ingestão de carboidratos que supera a proporção recomendada, gerando ganho de massa de gordura, com perda de massa muscular e enfraquecimento ósseo. Isso, muitas, vezes, faz com que haja queda da imunidade e da resistência física. Dessa forma, ficam, susceptíveis a doenças físicas.

As carências de micronutrientes, que são os minerais e vitaminas, manifestam-se com anemias, fraturas ósseas e dentárias, cansaço crônico, fragilidade de unhas e cabelos. Em casos mais acentuados, pode-se ter alterações neurológicas irreversíveis, com perda de algumas funções cognitivas e motoras.

Já as carências de macronutrientes, como as proteínas e boas gorduras, especialmente em crianças, leva à baixa estatura, alterações na arcada dentária e arqueamento de ossos, ou seja, deformidades ortopédicas, bem como atraso do desenvolvimento cognitivo e motor, com sequelas ad eternum. A famosa “barriga d´água” é um exemplo de carência de proteínas, que gera acúmulo de líquido dentro do abdome.

Precisamos conscientizar a sociedade de que a pobreza vai além da falta de recursos financeiros, chegando a criar sequelas físicas e emocionais, como as supracitadas. Rezemos pelos pobres. Ajudemos com a caridade e com o trabalho social a diminuir as desigualdades, combatendo à fome. Apoiemos a Igreja Católica, que é provedora de diversas campanhas e obras assistenciais, junto às paróquias e arquidioceses espalhadas pelo mundo.

Lembremos que a messe pode ser grande se semearmos a caridade; mas, para isso há necessidade de braços. E você, que o que tem feito de caridade aos pobres? Estenda seus braços a eles. Ore por eles, e para que Deus possa tocar o coração de todos nós a ajudá-los de alguma forma.

Boa semana de reflexão a todos!

Podemos exprimir esta tarefa com a metáfora da linguagem. Amor se torna agora semelhante a falar. A linguagem é o canal para comunicar com

Pe. Renato CristeCovre

Mestre em Teologia do Matrimônio e Família,

pelo Instituto João Paulo II – Roma

A experiência do amor nos revela uma VOCAÇÃO, um destino.

Podemos exprimir esta tarefa com a metáfora da linguagem. Amor se torna agora semelhante a falar. A linguagem é o canal para comunicar com as outras pessoas. A linguagem implica palavras, verbos, significados, intenções, diálogos; necessita saber o que quer dizer e como dizer, do contrário poderia cometer alguns equívocos. Neste sentido para amar se faz necessário saber o que é o amor e como amar.

Amar é o que mais necessita o homem de aprender. A família é o berço onde a pessoa aprende a amar. Por isso, se pode dizer, com S. João Paulo II que “o caminho da Igreja é o homem” e com Bento XVI que “o caminho do homem é o amor” e que para todo o homem o caminho do Amor é o caminho da Família. 

A experiência amorosa nos promete uma plenitude de comunhão, é possível viver esta comunhão, torna-la real, atualizá-la somente nas ações do amor. A comunhão se constrói com atos de amor, são estes atos que a torna presente, atual.

Entre a experiência amorosa, na qual se descobre uma promessa de comunhão, e a realização desta comunhão no dom de si se abre normalmente uma distância temporal que tem uma importância decisiva na vida das pessoas. É o tempo em que os seus protagonistas poderão verificar a promessa intuída e poderão fazer as passagens necessárias para viver a promessa. Se abre assim o período do noivado.

Entre as diversas dimensões humanas que a experiência do amor comporta, uma destas é também a dimensão da temporalidade. É difícil conceber um tempo sem a possibilidade de viver com esta pessoa. O tempo presente se concentra em um futuro, na possibilidade de alcançar aquilo que no amor vem prometido (a ausência do amado no amante).

A experiência do amor gera a esperança. O desejo humano, animado pela plenitude da promessa, aspira a alcança-la, move a pessoa em direção o futuro. Agora, este desejo de permanência com o amado (a) não é então propriamente vivido como um factum, algo que um encontra em si, mas como um practicum, isto é, como algo para ser construído.

Por motivo desta distância que introduz o presente e o futuro, o amor move a pessoa a dois atos, ambos intrinsicamente conexos: em primeiro lugar a crer na promessa, crer na revelação suposta em tal promessa. Eis o primeiro ato do amor: crer no amor (início do caminho do amor).

E esta fé move agora a um segundo ato: prometer. Com isto se dá a direção à vida e se assume o impulso do amor em um dinamismo pessoal. Amar é prometer. Começa com pequenas promessas que o homem vai pouco a pouco realizando (p. Ex. Convidar a pessoa amada ao cinema, interessar-se por ela. … Até o momento no qual se promete de empreender um mútuo caminho de noivado. 

Em 2 dias teremos nossas eleições para prefeito e vereadores. Mesmo que sejamos bem ligados à política, é preciso reconhecer que a grande maioria

Em 2 dias teremos nossas eleições para prefeito e vereadores. Mesmo que sejamos bem ligados à política, é preciso reconhecer que a grande maioria ainda é aprendiz iniciante nesta habilidade. Já votamos errado várias vezes!!! Já nos arrependemos e até nos surpreendemos. Já aprendemos que não são as palavras que um candidato fala que nos assegura confiança na sua capacidade de realização de suas “promessas”. Já aprendemos que sua história passada de realizações, sua capacidade de ver a realidade de forma ampliada, de competência em atingir seus objetivos com ética, sua estrutura familiar fala tanto ou mais quanto as palavras que pronuncia. Nós aprendemos que “nem tudo o que reluz é ouro” e que pessoas de má fé que ou querem pintar de dourado o seu candidato, ou querem denegrir aquele que é concorrente forte “puxando o tapete” para tentar vencer. Meias verdades, mentiras sem escrúpulo, calúnias, temos de tudo!!!

Entre tantas outras, uma grande dificuldade de votar nesta pandemia é ter uma fonte confiável para avaliar as informações disponíveis dos candidatos. Tínhamos nas opiniões coletivas (família, amigos, comunidades diversas) parâmetros que nos ajudavam na escolha. Esses grupos hoje muitas vezes estão tão divididos em ideologias que criam realidades tão conspiratórias ou caóticas e irracionais que na maioria das vezes não se consegue diálogo produtivo. Um lado não ouve o outro e fica difícil tentar extrair um senso comum, quem dirá uma bom senso para apoio, em um mundo de tantas narrativas e de versões tão opostas…

Aí que saudade do mundo cartesiano, lógico, onde o certo e o errado era compartilhado por todos! Mas não adianta ter saudades do lampião a gás. Este mundo digital também há muitas limitações. Há coisas hoje certas, que são erradas e coisas erradas que são certas. O politicamente correto levado ao rigor (cartesiano) desconhece sutilezas e iguala desiguais e é injusto. Tema bom para pensar em outro dia, mas hoje temos uma escolha pela frente: como não cair nos mesmos erros de antes nas votações deste ano.

Então algumas reflexões:

1)     Seu candidato defende os princípios cristãos? Se você não sabe, procure saber, porque você quer alguém que lhe represente, certo? Se ele ou ela não defende as suas ideias, esquece!

2)     Não sabe que ideias ele/ela defende porque na propaganda eleitoral pedia voto do tipo vote no careca, vote no gordinho … esquece! Se não sabe se comunicar, não vai conseguir realizar.

3)     É de partido que se opõe ao seu candidato a prefeito?Então avalia bem! É pessoa que tem boas ideias, sabe dialogar, mas não ajudaria o prefeito a governar? Esquece! Troca de candidato. Sem apoio seu prefeito não governa.

4)     É pessoa conhecida e você acha que se precisar terá mais acesso, por isso vai votar nela? Só Isso não garante nada. Se ele/a não defende as mesmas ideias suas….esquece! Não vai defender depois de eleito/a.

Essas reflexões,elementares com certeza, se propõe apenas a nos lembrar dos erros que cometemos em outras eleições. Repetir os mesmos erros, aí não!!!

 

A origem da festa Deepavali situa-se há centenas de anos antes da era cristã. E estava relacionada aos festivais da colheita, quando os primeiros

Edebrande Cavalieri

No dia 14 de novembro comemora-se na tradição religiosa hinduísta o “festival das luzes” do Deepavali, que significa “fileira de lâmpadas de óleo” recordando a vitória da luz sobre as trevas, da verdade sobre a mentira, da vida sobre a morte e do bem sobre o mal. Apesar de nos sentirmos tão distantes dessa religião, vemos que tais temas são bem conhecidos entre os cristãos. Os Evangelistas a eles se referem em diversos momentos.

A origem da festa Deepavali situa-se há centenas de anos antes da era cristã. E estava relacionada aos festivais da colheita, quando os primeiros frutos maduros surgiam. Os diversos sentidos da festa não são estranhos à fé cristã. Ao mesmo tempo na cultura hindu, nesses dias, é o momento de se vestir com roupas novas, comer doces e soltar fogos de artifício. Bem parecido com a nossa festa ocidental do Revéillon?! O fundo da festa é de alegria, de esperança, e de convivência pacífica e solidária.

Os festejos se prolongam por cinco dias e tem início na noite mais escura do ano, quando são acendidas as lâmpadas de argila com óleo, tendo como mensagem espiritual: “Venha, deixe-nos remover a escuridão da face da terra”. Em toda a Índia e outros países, inclusive no Nepal de tradição budista, se celebra essa grande festa da luz, da prosperidade, da abundância, da riqueza. O ocidente parece conhecer apenas o lucro do turismo dessa festa, mas ela tem um sentindo espiritual muito profundo.

O Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso, do Vaticano, como tem feito ao longo dos últimos 25 anos, enviou uma Mensagem aos hinduístas convidando cristãos e hinduístas “a se unirem a todas as pessoas de boa vontade para construir uma cultura de positividade e esperança no coração de nossas sociedades, não apenas nestes dias difíceis, mas também no futuro que está por vir”.A mensagem traz como tema: “Cristãos e hindus – reacendamos um clima positivo e de esperança durante a pandemia da covid-19 e depois”.

Essa notícia foi veiculada pelo site Vatican News e compartilhado nas redes sociais. Após ler a notícia passei a ver os comentários das pessoas nas redes sociais e não apenas me chamou muito a atenção, mas me deixou profundamente angustiado. Fui verificar os sites dos diversos organismos da Igreja do Brasil, como CNBB, e redes católicas de comunicação, e vi que a notícia estava sendo assumida por esses organismos.

Mas qual o motivo de minha angústia? Entre tantos comentários elogiando a iniciativa do diálogo inter-religioso, vi também muitos comentários de pessoas que parecem católicas, afirmando que “a aproximação com as religiões não católicas está gerando um caos”, “ecumenismo não é coisa de Deus”, “diálogo inter-religioso não leva a nada”. Outros comentários são ainda muito piores, pois atacam o Papa Francisco de maneira desleal e despudorada.

Confesso que já ouvi inclusive padres afirmando que os católicos não devem se conduzir pela pauta do diálogo, pois as outras religiões não procedem da mesma forma. Para eles, trata-se de uma guerra e a fé cristã católica precisa se sobrepor às demais religiões ou credos.Esses ainda não chegaram ao Concílio Vaticano II.

Para muitos estamos numa guerra de religiões, inclusive pela ocupação do espaço público. E nisso vejo o maior perigo para a humanidade, pois conhecemos pela história tantas guerras fratricidas, tantas mortes, tanto sofrimento. O muro que divide as religiões precisa ser derrubado para a construção de pontes. Esse é o ensinamento do Magistério do Papa Francisco.

Diante daquelas ponderações e críticas, me vem muitas perguntas aos adversários do diálogo inter-religioso e do próprio Magistério da Igreja conduzida por Francisco. Que conhecimento desta festa os opositores ao diálogo inter-religioso possuem? Leram a mensagem do Pontifício Conselho?

Como provavelmente não devem ter lido nada, passo a apresentar de maneira bem sintética o que essa festa representa e quais os pontos principais da Mensagem do Pontifício Conselho. E assim podermos avaliar como seria possível a construção de pontes para uma vida de paz com os hinduístas.

Um dos críticos a essa Mensagem perguntava de maneira incisiva: “Como aqueles que não creem no verdadeiro Deus, que não receberam a graça do Espírito Santo pelo batismo, podem compartilhar da mesma esperança cristã? Ou os cristãos estão se deixando nutrir por uma esperança não cristã”?

Que inquietação complexa e honesta! Não duvido da sinceridade dessa pessoa. E gostaria muito que nas Igrejas os padres na hora da homilia fizessem uma explicação maior sobre essa questão. Muitos católicos têm insegurança e dúvida. A catequese não se completa com a Primeira Eucaristia, e essa preocupação reflete a incompletude do processo catequético. É preciso educar na fé permanentemente. Sem catequese permanente fica muito difícil se construir pontes.

Vamos ver como a Mensagem do Conselho ajudaria a essa pessoa.Com esses tempos de Pandemia que afetaram toda a humanidade, os homens não podem estar separados entre muros políticos, religiosos ou culturais. Todos temos o compromisso de “remover as nuvens do medo, da ansiedade e de todo receio e encher as mentes e os corações com a luz da amizade, da generosidade e da solidariedade”. O que haveria de errado nisso, unindo cristãos e hinduístas? Em que contraria o projeto de Deus para a humanidade? Em que a luta contra a mentira, contra a morte, contra o mal, contra as trevas, afetaria a fé cristã?  A remoção dos diversos tipos de escuridão do mundo me parece ser também uma tarefa cristã, pois está no Evangelho de Jesus Cristo.

O Conselho explicita o objetivo das Mensagens: “visam reconhecer, preservar e cultivar as coisas boas presentes nas duas tradições religiosas e em nossos patrimônios espirituais”. Trata-se de uma cooperação inter-religiosa para a promoção do bem das duas religiões e de toda a humanidade. E nesse momento de Pandemia, é preciso encorajar um “espírito positivo e esperança para o futuro, mesmo diante de obstáculos aparentemente intransponíveis, desafios socioeconômicos, políticos e espirituais e ansiedade, incerteza e medo generalizados”. Em outras palavras, cristãos e hinduístas estão num mesmo barco. A “esperança e o sentido de positividade correm o risco de se dissipar nas situações trágicas causadas pela pandemia”.

Voltando ainda às mensagens presentes nas redes sociais acusando e condenando o movimento católico em prol do Ecumenismo e Diálogo Inter-religioso, podemos tecer alguns argumentos. As pessoas que atacam e agridem a Igreja e o Papa estão no caminho equivocado, pois lhes faltam a fidelidade requerida e o sentido da comunhão apostólica, essencial. São injustos e cruéis, e até perversos, pois sentem-se como os únicos merecedores da graça e da salvação de Deus.

Aos que apenas são contrários, poderíamos perguntar: já houve um tempo em que na Europa e na América predominava uma Igreja. Eram os tempos da Cristandade. Então, era de se esperar uma vivência profundamente cristã sem nenhuma prática contrária ao Evangelho. E não é isso que conhecemos da história. Como se explicam as Cruzadas, a Inquisição, o Cesaropapismo, a compra de cargos eclesiásticos, a venda das indulgências, a fogueira queimando mulheres, judeus e ciganos?

É preciso repensar a salvação. Que Deus poderia separar a humanidade somente a partir dos limites das paredes das nossas Igrejas? A tese de que “fora da Igreja não há salvação” foi totalmente reformulada pelo Concílio Vaticano II. É preciso ler a “Lumen Gentium”. E não falar bobagens ou fazendo uso político de argumentos belicosos e intolerantes.

Então, na construção de pontes e não de muros temos a direção do timoneiro desse barco, o Papa Francisco. Ele nos diz que é preciso construir essa ponte e fazer o “contágio da esperança”, com gestos de cuidado, afeto, gentileza e compaixão. Não poderia ignorar a Encíclica do Papa Bento XVI que tem por título “É na esperança que fomos salvos”. Por meio da esperança podemos enfrentar o nosso tempo tão difícil. E por que não uma ponte positiva unindo a fé cristã fundamentada na esperança com a tradição hinduísta da festa das luzes? A esperança torna-se o grande lumieiro da humanidade em seu conjunto nos dias que correm. Mais luz para esse mundo! Menos escuridão!

É alarmante o número de obesos no mundo. A velocidade com que a população vem se tornado mais pesada é alta.

Roger Bongestab

Médico Cirurgião Geral e Nutrólogo

(CRM-ES:9827, RQE:7324 / 7889)

 

É alarmante o número de obesos no mundo. A velocidade com que a população vem se tornado mais pesada é alta. Preocupante. Isso porquê junto do ganho de peso aparecem as consequências fisiológicas e metabólicas que geram outras doenças, reduzindo a qualidade de vida e o tempo de vida do portador desta condição corporal.

 

Para se definir obesidade, a Organização Mundial da Saúde (OMS) aderiu ao “índice de massa corporal (IMC)” como método. Esse índice se baseia em uma simples conta matemática calculada com a divisão do peso (em quilogramas) pelo quadrado da altura (em metros). Simples e prático, o IMC nos oferece um número que, estratificando em uma tabela prévia, pode-se classificar a composição corporal (tabela abaixo).

 

 

No Brasil, 60% da população encontra-se com sobrepeso ou obesidade. Ao se analisar apenas a obesidade, encontra-se que 25% de toda população do país está já com obesidade propriamente dita. E isso também é possível de se encontrar na população de crianças e adolescentes, na qual 15% encontra-se com obesidade. Logo, o futuro será marcado por um país mais gordo, menos saudável. Por isso, medidas de saúde pública precisam de imediato serem implementadas no tratamento dos que já estão com peso elevado, bem como na prevenção desta ocorrência.

 

Diversas são as possibilidades terapêuticas, sendo a base de todas a mudança no estilo de vida: dieta e atividade física rotineiras. Em muitos casos, faz-se necessário, sob acompanhamento médico especializado, a inclusão de medicações que atuam no controle da fome e da saciedade. Quando esta associação não consegue reverter o quadro da obesidade grau 2 ou grau 3 em dois anos de tratamento, faz-se necessário indicar a cirurgia bariátrica e metabólica. Sobre esta cirurgia, discutiremos em um publicação nesta coluna especificamente.

 

E você, como está de composição corporal? Já calculou seu IMC? Faça esta conta matemática e, caso haja identificação de alterações, busque profissional médico para ajustes.

Até a semana que vem!

 

 

 

Que se sente amado, acolhido por Deus e convidado a celebrar as núpcias com o seu Criador, algo retratado, de forma exemplar, no livro

     Pe. Andherson Franklin Lustoza de Souza,

 professor de Sagrada Escritura no IFTAV e

Doutor em Sagrada Escritura

        No Evangelho de Mateus, no capítulo vinte e cinco, encontra-se a parábola das dez virgens que carregam as suas lâmpadas e saem ao encontro do esposo que lhes deveria acolher para as núpcias. A imagem do matrimônio, no qual Deus é apresentado como o esposo de Israel é muito presente em todo o Primeiro Testamento, como um elemento importante da experiência de Fé do povo eleito. Que se sente amado, acolhido por Deus e convidado a celebrar as núpcias com o seu Criador, algo retratado, de forma exemplar, no livro do profeta Oséias, particularmente em seu segundo capítulo. No caso do texto do Evangelho de Mateus, o tema do amor esponsal está diretamente relacionado à vigilância que deve ser mantida e vivida por todos os são chamados a ser discípulos de Cristo, ou seja, todos os batizados. Desse modo, todos os elementos presentes na parábola se relacionam diretamente com a vivência da comunidade eclesial, seus desafios e esperanças.

        A comunidade de Mateus, marcada pelo entusiasmo inicial, pelo vigor no seguimento de Cristo, vê-se mergulhada no marasmo e no “sono”, no cansaço e na preguiça diante da necessidade do testemunho e da vivência da Fé. O evangelista, preocupado com tal situação, apresenta a necessidade da vigilância constante em três de suas parábolas: os servos que esperam o seu Senhor voltar, as virgens que saem ao encontro do esposo e aqueles que receberam os talentos e os devem multiplicar. Todos os personagens destas parábolas indicam para a necessidade da vigilância na espera do Senhor, exemplificam como deve estar o discípulo missionário na expectativa do retorno de seu Mestre.

        No caso específico da parábola das virgens, é importante notar que ao comparar o Reino dos Céus com a parábola que ira contar, o evangelista indica que o esposo esperado é próprio Cristo. Isto é, o Messias que deve retornar, o que confere à vigilância de todos um caráter de perseverança na fé, de saudade e de amor. Neste caso, a vigilância do discípulo missionário é marcada pela relação estreita com o Mestre, na expectativa de seu retorno. Mantendo sempre firme a atitude em fazer a sua vontade, viver segundo o caminho proposto, isto é, assumindo o testemunho e a vivência da fé em sua mais plena concretude. O que faz com que a preguiça e o descaso, ressaltado na atitude das virgens que não levaram óleo suficiente, deva ser abandonada, para dar lugar à vigilância responsável e atenta.

        O discípulo é convidado a ir ao encontro do Mestre, por meio de uma constante busca de Sua face, a fim de que se mantenha fiel, à espera do retorno daquele que o amou. Nutrindo a certeza de que aquele que se procura é o próprio Deus, algo que deve garantir ao cristão, chamado a ser discípulo de Cristo, a capacidade de vigiar sempre e em todos os momentos da vida. Numa atitude que corresponda à Fé abraçada e vivida no seguimento de Cristo, que não deve perder o seu vigor diante das dificuldades próprias do caminho. Desse modo, a vigilância então é uma atitude de Fé, que diz respeito ao modo de vida marcado pelos valores do Evangelho. Não é uma espera passiva, mas, uma vivência ativa da caridade, da comunhão fraterna, dos gestos de solidariedade e de compaixão, principalmente direcionados aos mais pobres e excluídos. Gestos estes que que são capazes de iluminar a vida de todos os discípulos missionários de Jesus Cristo, tornando-os luzeiros a brilhar no mundo. Desse modo, o testemunho de uma vida marcada por tais valores e pelo serviço aos mais necessitados é a luz acesa e brilhante na vida daqueles que vivem a expectativa do retorno do Mestre. Pois, foram marcados pela experiência de fé que lhes apresenta o caminho da vigilância e da constância do testemunho.

         

                   

Essa frase foi dita pelo Papa Francisco numa carta datada de 22 de outubro passado por ocasião dos 50º aniversário das relações diplomáticas entre

Edebrande Cavalieri

Essa frase foi dita pelo Papa Francisco numa carta datada de 22 de outubro passado por ocasião dos 50º aniversário das relações diplomáticas entre a Santa Sé e a União Europeia e o 40º aniversário da Comissão dos Episcopados da Comunidade Europeia. Logo ganhou grande repercussão nas redes sociais e muitos receberam com certo ar de preocupação. Talvez seja por causa do desconhecimento do que seja um Estado laico, ou até por força dos movimentos restauradores que ainda são fortes na Igreja e são portadores de grande número de críticas e agressões ao Pontífice nos meios de comunicação. Vamos então esclarecer o conceito de laicidade tão importante nos dias atuais e mal compreendido por muitas pessoas.

Ao se falar em Estado laico não estamos nos referindo à ateísmo, tão temido por muitos. A origem da palavra laicidade vem da língua grega – laos – e significa o povo em geral, o povo todo, sem exceção. Portanto, ao se falar em Estado laico estamos afirmando que nesse espaço deve caber o povo todo, todas as pessoas que habitam esse território. Estamos falando de um direito universal e não privilégio particular de uma Igreja ou uma religião, ou uma cultura. É dever do Estado dar o mesmo tratamento a todos os segmentos sociais e religiosos, ou não religiosos. Houve tempo na história que ciganos e judeus não cabiam em lugar nenhum. E hoje pessoas de outras raças, outras religiões parecem não caber no mundo atual.

Qualquer grupo social que tenha aspiração dominante de cunho histórico, racial, religioso, linguístico, estético ou econômico, no contexto de um Estado laico, esse grupo não pode impor de maneira autoritária ou autocrática suas orientações, suas normas, num espaço público que pertence a todos. É num Estado laico que se constitui uma sociedade livre, aberta e inclusiva, e por isso, esse Estado deve se pautar pela neutralidade. Não comporta nenhum tipo de intolerância religiosa, cultural ou ideológica.

No Brasil o Estado laico se originou com o Decreto 119-A de 1890 que determinou a separação entre o Estado e a Igreja Católica. Mesmo com a independência em 1822, a Constituição de 1824 determinava que a religião oficial fosse a Católica. As demais Igrejas e religiões só possuíam a liberdade para o culto privado, sem autorização para a construção de seus templos. Foram quatro séculos de uma estrutura de união entre Estado e Igreja sob a forma de Padroado, e se finda com o advento da República.

A estreita união entre Estado e Igreja trouxe consequências nocivas à pregação do Evangelho, pois os padres e bispos estavam a serviço do governo e não da pastoral. Quando alguns bispos resolveram alinhar-se ao Papa em Roma, eles foram perseguidos e presos, condenados a trabalhos forçados. Então a separação que acontece com o advento da República significou a liberdade para a Igreja, mesmo que isso custasse em termos financeiros.

No mundo, foi durante o Século XVIII, com o iluminismo, que se passou a defender com mais força a liberdade religiosa e a concepção de Estado e educação laicos. Rompia-se aí a união entre o Estado Absolutista com o Alto Clero da Igreja Católica. A Revolução Francesa em 1789 rompeu definitivamente a união da Igreja com o Estado. A história europeia é marcada por muitos conflitos entre as esferas política e religiosa. Quem não se lembra da Guerra dos Trinta Anos entre Católicos e Protestantes? Ou a Noite de São Bartolomeu quando centenas de pessoas morreram?

Enfim, a ideia de um Estado laico é fruto de um longo processo de lutas e conflitos, mistura de interesses, prejuízos para a fé cristã corrompida pelos interesses políticos, e desenvolvimento de tantas formas de intolerância religiosa e cultural. Então, quando o Papa Francisco expressa esse sonho sua base de argumentação não é de ordem ideológica, mas concreta, histórica. A Europa conhece muito bem os resultados dos conflitos herdados do passado e reconhece o valor de um distanciamento salutar entre as esferas política e religiosa.

Tem se desenvolvido no mundo político uma tendência de colocar a religião cristã como suporte de apoio para as ações políticas. A Direita cristã com certeza deseja uma Europa cristã, mas para o Papa a questão não é essa. Antes de tudo é preciso de um mundo que seja melhor em termos de convivência. Trata-se de um mundo sonhado em termos de paz, do bem comum, da acolhida. A Direita cristã instrumentaliza a religião conforme seus interesses de dominação, e não em vista de um mundo de paz. A Igreja Católica precisa tomar muito cuidado em não ser instrumentalizada nesse jogo político. O sonho do papa se torna então um objetivo de ação evangélica. A liberdade religiosa precisa ser preservada e não submissa à vontade política de governantes.

O Papa entende que as esferas religiosa e política não devem ser opostas ou em conflito, mas distintas. Chega a dizer que “Deus e Cesar devem ser distintos e não opostos”. Não se trata de ceder terreno ao ateísmo, mas construção de “uma terra aberta à transcendência, onde quem é crente seja livre para professar publicamente a fé e propor o próprio ponto de vista na sociedade”. Trata-se de construir um espaço plural, de convivência fraterna, de respeito mútuo, de liberdade. O Papa chega a falar em “uma família, uma comunidade”.

Então, o fato de se ter um país predominantemente cristão não se dá o direito de imposição de normas e leis cristãs para todo o conjunto da sociedade. Isso vale para qualquer religião. A fé não é algo a ser imposto. E tem mais um ponto que é importantíssimo: o Estado jamais poderá privilegiar de alguma forma uma Igreja em particular, ou religião. Todos estão sujeitos aos mesmos direitos. Assim, não tem sentido falar de se ter um “ministro terrivelmente evangélico” no STF. Também não tem sentido ajudar alguma instituição religiosa em detrimento das demais, pois o dinheiro administrado pelo Estado tem origem nos impostos cobrados da população, tem origem pública. A regra republicana sempre será através dos mecanismos de concorrência, licitação, e não troca de favores. Um Estado que favorece algum ente em particular será o mesmo que depois lhe passará a conta a ser paga, e geralmente será uma conta imoral.

Um Estado saudavelmente laico é garantidor da vida democrática. Isso é o que todas as Igrejas e Religiões deveriam exigir, pois assim terão direito à liberdade de professarem sua fé, na forma que convier. O enfraquecimento democrático tende sempre a posturas discriminatórias, violentas. Hoje vemos com tristeza o crescimento da violência de origem religiosa. Fanáticos e fundamentalistas estão fazendo correr muito sangue nas ruas, nas cidades.

O sonho de Francisco para a Europa é que seja um espaço em que cada nação conviva de forma amiga com as demais, onde a dignidade de cada pessoa seja respeitada, e que seja um lugar acolhedor e hospitaleiro determinado pela prática da caridade. Somente assim será possível romper as violências decorrentes do ódio, do terror, da indiferença e do egoísmo. Somente a caridade entre as nações poderá ser a semente da paz. O mundo de hoje carece da caridade, da ternura. O melhor caminho para Deus nesses tempos é sim a caridade, o amor.