Seminário

Antonio Vitor I “Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga” (Mc 8, 34b) A Liturgia

Antonio Vitor I “Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga” (Mc 8, 34b)

A Liturgia de hoje nos convida a refletir sobre o caminho de realização humana que perpassa pela fé e adesão verdadeira a Jesus Cristo. Um caminho que não leva ao fracasso, como julga o mundo, mas à Vida verdadeira. 

Na Primeira Leitura (Is 50, 5-9a), ouvimos o relato de um profeta anônimo que incumbido da missão de anunciar e testemunhar a Palavra salvadora de Deus experimenta a perseguição e os sofrimentos.  Conhecido como “Servo do Senhor”, é interpretado desde os primeiros cristãos como figura de Jesus Cristo: perseguido e morto por causa de sua Palavra de Salvação. No entanto, como relatado no livro de Isaías, o “Servo do Senhor” tem Deus como auxiliador (Cf. Is 50, 9a), por isso não há razão para medo. E de fato, Deus ressuscitou e glorificou seu Filho. Quem confia em Deus e segue fielmente suas propostas não fica decepcionado. 

Já na Segunda Leitura (Tg 2, 14-18), a Carta de São Tiago nos propõe que a fé sem obras é morta. Ou seja, a nossa fé deve traduzir-se em ações concretas no mundo, caso contrário se tornará apenas uma declaração de boas intenções. Aderir ao projeto de salvação de Jesus Cristo implica acolher a vida nova e plena que gratuitamente nos é ofertada e transparecer essa adesão em gestos de solidariedade, fraternidade e amor ao próximo. É no cotidiano, portanto, que a vivência da fé se materializa em ações de serviço e partilha. Discursos, conselhos, teorias e reflexões bem elaboradas se tornam desprovidos de sentido se não são acompanhados de gestos concretos. Nesse sentido, ser cristão não é algo que se vive na teoria, não é apenas um registro no livro de batismos da Paróquia. Mas sim uma adesão sincera a Cristo que significa conformar nossa vida aos valores do seu Evangelho e manifestar a fé na vida concreta. 

No Evangelho (Mc 8, 27-35), Marcos nos relata a confissão de fé de Pedro e dos discípulos de que Jesus é o Messias. Jesus faz duas perguntas aos discípulos: o que os outros pensam Dele e o que os próprios discípulos pensam Dele. A opinião do povo é de que Jesus é um profeta (João Batista, Elias), uma continuidade do passado. Seus olhos deixam escapar a originalidade e novidade de Jesus: o cumprimento da profecia, Aquele que vem para salvar. Veem Jesus apenas como um homem justo; não entenderam a profundidade do seu mistério. Pedro, no entanto, em nome da comunidade dos discípulos proclama que Jesus é o Messias. Mas Pedro ainda não havia compreendido a missão de Jesus e confunde seu messianismo somente com a glória e a vitória. Por isso Jesus é repreendido por Pedro após explicar que Ele deverá sofrer muito, ser rejeitado, morrer e ressuscitar no terceiro dia. 

Entretanto, é nesse contexto que  Jesus revela a tônica de sua missão e nos dá a lógica de seu seguimento: “[…] Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga. Pois quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas quem perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho, vai salvá-la” (Mc 8, 35). Seguir a Jesus e aderir a sua proposta de salvação não exclui os sofrimentos inerentes a essa decisão, nem torna a vida mais tranquila ou “perfeita”. Mas, antes de tudo, significa abraçar a exemplo do Senhor as rejeições e sofrimentos, fazer a fé frutificar em gestos concretos e levar às últimas consequências o amor a Deus e ao próximo.

Antonio Vitor Favero

Seminarista do 1º ano de Teologia.

Paróquia de Origem: Nossa Senhora da Conceição – Alfredo Chaves.

Paróquia de estágio Pastoral: Bom Jesus – Novo Horizonte – Cariacica.

Inauguração do Instituto de Filosofia e Teologia da Arquidiocese de Vitória (IFTAV) – 23/02/1985 O período compreendido entre 1968 e 1984 foi um dos
Inauguração do Instituto de Filosofia e Teologia da Arquidiocese de Vitória (IFTAV) – 23/02/1985

O período compreendido entre 1968 e 1984 foi um dos mais ricos no que diz respeito ao desenvolvimento intelectual e cultural do Seminário. Embora tenham sido tempos muito difíceis, tais dificuldades não abateram os ânimos dos responsáveis pela formação.

No dia 23 de fevereiro de 1985, foi inaugurado o Instituto de Filosofia e Teologia da Arquidiocese de Vitória (IFTAV). O ato solene foi presidido pelo Sr. Núncio Apostólico, Dom Carlo Furno, que estava em Vitória desde o dia anterior, para a entrega do Pálio Arquiepiscopal a Dom Silvestre Scandian.

Antes da inauguração, houve a Santa Missa, presidida pelo Núncio e concelebrada por diversos Bispos e Presbíteros, na Capela do Colégio do Carmo (Centro de Vitória – ao lado do prédio do Instituto). Participaram da Missa os alunos, as irmãs Milicianas, e um bom número de fiéis.

Após a Missa, foi descerrada a fita de inauguração, e proferida no salão nobre a aula inaugural pelo professor Dom Antônio Figueiredo (então Bispo de Teófilo Otoni – MG), com o tema: “A Patrística na Filosofia e na Teologia”.

O ato solene se concluiu com a palavra do Sr. Núncio, que manifestou sua alegria pela inauguração, ao mesmo tempo convidando a todos a se empenhar em prol das vocações. O primeiro Diretor do Instituto foi o Côn. Rubens Duque – na ocasião Reitor do Seminário -, que depois passou a contar com a ajuda de um professor leigo (coordenador de estudos).

Desde então, os alunos do Seminário Nossa Senhora da Penha, das Dioceses de Cachoeiro do Itapemirim, Colatina e São Mateus – além de religiosos -, passaram a frequentar as aulas no Instituto.

CRUZ, Arnóbio Passos. Seminário Nossa Senhora da Penha: 50 anos de história (1951-2001). Vitória, 2001.

Arthur Cristo I “Olhando para o céu, suspirou e disse: ‘Efatá!’, que quer dizer: ‘Abre-te!’” (Mc 7, 34). As leituras bíblicas que compõem a

Arthur Cristo IOlhando para o céu, suspirou e disse: ‘Efatá!’, que quer dizer: ‘Abre-te!’” (Mc 7, 34).

As leituras bíblicas que compõem a Liturgia deste Domingo nos apontam a universalidade a vocação cristã, o cumprimento das profecias messiânicas em Jesus redentor e a cura que Jesus realiza nas almas que abraçam a fé no Filho de Deus.

No Santo Evangelho (Mc 7,31-37), o Salvador está descendo da região de Tiro em direção à Galileia, passando por Sidônia e atravessando a região da Decápole. Neste interim, trouxeram-lhe um surdo-mudo para que fosse curado por seu toque. Jesus o retira à parte, toca-lhe os ouvidos com os dedos e com saliva sua língua, e ao dizer “efatá” (abre-te), o surdo-mudo fica curado. O povo impressionado aclama a Jesus como aquele que cumpre bem todas as coisas, cura os surdos e os mudos. De fato, na primeira leitura, retirada do livro de Isaias (Is 35, 4-7a), descrevem-se os prodígios que Deus realizará àqueles que serão resgatados e levados à Sião: se abrirão os olhos dos cegos e se descerrarão os ouvidos dos surdos, etc. Temos neste Evangelho o cumprimento do que se leu em Isaías: Jesus realiza a cura do surdo e manifesta seu poder messiânico.   

Esta região por onde Jesus estava a passar e a realizar milagres era território pagão. Mesmo sendo judeu, foi ao encontro daqueles que eram considerados impuros perante a lei. Ainda assim, reuniu ali multidões para ouvi-lo, curou a filha possessa de uma mulher sírio-fenícia (Mc 7, 24-30) e, agora, um surdo-mudo. Nisso se percebe o que está indicado na segunda leitura onde se afirma que a fé no Salvador não admite acepção de pessoas. No diálogo com a mulher sírio-fenícia Jesus afirma: deixa que primeiro se saciem os filhos […] (Mc 7,27); indicando que veio primeiro para os seus, contudo, diante da demonstração de fé da mulher pagã, o divino Redentor concede aquilo que lhe é solicitado, o mesmo ocorre ao lhe trazerem o surdo para curasse. Na segunda leitura São Tiago reprova qualquer espécie de distinção no tratamento, o cristão se torna “juiz com critérios injustos” se praticar a diferença de tratamento entre as pessoas. Temos de Jesus o melhor dos exemplos, pois ele realiza a salvação para todos.

Se submetermos todas essas indicações da liturgia da Palavra, o que o amoroso Deus terá a nos dizer por meio de sua Igreja?

O fato de Jesus estar em região pagã, e nela operar milagres e curas, significa que sua mensagem é universal, é para todos indistintamente; é tanto para os judeus quanto para os gentios. Talvez signifique mais do que isso: significa que Ele vai ao encontro dos que estão na escuridão da incredulidade, dos vícios, da ignorância, para traz-lhes a luz salvadora da fé. E a todos que receberem essa fé e acreditarem em sua palavra, o Senhor lhes dará “o poder de se tornarem filhos de Deus” (Jo 1,12). Tiro, Sidônia, simbolizam todos os que ainda não acreditam em Jesus e o surdo-mudo aqueles estão de ouvidos tampados à Palavra do Redentor e de lábios fechados para professarem a fé.

De fato, “a fé vem pelo ouvir; e o ouvir pela palavra de Cristo” (Rm 10, 17). Ora, o surdo do Evangelho estava impedido de ouvir as palavras de Jesus porque seus ouvidos estavam corrompidos, poderíamos dizer “bloqueados” para escutar seus ensinamentos. Como poderia ele receber a fé senão por meio de uma operação milagrosa? Agora, vejam a delicadeza de Deus: Jesus o retira do meio da multidão, como se quisesse afastá-lo do “barulho”, para que o primeiro som escutado fosse exclusivamente sua doce palavra salvadora; toca-lhe primeiro os ouvidos e depois a língua com a saliva, para que, mesmo impedido de ouvir, não ficasse privado da Palavra de Jesus, fruto da boca do Senhor, representado pela saliva; ao ordenar que se abrissem, os ouvidos começaram a escutar e a língua se soltou para falar. O processo da fé não é diferente da cura deste Domingo: primeiro é necessário a cura, ou seja, que a escuridão de nossa alma seja eliminada; depois recebemos a fé por meio da escuta da Boa Nova; por fim, professamos com a boca aquilo que nossos ouvidos escutaram e o nosso coração assentiu.

Uma vez curado, os ouvidos estão abertos para ouvir a Palavra do Senhor e obedecer a seus mandamentos, e a língua livre para professar a fé. Nada impede, entretanto, que os ouvidos tornem a fechar novamente. Na Escritura, por exemplo, o povo se torna surdo ao desobedecer aos mandamentos divinos. Por esta razão, o divino Salvador quer sempre nos tocar e curar de toda a surdez à sua voz e nos dar um coração convertido, tocar-nos com sua mão milagrosa e nos dar a fé. E quer que a fé chegue a todos, sem distinção de pessoas, porque veia para todos indistintamente. 

Arthur Cristo da Silva

Seminarista do 1º ano de Teologia.

Paróquia de origem: São João Paulo II – Vila Velha.

Paróquia de estágio Pastoral: São José – Guarapari.

“O chamado divino interpela e envolve o ser humano ‘concreto’”[1]; de modo mais prático, os seres humanos são homens, não anjos. Logo, essa dimensão
Pe. Daniel Calil em sua Ordenação Diaconal em 12/12/2020.

“O chamado divino interpela e envolve o ser humano ‘concreto’”[1]; de modo mais prático, os seres humanos são homens, não anjos. Logo, essa dimensão trata do homem precisamente como ser humano – de carne e osso. Nesse sentido, diz respeito, sobretudo, aos aspectos físicos tais como saúde, alimentação, atividade motora e descanso, mas também aos aspectos psicológicos, tais como personalidade estável, equilíbrio afetivo, domínio de si e sexualidade bem integrada. No âmbito moral, diz respeito à formação de uma boa consciência, que se torne responsável, capaz de tomar decisões justas, dotado de reto juízo e de uma percepção objetiva das pessoas e dos acontecimentos.

A formação Humana é o “fundamento  de toda a formação presbiteral”[2], pois somente a partir dela é possível desenvolver as demais dimensões. Santo Tomás de Aquino nos ensina que “a graça supõe a natureza”, isto é, deve-se primeiro ser Pessoa (natureza humana) para ser transformado pela ação divina (Graça). Em linhas mais gerais, podemos pensar que a formação humano-afetiva auxiliará o formando em sua relação consigo mesmo. Quando reconheço quem sou, posso abrir-me à transformação, portanto, à formação.

Essa formação possui dois pontos principais, o conhecimento da própria história de vida, aliado à educação afetivo-sexual. Em primeira análise, o seminarista deve aprofundar o conhecimento do modo como viveu a infância e a adolescência, as influências familiares, as figuras parentais e o contexto sociocultural. Assim, é possível reconhecer-se a si mesmo na própria história e na própria condição, tornando-se melhor disposto às relações interpessoais e mais capaz de usar a solidão de modo positivo – fator fundamental no caminho vocacional.

Em segunda análise, mostra-se a necessidade da educação afetivo-sexual, na qual o indivíduo assume sua opção pelo celibato, a qual deve ser assumida livremente desde o início do processo. Tal decisão jamais pode ser movida por uma “repressão” ou “anulação” da própria sexualidade, isso seria mentir a si mesmo e dilacerar-se internamente. No entanto, o celibato deve ser a disposição da total doação de si por amor do Reino de Deus.

A equipe formativa do Seminário acompanha diligentemente os seminaristas a fim de averiguar e contribuir na progressiva maturação dos indivíduos. Além disso, podem valer-se da colaboração de pedagogos, psicólogos e outros especialistas de comprovada idoneidade, competência e orientação cristã.

Enfim, convém ressaltar “a maturação do presbítero é exigência de seu próprio ministério e decorrência da Caridade Pastoral”[3]. Todo esse esforço ocorre em vistas a formação de um santo e íntegro padre, capaz de guiar o povo de Deus ao céu.

[1] RFIS, n.89

[2] Diretrizes para a Formação dos Presbíteros da Igreja do Brasil – Documentos da CNBB 110 n.185.

[3] Ibid. n.187

Pe. Geraldo Lyrio Rocha, seminarista e depois reitor do Seminário em dois períodos, foi Ordenado Bispo em 31/05/1984. O Seminário retornou para Santa Helena
Pe. Geraldo Lyrio Rocha, seminarista e depois reitor do Seminário em dois períodos, foi Ordenado Bispo em 31/05/1984.

O Seminário retornou para Santa Helena justamente no ano em que completou o 30º aniversário de fundação (1981). Para lembrar  a data, foi celebrada no dia 04 de abril uma Missa Solene, presidida pelo Arcebispo, seguida de um almoço de confraternização.

Na ocasião, encontravam-se presentes ex-seminaristas de tempos passados, dentre eles alguns padres (Adwalter Carnielli; Arnóbio Passos Cruz; Geraldo Lyrio) e também ex-formadores (Mons. Acácio Valentim de Morais; Mons. Aníbal Vieira; Côn. Rubens Duque).

O tempo foi passando e o Seminário foi crescendo: foram matriculados nos cursos de Filosofia e Teologia alunos provenientes da Diocese de São Mateus e de diversas congregações religiosas (Combonianos, Passionistas, Pavonianos). No ano de 1982, o Instituto chegou a ter 40 alunos.

Todo esse crescimento e desenvolvimento do Seminário também foi devido ao desempenho do Reitor, Pe. Geraldo Lyrio Rocha, que dedicou 16 anos de seu ministério presbiteral ao serviço e cuidado das vocações na Arquidiocese. Pe. Geraldo deixou a reitoria definitivamente em dezembro de 1983, com o propósito de doutorar-se em Filosofia, em Roma.

Tendo o Pe. Geraldo deixado a reitoria, assumiu novamente o Côn. Rubens Duque. Para o ano de 1984, o Conselho Presbiteral e a comissão de Formação estabeleceram a divisão das comunidades: a Filosofia permaneceria em Santa Helena – com o reitor, Côn. Duque – e a Teologia retornaria para a casa do bairro Santo Antônio – com o vice-reitor, Pe. Antônio Lute. Essa situação perdurou até março de 1992, quando as comunidades foram novamente reunidas em Santa Helena.

Tendo apenas chegado em Roma, em 21/03/1984 Pe. Geraldo foi nomeado Bispo Auxiliar de Vitória pelo Papa. O anúncio foi feito pelo Arcebispo Dom João Batista, no Colégio Pio Brasileiro. Estando em Roma, Dom João passou por uma piora em seu estado de saúde, e lá permaneceu internado até ter condições de retornar a Vitória.

Dom João Batista retornou no início de abril, e faleceu em 27/04/1984, sendo sepultado no cemitério da Irmandade da Boa Morte e Assunção. Com seu falecimento, assumiu imediatamente o Arcebispo Coadjutor, Dom Silvestre Luis Scandian, SVD (2º Arcebispo).

No dia 31 de maio de 1984, Pe. Geraldo Lyrio Rocha foi afinal ordenado Bispo, na Catedral Metropolitana de Vitória, por Dom Silvestre Scandian (sagrante principal), Dom Arnaldo Ribeiro e Dom Frei Florentino Zabalza (co-sagrantes). Os seminaristas e formadores participaram da cerimônia, e no dia seguinte (01/06), Dom Geraldo celebrou no Seminário sua primeira Missa como Bispo.

CRUZ, Arnóbio Passos. Seminário Nossa Senhora da Penha: 50 anos de história (1951-2001). Vitória, 2001.

César Delarmelina I “Vós abandonais o mandamento de Deus para seguir a tradição dos homens” (Mc 7, 8). A Liturgia da Palavra deste XXII

César Delarmelina I “Vós abandonais o mandamento de Deus para seguir a tradição dos homens” (Mc 7, 8).

A Liturgia da Palavra deste XXII Domingo do Tempo Comum nos leva a refletir acerca da harmonia que deve haver entre os atos externos e as disposições internas do nosso louvor e seguimento a Deus. Jesus, ao tratar da pureza, indica o real lugar de sua procedência, e o que é necessário para alcançá-la.

A começar pela Primeira Leitura (Dt 4, 1-2. 6-8), o Senhor Deus deixa claro ao povo da Antiga Aliança, pela palavra de Moisés, que o proceder da nação escolhida deve ser diverso dos outros povos, e que seu distintivo é a guarda sincera dos mandamentos. Guardar e praticar os mandamentos de forma regrada (sem nada acrescentar ou tirar) é sinal de inteligência, sabedoria e nobreza (Dt 4, 6); é consequência lógica de um bom-senso que, iluminado pela graça de Deus, pode conduzir o homem e a sociedade por caminhos seguros, e inspirar nos demais semelhantes sentimentos da mais elevada consideração.

Se a Primeira Leitura exorta à guarda perfeita dos preceitos divinos, o Salmo Responsorial (Sl 14), no mesmo seguimento, fornece alguns elementos da “receita” a ser seguida por aqueles que desejam este intento: só poderá adentrar a casa de Deus quem caminha sem pecado, pratica a justiça, que se conserva na verdade e honra o Senhor. O Apóstolo São Tiago, na Segunda Leitura (Tg 1, 17-18. 21b-22.27) endossa os ensinamentos precedentes, ao exortar a comunidade não à mera escuta, mas à prática entranhada da Palavra de Deus: uma prática que deve transcender e significar todas as demais práticas particulares.

De práticas, os fariseus do tempo de Jesus entendiam muito bem. Eram eles os grandes intérpretes da Lei, muito rigorosos em sua observância, pois que acrescentavam a ela tradições particulares, ora deixando-a mais severa, ora mais suave, segundo seus interesses. É a eles que Jesus, no Evangelho (Mc 7, 1-8.14-15.21-23), deseja dar uma lição.

Como se sabe (e a experiência dos últimos tempos tem mostrado), a higiene dos utensílios e do corpo tem grande importância para a manutenção da saúde e da aparência. No entanto, a repreensão dos fariseus aos discípulos de Jesus, logo no início do Evangelho, pouco tem a ver com etiqueta e saúde: o motivo real da censura é o não seguimento de tradições e costumes que, em seu significado ritual, desde há muito mostravam-se vazios por funcionarem como reflexo de uma pureza meramente exterior (legal), representativa e degenerada. Jesus não condena o hábito de purificar-se, mas sim à impureza encrostada no coração dos hipócritas, que é muito mais difícil de limpar (Mc 7, 6). Em verdade, o culto, as doutrinas e mandamentos deveriam ter sua motivação em Deus, para, a partir d’Ele, transformar os corações e enfim transbordar nas manifestações rituais que tanto impressionam e deleitam os sentidos.

“Escutai todos e compreendei…” (Mc 7, 14b): Jesus, chamando a atenção dos ouvintes, prepara-se para dar seu veredicto a respeito do que pode ser considerado puro ou não; e afinal declara serem a malícia e as paixões desordenadas emanadas do coração humano a verdadeira fonte de toda a maldade e impureza. Com este ensinamento, o Mestre convida a repensar a utilidade das práticas, se consideradas como sinal e consequência de elementos mais sublimes: de inteligência e de sabedoria verdadeiras (Primeira Leitura); e de escuta e prática da Palavra de Deus (Segunda Leitura),

Com a Liturgia de hoje, somos provocados por Jesus acerca da fecundidade de nossos costumes de fé e devoção, e de nossa vivência comunitária, espiritual e litúrgica. Queira Deus não seja o nosso caso o mesmo daqueles fariseus: inclinados ao impiedoso automatismo, fruto de hipocrisia e dureza de coração!

Peçamos ao Coração de Jesus, por intercessão de Nossa Senhora, que nos ajude na árdua tarefa de coadunar pureza interior e exterior; de modo a que possamos, de forma sempre renovada e consciente, alimentar em nós o que é bom e guardar com solicitude o que recebemos (Missal Romano – Oração do dia). Que assim seja!

César Augusto Flegler Delarmelina

Seminarista do 2º ano de Teologia.

Paróquia de Origem: São Sebastião – Afonso Cláudio.

Paróquia de Estágio Pastoral: Cristo Rei – Campo Verde – Cariacica.

BÍBLIA. Português. Bíblia sagrada. Tradução oficial da CNBB. 2. Ed.  Brasília, Edições CNBB, 2019.

TUYA, Manuel de. Biblia Comentada, Texto de la Nácar-Colunga II: Evangelios. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, 1964.

Mons. João Batista da Motta e Albuquerque esteve presente na inauguração do Seminário (1951), como representante do Cardeal-Arcebispo do Rio de Janeiro. Depois, como
Mons. João Batista da Motta e Albuquerque esteve presente na inauguração do Seminário (1951), como representante do Cardeal-Arcebispo do Rio de Janeiro. Depois, como 1º Arcebispo de Vitória, celebrou o 25º e o 30º aniversário de fundação (1976; 1981).

Tendo retornado de Roma após um ano de estudos, Pe. Geraldo Lyrio Rocha foi novamente nomeado Reitor do Seminário (1978). Inicialmente, propôs aos seminaristas que elaborassem um projeto de vida, o qual, após a avaliação da comissão de formação, foi submetido à aprovação do Arcebispo, Dom João Batista da M. e Albuquerque.

Em maio do mesmo ano, o Pe. Reitor apresentou à Comissão do Seminário o Currículo Pleno do Curso de Filosofia, que foi unanimemente aprovado. Na mesma ocasião, foi aprovada a decisão de abrir a possibilidade de participação de leigos no curso, desde que comprometidos com as exigências e particularidades do programa de estudos.

No dia 1º de outubro (01/10/1978) foi ordenado Presbítero aquele que em meio à escassez de vocações garantiu a continuidade do Seminário: o Diácono Jair Côco. A cerimônia de Ordenação aconteceu no Ginásio de Esportes de Linhares, e foi presidida pelo Bispo Auxiliar, Dom Luis Gonzaga Fernandes (O Arcebispo, na ocasião, estava impossibilitado por motivos de saúde).

Chegando ao ano de 1980, o Seminário deu mais um passo: foi aprovada pela Comissão e pelo Conselho Presbiteral a abertura do curso de Teologia. Com o notório crescimento da Pastoral Vocacional e de centros vocacionais existentes em algumas paróquias, o número de candidatos ao Seminário voltou a crescer: para o ano de 1981 estavam previstos cerca de 31.

Com o aumento do número de seminaristas, foi necessário pensar em uma estrutura adequada para receber a todos. Inicialmente, cogitou-se construir uma outra casa no bairro Santo Antônio, mas, abandonando-se posteriormente o projeto, a solução encontrada foi a de trazer a comunidade de volta para a colina Santa Helena, deixando-se a casa que já havia em Santo Antônio para os alunos do 2º grau.

Após os reparos necessários, em 26/02/1981 o Seminário retornou para a colina Santa Helena, de onde havia saído há 16 anos.

CRUZ, Arnóbio Passos. Seminário Nossa Senhora da Penha: 50 anos de história (1951-2001). Vitória, 2001.

Num mundo marcado por relações plásticas, artificiais e pouco duradouras, torna-se urgente o testemunho das famílias cristãs para que, sendo sinais do Amor de

Num mundo marcado por relações plásticas, artificiais e pouco duradouras, torna-se urgente o testemunho das famílias cristãs para que, sendo sinais do Amor de Deus no mundo, sejam como árvores ou jardins fecundos, cujas sementes se espalham por toda a terra.

Aqueles que contraem matrimônio são continuadores da obra de Deus e da vida humana, transmitindo às gerações o amor divino, que é fonte do amor conjugal e familiar (cf. Humanae Vitae, nn 1-8). Assim, quando se considera a família deve-se contemplar nela uma missão especial, de gerar os filhos de Deus, a família do Senhor, educando-os na fé e, consequentemente, impregnando no mundo o doce odor de Cristo, que dá vida (cf. 2Cor 2, 15s).

Nos dizeres do Papa Francisco, cabe a todos e, particularmente, à família um papel “[…] especial na preparação da vinda do Reino de Deus ao nosso mundo” [1]. Daí que a Igreja insistentemente afirma a necessidade de proteção e defesa da família, a fim de que possam colaborar na edificação de uma sociedade verdadeiramente humana (cf. Casti Conubii, n. 110).

Quando a família, portanto, é sinal de Deus no mundo ela é capaz de fecundar a sociedade e a própria Igreja: seja formando bons cristãos e, consequentemente, bons cidadãos; seja conduzindo -com maturidade- seus filhos aos caminhos da vida consagrada e sacerdotal. Quando tal coisa acontece parece se cumprir aquela célebre declaração de Josué diante do povo: “Quanto a mim e à minha casa, serviremos ao Senhor” (Js 24, 15).

É no seio familiar que o vocacionado aprenderá as primeiras orações, será instruído na fé, aprenderá de seus pais o valor do sacrifício e da doação, bem como o exemplo de dar o “sim” diário à vocação a qual foi chamado. É no seio de uma família que se alimenta da Eucaristia que surgirão os discípulos missionários, os operários da messe.

Noutras palavras, “a família que está aberta aos valores do transcendente, que serve os irmãos na alegria, que realiza com generosa fidelidade os seus deveres e tem consciência da sua participação quotidiana no mistério da Cruz gloriosa de Cristo, torna-se o primeiro e o melhor seminário da vocação à vida consagrada ao Reino de Deus” (Familiaris consortio, n. 53).

Neste ano de São José vemos que exemplo luminoso é a Família de Nazaré que, buscando obedecer a tudo em Deus, seja cumprindo os preceitos da religião, seja educando o Menino Jesus para que crescesse em estatura e graça diante de Deus e dos homens. Foi dali, na simplicidade de uma pequena e pobre família, é que saiu aquele que é fonte de vida e salvação à toda a humanidade.

Que a generosidade da Família de Nazaré encoraje nossas famílias a serem vocacionadas, isto é, sementeiras de vocações aos mais variados carismas e ministérios da Igreja, a fim de que o mundo conheça a beleza e a alegria de servir a Deus e aos irmãos.

__________________

Referências

BIBLIA SAGRADA tradução da CNBB. Edições CNBB, 2ª edição, 2019.

FRANCISCO. Discurso do Santo Padre no Encontro das Famílias. Mall of Asia Arena, Manila. 16 de janeiro de 2015.

JOÃO PAULO II. Exortação apostólica “Familiaris Consortio” sobre a função da família cristã no mundo de hoje. 1981.

PAULO VI. Carta Encíclica “Humanae Vitae” sobre a regulação da natalidade. 1968.

PIO XI. Carta Encíclica “Casti conubii do Sumo Pontífice Pio XI acerca do Matrimônio Cristão em face das atuais condições, exigências, erros e vícios da família e da sociedade. 1930.

[1] Discurso do Santo Padre no Encontro das Famílias. Mall of Asia Arena, Manila. 16 de janeiro de 2015.